DISCURSO DE DISSOLUÇÃO DA ORDEM DA ESTRELA – KRISHNAMURTI

‎”Sustento que a Verdade é uma terra sem caminhos, e vocês não podem aproximar-se dela por nenhum caminho, por nenhuma religião, por nenhuma seita. Este é meu ponto de vista e eu o sigo absoluta e incondicionalmente… Se compreenderem isso em primeiro lugar, verão que é impossível organizar uma crença. A crença é uma questão puramente individual, e não podemos nem devemos organizá-la. Se assim o fizermos, ela morrerá, ficará cristalizada; tornar-se-á um credo, uma seita, uma religião para ser imposta aos outros. É isso o que todos no mundo inteiro estão tentando fazer!
A Verdade é confinada e transformada em um brinquedo para os fracos, para os que estão momentaneamente insatisfeitos. A Verdade não pode ser trazida para baixo; é o indivíduo que deve fazer o esforço de ascender até ela. Não podemos trazer o topo da montanha para o vale…
Apesar disso, vocês provavelmente formarão outras Ordens, continuarão a pertencer a outras organizações à procura da Verdade. Caso se crie uma organização com este propósito, ela irá tornar-se uma muleta, uma fraqueza, uma servidão e incapacitará o indivíduo, impedindo-o de crescer, de estabelecer sua unicidade, que jaz na descoberta por si mesmo daquela absoluta, incondicionada Verdade. Não se trata de nenhum feito magnífico, porque não quero seguidores, e é esse o meu propósito. A partir do momento em que seguirmos alguém, cessaremos de seguir a Verdade. Não me preocupo se estão prestando atenção no que estou dizendo ou não.
Quero fazer certa coisa no mundo e vou fazê-la com resoluta concentração. Estou preocupado com uma coisa essencial: libertar o homem. Desejo libertá-lo de todas as prisões, de todos os temores, e não fundar novas religiões, novas seitas nem estabelecer novas teorias e novas filosofias. Diante disso, naturalmente me perguntarão por que percorro o mundo todo, falando continuamente. Vou dizer-lhes por que faço; não porque desejo seguidores, nem porque desejo um grupo especial de discípulos especiais. Não tenho discípulos, nem apóstolos, seja na Terra, seja no reino da espiritualidade. Tampouco é o fascínio do dinheiro, nem o desejo de viver uma vida confortável que me atrai. Se eu quisesse viver confortavelmente, não viria para um acampamento ou viveria num país húmido! Estou falando francamente porque quero deixar isso bem claro de uma vez por todas.
Um jornalista que me entrevistou considerou um acto magnífico a dissolução de uma organização com milhares de seguidores. Ele disse que ‘Se não terá mais seguidores, não mais o ouvirão’…
Se houver apenas cinco pessoas dispostas a ouvir, a viver, com os rostos voltados para a Eternidade, será suficiente. Que adianta ter milhares que não compreendem, que estão completamente embalsamados em preconceitos, que não querem o novo, que só fazem traduzir o novo para adequar-se a seus próprios eus estéreis e estagnados!
Há dezoito anos vocês vêm preparando-se para este acontecimento, para o advento do Instrutor do Mundo. Por dezoito anos vocês organizaram, procuraram alguém capaz de dar um novo deleite a seus corações e mentes, de transformar suas vidas, de dar-lhes uma nova compreensão; alguém que os elevaria a um novo plano de vida, que lhes daria um novo encorajamento, que os libertaria – e agora, vejam o que está acontecendo! Considerem, pensem consigo mesmos e descubram de que maneira essa crença tornou-os diferentes – não superficialmente diferentes pelo fato de portarem uma insígnia, que é trivial, absurda. De que maneira essa crença afastou para longe todas as coisas não-essenciais da vida? Essa é a única maneira de julgar: de que maneira vocês estão mais livres, maiores, mais desafiadores para a sociedade que se baseia no falso e no não-essencial? De que maneira os membros desta organização tornaram-se melhores?
Vocês dependem para sua espiritualidade de outra pessoa, para sua felicidade, de outra pessoa, para sua iluminação, de outra pessoa… quando digo olhem para dentro de si mesmos para buscar a iluminação, a glória, a purificação e a incorruptibilidade do eu, nenhum de vocês se dispõe a fazê-lo. Devem existir alguns, mas são muito, muito poucos. Vocês se acostumaram a que lhes digam até que ponto avançaram, qual é seu status espiritual. Que infantilidade! Quem mais a não ser vocês próprios poderão dizer se são ou não incorruptíveis?
Mas aqueles que realmente desejam compreender, que estão buscando o eterno, sem princípio nem fim, caminharão juntos com maior intensidade, serão uma ameaça para tudo que não é essencial, para as irrealidades, as sombras… Minha única preocupação é tornar os homens livres, incondicionalmente livres”.
(J. Krishnamurti, discurso de dissolução da Ordem da Estrela)

MAGIA, PODER E PERIGO NO CAMINHO DO MEDITADOR (MAGIC, POWER AND DANGER ON THE MEDITATOR’S WAY)

Você sabe como funciona a magia? Sabia que usamos esse poder naturalmente em nosso dia-a-a ? Qual a relação entre poder e meditação? Faça conosco uma viagem rumo ao universo da magia e do poder, refletindo sobre estas e outras questões.

O MAGO
A magia negra esteve, durante muito tempo, relacionada à idéia de rituais macabros, feitiços, porções, maldições, sacrifícios de animais etc. Mas, o que pouca gente sabe é que a magia trabalha com o domínio de forças da natureza, invisíveis , imperceptíveis e ignoradas pela grande massa. O mago aprende a identificar e dominar conscientemente essas energias, direcionando-as conforme sua vontade e desejo. A diferença entre um mago e uma pessoa comum é que enquanto o primeiro manipula essas forças de modo consciente, o segundo não tem consciência de como estas forças atuam em suas vidas. Assim, além de não saberem direcionar essas forças para benefício próprio, tornam-se vítimas delas sendo, inclusive, usadas por elas. Essas forças atuam constantemente em nosso dia-a-dia e , muitas vezes não percebemos o estrago que elas nos causam. São muitas vezes responsáveis por discórdias, brigas, desentendimentos, separações e até tragédias, refletindo também sobre nosso campo mental, espiritual e físico.

AS FORÇAS
Deixando um pouco de lado o clima de mistério, muitas dessas forças são bem conhecidas de todos nós pois são comuns em nossa vida. Pensamentos, desejos, intenções, emoções e vontades- são poderosas forças do Universo. Elas influenciam nossa vida, as pessoas e o meio em que vivemos. Pensamentos e sentimentos de ódio, fúria ou inveja são verdadeiras bombas energéticas que, quando detonadas, causam danos a si mesmo e aos outros-incluindo o ambiente. Quem nunca se sentiu mal ao chegar em um local com atmosfera “pesada”? Ou não suportou a “energia” de uma pessoa? Estamos continuamente usando ou manipulando essas energias em nossa vida diária.Por isso que a vigilância é tão importante. Aqueles que se vigiam protegem tanto a si mesmo, quanto aos outros. Além disso, vigiar-se é uma forma eficaz de se autoproteger contra os ataques energéticos dos outros. É assim que em nossa vida diária atuamos como verdadeiros magos, manipulando forças ou sendo manipulados por elas, mesmo que não saibamos ou não estejamos conscientes disto.

OS PODERES E A CONSCIÊNCIA PARCIAL
Todavia, há poderes que só tem eficácia quando usados de forma consciente e proposital. São os poderes da mente, da vontade direcionada, do desejo intenso , da visualização, da palavra intencional, do pensamento controlado e da “mentalização”. Neste tipo de poder, a pessoa está em um nível mais elevado de consciência mas ela ainda é limitada e parcial. Daí o grande perigo. O problema é que, mesmo usando esses poderes de forma consciente o indivíduo ainda não está livre da ILUSÃO do EGO. Isso me lembra aquelas cenas em que os super-vilões vibram quando tem em mãos armas superpotentes prontos para dominar o mundo. Assim também é o EGO quando descobre o grande poder que ele tem em mãos. Poder que pode controlar quase tudo. Ainda bem que é “quase”, já imaginou o estrago que um EGO superpoderoso causar às pessoas, ao ambiente, ao mundo? A história está cheia de exemplos desses.

OS PERIGOS DO USO DOS PODERES
Devemos ter cautela ao usar estes poderes para realização de sonhos, objetivos e planos. Muitas pessoas, por imaturidade, ingenuidade ou maldade mesmo, usam desses poderes para influenciar fatos, manipular, e prejudicar as pessoas. Obviamente, nem sempre são bem sucedidas . Mas, uma coisa é certa, a força que movemos para o bem ou para o mal retornam para nós com muito mais força. Mas mesmo aqueles que movem essas forças apenas para alcançar objetivos e realizar sonhos, que não estão causando mal a ninguém, correm um sério risco . Quando você se dedica a algo com bastante intensidade e energia, a chance de alcançá-lo é grande. O problema é quando nos tornamos excessivamente ambiciosos, materialistas, ou tiranos. O indivíduo torna-se totalmente cego, o que leva ao enfraquecimento das dimensões emocional, social, espiritual de sua vida. Quando se dá conta da gravidade da situação, muitas vezes já é tarde demais. É quando vem a doença, as tragédias ou até mesmo a morte. O filme “ O Advogado do Diabo” com Keanu Reeves e Al Pacino ilustra com maestria esse processo . Por isso que a meditação é tão necessária. Sem ela o homem caminha num limbo, perdido em meio à escuridão, sujeito às surpresas, ataques e perigos de seu próprio EGO.

OS SIDHIS OU PODERES IÓGUICOS
Outro tipo de poder são os do iogues, místicos e santos. A tradição cristã tem vários casos e exemplos deste tipo em sua história, Francisco de Assis, Santo Expedito, Santo Antonio e muitos outros. A tradição hindu, ao longo dos séculos e milênios, produziu grandes iogues em sua história. Por isso, a tradição iogue reconhece os poderes como eventos naturais no processo de evolução e desenvolvimento do ser. Os sidhis – como são conhecidos – são tratados por Patanjali, no Yoga Sutras, como resultado natural da meditação profunda ou Samadhi. No livro Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda, há vários relatos desse poderes fantásticos, tais como: telepatia, bilocação, materializações, curas, premonições, ressuscitamento, dentre outros. Mas o que pouca gente sabe é que mesmo um iogue pode se tornar um mago negro. Basta, para isso, que ele use seus poderes – geralmente alcançado após anos de prática de alguma técnica- passe a usá-los para fins unicamente pessoais e egoístas.

O IOGUE LADRÃO
Sri Yuktéswar, o mestre de Yogananda, contou que conheceu “um muçulmano autor de prodígios”. Este muçulmano, chamado Afizal Khan, aprendera uma técnica com um mestre iogue que lhe dava domínio sobre um dos reinos invisíveis. Após anos e anos de prática, ele finalmente alcançou o domínio completo do poder de materialização e teletransporte de objetos. Mas, lamentavelmente, passou a usá-lo para roubar as pessoas. Sri. Yukteswar contou que o viu fazer várias materializações. Não eram jóias pequenas, nem cinzas, nem objetos produzidos num palco de fundo preto. Ele viu um banquete inteiro ser produzido na sua frente saído do “nada”. Mas então porque ele roubava? A explicação dada foi a seguinte: os objetos astralmente produzidos tem pouca durabilidade, ou seja, desmaterializam-se rapidamente. Ao contrário dos objetos do mundo material cuja durabilidade e consistência é bem maior. Por isso, ele ambicionava as coisas produzidas pelo processo natural, por serem mais duráveis e, portanto , mais valiosas. Não contarei detalhes, nem o final desta história fascinante descrita no Autobiografia. Citei esse caso aqui, apenas para mostrar que mesmo um iogue, ou meditador corre também o risco de se perder ao longo do caminho- talvez até mais do que os outros .

O CASO FAMOSO DE UM SUPOSTO “ IOGUE” DO MAL
É importante registrar que a literatura espiritualista já registra vários casos de iogues que passaram para o “outro lado”. Tudo indica que não resistiram à tentação dos poderes e passaram a usá-los de forma incorreta e egoísta. Se há egoísmo é porque ainda há EGO. O que demonstra que existe sim possibilidade dos poderes se desenvolverem mesmo que a pessoa não esteja ainda totalmente livre das ilusões. Quando isso acontece, o estrago é grande. Joyce Collin Smith, prestigiada escritora e pesquisadora britânica, no livro, “NÃO CHAME NINGUÉM DE MESTRE”*, cita o caso de um conhecido “iogue e guru” espiritual que fez muito sucesso nos anos 60. Por ter sido sua secretária particular durante muito tempo, ela testemunhou vários absurdos cometidos por este senhor e como ele usava seus poderes de telepatia e hipnotismo para alcançar seus objetivos. Segundo seu relato em primeira mão, este homem foi tornando-se cada vez mais estranho e arrogante, até trasnformar-se num completo e perigoso “bruxo do mal”. Estes casos alertam-nos para os perigos ao longo do caminho do meditador . Todavia, não são apenas os meditadores e iogues que podem tornar-se magos negro. Qualquer pessoa que não se vigie, pode, mesmo inconscientemente, atuar como um mago das trevas.

VIGILÂNCIA SEMPRE!
Por isso que a vigilãncia é tão importante. Àqueles que buscam apenas realizar seus objetivos através das famosas técnicas de desenvolvimento dos poderes da mente, tais como, mentalização, visualização, força de vontade etc. Cuidem-se ! Pois enquato o EGO ainda estiver atuando, se ainda houver qualquer vestígio de desejo e ambição, o risco de problemas no presente e no futuro é grande. Para aqueles que meditam e buscam a libertação ou despertar, o cuidado deve ser redobrado, pois quando os poderes despertam, a tentação de usá-los para fins pessoais é maior ainda. É bom lembrar que ao longo da nossa vida, movemos e manipulamos forças desconhecidas e por isso devemos ter cautela, para não nos tornarmos presas fáceis de forças e energias negativas. Para que isso não aconteça, e não venhamos a sofrer as consequências do uso errado dessas forças, temos que vigiar nossos pensamentos, emoções e ações. Como se processa essa vigilância? Para que não haja mal entendidos vamos explicar melhor. Para as pessoas que não são meditadoras ou buscadoras, mas apenas querem ter uma vida “normal”, é importante vigiarem seus pensamentos , sentimentos, ações, palavras e emoções negativos, para que não atraiam coisas ruins para suas vidas. Lembrem-se o quanto essas coisas são poderosas e perigosas.Para aqueles que usam esses poderes conscientemente para realização de objetivos, devem cuidar ou vigiar, para não serem tragados pela ambição, autoritarismo, egoísmo, orgulho ou materialismo exacerbado. Faça autorreflexões periódicas, reze, ore ou medite, procure sempre manter o equilíbrio entre as diversas dimensões da vida.

A VIGILÂNCIA NÃO-DUAL DO MEDITADOR
Por último, se você é um buscador ou meditador, fica uma importante advertência: tenham mais cuidado pois “ a quem mais foi dado, mais será pedido”. Todavia, esta vigilância do buscador não se dá de forma dualística, como normalmente acontece com as outras pessoas. A vigilância do meditador ocorre na Unidade, quando não há observador e objeto observado. Nesse estado de pura e simples observação, sem interferência ou qualquer tipo de ação direta por parte do meditador é que a verdadeira vigilância acontece. Não há alguém vigiando, nem nada para ser vigiado. Há apenas o estado de VIGILÂNCIA ou ALERTA. Nesse estado de Unidade, Tranquilidade e Paz, o meditador não precisa temer o despertar dos poderes – contanto que permaneça um simples expectador dos mesmos. Aconteça o que acontecer deve continuar fixo na Unidade da Meditação ou Consciência Passiva, sem que o Ego interfira ou se utilize dos mesmos para seus propósitos egoístas. Esta é, normalmente, a orientação de todos os sábios, iogues e iluminados, é o “movimento em repouso”- citado por Jesus no quinto evangelho.

“CHORO E RANGER DE DENTES”
Este é o caminho mais seguro para evitar que o meditador transforme-se num perigoso Mago Negro. É bom lembrar que todo aquele que usar seus poderes, ocultos ou não, terá que prestar contas ao Universo. Caso tenha feito bom uso dos mesmos, terá sua recompensa , caso contrário, pagará caro pela inconsequência e irresponsabilidade de seus atos. E aí “haverá choro e ranger de dentes”- como disse o grande mestre nazareno.

AUTOR: ALSIBAR (inspirado)
http://alsibar.blogspot.com
MSN: alsibar1@hotmail.com
*O livro Não Chame Ninguém de Mestre de Joyce Collin Smith pode ser baixado gratuitamente no link abaixo:
http://www.4shared.com/document/umXCtaOe/Joyce_Collin-Smith_-_No_Chame_.htm

VIA ALSIBAR

Impregnado de Amor (Dallas Willard)

Jesus anunciou nas bem-aventuranças que mesmo as pessoas mais desprovidas de insignificantes da terra poderiam ser abençoadas por viver no reino: os pobres, os tristes, os em reputação ou crédito (os mansos), e assim por diante (Mt 5.3-10; Lc 6.20-23). A bem-aventurança não estava em sua condição de pobres, tristes ou desrespeitados. Eles eram abençoados porque podiam entrar no reino, e estar no reino significa ser abençoado não importa o que mais aconteça. Eles podem descansar nisso. Seu futuro em Deus está assegurado, e sua condição presente, redimida. Para sempre. De qualquer forma.
Assim, na visão de mundo de Jesus, ser próspero, ter a “boa vida”, não inviabiliza o ser uma pessoa verdadeiramente boa. O conflito que os moralistas têm enfrentado em vão por séculos reconciliar é reconciliado por aqueles que vivem no reino de Deus. Não tenho de entregar minha integridade para me assegurar ao que é bom para mim. Uma pessoa realmente boa, como Jesus ensina, é alguém impregnado de amor: amor pelo Deus que “nos amou primeiro” e que, em seu Filho nos ensinou o que é o amor (1 Jo 4. 9-11). E então, como resultado da abundância de tal vida no reino, levará amor a todos com quem temos contato significativo, nossos “próximos”. A riqueza da vida Shemá (Dt. 6. 4-5) naturalmente flui para dentro da cena humana.
O amor significa disposição para o bem, determinação em beneficiar o que ou quem é amado. Podemos dizer que amamos bolo de chocolate, mas não amamos. Antes, queremos comê-lo. Isso é desejo, e não amor. Em nossa cultura, temos um grande problema em distinguir entre amor e desejo, mas é essencial que façamos essa distinção. O grego do Novo Testamento tem várias palavras para “amor”. Duas são eros (de onde obtemos a palavra “erótico”) e ágape. Amor ágape, talvez a maior contribuição de Cristo à civilização humana, deseja o bem a quem quer esteja voltado. Ele não deseja consumi-lo. O ensino sobre amor que ainda permeia a civilização ocidental em seus melhores momentos entende isso. O chamado mais eleveado a seres morais é o de amar. Muito antes da vinda de Cristo isso era compreendido de maneira obscura. Sócrates observou, de acordo com Platão, que “o bem faz bem a seus vizinhos e o mal lhe faz mal”. Mas os gregos, como todo o seu fulgor, nunca conseguiram resolver o próximo problema da fila, que era como alguém se torna uma pessoa verdadeiramente boa no sentido já abordado. Como Jesus responde a essa quarta pergunta sobre visão de mundo?
Como você se torna uma pessoa verdadeiramente boa? Você coloca a sua confiança em Jesus Cristo e se torna seu aluno ou aprendiz na vida no reino. Isso equivale a, progressivamente, entrar na abundância de vida que ele nos traz. Você aprende dele como viver no reino de Deus como ele mesmo viveu. Há muito a ser aprendido depois que você entra. Passar pela porta não é necessariamente viver na casa. Nossa confiança de que Jesus é “O Único” nos leva a ir constantemente à escola com ele, levando nossa vida inteira conosco, e é em fazer isso que o amor vem impregnar nossa vida a ponto de sermos de maneira inequívoca seus alunos. Ele disse: “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (Jo 13.35). Ele pode impor esse desafio a si mesmo como mestre porque não conhece nenhum outro que possa produzir a transformação humana que ele tem em mente.
Como discípulo de Jesus, estou aprendendo com ele como levar minha vida como ele levaria minha vida se fosse eu. Você está aprendendo como Jesus como levar sua vida como ele levaria a sua vida se fosse você. Sim, a vida que você tem. As mulheres não precisam se preocupar com serem excluídas dessa declaração. Por razões específicas, embutidas em sua missão, sem dúvida, ele precisava ser do sexo masculino. Mas fora algumas circunstâncias localizadas, não há nenhuma pessoa nesta terra que Jesus não poderia ter sido. Ele veio de forma humilde e assim viveu (Fp 2.5-11). ELe abdicou do poder supremo. Aprendeu a viver no reino de Deus como ser humano comum. Deus também estava na vida humana comum. A “encarnação” não diz respeito apenas aos eventos de sua concepção e nascimento. Ela representou o vestir-se de “carne” em todo o seu significado humano. Ele poderia viver em suas circunstâncias agora. Poderia ser você e ainda viver no reino de Deus. Você pode ser seu aprendiz, não importa quem você é e onde você esteja. É como seus amigos pessoais, vivendo interativamente com ele, que conhecemos a verdade e temos a liberdade — o poder sobre o mal — que vem com esse conhecimento (Jo 8.31-32)
(Dallas Willard, Conhecendo a Cristo Hoje, pp. 64-67)

VIA DLIVER BLOG

“EU VIM PARA QUE TENHAM VIDA”

OMRAAM MIKHAËL AÏVANHOV

No “Sermão da Montanha” Jesus dirige-se aos discípulos, assim como à multidão de homens e mulheres que o haviam seguido, e lhes ensina a orar. Diz a eles: “Portanto, orai vós deste modo: Pai nosso que estás no Céu…”
Então, reflitamos. O que nos permite chamar um homem de “pai”? O fato de reconhecermos quem nos transmitiu a vida. Os filhos reconhecem no pai aquele de quem receberam a vida, e o pai vê nos filhos o prolongamento de sua própria existência/vida… Portanto, se quisermos saber o que Jesus tinha em mente ao apresentar a relação de seres humanos com Deus como uma relação de filhos para pai, devemos nos debruçar sobre esse imenso e misterioso campo que é a vida. Por toda parte existe vida, toda a natureza vive, todos os seres são vivos, e, no entanto, como são poucos os homens e mulheres que sabem o que é a vida!
Quando estão passando por dificuldades, infelicidades, eles exclamam: “Fazer o que… é a vida!” Entendem a vida como algo exterior, que devem suportar passivamente. Insucessos, acidentes, doenças, sofrimentos, “é a vida!”. Se amaram, casaram-se, e, agora, divorciam-se, então, mais uma vez, “é a vida!”. Não, a vida não é isso. Eles chamam de vida uma sucessão de erros, fraquezas, fracassos, sem se darem conta de que foram eles que produziram essa existência lamentável. O Criador havia prescrito uma outra vida para eles!
Jesus dizia: “O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” De que vida estamos falando? Nós já estamos vivos!… Foram essas palavras de Jesus que me levaram a tantas explorações no âmbito da vida. Leia atentamente os Evangelhos e você verá que Jesus só fala da vida. Por isso é necessário sempre retornar a essa questão da vida, para estudá-la sob todas as suas formas.
Os seres humanos buscam o poder, a riqueza, o conhecimento, o amor… Mas não, é a vida que devem buscar. Vocês dirão: “Mas por que buscar a vida? Já a temos, estamos vivos. O que precisamos fazer é buscar aquilo que não temos.” Vocês estão vivos, é verdade, mas a vida não é a mesma em todos os seres, a vida tem graus. Do mineral até Deus, passando pelos vegetais, os animais, os homens, os anjos, tudo está vivo. Não basta viver, é preciso perguntar a si mesmo que tipo de vida se está vivendo. Por sua conformação física, o homem, naturalmente, leva uma vida de homem. Mas no seu interior a vida pode assumir formas e cores infinitas. A vida a que Jesus se refere e deseja levar a todos os seres humanos é a vida divina, semelhante a uma corrente que brota pura e límpida da Fonte original.
A vida costuma ser comparada ao fluir da água. E quanta diferença entre a água da nascente, no alto da montanha, e aquela que chega à desembocadura do rio, depois de receber todo tipo de sujeira e produtos tóxicos! Essa água de que os homens tanto precisam para viver – mais necessária até que o alimento (podemos ficar mais tempo sem comer do que sem beber) – é uma fonte de regeneração, mas também pode ser causa de morte. Quando um rio chega à planície e atravessa uma grande cidade, ninguém teria a idéia de beber nele para matar a sede. Sim, vejam o Sena em Paris… Não quero nem descrever tudo o que foi atirado nele ao longo de seu percurso. É sempre o mesmo curso d’água, mas não é mais a água pura que brotou lá no alto da montanha!
Pura ou poluída, a água continua sendo água, como a vida continua sendo vida; mas nada é mais vivificante do que a água pura, ao passo que a água poluída traz a morte. Ainda hoje, quantas pessoas não ficam doentes e morrem por ter bebido água poluída!
A Vida brota no seio de Deus e desce para dar de beber a todas as criaturas. Mas os seres humanos não têm consciência do caráter sagrado presente nela, eles sujam a vida de Deus, a água de Deus. Espantados, vocês se perguntam: “Mas como é que poderíamos sujar a vida divina?”. Toda vez que lhes falta sabedoria, amor, desinteresse, é como se estivessem jogando lixo no rio do Senhor. E o rio não protesta, ele aceita tudo, para ajudar os seres humanos.
Guardemos a imagem do rio, pois ela nos esclarece sobre essa unidade infinita que é a vida. Entre a fonte e a foz de um rio, quantas regiões diferentes não foram atravessadas, e que enorme diferença, portanto, na qualidade da água! No entanto, é o mesmo rio. Quando falamos da vida é preciso ter consciência de que nela está abarcada a totalidade das existências. Nada nem ninguém pode prescindir da vida. É dessa vida que se alimentam todas as criaturas, e isso quer dizer que se alimentam da vida umas das outras. Então, não se surpreenda se eu disser que, num nível ou outro, cada um come e é comido.
É muito fácil de entender: quando vocês são tomados por pensamentos e sentimentos egoístas, injustos e maus, é como se tivessem se alimentado nas regiões inferiores da vida. Aceitando esses pensamentos e esses sentimentos, vocês os fortalecem; mas não apenas os fortalecem, pois, como os pensamentos e sentimentos também emitem ondas que se propagam, vocês projetam emanações insalubres que servem de alimento a outras pessoas e mesmo às entidades infernais. Ao passo que quando se esforçam por cultivar pensamentos e sentimentos de harmonia e generosidade vocês não só se ligam às entidades superiores como esse alimento divino vai nutrir outras criaturas luminosas, e é assim que vocês viverão com elas, pois as terão alimentado.
A vida é feita de transformações, de incessantes transferências de uma criatura para outra. Cada um absorve a vida dos outros e, em troca, também os alimenta com sua própria vida. Portanto, sejam vigilantes, sabendo que só depende de vocês o alimento que vão receber e aquele que vão dar, de quem vai recebê-lo e a quem vão dá-lo. Tanto as criaturas angélicas quanto as diabólicas podem alimentar-nos ou se alimentar de nós.
Vocês dirão que os demônios estão no inferno e que é impossível nos alimentarmos deles ou que eles se alimentem de nós… Mas como é que vocês imaginam o inferno? Onde ele fica? Ele também faz parte do rio da vida; apenas não está na fonte, mas na desembocadura, e também é alimentado pela vida divina. Deus é a fonte da vida, foi Ele que tudo criou, e nada nem ninguém existe fora Dele. Todo ser vivo vive a vida de Deus. Assim sendo, devemos aceitar que esses seres que chamamos de demônios também tenham recebido a vida de Dele. Pois eles vivem, não podemos negá-lo, e se Deus não lhes retira a vida, é porque aceita sua existência.
A luz, o amor, a paciência de Deus alimentam todas as criaturas. Naturalmente, as que não permanecem junto a Ele provam-se dessas bênçãos. Mas são elas que se privam, não é o Senhor que as retirou delas. Alguns ficarão escandalizados com a maneira como apresento o inferno e os demônios. Pois bem, não adianta ficar escandalizado, é preciso raciocinar. Se as entidades tenebrosas não obtiveram sua vida de Deus, de quem a receberam? Acaso teriam criado elas mesmas ou a receberam de algum outro criador? Se Deus não é o único dono da vida, isso significaria que tampouco é o dono único do universo, e, portanto, não é todo-poderoso. Vejam só quantas contradições… Portanto, entendam que, se os espíritos infernais receberam a vida de Deus, também se alimentam da vida de Deus. Mas qual é o alimento que recebem? Certamente não é o mesmo alimento dos anjos, mas as cascas, os detritos deixados por outras criaturas à medida que a água do rio se afasta da Fonte; pois nessas cascas ainda sobram algumas partículas de vida lá do alto.
É preciso que isso fique bem claro. Deixando a fonte divina, o rio da vida desce, e ao descer atravessa as regiões chamadas pelos cristãos de hierarquias angélicas, e pelos cabalistas de sephirot. Mas a vida que sai de Deus não se detém aí, compreendendo também, mais embaixo, as regiões designadas pelos cristãos como “inferno” e pelos cabalistas como “kliphoth”, cujo significado é crosta, casca. Essas regiões ainda contêm alguns átomos da vida oriunda de Deus, é preciso repeti-lo sempre, pois não pode existir nenhuma vida fora de Deus. Se houvesse uma vida fora de Deus, é porque haveria um outro criador, e nesse caso teríamos o direito de sair em busca dele: o primeiro não sendo todo-poderoso, teríamos motivo para procurar um outro.
E como essa questão da unidade da criação não foi claramente explicada pela Igreja, diversos homens e mulheres quiseram pôr-se a serviço de Satã para combater o Senhor. Quanta ignorância! Que vitória imaginavam obter? Eles não sabiam que iriam absorver todas as imundícies, todos os restos caídos da vida divina. Mas que benefício, hein!
No plano físico, um malfeitor, um monstro, pode comer o alimento mais suculento e servi-lo a seus convidados. Mas no plano psíquico/sutil só podemos comer ou dar de comer um alimento que se assemelhe a nós, que corresponda ao que somos em nosso coração, nosso intelecto, nossa alma e nosso espírito. Atraímos aquilo que tem afinidade conosco e damos aquilo que emana de nós. E de acordo com a qualidade desse alimento, nos fortalecemos, nos enriquecemos… ou então nos debilitamos.
“O ladrão vem senão para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida…”. Por que será que Jesus opõe as intenções do ladrão às suas próprias? O ladrão vem para tomar e Jesus vem para dar. E se ele vem para dar a vida é porque esse ladrão ao qual se opõe vem para tomá-la. Quem é esse ladrão que vem furtar os seres humanos? Na realidade, são muitos ladrões, e dos mais diferentes tipos. Alguns estão do lado de fora, mas muitos estão sobretudo neles mesmos: são os desejos e as ambições que eles se mostram sempre dispostos a satisfazer, sacrificando o que têm de mais precioso: a vida, a vida divina.
Vocês certamente leram no Antigo Testamento a história dos dois filhos de Isaac: Esaú e Jacó. Esaú, o mais velho, passava o dia caçando ou trabalhando no campo, enquanto Jacó se ocupava tranquilamente na tenda. Certo dia, retornando do campo cansado e faminto, Esaú encontrou Jacó preparando uma sopa de lentilha. Incapaz de resistir ao alimento, ele cedeu a Jacó seu direito de primogenitura, em troca de um prato de lentilha. Perder o direito de primogenitura, com as honrarias e vantagens decorrentes, por uma sopa de lentilha – que troca mais desproporcional! Mas trata-se de mais um relato simbólico que precisa ser interpretado.
Aceitando abrir mão de seu direito de primogenitura para poder imediatamente saciar a fome, Esaú é o ser humano disposto a sacrificar o que lhe confere grande valor aos olhos de seu Pai celeste em troca de prazeres imediatos. Devemos entender o direito de primogenitura num sentido bem amplo; não é questão de ir agora dizer aos primogênitos de todas as famílias para não abrirem mão das prerrogativas de sua posição. Estou aqui falando a vocês sobre o plano espiritual, não a respeito do plano físico.
Nas famílias terrenas, existe necessariamente o filho que nasceu primeiro, o segundo, o terceiro, etc., pois estamos no plano físico, e no plano físico, regido pelas leis do espaço e do tempo, há sempre uma ordem uma classificação: um objeto depois do outro, uma pessoa depois da outra; eles não podem apresentar-se todos juntos no mesmo lugar. Mas no plano espiritual, na família divina, os seres humanos ocupam todos a mesma posição. Todos desfrutam, portanto, do “direito de primogenitura”, ou seja, da condição de filhos e filhas de Deus. Depende apenas deles se conscientizarem disso e trabalharem para preservar a sua posição. Só aquele que põe em primeiro lugar seus apetites, seus instintos, perde essa condição de filho de Deus: seu pai não é mais Deus ou o Espírito Santo, mas essa entidade que é chamada por Jesus, nos Evangelhos, de Mammom, e que não passa de outro aspecto desse mesmo Satã que veio tentá-lo no deserto.
A sopa de lentilhas representa a satisfação do estômago, mas fome também é sinônimo de todos os apetites, de todas as cobiças. Quantas outras fomes não impelem os seres humanos a se atirar sobre outras satisfações, fazendo-os perder seu direito de primogenitura, sua dignidade de filhos de Deus! Toda vez que um ser cede a um instinto – gula, sensualidade, cólera, ciúme, ambição, ódio – está vendendo seu direito de primogenitura, sua realeza interior, por um prato de lentilhas, e com isso empobrece, submete-se, torna-se escravo. Ele deu algo de extremamente precioso em si mesmo, partículas da vida divina, em troca de uma coisa que não valia a pena.
E mais tarde, quando Isaac, à beira da morte, quer dar a benção a Esaú, sua mulher, Rebeca, dá um jeito para que Jacó receba a bênção. Quando Esaú chega, é tarde demais; Isaac tinha dado tudo a Jacó, e pode apenas dizer: “Eis que o tenho posto por senhor sobre ti, e todos os seus irmãos lhe tenho dado por servos; e de trigo e mosto o tenho fortalecido; que te farei, pois agora, meu filho?” Esaú já não é senhor de si mesmo, foi a seu irmão que Isaac deu o trigo e o vinho… O trigo e o vinho… O trigo, de que é feito o pão, e o vinho: será por acaso que aí estão os dois alimentos simbólicos que Melquisedec trouxera a Abraão e que Jesus dará a seus discípulos ao despedir-se deles? Quantas coisas não poderíamos descobrir na Bíblia se soubéssemos interpretar todas essas narrativas e, principalmente, relacioná-las umas às outras!
Ao dizer “eu vim para que tenham vida” Jesus nos obriga a tomar consciência de que nossa compreensão da vida é insuficiente. Nós recebemos a vida e vivemos… Nós a utilizamos, tomamos dela para satisfazer nossos desejos e necessidades, julgando assim nos desenvolver, quando na verdade nos debilitamos. E Deus, que nos deu a vida para que sejamos fortes, velos, poderosos, luminosos, na plenitude, vê apenas seres infelizes, franzinos, pálidos, encolhidos.
Portanto, se há uma coisa que eu compreendi, é que a única ciência que vale a pena ser estudada é a ciência da vida. E gostaria de convencê-los, pois todos os outros temas que abordarão, todas as atividades que empreenderão só poderão realmente proporcionar-lhes algo se vocês tiverem entendido essa realidade essencial: a vida. A consideração que vocês têm por essa vida divina que receberam determina a qualidade do seu comportamento e das suas ocupações.
Os seres humanos se esgotam na busca do poder, do sucesso, do prestígio, do dinheiro. Admitamos que os obtenham (o que nem é garantido), mas desperdiçam sua vida nesse processo, que lhes resta? Eles transformam a vida num meio de obter tudo que desejam, quando, pelo contrário, deveriam considerá-la como um objetivo, valendo-se de todas as faculdades para fortalecer, esclarecer e purificar a vida neles próprios. Em vez de estudar a vida, eles estudam a doença e a morte. A vida é assim por eles debilitada, diminuída. E no entanto, sem a vida nada há. Não nego o valor de certas aquisições, mas é graças à ciência da vida que cada coisa encontra lugar e sentido.
É a vida que alimenta o intelecto, o coração e a vontade. Quando o homem preserva essa vida em si mesmo, seu intelecto compreende, seu coração ama e se alegra, sua força de vontade cria e se revigora. Caso contrário, seu intelecto se entorpece, seu coração esfria e sua força de vontade vacila. Sem a vida não existe mais a possibilidade da ciência, da arte, da filosofia. Por isso é que lhes digo que a ciência da vida é a chave de todas as realizações. Ampliem a vida, limpem a fonte em vocês, para que a água corra mais livremente: poderão então encher os reservatórios e enviar essa vida ao intelecto, que será esclarecido, ao coração que se abrirá para as dimensões do universo, e à força de vontade, que se tornará criadora, incansável.
A vida é como a gasolina em um carro: se não tiver mais gasolina ou se você colocar qualquer outro líquido, ele não andará; porém, não falta nenhuma peça!…. A vida também pode ser comparada ao sangue: o sujeito mais vigoroso torna-se inanimado se for privado de seu sangue. Mas pergunte a alguém: “O que você faz da sua vida? Por acaso pensa em preservá-la, em torná-la mais forte, mais rica?” A pessoa olhará para você com espanto, pois, para ela, preservar a vida significa apenas não se expor imprudentemente aos perigos e se tratar quando estiver doente. No resto do tempo, a vida lhe serve para correr atrás dos prazeres, das aquisições materiais, para ganhar dinheiro ou prestígio. Esse ignorante não sabe ainda que o verdadeiro dinheiro é a sua própria vida. Sim, a vida é dinheiro! E um dinheiro que permite fazer compras em lojas muito melhores que as lojas daqui da Terra.
O dinheiro é a expressão material de todas as possibilidades que a vida nos oferece, sim, mas apenas a expressão material. É necessário aprender a transpô-lo para os outros planos – afetivo, mental, espiritual – para obter nesses planos o equivalente do que podemos obter no plano físico.
A vida é o óleo para a lâmpada, a água para o moinho, a gasolina para o automóvel, a corrente elétrica para a usina, o sangue para o organismo. É ela que permite que tudo funcione. Mas, apesar disso, é a mais ignorada, a mais desprezada. “Como?”, pergunta alguém. “Eu considero a vida o bem mais precioso. Ontem à noite um assaltante me abordou no escuro, numa esquina, ameaçando: ‘a bolsa ou a vida!’ Óbvio que eu entreguei a bolsa.” Muito bem, isto é verdade, quando a questão se apresenta assim, é a vida que escolhemos. Mas em outras circunstâncias não pensamos nela, a desperdiçamos, a depreciamos. É preciso ser posto contra a parede para entender. Antes, porém, as pessoas não têm consciência, desperdiçam a vida na busca de satisfações e vantagens que nunca são tão importantes quanto a vida em si. Para ganhar alguns trocados, para ter o prazer de se vangloriar de alguns sucessos, quantas pessoas são capazes de desperdiçar a própria vida! Em sua balança interior, diante do pouco que ganharam, elas nunca pensam em avaliar os tesouros da vida que perderam.
E para quantos homens e mulheres a vida só tem interesse quando vivida nos excessos! Preferem até matar-se, desde que possam viver sensações intensas… Será que se perguntam se foi para isso que Deus lhes deu a vida, e se não haveria outras maneiras de viver intensamente?… Não, a maioria dos seres humanos tem uma concepção da vida que os conduz à morte, à morte física ou espiritual, e, muitas vezes, às duas. Claro, todos morreremos um dia, mas isso nunca nos deve impedir de estudar a única verdadeira ciência: a ciência da vida. É a vida o que temos em comum com Deus e com tudo que existe no universo. Portanto, é nos tornando vivos que entramos em comunicação com Deus, com todas as criaturas e com o universo.
Querem vocês, então, tornar-se mais vivos? Querem que sua vida se torne mais intensa em suas vibrações, em suas emanações? Entre os milhares de conselhos que posso lhe dar, guarde pelo menos um. Tomem consciência de toda a vida que existe ao redor, e tratem de respeitá-la como uma manifestação da vida divina. Se pelo menos os homens aprendessem a respeitar essa vida nos outros, ao redor deles, já seria um grande progresso. Mas como é que eles consideram uns aos outros? Quando se encontram, será que pensam: “Eis uma criatura que, como eu, contém uma parcela da Divindade; então, devo tratar de respeitá-la, de protegê-la”? Não, não, muitas vezes eles se vêem apenas como sombras ou autômatos; maltratam uns aos outros, procuram servir-se uns dos outros como se fossem objetos ou instrumentos, e quando se sentem demasiado incomodados, um logo trata de eliminar o outro. Mas que vida esperam ter com tal comportamento?
Tornar-se vivo é despertar para as manifestações infinitas da vida ao nosso redor, saudar as pessoas que encontramos, ver nelas a centelha de vida divina, agradecer-lhes por tudo que fazem por nós, às vezes sem que sequer o saibamos. Tornar-se vivo é maravilhar-se sempre, ver sempre os seres e as coisas como se fosse a primeira vez. Sim, isso é tornar-se vivo da vida do próprio Deus. Como esse é o vínculo mais forte que nos une a Deus, para sermos verdadeiros filhos e filhas de Deus devemos trabalhar para tornar divina a nossa própria vida. É possível encontrar a verdadeira religião nas igrejas, mas ela está, antes de mais nada, na vida, cabendo portanto a nós estabelecer uma relação consciente com todas as melhores manifestações da vida.

VIA
TEMPLO DOS ILUMINADOS

A transcendência é possível somente por meio da cruz, do sofrimento.

O autoconhecimento é difícil porque você não está disposto a passar por nenhum sofrimento. Você pensa no autoconhecimento em termos de tranquilizantes, acha que o autoconhecimento é um tranquilizante. Pessoas vêm a mim e dizem:”Dê nos paz, silêncio”. Se alguém lhe prometer lhe dar silêncio e paz sem sofrimento, ele o está enganando – e você cairá na armadilha muito facilmente, pois é isso o que gostaria de ter. No ocidente, esse é o apelo de tipos de pessoa como Maharishi Mahesh Yogi. N a verdade , elas não estão lhe dando meditações, mas tranquilizantes.. Porque um meditador fatalmente passará pelo sofrimento: elas não são brincadeira.
Você precisa passar pelo fogo, e somente nesse fogo seu ego caíra por terra. Ao olhar para toda a feiúra do ego, ele automaticamente cai por terra.
Mas Maharishi Mahesh Yogi e outros dizem que não há necessidade de sofrimento: “Eu lhe darei uma técnica. Faça-a por dez minutos pela manhã e a tarde e ela tranquilizará o seu ser. Você sentirá uma paz infinita e tudo estará bem, e em alguns dias você se iluminará”.
Não é tão fácil assim – é árduo. Truques não ajudarão. Não desperdice o seu tempo com truques. Apenas por recitar um mantra por dez minutos, como você poderá se iluminar?
Você passou pela história e chegou a um ponto, aqui, chegou a este momento. Você passou por milhões de anos – quem voltará? Porque meditação significa voltar à fonte. Você chegou a este ponto no tempo e precisará voltar, precisará regressar, precisará atingir o ponto original onde a jornada começou. Apenas por recitar um mantra por dez minutos pela manhã, você acha que o alcançará?
A quem você acha que está enganando? Você está enganando a si mesmo. Você não chegou aqui por recitar mantras. A humanidade viveu,e viveu milhões de maneiras erradas – perambulando, perdendo, pecando, assassinando. Guerras, explorações, opressões, tiranias – você foi uma parte disso, é responsável por isso.
A transcendência é possível, mas não por meio de truques tão fáceis. A transcendência é possível somente por meio da cruz, do sofrimento.
(Osho- em “A Harmonia Oculta”)

Via O Vôo Da Águia