CÓDIGO DE ÉTICA DO ÍNDIO NORTE-AMERICANO

CÓDIGO DE ÉTICA DO ÍNDIO NORTE-AMERICANO

O Conselho Indígena Inter-Tribal Norte Americano, do qual participam as tribos Cherokee Blackfoot, Cherokee, Lumbee Tribe, Comanche, Mohawk, Willow Cree, Plains Cree, Tuscarora, Sicangu Lakota Sioux, Crow (Montana), Northern Cheyenne (Montana) aprovaram o seu código de ética mas que deveria valer para todos os seres humanos:

1. Levante com o Sol para orar. Ore sozinho. Ore com freqüência. O Grande Espírito o escutará, se você, ao menos, falar.
2. Seja tolerante com aqueles que estão perdidos no caminho. A ignorância, o convencimento, a raiva, a inveja, o ciúme e a avareza, originam-se de uma alma perdida. Ore para que encontrem o caminho do Grande Espírito.
3. Procure conhecer-se, por si próprio. Não permita que outros façam seu caminho por você. É sua estrada, e somente sua. Outros podem andar ao seu lado, mas ninguém pode andar por você.
4. Trate os convidados em seu lar com muita consideração. Sirva-os o melhor alimento, a melhor cama e trate-os com respeito e honra.
5. Não tome o que não é seu. Seja de uma pessoa, da comunidade, da natureza, ou da cultura. Se não foi obtido por esforço próprio nem foi dado, não é seu.
6. Respeite todas as coisas que foram colocadas sobre a Terra. Sejam elas pessoas, plantas ou animais.
7. Respeite os pensamentos, desejos e palavras das pessoas. Nunca interrompa os outros nem ridicularize-os, nem rudemente os imite. Permita a cada pessoa o direito da livre expressão pessoal.
8. Nunca fale dos outros de uma maneira má. A energia negativa que você colocar para fora no universo, voltará multiplicada a você.
9. Todas as pessoas cometem erros. E todos os erros podem ser perdoados.
10. Pensamentos maus causam doenças da mente, do corpo e do espírito. Pratique o otimismo.
11. A natureza não é para nós, ela é uma parte de nós. Toda a natureza faz parte da nossa família Terrena.
12. As crianças são as sementes do nosso futuro. Plante amor nos seus corações e ágüe com sabedoria e lições da vida. Quando forem crescidos, de-lhes espaço para que cresçam.
13. Evite machucar o coração das pessoas. O veneno da dor causada a outros, retornará a você.
14. Seja sincero e verdadeiro em todas as situações. A honestidade é o grande teste para a nossa herança do universo.
15. Mantenha-se equilibrado. Seu Mental, seu Espiritual, seu Emocional, e seu Físico, todos necessitam ser fortes, puros e saudáveis. Trabalhe o seu Físico para fortalecer o seu Mental. Enriqueça o seu Espiritual para curar o seu Emocional.
16. Tome decisões conscientes de como você será e como reagirá. Seja responsável por suas próprias ações.
17. Respeite a privacidade e o espaço pessoal dos outros. Não toque as propriedades pessoais de outras pessoas, especialmente objetos religiosos e sagrados. Isto é proibido.
18. Comece sendo verdadeiro consigo mesmo. Se você não puder nutrir e ajudar a si mesmo, você não poderá nutrir e ajudar os outros.
19. Respeite outras crenças religiosas. Não force suas crenças sobre os outros.
20. Compartilhe sua boa fortuna com os outros. Participe com caridade.

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O LEGADO DA MENTE INDIANA – POR PEDRO KUPFER

O LEGADO DA MENTE INDIANA
POR PEDRO KUPFER

Muito se fala sobre a mente indiana. Algumas pessoas tendem a ver a sociedade, a cultura e a civilização indianas como algo exótico e muito diferente do que é familiar para nós, e que chamamos de cultura ou civilização ocidental. Este texto tem o objetivo de descrever e ajudar na compreensão do que seria a mente indiana, bem como demonstrar que aquilo que parece exótico à primeira vista, talvez não seja tão diferente do que consideramos nosso.
Se formos levar em consideração a opinião do filósofo suíço Jean Gebser, a mente humana não variou significativamente nos últimos 100.000 anos. Tampouco haveria motivos para pensar que o psiquismo dos orientais seja diferente do dos ocidentais. Não obstante, a civilização indiana tem fascinado os estrangeiros, dos gregos aos persas, dos chineses aos afegãos, dos portugueses aos ingleses e demais povos asiáticos e ocidentais que ao longo da história, visitaram ou invadiram o subcontinente. Por outro lado, a influência cultural da grande civilização indiana se fez sentir no mundo antigo em lugares tão distantes como o Golfo Pérsico, o Sudeste Asiático e o Extremo Oriente.
Entretanto, pode surgir também um sentimento de espanto ou repulsa pelo desconhecido em algumas pessoas que olham para a cultura indiana. Esse estranhamento que esta cultura possa provocar é mais oriundo da sua sofisticação do que do seu exotismo. Por momentos, esse requinte desorientou visitantes ou estudiosos desavisados que, sem suspeitar a complexidade subjacente na aparente simplicidade das expressões culturais da Índia, julgaram estar diante de um povo primitivo, preguiçoso e dominado por superstições. Uma dessas pessoas foi o conhecido indólogo alemão Max Müller que, sem pejo da própria ignorância, declarou serem os indianos védicos, “uma raça de gente simplória”. Cabe anotar que Max Müller nunca esteve pessoalmente no subcontinente.
Já Mark Twain, o impagável e perspicaz escritor estadunidense declarou, durante uma prolongada visita à Índia que fez junto com sua família: “Índia é o berço da raça humana, o lugar do nascimento do discurso humano, a mãe da História, a avó da lenda, e a bisavó da tradição. Os mais valiosos e instrutivos materiais na História do homem estão entesourados apenas na Índia”. Romain Rolland, o grande escritor francês, disse, por sua vez: “Se há um lugar na face da terra onde todos os sonhos da humanidade encontraram um lar desde os primórdios, quando os homens começaram a sonhar com a existência, esse lugar é a Índia”. Somos da opinião de que Twain e Rolland acertaram onde Müller se equivocou. Procuraremos demonstrar isso nas próximas paginas.

A mente indiana e o nascimento da civilização.

A civilização dos vales dos rios Indo e do Sarasvati é uma das três primeiras da Humanidade, e a mais extensa e evoluída delas. Os Puranas, antigos textos hindus, incluem relatos sobre o início da civilização, que narram o domínio do fogo, o dilúvio, dentre outros fatos históricos, junto com instruções sobre espiritualidade e religião. Igualmente, esses textos nos permitem apreciar os conhecimentos técnicos sobre medicina, arquitetura e arte da época.
Observamos nesta civilização uma sofisticada planificação urbana, com ruas rigorosamente traçadas, casas com vastos pátios interiores, celeiros, piscinas públicas, água corrente, drenagens, diques e canalizações para irrigação artificial. É surpreendente nesta civilização a sua “alta adaptabilidade”, como afirma o arqueólogo indiano S. P. Gupta, aos mais variados terrenos: as costas do Oceano Índico, o deserto do Rajastão e Ásia Central, as neves do Hindu Kush e as planícies e vales dos rios no Afeganistão, Paquistão e Índia. Isto evidencia, entre outras coisas, o altíssimo nível da engenharia urbana aliada à uma grande capacidade de planejamento e administração.
Os antigos indianos vendiam e intercambiavam mercadorias com a Suméria, a Síria, as ilhas do Golfo Pérsico e regiões costeiras da Mesopotâmia, o Irã, a Turkmênia, o Uzbequistão, o Paquistão e o noroeste da Índia. Exportavam algodão, marfim, contas de pedra e madeira para fazer colares, cachorros de caça, pássaros e animais raros, pedras semipreciosas, madeiras de lei, entalhes em concha, balanças e pesos de quartzo, machados de cobre e outras ferramentas. Eram tão organizados que, quando os navios voltavam do Golfo Pérsico e da Suméria, aproveitavam a viagem de retorno para encher seus porões nas costas do Afeganistão e Turkmênia com turquesas, lápis-lazúli, chumbo e latão. Possuíam um completo e preciso sistema de pesagem, que hoje pode ser apreciado nos museus da Índia.
Há pelo menos quatorze maneiras diferentes de referir-se às casas no Rig Veda, indicando que esta civilização era notoriamente urbana. Ainda nesta mesma obra, encontramos fartas referências ao mar (samudra), rios (sindhi), barcos, navegação, movimento de comerciantes, transações em moeda, empréstimos, recursos minerais, domesticação do cavalo e indústria, que nos mostram um pouco da vida cotidiana deste povo.

A mente indiana na cultura.

Poucos países no mundo possuem uma diversidade cultural semelhante à indiana. Essa diversidade não se estende apenas pelo amplo território, mas também se expande no tempo, ao longo de milênios de cultura e civilização contínuas. Essa cultura foi enriquecida por sucessivas ondas migratórias que foram absorvidas pelo povo indiano, num belo exemplo de tolerância e respeito pelo outro. A variedade étnica do povo indiano é tão fascinante como suas manifestações religiosas, artísticas ou lingüísticas. À Índia antiga apresentava uma diversidade na sua unidade que poderia servir como modelo e inspiração para pautar as relações entre os povos.
Os valores essenciais sobre os quais estão construídas a civilização e a cultura indiana são certamente familiares para o amigo leitor. O mais conhecido sem dúvida é a não-violência, ahimsa, cujas manifestações são a tolerância, a flexibilidade, a unidade e a solidariedade. Outra característica desta cultura é o imenso valor que é dado à família. O sistema social está baseado no conceito da família estendida, que abrange não apenas pais, irmãos e filhos do núcleo familiar, mas toda uma intrincada rede de relacionamentos políticos com outros núcleos dentro do mesmo estrato social.
A história da arte da Índia é igualmente a história da mais flexível das culturas antigas. Ela é uma interessante amálgama de influências nativas e forâneas ao longo do tempo, que possui uma identidade própria muito característica. Por exemplo, as formas artísticas do oeste da Índia, têm um inegável sabor de Oriente Médio, enquanto que as do norte se assemelham bastante às das culturas tibetana e chinesa. No entanto, todas elas preservam um sabor indiscutivelmente indiano. As formas da arte indiana são tão fortemente influenciadas pela espiritualidade que todas essas expressões poderiam ser consideradas arte sagrada. Isso vale tanto para a escultura e a pintura, quanto para a música, a arte dramática e a literatura.
Existe uma teoria estética que permeia todas essas formas de arte, chamada rasa, palavra sânscrita que significa “essência”, e define as emoções básicas com as quais o artista irá trabalhar. Os rasas são nove: hasya (felicidade), krodha (raiva), bhibasta (desgosto), bhaya (medo), shoka (sofrimento), vira (coragem), karuna (compaixão), vismaya (surpresa) e shantah (serenidade). Quando o artista completa sua obra, seja um poema, uma dança ou uma peça musical, ele provocou todas as nove emoções no leitor ou espectador, e sempre conclui com shantah, um sentimento de tranqüila paz, que é para a arte o que moksha, a libertação, significa para o Yoga.
Quem já foi para a Índia fica curioso sobre o quanto a dança e a música permeiam o cotidiano das pessoas, trazendo alegria e cor a todos os momentos. A música indiana, chamada sangitam, abrange uma enorme série de expressões folclóricas, religiosas, populares e clássicas. As formas musicais mais antigas encontram-se no Sama Veda, o “Veda das Melodias”, que é uma seleção de hinos musicados do Rig Veda. Até hoje, alguns sacerdotes ainda guardam essa antiga ciência. Tive o privilégio de ouvir um deles ano passado em Rishikesh; foi uma das experiências mais marcantes que tive escutando música.
A música clássica é sempre de câmara, tocada com poucos instrumentos e, tradicionalmente, para audiências pequenas. Ela é dividida em dois tipos: a da Karnataka, no sul, que tem uma estrutura mais solta, parecida com os improvisos do jazz, e a do norte, chamada Hindustani. Esta, por sua vez, é dividida em dois estilos: o dhrupad e o kayal. O dhrupad é a música clássica antiga, dedicada ao deus Shiva, que tem como objetivo despertar no ouvinte o estado meditativo. Assim sendo, ela é mais lenta e explora os registros mais graves. O kayal é a música das cortes reais, mais leve e ornamentada. Geralmente, quando os ocidentais se referem à música clássica indiana, estão em verdade apontando para este sub-gênero, popularizado por artistas como Ravi Shankar, Hariprasad Chaurasia e Pandit Jasraj. A música folclórica abrange tanto poemas devocionais de bhaktas como Mirabhai ou Kabir, quanto temas profanos, mas ela está sempre muito próxima da música clássica, embora seja tocada com outros instrumentos. Dela nasceu a conhecida música dos filmes indianos.
A dança, chamada natya, é um capítulo aparte. Existem muitas formas de dança, associadas com os lugares onde elas nasceram e se desenvolveram. Cada uma dessas modalidades preserva o modo peculiar da sua região. Assim, encontramos estilos de dança clássica no sul, como o Bharata Natyam, o Odissi e o Kathakali, outros oriundos do norte, como o Bhangra e o Kathak, outros no oeste, como o Dandi e o Garba, e outros no leste, como o Manipuri e o Sattriya. A raiz comum a todas estas formas artísticas é um texto chamado Natya Shastra, do século II, atribuído ao sábio patriarca Bh€rata.
O interessante do natya é que desta forma de arte dramática não é apenas dança. Em primeiro lugar, natya é dança, sim, mas sagrada. Originalmente, dançava-se nos templos, para os deuses. O natya incorpora e transmite uma linguagem gestual (mudra) muito característica, que influenciou enormemente as outras manifestações artísticas do Sudeste Asiático, como as danças gestuais da Indonésia, da Tailândia e da China. Além do mais, natya é teatro: o dançarino conta uma história, narra os mitos do Ramayana ou dos Puranas. Essa história é contada não apenas através da expressão das mãos, mas igualmente de gestos feitos com a fisionomia e o olhar. O dançarino usa o corpo como um veículo para expressar sua devoção e celebrar as grandes verdades universais: o amor, a glória, a paz. Não obstante a complexidade da dança indiana, ela é extremamente fácil de se compreender, pois fala ao coração e não à mente.
Agora, cabe uma palavra sobre a vasta literatura indiana. O gênero literário mais antigo é o dos Vedas, uma ampla coleção de hinos e fórmulas rituais em forma de poemas, que evidencia uma visão da criação, do mundo e da vida humana. Esses textos surpreendem pela profundidade e beleza. Embora de temática aparentemente limitada, eles revelam-se obras primas do ponto de vista literário, dando-nos uma visão global da cultura, dos valores e da forma de vida do povo védico. Existem quatro Vedas: Rig, Sama, Yajur e Atharva.
O famoso poeta e dramaturgo Kalidasa, que já foi comparado a Shakespeare, escreveu, dentre outras obras, dois épicos inesquecíveis: o Raghuvamsa (“A Dinastia dos Raghus”) e o Kumaras?ambhava (“O Nascimento de Kumara”) e duas obras de teatro que são encenadas até hoje: Shakuntala and Meghaduta. Talvez o mais marcante poeta posterior a Kalidasa seja Jayadeva, que compôs a famosa Gita Govinda (“Canção de Govinda”). Outros autores relevantes são Chanakya, que escreveu o Arthashastra (“Ciência da Prosperidade”) e Vatsyayana, conhecido pelo Kamasutra. Afora a literatura clássica sânscrita, e tendo surgido a a partir do século XVI, existe ainda uma imensa literatura em línguas vernáculas, tais como prâcrito, tâmil, pali, bhojpuri, hindi, kannada, gujarati, bengali, kashmiri, marathi, oriya, punjabi, malayalam, telugu e urdu, entre outras.
Ainda no âmbito cultural, nasceram na Índia atividades como o boxe e as artes marciais. Dentre as mais de 4.200 esculturas de terracota achadas nos sítios arqueológicos do Vale do Indo, tem uma que representa um lutador em posição de defesa, com mãos e punhos enfaixados, da mesma maneira que os boxeadores da atualidade. O kalarippayatu (“luta do campo de batalha”), o vajramushti (“punho de diamante”) e outras artes marciais, da mesma maneira, tiveram sua origem na Índia. Essas artes marciais foram levadas para o Sudeste Asiático e, posteriormente, para o Extremo Oriente, pelo monje budista Bodhidharma. Na área da recreação, cabe lembrar que também jogos como o ludo (chaturanga) e o xadrez, (sh?atrañj ou ashtapada) são também criações da mente indiana.

A mente indiana na ciência.

Os árabes aprenderam as ciências exatas dos indianos. Eles chamaram as matemáticas hindse, que significa “da Índia”. Não sabemos quando o homem começou a contar, mas o conceito do zero (shunya, em sânscrito) é indubitavelmente uma criação do ??i Aryabhatta. Da mesma forma, são indianos o sistema decimal e a numeração que hoje se conhece como arábiga. Este conhecimento foi levado pelos árabes para o Oriente Próximo no século XII, de onde, através das cruzadas, atingiu a Europa, onde foi massivamente adotado, por ser muito mais lógico e fácil de usar que o desconfortável sistema romano. Uma vez, Albert Einstein disse: “devemos muito aos indianos, que nos ensinaram a contar, sem o que nenhuma descoberta científica válida teria sido feita.” O grande matemático La Place, por seu lado, afirmou: “foi a Índia quem nos deu o engenhoso método de expressar todos os números com dez símbolos. A enorme facilidade que isso deu a todos os cálculos coloca a aritmética no topo das invenções úteis, e deveríamos apreciar ainda mais a dimensão destas conquistas se lembrarmos que elas escaparam ao gênio de Arquimedes e Apolônio.”
Seria impossível construir as imensas estruturas de Harappa e Mohenjo Daro sem um conhecimento detalhado de engenharia, arquitetura e geometria. A ciência nasceu a partir do ritual: a arte de construir altares deu origem à arte de construir cidades. Num estudo que consumiu mais de vinte anos, o matemático e historiador da ciência A. Siedenberg demonstrou que os sistemas matemáticos egípcio e babilônico foram inspirados no Shulba Sutra. Os textos egípcios baseados nesta obra são anteriores ao ano 2000 a.C., o que prova que o conhecimento de matemática na Índia é bem antigo. Isto reforça ainda o ponto de vista que afirma que o movimento civilizatório se deu desde a Índia para Oriente Próximo e que Mesopotâmia e Egito são tributários da cultura índica.
No campo da medicina, o sistema de saúde chamado Ayurveda (“ciência da vida”), nasceu em solo indiano e foi ensinada na Universidade de Taxila, fundada em 700 a.C., que chegou a reunir mais de 10.000 estudantes. Esse sistema de medicina foi preservado através da obra de sábios como Charvaka e Su?ruta, que viveram há mais de 2.500 anos.
A astronomia também nasceu em solo indiano. O erudito estadunidense Ebenezer Burguess afirmou, mais de um século atrás, que as astronomias indiana, egípcia e grega, pareciam possuir a mesma base, e que sua origem deveria procurar-se na Índia antiga. Alguns hinos do Rig Veda e outros shastras começam ou terminam com a descrição da localização do sol em relação aos planetas e constelações. Os primeiros estudiosos ocidentais dos séculos XVIII e XIX desestimaram esse detalhe, pois não acharam possível que esses fossem dados astronômicos concretos.
A navegação e, igualmente, um feito que parece ter sido empreendido primeiramente pelos antigos indianos. O historiador R. K. Mookerjee disse: “a arte da navegação nasceu no rio Indus mais de 6000 anos atrás. A própria palavra navigation, em inglês, deriva do sânscrito navi gatih.” A palavra nave deriva igualmente do sânscrito nava. Por seu lado, os antropólogos Geldern e Ekholm afirmaram: “mil anos antes do nascimento de Colombo, os barcos indianos eram em muito superiores a qualquer um feito na Europa no século XVIII.” A bússola, maccha yantra em sânscrito, foi também criada por estes navegantes.
Considerando esses antecedentes, e a importância que sempre se deu nesta cultura à busca por uma expressão numérica da unidade que permeia todas as coisas, não surpreende que hoje a Índia seja o país que aporta mais cientistas ao mundo no campo das ciências exatas, pois os indianos levam no seu inconsciente coletivo uma cosmovisão completa, expressada por meio de números.

A mente indiana na espiritualidade.

Usamos aqui a palavra espiritualidade para abranger tanto as expressões religiosas quanto as filosóficas. Na Índia, não há separação entre vida e religião, entre arte e espiritualidade. Esse fato é um dos primeiros que impressiona o visitante. O povo indiano, seja hindu, muçulmano, budista, sikh ou parsi, parece viver o tempo todo com a devoção à flor da pele. Essa atitude do indiano faz parte de uma tradição maior, que remonta aos tempos védicos e permeia todas as formas desta cultura. Nesse sentido, poderíamos dizer que o indiano vivencia a espiritualidade de uma forma mais natural e intensa que outros povos. Isso é evidente no extenso calendário de atividades religiosas, festivais, celebrações e peregrinações, de todas as formas religiosas, hindus e não hindus.
Também é evidente no cotidiano desse povo que, apesar das agruras inerentes à vida daqueles que nasceram num país do Terceiro Mundo, mantém sempre um sorriso estampado no rosto. Cada povo tem sua idiossincrasia. Assim, costumamos ouvir e dizer que os japoneses são disciplinados, que os alemães são sérios, que os brasileiros somos alegres. Na mesma linha, os indianos consideram a si mesmos o povo mais khush do planeta. Mas, o que significa khush? Esta é uma palavra urdu que quer dizer intensa alegria, felicidade. Essa alegria nasce na natural devoção do povo que, por sua vez, parece derivar de uma confiança inata na vida. Essa confiança deriva do ensinamento do dharma.
Talvez o exemplo mais acabado dessa integração entre espiritualidade e cotidiano seja o conceito de dharma. Este termo, que significa literalmente “aquilo que mantém unido”, designa tanto a vocação individual e os meios para realizá-la, como o princípio da harmonia e justiça universais. Todas as filosofias e religiões da Índia outorgam um papel central à vida no dharma, que é uma vida centrada na correta compreensão da realidade e na percepção do Eu em tudo e em todos. Nesse sentido, podemos dizer que o dharma, tanto do ponto de vista hindu quanto do budista, parsi, sikh ou jaina, não é um esquema exclusivo, que rejeita pessoas desde dentro de um sistema fechado. Ele é inclusivo: todos têm um lugar, um papel para representar ou realizar na estrutura do dharma. Vi?e?a dharma é o dharma específico para um indivíduo numa determinada situação. Já samanya dharma é o universal, aplicável a todos e a tudo.
Tudo o que está aqui é uma manifestação da Consciência, que se manifesta na forma do dharma, da ordem universal. Todos os humanos sabem disso, embora a noção dentro de cada cultura possa variar bastante. A essência do ensinamento do sanatana dharma , o dharma eterno, é que o indivíduo é idêntico ao Ser ilimitado. Isto deve ser bem compreendido, e aceito, se quisermos uma vida tranqüila, apesar as dificuldades inerentes a qualquer existência humana. Essa não-dualidade existe e é um fato, apesar da distinção sujeito-objeto. A distinção sujeito-objeto não contradiz a não-dualidade. Este é o conhecimento do Veda. Está ao longo do Rig Veda e, especialmente, no fim dele, condensado nas Upani?ads. Esse ensinamento está presente ao longo de todos os textos sagrados, que são cheios de histórias e mitos que têm como objetivo transmitir o ensinamento da maneira mais clara para as diferentes gerações.
O propósito deste texto, como foi colocado no início, foi apresentar as contribuições da mente indiana ao pensamento humano. A civilização da Índia, como toda civilização tem seu lado B. O amigo leitor saberá nos perdoar por omitir esse aspecto. Namaste!

Pedro é praticante e professor de Yoga.

VIA YOGA.PRO.BR

HO’OPONOPONO POR JOE VITALE

HO’OPONOPONO POR JOE VITALE

Faz dois anos, escutei falar de um terapeuta no Hawaii que curou um pavilhão completo de pacientes criminais insanos sem sequer ver nenhum deles. O psicólogo estudava a ficha do presidiário e logo olhava dentro de si mesmo para ver como ele tinha criado a enfermidade dessa pessoa. Na medida em que ele melhorava, o paciente melhorava.
A primeira vez que ouvi falar desta história, pensei que era uma lenda urbana. Como podia curar o outro, curando somente a mim mesmo? Como podia, embora fosse um mestre de grande poder de auto cura, curar alguém criminalmente insano? Não tinha nenhum sentido, não era lógico, de modo que descartei esta história.
Entretanto, escutei-a novamente um ano depois. Ouvi que o terapeuta tinha usado um processo de cura havaiano chamado “hooponopono”. Nunca tinha ouvido falar disso, entretanto não podia tirá-lo de minha mente. Se a história era totalmente certa, eu tinha que saber mais. Meu entendimento era que “total responsabilidade” significava que eu sou responsável pelo que penso e faço. O que estiver mais alem, está fora de minhas mãos. Penso que a maior parte das pessoas pensa igual sobre a responsabilidade. Somos responsáveis pelo que fazemos, não do que os outros fazem – mas isso está errado.
O terapeuta havaiano, que curou essas pessoas mentalmente doentes, me ensinaria uma nova perspectiva avançada sobre o que é a total responsabilidade. Seu nome é Dr. Ihaleakala Hew Len. Passamos uma hora falando em nossa primeira conversação telefônica. Pedi-lhe que me contasse a história total de seu trabalho como terapeuta.
Ele explicou que havia trabalhado no Hospital Estatal do Hawai durante quatro anos. O pavilhão onde encerravam os criminosos loucos era perigoso.
Regra geral os psicólogos desistiam de trabalhar ali em um mes. A maior parte dos membros do pessoal caiam doentes ou simplesmente renunciavam. As pessoas que atravessavam esse pavilhão caminhava com suas costas contra a parede, temerosas de serem atacados por seus pacientes. Não era um lugar agradável para viver, trabalhar ou visitar.
O Dr. Len me disse que nunca viu os pacientes. Assinou um acordo de ter um escritório e revisar suas fichas. Enquanto olhava essas fichas, trabalharia em si mesmo. Enquanto trabalhava em si mesmo, os pacientes começaram a curar-se.
“Depois de alguns poucos meses, foi permitido aos pacientes que deviam estar encarcerados, caminhar livremente” disse-me. “Outros que tinham que estar fortemente medicados começaram a diminuir sua medicação. E aqueles que jamais teriam nenhuma possibilidade de ser liberados, tiveram alta”. Eu estava assombrado. “Não somente isso” continuou, “mas o pessoal começou a ir feliz para o trabalho.”
A ausência e as mudanças de pessoal desapareceram. Terminamos com mais pessoas do que necessitávamos porque os pacientes eram liberados e todas as pessoas vinham trabalhar. Hoje esse este pavilhão está fechado.”
Aqui é onde eu tive que fazer a pergunta de milhões de dólares: “O que você esteve fazendo com você mesmo, que ocasionou a mudança dessas pessoas?”
“Eu simplesmente estava curando aquela parte minha que tinha criado aquilo neles”, disse ele. Eu não entendi. E o Dr. Len explicou que, entendia que a total responsabilidade de sua vida implica a tudo o que está em sua vida, simplesmente porque está em sua vida e, por isso, é de sua responsabilidade. Em um sentido literal, todo o mundo é sua criação.
Uau! Isto é duro de engolir. Ser responsável pelo que eu faço ou digo é uma coisa. Ser responsável por outro ou por qualquer outra coisa que faça ou diga na minha vida é muito diferente. Entretanto a verdade é esta: se assumir completa responsabilidade por sua vida, então tudo o que você vê, escuta, saboreia, toca ou experimenta de qualquer forma é sua responsabilidade, porque está em sua vida. Isto significa que a atividade terrorista, o presidente, a economia ou algo que experimenta e você não gosta, está ali para que cure. Isso não existe, por assim dizer, exceto como projeções que saem de seu interior. O problema não está com eles, está em você e para mudá-los, você deve mudar.
Sei que isto é difícil de captar, muito menos de aceitar ou de vivê-lo realmente. Atribuir ao outro a culpa é muito mais fácil do que assumir a total responsabilidade, mas enquanto falava com o Dr. Len comecei a compreender essa cura dele e que, o ho’oponopono significa amar a si mesmo.
Se deseja melhorar sua vida, deve curar sua vida. Se deseja curar qualquer outro, ainda que seja um criminoso mentalmente doente, faça-o curando a si mesmo.
Perguntei ao Dr. Len como curava a si mesmo. O que era que ele fazia exatamente, quando olhava as fichas desses pacientes.
“Eu simplesmente permanecia dizendo “Sinto muito” e “Te amo”, muitas vezes” explicou ele.
“Só isso?”
“Só isso.”
“O resultado é que, amar a si mesmo é a melhor forma de melhorar a si mesmo e enquanto você melhora a si mesmo, melhora seu mundo”.
Permita-me dar-lhe um rápido exemplo de como funciona isto: um dia, alguém me envia um e-mail que me desequilibra”. No passado leria trabalhando com meus aspectos emocionais raivosos ou tratando de raciocinar com a pessoa que enviou essa mensagem detestável. Desta vez eu decidi provar o método do Dr. Len. Coloquei-me a pronunciar silenciosamente “sinto muito” e “te amo”. Não dizia nada a ninguém em particular. Simplesmente estava invocando o espírito do amor, dentro, para curar o que estava criando a circunstância externa.
No término de uma hora recebi um email da mesma pessoa. Desculpava-se por sua mensagem prévia. Tenha em conta que eu não realizei nenhuma ação externa para obter essa desculpa. Eu nem sequer respondi sua mensagem. Entretanto, só dizendo “te amo”, de algum modo curei dentro de mim o que estava criando nele.
Mas tarde assisti a uma reunião de ho’oponopono dirigido pelo Dr. Len. Ele tem agora 70 anos de idade, é considerado um xamâ avô e é algo solitário.
Elogiou meu livro “O Fator Atrativo”. Disse-me que enquanto eu melhoro a mim mesmo, a vibração de meu livro aumentará e todos sentirão quando o lerem. Em resumo, à medida que eu melhoro, meus leitores melhorarão.
“E o que aconteceria com os livros que já vendi e saíram por mim?” Perguntei.
“Eles não saíram” explicou ele, uma vez mais, soprando minha mente com sua sabedoria mística. “Eles ainda estão dentro de você”. Em resumo, não há fora. Levaria um livro inteiro para explicar esta técnica avançada com a profundidade que ela merece.
“Basta dizer que toda hora que desejar melhorar algo em sua vida, existe somente um lugar onde procurar: dentro de você. Quando olhar, faça isto com amor”.
Ho’oponopono

VIA http://cnchoponopono.blogspot.com.br/2009/06/hooponopono-por-joe-vitale_22.html

COMO É AMARGA A AMARGURA! (OLIVEIRA FIDELIS FILHO)

COMO É AMARGA A AMARGURA!
Por Oliveira Fidelis Filho

O disparador foi o silêncio!
O barulho daquele silêncio foi suficientemente alto para acordar minhas fraquezas, projetar minhas sombras e atiçar minha agressividade.
No discurso psicanalítico, o silêncio e a imagem falam mais do que mil palavras. O que geralmente me remete à poética declaração do Rei Davi quando em alusão a Criação declara: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de Suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento à outra noite. Não há linguagem nem palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a Terra se faz ouvir a Sua voz…”. No silêncio, a Natureza – interna e externa – revela sua essência divina e nos fala do Criador.
O silêncio ao qual me refiro, entretanto, não veio da Criação ou de um espaço no qual o inconsciente se revela no discurso de um cliente em uma sessão analítica. Antes fosse! Refiro-me ao silêncio de um próximo que, embora geograficamente distante, foi capaz de impor a rendição do amor em mim, abrir os portões dos porões do ego, soltar os bichos que pensava não mais existirem. Emergindo do profundo oceano de meu inconsciente, eles atracaram e tomaram de assalto as praias até então tranqüilas de minha consciência.
Faço alusão ao silêncio que me permitiu enxergar em mim, com clareza solar, os monstros que se escondem sob a sombra dos vales da inconsciência, que me fez ficar cara a cara com os meus próprios demônios e percebê-los vivos e atuantes, não no planeta terra, mas nos estreitos espaços de minha existência. Enfim, um silêncio que muito mais do que revelar o Outro no outro, revelou o Outro em mim.
Que angustiantes foram as sensações! O estômago sentiu-se como se atingido simultaneamente por um cruzado de direita e outro de esquerda, por um boxeador peso pesado. Senti-o comprimir e contorcer; fui tomado por náuseas e por pouco não vomitei. Meus sentimentos eram uma mistura indigesta de orgulho ferido, impotência, ultraje, injustiça, ira, ódio e ressentimento. Mergulhado em autocomiseração, desci às profundezas do inferno.
Os pensamentos entraram em colapso, a luz se apagou, o discernimento tirou férias, e foi imposto o toque de recolher à racionalidade. A sensibilidade e flexibilidade deram lugar ao embrutecimento enquanto a reatividade, de posse da procuração outorgada pelo orgulho e pela vaidade, portava-se inquestionável em seus direitos. Tal qual a seiva, que jorrando de um pinheiro ferido se transforma em âmbar petrificado, mumificando a vida que nele há, semelhantemente senti enrijecer meu peito e meu coração.
Talvez nenhum de meus leitores experimente tais provas de falta de expansão de consciência e de espiritualidade… Quem sabe sejam todos seres amorosos, harmonizados, banhados de luz e movidos por amor… Podem jamais ter experimentado tal descompensaçao… Podem, entretanto, ter algum amigo que já passou ou passe por esta experiência…
Brincadeiras à parte, quanto a mim, deixando-me agredir por um estrondoso silêncio, projetando meu mapa interpretativo e alucinações na pessoa que simplesmente silenciou, sucumbi ao poder da amargura. Felizmente, percebi rápido o que estava acontecendo; buscando no meu próprio silencio o apaziguamento dos conflitantes pensamentos e sentimentos, repovoando de Amor e Luz minha consciência com a ajuda da meditação orei ao meu Deus movido por gratidão e devolvi a alma o seu bem mais precioso, a Paz.
No meu livro RENASCENDO DAS CINZAS, nas primeiras páginas do capítulo dois, busco descrever os estragos oriundos da amargura. Entre outras ponderações, afirmo que a amargura é um veneno caríssimo porque é feito do nosso sangue, de nossa saúde, de nosso sono; implacavelmente ela consome quem dela se alimenta. É o câncer da alma com potencial para se converter na “alma” do câncer.
Na Bíblia, há dois textos que descrevem didaticamente a amargura. O livro de Hebreus traz a seguinte narrativa: “… Nem haja alguma raiz de amargura que brotando vos perturbe e, por meio dela, muitos sejam contaminados”. No livro de Salmos, o poeta e músico Asafe declara: “Quando o coração se me amargou, e as entranhas se me comoveram, eu estava embrutecido e ignorante, era como um irracional a tua presença.” Estas citações bíblicas deixam evidentes as perturbações psicossomáticas que possuem na amargura sua raiz.
A defesa imunológica está estreitamente vinculada ao perfil emocional. Quando a Bíblia adverte para não deixarmos o Sol se por sobre nossa ira, alertando que devemos manter um coração perdoador, e que devemos eliminar toda a raiz de amargura, o objetivo nos é por a salvo dos prejuízos que os sentimentos negativos impõem às mais variadas áreas da existência.
Encontramos, ainda, no livro de Salmos, a abençoadora recomendação: “Não fique com raiva, não fique furioso. Não se aborreça, pois isso será pior para você” e o sábio rei Salomão adverte: “controle sempre seu gênio; é tolice alimentar o ódio”.
Podemos argumentar exaustivamente que temos razões de sobra para alimentar a mágoa, o ressentimento e o ódio. É perfeitamente possível que tenhamos sido vítimas de injustiça, traição, ingratidão, rejeição, violências verbais ou físicas terríveis. Entretanto, com ou sem razão, a amargura é uma brutalidade a mais que infligimos a nós mesmos.
As raízes da amargura fecham as cortinas da alma impedindo que o Sol da Justiça ilumine e aqueça o coração. Elas obstruem as tubulações da existência, impedindo que a brisa refrescante da graça de Deus refrigere nosso interior. A amargura descolore a vida e poda as asas dos sonhos. Aprisiona-nos na areia movediça da murmuração e do ressentimento, roubando, matando e destruindo a alegria de viver. A amargura aprisiona nossos olhos no passado, deixando-nos paralisados.
Manter, de forma continuada, sentimentos de ira, ressentimentos, mágoa, enfim, manter a alma cativa pela amargura é bloquear as fontes da alegria, da paz, da vida plena e abundante.
É necessário compreender que não são as ações ou omissões sofridas, silêncio ou palavras ouvidas, ou mesmo ações praticadas contra nós, que geram amargura. Ela é produzida em nossos corações e é fruto de nossa reação, esvaziada de amor, àquilo que nos acontece.
Ao coração infectado pela amargura, o perdão é imprescindível. O perdão produz assepsia mental e emocional. Quem perdoa investe em si mesmo, faz opção pela vida. “Nós precisamos começar a amar para não adoecer”, afirmou Sigmund Freud e onde existir amor existira perdão.

Oliveira Fidelis Filho
Teólogo Espiritualista, Psicanalista Integrativo, Administrador,
Escritor e Conferencista, Compositor e Cantor.

VIA ESPIRITUALIDADE TERAPÊUTICA

O REPARADOR DE BRECHAS (OLIVEIRA FIDELIS FILHO)

O REPARADOR DE BRECHAS
Por Oliveira Fidelis Filho

“Serás chamado reparador de brechas e restaurador de veredas para que o país se torne habitável.” (Isaías 58.12) No livro de Isaías, no capitulo 58, versículos 1-14, o profeta desafia-nos a tornarmo-nos reparadores de brechas. Um relevante projeto de vida, pois o que não faltam são rachaduras, quer em nível pessoal, familiar, comunitário, social ou planetário. Parafraseando o Mestre, “as rachaduras são numerosas e os reparadores ainda são poucos”.
O reparador de brechas é alguém que vivencia uma espiritualidade para além da religiosidade. (Isaías 58.1-7). Caminha pelos estreitos caminhos do autoconhecimento, do auto-exame, da congruência. Repara em si mesmo o que precisa ser reparado, está sempre disposto a “fechar para balanço”. Entende que a inteireza depende de si mesmo e, portanto, busca ser pleno.
O reparador de brechas é alguém que promove a liberdade: “se tirares do meio de ti o jugo”. (Isaias 58.9).
Isaías refere-se ao jugo físico, sobre o trabalho escravo, sobre a servidão imposta a muitos por alguns. Com muita facilidade, lança-se mão do poder – físico, intelectual, financeiro, social, político, religioso, etc. – para oprimir o semelhante. O reparador de brechas, no entanto, usa sua capacidade, influência, para defender, acolher, proteger, libertar, aliviar. Entende que ser mais forte, seja em que área for, só serve se for para servir.
O reparador de brechas é alguém que promove liberdade com o uso das palavras. Muitos vivem sob a força destruidora das palavras. Sob esse jugo e opressão gemem esposas, maridos, filhos, pais, irmãos, entre outros. São inestimáveis e por vezes irremediáveis os estragos que palavras irrefletidas, carregadas de ódio, ira, inveja, esvaziadas de amor produzem na alma, no corpo e nos relacionamentos. Entretanto, da boca do reparador de brechas jorra “graça e a verdade” (Salmo 85.10). A verdade é comunicada com graça que suaviza, interioriza e valida a verdade dita.
O reparador de brechas é alguém que tem prazer em acolher: “se tirares do meio de ti o dedo que ameaça.” (Isaías 58.9).
A facilidade em acusar, julgar e condenar revela o quanto estamos envolvidos e cegados pelas sombras e destituídos de Luz. Quem condena geralmente abandona e dificilmente acolhe. O reparador de brechas sabe que “o que torna agradável o homem é a sua misericórdia” (Provérbios 19.22). Porta-se como filho de Deus, filho da Luz, pois, lembrando o profeta Isaías, “o Senhor espera para ter misericórdia de vós e se detém para se compadecer de vós, porque o senhor é Deus de justiça”. (Isaías 30.18).
O reparador de brechas crê na possibilidade de mudança, entende que estamos em processo de construção e aperfeiçoamento. Sabe que o que focamos se expande, portanto, concentra esforços nas possibilidades, na busca de solução, na valorização do que ainda funciona.
O reparador de brechas é movido pelo desejo de abençoar: “se tirares do meio de ti o falar injurioso.” ( Isaías 6. 9).
Entende que o falar injurioso, que acusa, insulta, ofende, não lhe diz respeito e por isso faz uso de “palavras agradáveis, como favo de mel; doces para a alma e medicina para o corpo.” (Provérbios 16.24). Ao falar, abre horizontes, gera sonhos, restaura a confiança, a auto-estima, produz motivação, refaz a esperança, acalma os ânimos, cessa a contenda, remove o jugo.
O reparador de brechas é dotado de compaixão: “se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita”. (Isaías 58. 7-10)
No livro de Jó, 19.21 é possível sentir seu grito quando diz: “compadecei-vos de mim, amigos meus, compadecei-vos de mim…” Não é um grito isolado, é o grito de milhões. Nos lares, nas igrejas, nos clubes dos ricos, nas favelas dos pobres, na alma do intelectual e do analfabeto, nos transportes coletivos apertados ou nos carros de luxo. O reparador de brechas possui a sensibilidade para ouvir gritos famintos da alma e do corpo e agir no sentido de supri-los.
O RESULTADO DE VIVER COMO RESTAURADOR DE BRECHAS
É alguém dotado de luminosidade. (Isaías 58.8). É alguém por meio do qual a luz de Cristo brilha através de seus atos de bondade e misericórdia.
É alguém cuja alma esbanja saúde emocional. (Isaías 58.8). O reparador de brechas não tem tempo para insônias, angústia, ansiedade, mágoas, ressentimentos ou para ficar deprimido, revoltado e tantas outras enfermidades dos dias atuais, resultantes de se viver ensimesmado.
As pessoas testemunharão positivamente sobre sua vida. (Isaías 58.8). Não é alguém que sinta necessidade de se promover ou de ser reconhecido, até porque muitos se encarregarão de fazer isso por ele.
Deixa um rastro da presença de Deus. (Isaías 58.8). O reparador de brechas não busca seus próprios interesses, portanto, por onde passa o que fica é a sensação de que foi o próprio Deus que passou por ali.
É alguém consciente de ser ouvido por Deus. (Isaías 58.9). A autoridade de sua oração vem de sentimentos e desejos em plena sintonia com a vontade de Deus.
Vive sem medo, guiado e fortalecido por Deus. (Isaías 58.11). Não sente necessidade de escolher entre a vida e a morte pois para ele dá tudo na mesma, tudo é vida e vida em abundância.
Será como jardim regado, um manancial. (Isaías 58.11). É do tipo que “passando pelo vale árido, faz dele um manancial” (Salmos 84.6) pois possui as fontes de vida jorrando a partir de sua interioridade. “Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas que, no devido tempo, dá o seu fruto e cuja folhagem não murcha.”(Salmos 1.3).
Seus filhos serão instrumentos de edificação. (Isaías 58.12). “No temor do Senhor, tem [o reparador de brechas] forte amparo e isso é refúgio para os seus filhos.” (Provérbios 14.26). Portanto, deixa para os filhos uma herança que ninguém tira: sua vida, seu nome, sua história, seus atos, seus frutos e, espelhados em seu exemplo, os filhos serão pessoas que contribuirão positivamente na edificação da sociedade. Diferentemente do “nome do perverso que cai em podridão, a memória do justo é abençoada” e abençoadora. (Provérbios 10.7). Sua vida será rememorada por gerações que usufruirão de sua luminosidade.
Deleita-se na Essência Divina. (Isaías 58.14). Vive a mais emocionante de todas as aventuras: a de caminhar com Deus na terra dos viventes. O reparador de brechas pode exclamar: “Cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem. Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente. Mais alegria me puseste no coração do que a alegria deles. Em paz me deito e logo pego no sono, porque, Senhor, só tu me fazes repousar seguro.” (Salmos. 13.6; 16.11; 4.8).

Oliveira Fidelis Filho
Teólogo Espiritualista, Psicanalista Integrativo, Administrador,
Escritor e Conferencista, Compositor e Cantor.

VIA ESPIRITUALIDADE TERAPÊUTICA

Bel Cesar :: Sua Vida Está Sem Graça?

Sua vida está sem graça?
:: Bel Cesar ::

Com a rotina cheia e muitos prazos a cumprir, facilmente nos sentimos estressados e tediosos. Podemos produzir muito, mas corremos o risco de perder o sabor de nossas conquistas. Por isso, quando caímos na sensação de que a vida ficou sem graça, é hora de fazer algo para recuperar seu frescor.
O que lhe dá a sensação de encanto pela vida? Fiz esta pergunta para um grupo de 20 pessoas. Escutei respostas como: despertar de bem com a vida,
compartilhar descobertas ao participar de uma rede interdependente de pessoas e eventos, enfrentar os erros e acertos com a intenção de se conhecer e se aprimorar, ter contato com a natureza e relacionar-se com bebês.
Em outras palavras, o que gera encanto pela vida é manter um estado aberto para a existência. Isto é, deixar-se surpreender pelas pessoas, lugares, ideias, sentimentos e emoções. Quando estamos abertos ao mundo, deixamo-nos ser atravessados pelas experiências à medida em que elas surgem. O ponto mais importante aqui é compreender que este “atravessamento” só pode ocorrer quando há espaço em nós para deixar o outro entrar.
Quanto mais receptivos estivermos para o outro, mais ele poderá nos oferecer. Neste sentido, quando perdemos o encanto pelo mundo e temos um sinal de que estamos demasiadamente ego-centrados: nos tornamos o centro do mundo. Ao usarmos a nós mesmos como referencial de percepção do mundo, passamos a nos comparar demasiadamente com tudo e todos.
Quando nada mais nos surpreende, é sinal de que já estamos tão fechados e rígidos em nossos hábitos e crenças que perdemos a abertura necessária para nos deixarmos ser tocados pelo desconhecido. Estamos cheios de “nós mesmos”!
Com o domínio do mundo tecnológico perdemos o contato entre as pessoas. O excesso de automatismo tornou nossos relacionamentos tão superficiais que perdemos a profundidade humana sem nos darmos conta. Apenas quando reconhecemos a fragilidade dos vínculos afetivos, como a falta de um comprometimento num relacionamento, é que paramos para pensar onde erramos. Cabe ressaltar que este já não é mais um erro pessoal, é um risco coletivo!
Uma vez que a automatização nos distanciou da realidade externa, ficamos “desconectados” pelo excesso de conexão superficial. A superficialidade e o automatismo nos tornaram áridos, sem brilho existencial.
Pelo excesso de conceitualizações, pensamos mais do que vivenciamos. No entanto, a experiência de vivenciar o conhecimento é que dá o prazer de conhecer algo.
Segundo o mestre budista Lama Yeshe nos tornamos inseguros ao desenvolvermos um conhecimento intelectual que não é capaz de tocar nossa experiência interna. Ele dizia: “Muita gente adquire um incrível entendimento intelectual do budismo com facilidade, mas este entendimento é estéril se não fertiliza o coração.” Desta forma, Lama Yeshe estava nos alertando para não deixarmos nossos pensamentos tornarem-se mecânicos pois se isso ocorrer eles deixarão de produzir algo que nos despertará interiormente.
Portanto, se quisermos recuperar o encantamento pela vida, teremos que nos abrir para sermos transformados pelas experiências que a vida nos oferece. Sejam elas agradáveis ou não. Desta forma, aceitamos lidar tanto com o prazer como com a dor.
A vida tem sua graça quando há um constante senso de interesse e curiosidade. Superar nosso medo da abertura é um obstáculo que teremos inevitavelmente que enfrentar. Mas, lembre-se: essa dificuldade não é só sua!

Bel Cesar é psicóloga e pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano. Trabalha com a técnica de EMDR, um método de Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares. Autora dos livros Viagem Interior ao Tibete, Morrer não se improvisa, O livro das Emoções, Mania de sofrer e recentemente O sutil desequilíbrio do estresse, todos pela editora Gaia.
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Email: belcesar[arroba]ajato[ponto]com[ponto]br

NIRVANA SHATKAM, O SEXTETO DA ILUMINAÇÃO

NIRVANA SHATKAM, O SEXTETO DA ILUMINAÇÃO
Adi Shankaracharya

mano-buddhyahaṅkāra-chittāni nāhaṁ
na cha śrotra-jivhe na cha ghrāṇa-netre |
na cha vyoma-bhūmirna tejo na vāyuḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 1 ||
Não sou mente nem razão; não sou ego nem memória;
Não sou audição, nem paladar, nem olfato nem visão.
Não sou espaço nem terra; não sou fogo nem ar.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 1.

na cha prāṇa-sañjño na vai pañchavāyuḥ
na vā saptadhātur na vā pañchakośāḥ |
na vāk pāṇipādau na chopasthapāyūḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 2 ||
Não sou o que se conhece como prāṇa nem os cinco alentos;
nem os sete elementos do corpo físico, nem os cinco kośas.
Não sou fala, nem mãos ou pés; nem sexo nem eliminação.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 2.

na me dveṣa-rāgau na me lobha-mohau
mado naiva me naiva mātsaryabhāvaḥ |
na dharmo na chārtho na kāmo na mokṣaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 3 ||
Não tenho apego nem aversão; nem ambição, nem ilusão;
orgulho e inveja não são meus; não tenho deveres,
nem objetivos, nem desejos, nem busco a libertação.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 3.

na puṇyaṁ na pāpaṁ na saukhyaṁ na duḥkhaṁ
na mantro na tīrthaṁ na vedā na yajñāḥ |
ahaṁ bhojanaṁ naiva bhojyaṁ na bhoktā
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 4 ||
Não sou virtude nem ação errônea; nem alegria nem sofrimento;
nem mantras nem lugares sagrados; nem escrituras nem rituais;
não sou prazer nem o que produz prazer, nem o desfrutador.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 4.

na me mṛtyuśaṅkā na me jātibhedaḥ
pitā naiva me naiva mātā na janma |
na bandhurna mitraṁ gururnaiva śiṣyaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 5 ||
Não sou morte nem medo; não tenho classe social;
nem pai, nem mãe, nem nascimento são meus;
não tenho parentes nem amigos; nem mestre nem discípulos.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 5.

ahaṁ nirvikalpo nirākāra-rūpaḥ
vibhutvāchcha sarvatra sarvendriyāṇām |
na chāsaṅgato naiva muktirna bandhaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 6 ||
Sou livre de pensamentos. Sou livre de estrutura e forma;
Estou conectado com os sentidos, pois permeio o existente.
Não sou apegado nem condicionado, nem [busco a] liberdade.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 6.

Introdução ao estudo do Nirvāṇa Ṣaṭkaṁ.

Ādi Śaṅkaracharya é uma das grandes referências da tradição védica, um elo especial nessa corrente viva de transmissão do autoconhecimento, chamada paramparā, que foi transmitida de professor para estudante ao longo dos milênios, e que revela a natureza real do ser humano, mostrando-o como alguém intrínsecamente livre de limitações e sofrimento.
O nome Nirvāṇa Ṣaṭkaṁ significa em sânscrito “Seis Estrofes da Iluminação”. Em apenas 24 versos, o autor resume de maneira magistral todas as dúvidas existenciais, todas as falsas identificações com os papéis desepenhados na vida de um ser humano, bem como oferece as soluções para cada uma das charadas metafísicas que surgem naturalmente no cotidiano.
Este não é, a rigor, um texto sobre instrução, mas um exercício de nididhyāsana, uma contemplação sobre quem somos. O sânscrito é muito simples e acessível, o que torna o poema de fácil recitação e memorização. Não obstante essa simplicidade da linguagem, o significado é profundo e potencialmente transformador.
Podemos compreender o recado em minutos, mas aplicá-lo na vida pode nos levar anos e anos. Este tipo de texto é chamado prakarāṇa. Este termo é aplicado a textos que explicam aspectos peculiares do ensinamento, na forma de reflexões meditativas e, ainda, permitem inferir aplicações práticas desse ensinamento.

Estrofe 1.

mano-buddhyahaṅkāra-chittāni nāhaṁ
na cha śrotra-jivhe na cha ghrāṇa-netre |
na cha vyoma-bhūmirna tejo na vāyuḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 1 ||
Não sou mente nem razão; não sou ego nem memória;
Não sou audição, nem paladar, nem olfato nem visão.
Não sou espaço nem terra; não sou fogo nem ar.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 1.

O texto começa citando uma série de associações que normalmente fazemos, tomando como certo que somos o conteúdo dos nossos pensamentos. A primeira pessoa à qual o texto se refere, “eu” não é, evidentemente, o ego ou a personalidade, mas Ātma, o Ser pleno, manifestado como a pessoa simples e tranquila, e não como uma personalidade exigente e não cessa de fazer cobranças de si mesma e do mundo.
No segundo verso, o autor reflite, e nos convida para fazermos a contemplação junto a ele, sobre o fato de que nós tampouco somos os órgãos sensoriais, nem aquilo que eles percebem, nem os elementos densos que constituem a natureza manifestada.
A identificação com os conteúdos do psiquismo é, embora natural, o produto da ignorância existencial. Poderíamos nos perguntar a razão pela qual o autor usa quatro termos diferentes para se referir ao psiquismo, que nós chamamos muitas vezes mente. O psiquismo se move em quatro direções diferentes, que determinam esses nomes. Śrī Śaṅkaracharya, na Vivekachudamani (ślokas 95 e 96), define o psiquismo nos seguintes termos:
“Antaḥkarāṇa, o órgão interno, é conhecido por quatro diferentes nomes: manas, buddhi, ahaṅkāra e chittam, de acordo com suas distintas funções. Quando há um movimento em forma de dúvida, isso é chamado manas, pensamento. Quando há um conteúdo em forma de afirmação, é chamado buddhi. Quando acontece uma lembrança, isso é chamado chittam. Independentemente do tipo de função, recebe o nome de antaḥkarāṇa.”
Portanto, qualquer movimento do psiquismo deve ser reconhecido como conteúdo, e não como Consciência, como o Ser invariável que observa esses movimentos. A palavra Śiva, que se repete, à guisa de adágio, como verso que encerra cada estrofe ao longo do poema, não designa, neste contexto, o deus hindu da dança e da transformação, mas à própria Consciência.

Estrofe 2.

na cha prāṇa-sañjño na vai pañchavāyuḥ
na vā saptadhātur na vā pañchakośāḥ |
na vāk pāṇipādau na chopasthapāyūḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 2 ||
Não sou o que se conhece como prāṇa nem os cinco alentos;
nem os sete elementos do corpo físico, nem os cinco kośas.
Não sou fala, nem mãos ou pés; nem sexo nem eliminação.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 2.

Na sequência, o poema continua fazendo uma série de negações em relação ao corpomente, sua fisiologia, funções, qualidades e elementos constituintes. Similarmente às ações do psiquismo, o prāṇa, a força vital, também assume cinco formas, que realizam as diferentes funções fisiológicas: prāṇa, samāna, vyāna, udāna e apāna. Essas funções são, respectivamente, absorção, digestão, circulação crescimento e eliminação. Elas são chamadas vāyus, ou alentos vitais.
Depois é feita uma reflexão sobre a não-identificação em relação aos dhatus, os sete constituintes do organismo físico: medula, gordura, músculos, sangue, linfa, pele e cutículas. Os cinco kośas, ou “camadas” do jīva, o ser vivente, são mencionados por primeira vez na tradição do Yoga na Taittirīya Upaniṣad. Esses kośas constituintes do corpomente são os seguintes: annamayakośa, prāṇamayakośa, manomayakośa, vijñāmayakośa e ānandamayakośa. Respectivamente, as camadas de alimento (corpo físico denso), vitalidade, pensamento, intelecto e plenitude.
O autor nos convida, a seguir, para reconhecer que, além de não sermos nenhuma dessas funções fisiológicas ou sutis, tampouco somos os cinco órgãos de ação, karmendriyas: fala, mãos, pés, reprodução e eliminação. Muitas vezes nos identificamos com essas funções, e os tipos de ação que cada uma delas desempenha. Conclui-se esta estrofe com o adágio “Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser”. Como ser autoefulgente, que brilha por si mesmo, sou plenitude.

Estrofe 3.

na me dveṣa-rāgau na me lobha-mohau
mado naiva me naiva mātsaryabhāvaḥ |
na dharmo na chārtho na kāmo na mokṣaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 3 ||
Não tenho apego nem aversão; nem ambição, nem ilusão;
orgulho e inveja não são meus; não tenho deveres,
nem objetivos, nem desejos, nem busco a libertação.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 3.

Todos os conteúdos do psiquismo, julgamentos e sentimentos como apego ou aversão, orgulho, raiva e demais emoções, naturalmente estão conectados com o antaḥkarāṇa e, dessa maneira, nada tem a ver com Ātma. Emoções e pensamentos pertencem à esfera do psiquismo, e a natureza desses conteúdos é dinâmica e mutante, enquanto que o Ser é o observador invariável, ilimitado e imutável
O terceiro verso desta estrofe faz uma clara referência aos puruṣārthas, os quatro propósitos humanos válidos, que são os seguintes:
1) Kāma, a busca da satisfação, o prazer e o conforto,
2) Artha, a realização de ações que tragam prosperidade e segurança,
3) Dharma, a conduta adequada, que rege o bom convívio, e
4) Mokṣa, a busca da liberdade, que é o mais elevado ideal da vida humana.
As regras do dharma, que visam cultivar valores universais em prol do bem comum, o convívio harmonioso e uma vida tranquila, não se aplicam àquele que resolveu estes conflitos com as próprias emoções e completou o processo de maturidade emocional e autoconhecimento, que culmina em mokṣa, a libertação. É por isso que, no início do terceiro verso, Śaṅkaracharya afirma “ eu não tenho deveres”.
Devemos lembrar que existe o perigo de avaliar incorretamente o que possamos chamar de “evolução espiritual” em relação a este tipo de apego. Isso significa, noutras palavras, que sempre devemos cultivar uma atitude aberta e humilde, e nunca, nunca mesmo, considerar que estamos “acima do bem e do mal” ou que estas regras dhármicas não precisam ser aplicadas em relação a nós mesmos.
A pessoa que completou esse processo, desta maneira, não busca mais a liberdade, já que conhece a si próprio como alguém intrinsecamente livre e pleno. Essa conclusão fica claramente estabelecida no verso final “Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser”.

Estrofe 4.

na puṇyaṁ na pāpaṁ na saukhyaṁ na duḥkhaṁ
na mantro na tīrthaṁ na vedā na yajñāḥ |
ahaṁ bhojanaṁ naiva bhojyaṁ na bhoktā
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 4 ||
Não sou virtude nem ação errônea; nem alegria nem sofrimento;
nem mantras nem lugares sagrados; nem escrituras nem rituais;
não sou prazer nem o que produz prazer, nem o desfrutador.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 4.

O sábio não se identifica com suas ações, sejam elas puṇyaṁ ou pāpaṁ, certas e em harmonia com o dharma e o bem comum, ou erradas e contrárias a ele, pois ele sabe que Ātma não é o agente das ações. Isso, como foi explicado no comentário da estrofe anterior, não significa que as regras do dharma não se aplicam ao iluminado. Pelo contrário: ele é uma encarnação viva da plenitude e suas ações fluem dentro da compaixão, a gratidão, a solidariedade e a consideração.
Na segunda parte do primeiro verso, Śaṅkaracharya ainda fala sobre a necessidade de se desapegar de sentimentos opostos como alegria e tristeza, prazer e dor, já que eles são transitórios e o apego àquilo que é transitório termina sempre em mais sofrimento.
Enquanto Ātma, não sou karta, nem bhokta, nem duḥkhi: não sou o agente das ações, nem aquele que desfruta os resultados desejáveis, nem o que sofre com os frutos indesejáveis desses atos. Ātma é asaṅgaḥ, desapegado e independente desses conteúdos. Este termo, asaṅgaḥ, que se traduz habitualmente como desapego ou independência, irá aparecer na última estrofe do sexteto.
A pessoa que está firmemente estabelecida no autoconhecimento, o Brahmaniṣṭhaṁ, não tem necessidade de fazer rituais, preces ou peregrinações, uma vez que não há interesse em nenhum tipo de ganho ou mérito espiritual que possa advir desse tipo de ação. Se ela continua com suas meditações e atos rituais, é por um ato volitivo puro e livre.

Estrofe 5.

na me mṛtyuśaṅkā na me jātibhedaḥ
pitā naiva me naiva mātā na janma |
na bandhurna mitraṁ gururnaiva śiṣyaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 5 ||
Não sou morte nem medo; não tenho classe social;
nem pai, nem mãe, nem nascimento são meus;
não tenho parentes nem amigos; nem mestre nem discípulos.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 5.

Os papéis que representamos na sociedade, dentro da família, em relação ao meio ambiente ou aos demais, são sempre relativos. Esses papéis não são inerentes ao Ser. Porém, viver é representar papéis. Não há existência sem cumprir deveres, realizar ações e obrigações. Somos mãe ou pai, filho ou filha, irmão ou irmã e, em cada uma dessas posições, cultivamos atitudes e modos diferentes de nos comunicar.
Um papel é um dever, uma obrigação ou função que se cumpre na sociedade ou na família. Essas obrigações são chamadas vyavahāraḥ em sânscrito. O conceito de vyavahāraḥ é muito importante dentro da filosofia do Yoga. Ele pode ser traduzido como responsabilidade, esforço ou dever cotidiano. Obviamente, isso está vinculado com as maneiras corretas de agir, que sempre devem estar em conformidade com o dharma.
Atores e papéis.
Embora nossa existência não dependa da representação de quaisquer papéis, nós não podemos fugir deles. Portanto, deveríamos permanecer cientes de que a nossa felicidade não depende de representar ou deixar de representar um dado papel. A personagem somente existe porque o ator existe. A existência do ator não depende da representação do papel. Comparemos os papéis que desempenhamos na sociedade com a situação do ator que representa diferentes personagens, através de dois exemplos ensinados por Swāmi Dayānanda.
Caso 1: confusão entre o ator e o papel.
Digamos que o ator João representa o papel do operário Luiz. O roteiro da peça indica que o operário Luiz leva uns socos do capataz Bernardo, representado pelo ator Francisco. Porém, acontece que o João naquele dia está sem paciência e confunde as coisas. Aí, após o primeiro sinal de agressão por parte do capataz, o operário revida os golpes e machuca de verdade o ator Francisco. Finda a peça, o diretor vai tirar satisfações com o João, que responde: “revidei porque não ia deixar que ele me batesse mais. Eu não levo desaforo para casa!”
Este é o típico caso da pessoa que, envolvida como está com os papéis que representa, esquece que ela não é nenhum desses papéis. O ator João não agiu. Ele apenas reagiu emocionalmente. O amigo leitor pode achar engraçada esta situação, mas isso já aconteceu de verdade numa encenação do épico Rāmāyāna em Tamil Nadu, sul da Índia. O ator que representava o príncipe Rāma enloqueceu e feriu com golpes de espada o ator que encarnava o demônio Rāvaṇa.
Caso 2: representação consciente de um papel.
Numa outra hipótese, o ator João, que faz sucesso e prosperou graças ao seu talento, representa o papel de um mendigo que sofre e chora. O ator pode sorrir e pensar para si mesmo enquanto derrama copiosas lágrimas: “Que felicidade! Estou chorando bem como nunca!” Apesar dos graves problemas vividos pela personagem, o ator não é atingido por esses problemas.
Ele sabe perfeitamente que a representação é uma representação e mais nada. No fim da peça, pendura as roupas do mendigo, veste as suas e sai alegremente para jantar com os amigos. As lágrimas ficaram para trás. Neste caso, João era plenamente ciente de estar apenas representando um papel. A consciência de si mesmo como João estava presente antes, permaneceu durante a encenação do sofrimento do mendigo e permanece depois que a peça termina.
Relacionamentos inteligentes.
Relacionamentos inteligentes se constróem pela descoberta do espaço que há entre quem nós somos e os papéis que representamos. A realidade de qualquer relação é que sempre há um fator variável e um constante. Desde seu ponto de vista, você é o invariável, e todos aqueles que nos relacionamos com você (inclusive eu, ao escrever estas linhas), mudamos constantemente.
Essa pessoa invariável que você é assume diferentes atitudes, dependendo dos papéis que estiver representando. No entanto, se você fizer uma lista dos seus problemas, descobrirá que eles estão ligados unicamente a esses papéis. Em suma, objetivamente falando, você não tem problemas para chamar de seus. Os problemas são inerentes aos papéis que você representa, mas não são seus.
Swāmi Dayānanda ensina: “Se você tiver problemas como pai, filho, esposo ou esposa, você deve compreender que está confundindo a si mesmo com seus papéis. Se você confunde um papel com si mesmo, não há problema algum. Mas, se confunde a si mesmo com um papel, então, definitivamente, essa confusão vai levar você a um estado de sofrimento e desespero.
“Você precisa compreender que o Eu é livre de todos os papéis e situações, livre até mesmo da própria mente. Apenas com essa compreensão dos truques da mente você irá se tornar mestre dela, usando-a como um instrumento para aprender, para apreciar, para amar.” A estrofe termina do modo habitual, com o bordão “Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser”.

Estrofe 6.

ahaṁ nirvikalpo nirākāra-rūpaḥ
vibhutvāchcha sarvatra sarvendriyāṇām |
na chāsaṅgato naiva muktirna bandhaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 6 ||
Sou livre de pensamentos. Sou livre de estrutura e forma;
Estou conectado com os sentidos, pois permeio o existente.
Não sou apegado nem condicionado, nem [busco a] liberdade.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 6.

Como foi visto até este ponto, Ātma não está condicionado pelas limitações intrínsecas ao corpomente. Havendo uma absoluta identidade entre Ātma e Brahman, o Ser individual e o Ser não-manifestado, Ātma é ilimitado e invariável, assim como Brahman. Qualquer tipo de apego será uma forma de identificação com as coisas do corpo ou do psiquismo.
Mokṣa, a liberdade, não é uma experiência, nem ganhar algo que não se possui. É, pelo contrário, destruir a ignorância em relação a si mesmo. Ao ganharmos autoconhecimento percebemos que, em verdade, não houve escravidão em nenhum momento. Percebemos que sempre fomos libertos, mas não sabíamos disso.
Asaṅgataḥ significa não-condicionado, não-identificado. Libertação é o reconhecimento de que já somos Brahman, ao invés de um corpomente limitado, como é explicado na tradição do Vedānta com o exemplo do pastor distraído, que busca aflito no vale o cordeiro que está carregando em seus próprios ombros. Mokṣa é dar-se conta, é reconhecer e firmar-se naquilo que já somos. Namaste!

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Texto para distribuição livre, desde que você dê um beijo nos seus seres amados hoje. Um agradecimento especial ao meu guru, Swāmi Dayānanda, e aos bons amigos e companheiros de caminhada na senda do Yoga e o autoconhecimento. Existem algumas versões deste sexteto, que apresentam pequenas variações em alguns versos, notadamente na terceira linha da última estrofe. A que aqui apresentamos é a que aprendemos com o nosso mestre. Ela pode ser encontrada uma tradução ao inglês no livro Vedic Heritage Teaching Programme, de Swāminī Pramāṇānada Sarasvatī e Śrī Dhīra Chaitanya, publicado pelo Pūrṇa Vidyā Trust de Tiruvannamalai, Índia, em 2009.
Tradução e comentários de Pedro Kupfer.
Hariḥ Oṁ!

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DHAMMAPADA (FRAGMENTO)

DHAMMAPADA (FRAGMENTO)

Buddha (Siddhartha Gautama)

129-130. Todos tremem à vara, todos temem a morte. Portanto, não mate nem leve outros a matar. Todos tremem à vara, todos temem a morte. Portanto, preserve a vida os outros, tão preciosa.
131-132. Quem castiga para prejudicar seres vivos que desejam facilidade, quando ele mesmo a estiver procurando, não a encontrará, depois da morte. Quem não prejudica seres vivos que desejam facilidade, quando a estiver procurando, a encontrará, depois da morte.
133-134. Não fale severamente com ninguém, ou as palavras serão lançadas contra você. A palavra colérica é dolorosa. Quem a pronuncia é golpeado em retorno. Se, como gongo quebrado, você não ressoa, atingiu o Nirvana. Não encontrará nenhum limite.
135. Como um pastor que com uma vara leva o gado para o campo, assim envelhecendo e morrendo, a vida conduz os seres vivos.
136. Ao fazer ações más, o bobo é inconsciente. O simplório é atormentado por suas próprias ações como queimado por um fogo.
137-140. Quem, com uma vara, molesta um homem inocente e desarmado, depressa entra em quaisquer destas dez coisas: dores severas, devastação, corpo quebrado, doença séria, distúrbio mental, aborrecimento com o governo, difamação violenta, perda dos parentes, dissolução da propriedade ou casa destruída por incêndio. Depois da separação do corpo, o sem discernimento reaparece no inferno.
141-142. Nem a nudez de cabelo, nem a lama, nem o jejum, nem dormir no chão nu, nem pó e sujeira, nem austeridades limpam o mortal que não saiu de suas dúvidas. Se, entretanto, bem vestido, a pessoa vive com a vida pura – acalmou, domesticou ou concentrou -, que a ninguém castiga, é um meditador, um brâhmane, um monge.
143. Quem no mundo é livre de qualquer censura, desperto para censurar como um corcel de puro sangue, e não merece nenhuma chicotada?
144. Como um corcel puro sangue golpeado pelo chicote, seja ardente e rápido. Por convicção, virtude, persistência, concentração, julgamento, consumando o conhecimento, a conduta, atento, você abandonará a dor.
145. Lavradores guiam a água. Flecheiros amoldam o cabo de seta. Carpinteiros amoldam a madeira. Os controlados praticam o bem.

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ORAÇÕES – SATSANGA COM SWAMI DAYANANDA SARASWATI


Swamiji, você pode nos dizer como a oração funciona e como a oração feita por alguém pode afetar particularmente esta pessoa?

Como você não pode se alimentar por outra pessoa, pode parecer, no entanto, que a oração não possa ser feita para uma outra pessoa. Mas orar não é como se alimentar. Não é como aquele que tem fome e que precisa ser satisfeito. Orar é uma ação, um karma, como tomar banho. Não apenas você pode banhar o seu próprio corpo, mas você pode dar banho no corpo da sua criança. Orar, então, não é como se alimentar; é mais como tomar banho. Ou seja, orar é um processo de pensar, um tipo particular de pensar.
Numa oração, há alguém que ora e um altar em que a pessoa oferece a sua oração. Há também uma maneira de se orar envolvida, a qual difere de pessoa para pessoa. Uma oração pode ser feita com palavras simples ou pode ser elaborado um ritual altamente tradicional que é aprovado pelas escrituras. Ela pode ser puramente oral ou mental. 
Ramana Maharishi, na Upadesa Saram, descreve a oração como uma ação que envolve três atos ou Karma: físico (kayikam), oral (vasikam) e mental (manasam). O ritual é uma forma física de orar. Cantar em louvor ao Senhor, (bhajans) é uma forma oral de orar e cantar um mantra mentalmente é uma forma mental de orar.
Junto ao sujeito que ora e o altar, a oração sempre tem um propósito como qualquer ação. Você sempre ora porque quer alguma coisa. Sem um objeto de desejo não há uma oração. Você pode querer alguma coisa específica ou você pode querer clareza mental (antahkarana suddhi). Ou você pode orar “Permita que o senhor fique contente com a minha oração”, porque você quer fazer parte da lista dos bonzinhos do Senhor. Você quer que ele olhe por você agora e depois.
Ainda que o Senhor tenha olhos que escaneam a todos, você pode sentir, de algum modo, que é sempre inspecionado. Ele parece olhar para os outros o tempo todo, mas quando se dirige a você, algo acontece – Ele pisca ou fecha os olhos ao mesmo tempo. Você pode não pedir por um olhar direto, ma apenas por uma olhadinha.
Mesmo que eu ore com o fim de alcançar algo para mim ou para alguém e até mesmo quando eu ore em benefício de uma outra pessoa, a oração ainda é a minha oração. Quando eu noto alguém que está infeliz, que está sofrendo, eu também sofro porque eu sou humano.
Eu sou afetado pela condição daquela pessoa e eu não posso suportar isso. Eu quero que a pessoa seja feliz, o que verdadeiramente significa que eu quero ser feliz. Portanto, uma oração feita para os outros é também feita em interesse da minha própria felicidade.
Tudo está centrado apenas em mim. E, então, eu não sou, deste modo, uma pessoa embotada, insensível, que fica feliz quando alguém por perto se sente infeliz. Portanto, toda vez que eu oro por alguém, eu estou orando pela minha própria felicidade. Até mesmo quando eu sou culturalmente maduro o suficiente para orar, “Permita que o mundo todo seja feliz”, isto é porque eu não posso ficar em um mundo que seja infeliz.
Eu estou falando aqui, certamente, em nível empírico. Eu gosto de ver os outros felizes e então eu posso ser feliz. Então, toda oração é apenas para o meu bem. Quando eu oro para a minha esposa ou minha criança, quando eu digo, “Permita que minha família esteja protegida”, há um prolongamento de mim, que eu edito o tempo todo.
Não é preciso ser americano, por exemplo, para ser influenciado pelo fato de um americano ter sido feito refém. Qualquer ser humano será influenciado, uma vez que ele ou ela saiba sobre as possíveis conseqüências de tal ação. Assim, orar pelos outros é eficaz, mas a oração é para você mesmo.
Para ver como uma determinada oração é eficaz, como produz resultados, nós temos que analisar a natureza daquele que ora. Duas coisas acontecem quando você ora. Pois, orar é importante. Não é fácil sentar e orar, mas quando você o faz, um tipo de ação acontece. Por outro lado, você não poderia apenas sentar e orar, pois o ego não iria permitir.
Alguns oram porque acreditam que Deus vai ficar zangado se você não orar. Elas são pessoas simples que não tem entendimento de si mesmas ou do Senhor, mas elas oram. Há outros que não podem orar ou que acham muito difícil orar. Mas, você pode orar e produzir um resultado que é imediato (drstaphalam). Portanto, você já fez alguma coisa.
Quando a oração é para ter clareza mental, “Permita que minha mente fique limpa”, a oração por si só é uma auto-sugestão. E pedindo por algo, você está aceitando um outro poder, um poder mais elevado do que você mesmo, um poder que é absoluto. Você também está aceitando a limitação do seu próprio conhecimento. Isso é um simples pragmatismo. Geralmente você tende a esquecer as limitações do seu próprio poder e conhecimento e então a oração por si só faz você se lembrar deles. Se uma pessoa tem que ser objetiva, ele ou ela deve conhecer as suas limitações.
Não ser capaz de aceitar uma derrota, por exemplo, significa que nós não conhecemos os nossos limites e aqui está o problema. Mesmo que eles sejam conhecidos, nós não queremos aceitar as nossas limitações. Na verdade, não há derrotas, por causa de nossas limitações, pois nós achamos que nós temos sido um sucesso. Em todas as áreas da vida, nós encontramos algum sucesso. Toda vez que nós cruzamos a estrada, nós somos um sucesso, se nós fizermos isso! Quando nós dirigimos um carro e chegamos a nosso destino, nós somos bem sucedidos. Esses sucessos requerem muita graça. Se você pode orar, isto é uma grande coisa, porque isto implica uma aceitação da sua parte, não apenas das suas limitações, mas também a aceitação de uma fonte ilimitada, que pode trazer algumas mudanças. Isto por si só é muito belo e é o que significa ser um resultado imediato (drstaphalam) da oração. Você pode chamar isso de efeito psicológico ou o que quer que seja, mas o resultado é visível. Há também um resultado não visto (adrstaphalam) da oração, que está onde a fé aparece. O fazedor, o agente da ação de orar diz “Isto é o que eu quero”. A ação e o que foi expresso traz um resultado o qual é puramente sutil em espécie, não percebido. Este resultado não percebido manifestará no tempo e é o que nós chamamos de graça. Ele é produzido pela ação e provém do agente da ação, aquele que ora.
Se você aceita a lei do karma, você pode vir a perceber que a maioria dos problemas são trazidos por um karma passado, desta vida ou de vidas passadas. Um problema no estomago ou câncer, por exemplo, pode ser o resultado de uma karma do passado; ou você diz que o problema é hereditário ou genético, o que é apenas um jeito diferente para explicar isso. No mesmo sentido, isto é a mesma coisa. Indo mais longe, você poderia perguntar por que nasceu com esses genes particulares. Por que você deveria estar nesta situação? Por que você não teve pais diferentes? Se você fizer estas perguntas a um biólogo, ele ou ela desistirá de responder e dirá “Vá e pergunte a um Swami, este não é meu campo.”
Nós dizemos que há uma seleção natural de país que acontece de acordo com certas leis. Se há esta tal coisa como a uma alma sobrevivendo à morte, deve haver leis que governam uma grande gama de combinações possíveis. Muitos aspectos tem que ser organizados – tempo, lugar, ascendência, a posição dos pais, significando as condições pelas quais eles estão casados – tudo o que afeta, de algum modo, a criança que vai nascer. Desse modo, cada pessoa tem um tipo particular de karma. 
Karma é uma grande rede e é puramente mecânico. Do ponto de vista do Karma, sua dor no estomago pode ser um resultado tanto de um karma do passado ou de um karma do presente. Isto pode ser devido a algumas inúmeras razões: excesso de comida, álcool ou a condição da sua mente, as quais podem ser vistas em termos de tanto do imediato ou do passado remoto. Se você se preocupa com isso, você apenas adiciona mais a seu passado. Portanto, afligir-se é inútil. O passado já aconteceu e não pode ser mudado. Eu aceito isto e então eu oro. Certos danos podem ter sido feitos ao meu estomago por causa de eventos passados. E, então, há alguma coisa que eu possa fazer quanto a isso agora? Sim, eu posso orar “Permita que esta oração produza resultados que poderão neutralizar o karma passado.”
A lei do karma é sutil. Nós não sabemos o que é o karma passado. Nós apenas nos damos conta disso quando alguma coisa ocorre e isto pode ser devido a um karma passado. Talvez você ganhe na loteria e chame isso de sorte ou perca alguma coisa e chame isso de má sorte. Tudo isso é karma do passado. Ao invés de todos os esforços e planos, situações que nós chamamos de má sorte continuam acontecendo. Não apenas acontecimentos extraordinários são considerados pelo karma. O karma está se revelando todos os dias. 
O que você está fazendo neste exato momento pode ser devido a um karma passado. Você pode nem vê-lo. Quando acontecimentos extraordinários ocorrem e nós não podemos imediatamente nos dar conta por essas causas, nós recorremos a algum karma do passado para explicá-los.
Se o resultado é favorável você chama isso de sorte. Até um sério e não doutrinado ateísta explica tal evento em termos de sorte sempre que ele ou ela pega um ônibus, por exemplo. O ônibus parte tão logo que a pessoa entra, deixando outras pessoas para trás. Olhando de volta, ele ou ela diz “Que maravilhoso! Que sorte! Da mesma forma, quando a pessoa perde o ônibus, ele ou ela chama isso de má sorte. Pessoas perdem ônibus na vida e há muitos ônibus. Não importando como cuidadosamente nós nos planejamos, no último minuto alguma coisa pode acontecer o que nos faz pensar em má sorte. Esses acontecimentos são puramente sutis, indicadores da existência de alguma coisa em que nós não somos capazes colocar o nosso dedo. Nós não sabemos onde isso existe, o que é, ou como se desenrola. Nós apenas sabemos que continua acontecendo e há algum padrão nisso.
Como eu posso neutralizar o passado imediato e o remoto? Há certas coisas que eu posso fazer. O que eu tenho que fazer, eu faço, usando o meu esforço. Junto com o esforço eu necessito de entusiasmo, coragem, conhecimento, recursos, disposição e capacidade para enfrentar os obstáculos. E, com tudo isso, eu posso ainda perder o ônibus e é por isso que eu necessito orar. Se estas seis qualidades estiverem presentes, o Senhor pode ajudar, se eu orar. Todas as seis devem estar lá. Eu não posso simplesmente sentar e orar. O senhor oferece a sua ajuda para nós quando oramos. Isto é porque, a ação de orar é prescrita três vezes ao dia, ao nascer do Sol, ao meio dia e novamente ao por do Sol.
O propósito da oração é agradar ao Senhor e eliminar ou neutralizar as ações equivocadas de alguém. Mesmo que você não esteja compromissado às ações que não são equivocadas, naquele dia, sempre há uma pendência do passado que está se revelando a cada dia.
Todo ser humano é uma mistura de boas ações (punya) e ações equivocadas (papa). Não existe exceções. Punya significa, aquela situação conducente que se revelará e papa significa aquela não conducente ou a dolorosa situação que se revelará. Algumas vezes você verá tanto punya ou papa virem em ondas num período de tempo, em alguns anos, em alguns meses ou em algumas semanas, uma após a outra. Pode não haver nada, mas papa por um período de tempo e então, posteriormente, você percebe que tudo vai indo bem, em termos gerais. Mas, num certo dia, você perceberá que há sempre uma combinação dos dois, punya e papa.
A manhã pode ser maravilhosa, mas porque o Sol está brilhando, você sai para jogar tênis e torce seu tornozelo. Por quatro dias você não pode fazer nada. E é assim que funciona. A vida nada mais é do que uma mistura de punya e papa porque o corpo nasceu disso. Portanto, nós encontramos acontecimentos que nos agradam e que não nos agradam o tempo todo. Todos sabemos disso. Nós bem sabemos o que nós não ditamos os desígnios da vida. Nós até temos uma filosofia pessoal para enfrentarmos isso, como essa: “É assim que a vida é! O bom e o mau estão prontos a acontecer.”
Nós precisamos de uma filosofia pessoal para lidar com as situações agradáveis e desagradáveis que sempre estão lá. Tudo pode estar indo bem, mas o carro não pega. Ou o carro pega, mas para no meio da via expressa, nas altas horas da noite, a seis milhas do posto de gasolina. Teria sido melhor se não tivesse funcionado logo no início. Tais situações podem ser devido a omissões e ordens de um passado imediato ou talvez devido a papas antigos os quais você tem que neutralizar ou diminuí-los. E isto é o que se entende por resultado invisível da oração. Um resultado invisível é neutralizado por um outro resultado invisível.
Suponha que enquanto você está dormindo, seus bolsos estão cheios de dinheiro e cartões de créditos e você sonha que está faminto e que não tem nada para comer por três dias e que você não tem dinheiro. Que utilidade tem o dinheiro no seu bolso? Eu nem posso comprar uma coca-cola no sonho. Para comprar uma coca-cola sonhada você precisa de um dinheiro sonhado. Similarmente para encontrar punya e papa que estão se revelando diariamente, minuto a minuto, você tem que continuar reunindo anticorpos neutralizadores. Orar faz isso. Orar não é apenas para a clareza mental. Ao produzir resultados que não são vistos, estes resultados também podem cuidar previamente das ações que são erradas. Assim, orar é eficaz. Então você pode dizer; “Eu tenho orado, mas nada acontece.” E para isso eu digo: “ Se você não orar. Muitas outras coisas podem acontecer.” Como nós podemos saber que elas não iriam acontecer?
Havia uma senhora idosa que recitava mantra (japa) com seu rosário o dia todo. Mesmo que ela fizesse isso religiosamente, ainda ela criava problemas para a sua nora. Ela somente parava o tempo suficiente para lhe dizer: “O leite está fervendo,” ou “Faça isso, faça aquilo.”
Assim, ela atrapalhou a vida da pobre garota que era uma recém chegada aos serviços domésticos. Após vários anos de convivência na mesma casa, a nora me disse que mesmo que a sogra tivesse feito muito japa, ela não notou qualquer mudança nela. “Ao passar de dez anos, eu apenas tenho visto as contas do rosário se tornarem mais finas, desgastadas, enquanto que a mente dela e comportamento continuavam tão áspero como eram antes. Apenas as contas do rosário é que perderam a aspereza.”
Minha resposta foi: “Suponha que ela não tivesse feito japa, imagine o que ela poderia ter feito no lugar disso.” Teria sido impossível viver na mesma casa com ela. Como você sabe que isto não teria sido pior? A idosa que orou na forma de japa produziu resultados, talvez não muitos, porque há um longo caminho a percorrer; mas, definitivamente, isto produziu algum resultado.
Há leis que tomam conta de tudo isso e então tudo o que temos a fazer é orar, pois orar é uma parte inteligente de um esforço inteligente que uma pessoa faz. Uma pessoa inteligente é aquela que leva vários fatores em conta antes de fazer algo. E, nós desconsideramos as nossas limitações e oferecemos uma oração, assim mesmo; então, as leis cuidam dos resultados.

OM TAT SAT.

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DÁRCIO DEZOLT – TESOUROS DA METAFÍSICA – PARTE 1

Tesouros da Metafísica
Dárcio
1

O homem é a expressão do ser de Deus. Se alguma vez tivesse havido um momento em que o homem não expressasse a perfeição divina, então teria havido um momento em que o homem não teria expressado Deus, e, por conseguinte, um momento em que a Divindade teria deixado de ser expressa, isto é, teria ficado sem entidade. Se o homem perdeu a perfeição, então perdeu o seu Princípio perfeito, a Mente divina. Se o homem alguma vez tivesse existido sem esse Princípio perfeito ou Mente, então a existência do homem teria sido um mito.
As relações entre Deus e o homem, o Princípio divino e a ideia divina, são indestrutíveis na Ciência; e a Ciência não concebe um desgarrar-se da harmonia, nem um, retornar à harmonia, mas sustenta que a ordem divina ou lei espiritual, na qual Deus e tudo o que Ele cria são perfeitos e eternos, permaneceu inalterada em sua história eterna.
(Mary Baker Eddy)

O trecho acima revela o ponto em que devemos nos deter, se quisermos vivenciar a Verdade revelada. Não há duas existências: a divina e perfeita, ao lado de outra, humana e imperfeita. Esse dualismo é a ilusão, a aceitação de uma dupla existência, quando erroneamente nos posicionamos num ilusório referencial de existência, numa condição continuamente imperfeita, para ficarmos almejando sempre alcançar a perfeita.
Que é ilusão? É nada! A suposta aceitação de um fato inexistente! Ilusório! O ponto de partida é a admissão plena e incondicional de que Deus é Tudo! Assim, teremos sustentação para encarar o Fato verdadeiro, a nossa relação de unidade inquebrantável com Deus, e a consequente aceitação de que a Mente única, divina, é a nossa única Mente atual. Se aceitarmos que o homem desgarrou-se da harmonia, estaremos iludidos, estaremos utilizando a “mente humana”, e esta é inexistente! Esta mente ilusória tenta nos fazer crer que a harmonia ficou faltante em algum ponto, e que deveríamos trazê-la de volta. Aqui está o segredo da prática metafísica! Decididamente desmascaramos esta fraudulenta mente humana com o Fato verdadeiro: Deus é nossa Mente atual e única! Ela discerne a harmonia perene e intocável! Ela reconhece a Onipresença desta Harmonia infinita! Ela sabe que esta Harmonia É! E sabe que esta Harmonia é TUDO que É!
Assim como a onda expressa o mar, com ele em unidade, o homem expressa Deus, também em unidade. Um Deus perfeito Se expressa como homem perfeito. Assim cada um de nós já é! A suposta mente humana, ilusória, deve ser desconsiderada! Não ficará “positiva”, mas sim reduzida ao nada que sempre foi, quando a Mente única, perfeita, que Se mantém em toda parte em unidade com Suas ideias perfeitas, for aceita e contemplada com plena naturalidade como nossa Mente real, eterna e única.

Continua..>

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DÁRCIO DEZOLT – ESTUDANDO PAULO – PARTE 1

1

“Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões.
E disse eu: Quem és, Senhor? E ele respondeu:
Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te e põe-te sobre teus pés, porque te apareci por isto, para te pôr por ministro e testemunha tanto das coisas que tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei ainda. Livrando-te deste povo e dos gentios, a quem agora te envio. Para lhes abrires os olhos e das trevas os converteres à luz e do poder de Satanás a Deus, a fim de que recebam a remissão dos pecados e sorte entre os santificados pela fé em mim.”
(Atos 26:14,18)
Ouvindo as palavras acima transcritas, de Jesus Cristo, assim contou Paulo ao Rei Agripa, sobre o início de tudo em sua vida espiritual:
“Ao meio-dia, ó rei, vi no caminho uma luz do céu, que excedia o esplendor do sol, cuja claridade me envolveu a mim e aos que iam comigo. E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me falava e, em língua hebraica: “Saulo, Saulo, por que me persegues? ….”
(Atos 26: 13,14)
Para Paulo, assim foi como tudo começou: com uma REVELAÇÃO! Sim, uma Revelação Divina altera o curso de tudo! Leituras, palestras, estudos bíblicos, tudo tem um papel importante no conhecimento da Verdade; porém, nada substitui uma REVELAÇÃO. Os estudos somente terão real valor quando forem vistos como expedientes de condução à AUTORREVELAÇÃO.
Nesta primeira parte da série, queremos, principalmente, salientar este ponto importantíssimo: estes estudos não estão sendo apresentados meramente para que haja um conhecimento intelectual ou cultural das mensagens de Paulo. Nosso objetivo é unicamente este: fazer com que cada leitor tenha conscientemente a SUA PRÓPRIA REVELAÇÃO!

VIA FACHO DE LUZ