"A Casa Sobre A Rocha" (Mt5:24).

“O Amor é a Lei de Deus. Viveis para que aprendais a amar. Amais para que aprendais a viver. Nenhuma outra lição é exigida do homem.” (O Livro De Mirdad)

NIRVANA SHATKAM, O SEXTETO DA ILUMINAÇÃO

Posted by José Eduardo Glaeser em 12/03/2012

NIRVANA SHATKAM, O SEXTETO DA ILUMINAÇÃO
Adi Shankaracharya

mano-buddhyahaṅkāra-chittāni nāhaṁ
na cha śrotra-jivhe na cha ghrāṇa-netre |
na cha vyoma-bhūmirna tejo na vāyuḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 1 ||
Não sou mente nem razão; não sou ego nem memória;
Não sou audição, nem paladar, nem olfato nem visão.
Não sou espaço nem terra; não sou fogo nem ar.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 1.

na cha prāṇa-sañjño na vai pañchavāyuḥ
na vā saptadhātur na vā pañchakośāḥ |
na vāk pāṇipādau na chopasthapāyūḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 2 ||
Não sou o que se conhece como prāṇa nem os cinco alentos;
nem os sete elementos do corpo físico, nem os cinco kośas.
Não sou fala, nem mãos ou pés; nem sexo nem eliminação.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 2.

na me dveṣa-rāgau na me lobha-mohau
mado naiva me naiva mātsaryabhāvaḥ |
na dharmo na chārtho na kāmo na mokṣaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 3 ||
Não tenho apego nem aversão; nem ambição, nem ilusão;
orgulho e inveja não são meus; não tenho deveres,
nem objetivos, nem desejos, nem busco a libertação.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 3.

na puṇyaṁ na pāpaṁ na saukhyaṁ na duḥkhaṁ
na mantro na tīrthaṁ na vedā na yajñāḥ |
ahaṁ bhojanaṁ naiva bhojyaṁ na bhoktā
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 4 ||
Não sou virtude nem ação errônea; nem alegria nem sofrimento;
nem mantras nem lugares sagrados; nem escrituras nem rituais;
não sou prazer nem o que produz prazer, nem o desfrutador.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 4.

na me mṛtyuśaṅkā na me jātibhedaḥ
pitā naiva me naiva mātā na janma |
na bandhurna mitraṁ gururnaiva śiṣyaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 5 ||
Não sou morte nem medo; não tenho classe social;
nem pai, nem mãe, nem nascimento são meus;
não tenho parentes nem amigos; nem mestre nem discípulos.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 5.

ahaṁ nirvikalpo nirākāra-rūpaḥ
vibhutvāchcha sarvatra sarvendriyāṇām |
na chāsaṅgato naiva muktirna bandhaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 6 ||
Sou livre de pensamentos. Sou livre de estrutura e forma;
Estou conectado com os sentidos, pois permeio o existente.
Não sou apegado nem condicionado, nem [busco a] liberdade.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 6.

Introdução ao estudo do Nirvāṇa Ṣaṭkaṁ.

Ādi Śaṅkaracharya é uma das grandes referências da tradição védica, um elo especial nessa corrente viva de transmissão do autoconhecimento, chamada paramparā, que foi transmitida de professor para estudante ao longo dos milênios, e que revela a natureza real do ser humano, mostrando-o como alguém intrínsecamente livre de limitações e sofrimento.
O nome Nirvāṇa Ṣaṭkaṁ significa em sânscrito “Seis Estrofes da Iluminação”. Em apenas 24 versos, o autor resume de maneira magistral todas as dúvidas existenciais, todas as falsas identificações com os papéis desepenhados na vida de um ser humano, bem como oferece as soluções para cada uma das charadas metafísicas que surgem naturalmente no cotidiano.
Este não é, a rigor, um texto sobre instrução, mas um exercício de nididhyāsana, uma contemplação sobre quem somos. O sânscrito é muito simples e acessível, o que torna o poema de fácil recitação e memorização. Não obstante essa simplicidade da linguagem, o significado é profundo e potencialmente transformador.
Podemos compreender o recado em minutos, mas aplicá-lo na vida pode nos levar anos e anos. Este tipo de texto é chamado prakarāṇa. Este termo é aplicado a textos que explicam aspectos peculiares do ensinamento, na forma de reflexões meditativas e, ainda, permitem inferir aplicações práticas desse ensinamento.

Estrofe 1.

mano-buddhyahaṅkāra-chittāni nāhaṁ
na cha śrotra-jivhe na cha ghrāṇa-netre |
na cha vyoma-bhūmirna tejo na vāyuḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 1 ||
Não sou mente nem razão; não sou ego nem memória;
Não sou audição, nem paladar, nem olfato nem visão.
Não sou espaço nem terra; não sou fogo nem ar.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 1.

O texto começa citando uma série de associações que normalmente fazemos, tomando como certo que somos o conteúdo dos nossos pensamentos. A primeira pessoa à qual o texto se refere, “eu” não é, evidentemente, o ego ou a personalidade, mas Ātma, o Ser pleno, manifestado como a pessoa simples e tranquila, e não como uma personalidade exigente e não cessa de fazer cobranças de si mesma e do mundo.
No segundo verso, o autor reflite, e nos convida para fazermos a contemplação junto a ele, sobre o fato de que nós tampouco somos os órgãos sensoriais, nem aquilo que eles percebem, nem os elementos densos que constituem a natureza manifestada.
A identificação com os conteúdos do psiquismo é, embora natural, o produto da ignorância existencial. Poderíamos nos perguntar a razão pela qual o autor usa quatro termos diferentes para se referir ao psiquismo, que nós chamamos muitas vezes mente. O psiquismo se move em quatro direções diferentes, que determinam esses nomes. Śrī Śaṅkaracharya, na Vivekachudamani (ślokas 95 e 96), define o psiquismo nos seguintes termos:
“Antaḥkarāṇa, o órgão interno, é conhecido por quatro diferentes nomes: manas, buddhi, ahaṅkāra e chittam, de acordo com suas distintas funções. Quando há um movimento em forma de dúvida, isso é chamado manas, pensamento. Quando há um conteúdo em forma de afirmação, é chamado buddhi. Quando acontece uma lembrança, isso é chamado chittam. Independentemente do tipo de função, recebe o nome de antaḥkarāṇa.”
Portanto, qualquer movimento do psiquismo deve ser reconhecido como conteúdo, e não como Consciência, como o Ser invariável que observa esses movimentos. A palavra Śiva, que se repete, à guisa de adágio, como verso que encerra cada estrofe ao longo do poema, não designa, neste contexto, o deus hindu da dança e da transformação, mas à própria Consciência.

Estrofe 2.

na cha prāṇa-sañjño na vai pañchavāyuḥ
na vā saptadhātur na vā pañchakośāḥ |
na vāk pāṇipādau na chopasthapāyūḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 2 ||
Não sou o que se conhece como prāṇa nem os cinco alentos;
nem os sete elementos do corpo físico, nem os cinco kośas.
Não sou fala, nem mãos ou pés; nem sexo nem eliminação.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 2.

Na sequência, o poema continua fazendo uma série de negações em relação ao corpomente, sua fisiologia, funções, qualidades e elementos constituintes. Similarmente às ações do psiquismo, o prāṇa, a força vital, também assume cinco formas, que realizam as diferentes funções fisiológicas: prāṇa, samāna, vyāna, udāna e apāna. Essas funções são, respectivamente, absorção, digestão, circulação crescimento e eliminação. Elas são chamadas vāyus, ou alentos vitais.
Depois é feita uma reflexão sobre a não-identificação em relação aos dhatus, os sete constituintes do organismo físico: medula, gordura, músculos, sangue, linfa, pele e cutículas. Os cinco kośas, ou “camadas” do jīva, o ser vivente, são mencionados por primeira vez na tradição do Yoga na Taittirīya Upaniṣad. Esses kośas constituintes do corpomente são os seguintes: annamayakośa, prāṇamayakośa, manomayakośa, vijñāmayakośa e ānandamayakośa. Respectivamente, as camadas de alimento (corpo físico denso), vitalidade, pensamento, intelecto e plenitude.
O autor nos convida, a seguir, para reconhecer que, além de não sermos nenhuma dessas funções fisiológicas ou sutis, tampouco somos os cinco órgãos de ação, karmendriyas: fala, mãos, pés, reprodução e eliminação. Muitas vezes nos identificamos com essas funções, e os tipos de ação que cada uma delas desempenha. Conclui-se esta estrofe com o adágio “Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser”. Como ser autoefulgente, que brilha por si mesmo, sou plenitude.

Estrofe 3.

na me dveṣa-rāgau na me lobha-mohau
mado naiva me naiva mātsaryabhāvaḥ |
na dharmo na chārtho na kāmo na mokṣaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 3 ||
Não tenho apego nem aversão; nem ambição, nem ilusão;
orgulho e inveja não são meus; não tenho deveres,
nem objetivos, nem desejos, nem busco a libertação.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 3.

Todos os conteúdos do psiquismo, julgamentos e sentimentos como apego ou aversão, orgulho, raiva e demais emoções, naturalmente estão conectados com o antaḥkarāṇa e, dessa maneira, nada tem a ver com Ātma. Emoções e pensamentos pertencem à esfera do psiquismo, e a natureza desses conteúdos é dinâmica e mutante, enquanto que o Ser é o observador invariável, ilimitado e imutável
O terceiro verso desta estrofe faz uma clara referência aos puruṣārthas, os quatro propósitos humanos válidos, que são os seguintes:
1) Kāma, a busca da satisfação, o prazer e o conforto,
2) Artha, a realização de ações que tragam prosperidade e segurança,
3) Dharma, a conduta adequada, que rege o bom convívio, e
4) Mokṣa, a busca da liberdade, que é o mais elevado ideal da vida humana.
As regras do dharma, que visam cultivar valores universais em prol do bem comum, o convívio harmonioso e uma vida tranquila, não se aplicam àquele que resolveu estes conflitos com as próprias emoções e completou o processo de maturidade emocional e autoconhecimento, que culmina em mokṣa, a libertação. É por isso que, no início do terceiro verso, Śaṅkaracharya afirma “ eu não tenho deveres”.
Devemos lembrar que existe o perigo de avaliar incorretamente o que possamos chamar de “evolução espiritual” em relação a este tipo de apego. Isso significa, noutras palavras, que sempre devemos cultivar uma atitude aberta e humilde, e nunca, nunca mesmo, considerar que estamos “acima do bem e do mal” ou que estas regras dhármicas não precisam ser aplicadas em relação a nós mesmos.
A pessoa que completou esse processo, desta maneira, não busca mais a liberdade, já que conhece a si próprio como alguém intrinsecamente livre e pleno. Essa conclusão fica claramente estabelecida no verso final “Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser”.

Estrofe 4.

na puṇyaṁ na pāpaṁ na saukhyaṁ na duḥkhaṁ
na mantro na tīrthaṁ na vedā na yajñāḥ |
ahaṁ bhojanaṁ naiva bhojyaṁ na bhoktā
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 4 ||
Não sou virtude nem ação errônea; nem alegria nem sofrimento;
nem mantras nem lugares sagrados; nem escrituras nem rituais;
não sou prazer nem o que produz prazer, nem o desfrutador.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 4.

O sábio não se identifica com suas ações, sejam elas puṇyaṁ ou pāpaṁ, certas e em harmonia com o dharma e o bem comum, ou erradas e contrárias a ele, pois ele sabe que Ātma não é o agente das ações. Isso, como foi explicado no comentário da estrofe anterior, não significa que as regras do dharma não se aplicam ao iluminado. Pelo contrário: ele é uma encarnação viva da plenitude e suas ações fluem dentro da compaixão, a gratidão, a solidariedade e a consideração.
Na segunda parte do primeiro verso, Śaṅkaracharya ainda fala sobre a necessidade de se desapegar de sentimentos opostos como alegria e tristeza, prazer e dor, já que eles são transitórios e o apego àquilo que é transitório termina sempre em mais sofrimento.
Enquanto Ātma, não sou karta, nem bhokta, nem duḥkhi: não sou o agente das ações, nem aquele que desfruta os resultados desejáveis, nem o que sofre com os frutos indesejáveis desses atos. Ātma é asaṅgaḥ, desapegado e independente desses conteúdos. Este termo, asaṅgaḥ, que se traduz habitualmente como desapego ou independência, irá aparecer na última estrofe do sexteto.
A pessoa que está firmemente estabelecida no autoconhecimento, o Brahmaniṣṭhaṁ, não tem necessidade de fazer rituais, preces ou peregrinações, uma vez que não há interesse em nenhum tipo de ganho ou mérito espiritual que possa advir desse tipo de ação. Se ela continua com suas meditações e atos rituais, é por um ato volitivo puro e livre.

Estrofe 5.

na me mṛtyuśaṅkā na me jātibhedaḥ
pitā naiva me naiva mātā na janma |
na bandhurna mitraṁ gururnaiva śiṣyaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 5 ||
Não sou morte nem medo; não tenho classe social;
nem pai, nem mãe, nem nascimento são meus;
não tenho parentes nem amigos; nem mestre nem discípulos.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 5.

Os papéis que representamos na sociedade, dentro da família, em relação ao meio ambiente ou aos demais, são sempre relativos. Esses papéis não são inerentes ao Ser. Porém, viver é representar papéis. Não há existência sem cumprir deveres, realizar ações e obrigações. Somos mãe ou pai, filho ou filha, irmão ou irmã e, em cada uma dessas posições, cultivamos atitudes e modos diferentes de nos comunicar.
Um papel é um dever, uma obrigação ou função que se cumpre na sociedade ou na família. Essas obrigações são chamadas vyavahāraḥ em sânscrito. O conceito de vyavahāraḥ é muito importante dentro da filosofia do Yoga. Ele pode ser traduzido como responsabilidade, esforço ou dever cotidiano. Obviamente, isso está vinculado com as maneiras corretas de agir, que sempre devem estar em conformidade com o dharma.
Atores e papéis.
Embora nossa existência não dependa da representação de quaisquer papéis, nós não podemos fugir deles. Portanto, deveríamos permanecer cientes de que a nossa felicidade não depende de representar ou deixar de representar um dado papel. A personagem somente existe porque o ator existe. A existência do ator não depende da representação do papel. Comparemos os papéis que desempenhamos na sociedade com a situação do ator que representa diferentes personagens, através de dois exemplos ensinados por Swāmi Dayānanda.
Caso 1: confusão entre o ator e o papel.
Digamos que o ator João representa o papel do operário Luiz. O roteiro da peça indica que o operário Luiz leva uns socos do capataz Bernardo, representado pelo ator Francisco. Porém, acontece que o João naquele dia está sem paciência e confunde as coisas. Aí, após o primeiro sinal de agressão por parte do capataz, o operário revida os golpes e machuca de verdade o ator Francisco. Finda a peça, o diretor vai tirar satisfações com o João, que responde: “revidei porque não ia deixar que ele me batesse mais. Eu não levo desaforo para casa!”
Este é o típico caso da pessoa que, envolvida como está com os papéis que representa, esquece que ela não é nenhum desses papéis. O ator João não agiu. Ele apenas reagiu emocionalmente. O amigo leitor pode achar engraçada esta situação, mas isso já aconteceu de verdade numa encenação do épico Rāmāyāna em Tamil Nadu, sul da Índia. O ator que representava o príncipe Rāma enloqueceu e feriu com golpes de espada o ator que encarnava o demônio Rāvaṇa.
Caso 2: representação consciente de um papel.
Numa outra hipótese, o ator João, que faz sucesso e prosperou graças ao seu talento, representa o papel de um mendigo que sofre e chora. O ator pode sorrir e pensar para si mesmo enquanto derrama copiosas lágrimas: “Que felicidade! Estou chorando bem como nunca!” Apesar dos graves problemas vividos pela personagem, o ator não é atingido por esses problemas.
Ele sabe perfeitamente que a representação é uma representação e mais nada. No fim da peça, pendura as roupas do mendigo, veste as suas e sai alegremente para jantar com os amigos. As lágrimas ficaram para trás. Neste caso, João era plenamente ciente de estar apenas representando um papel. A consciência de si mesmo como João estava presente antes, permaneceu durante a encenação do sofrimento do mendigo e permanece depois que a peça termina.
Relacionamentos inteligentes.
Relacionamentos inteligentes se constróem pela descoberta do espaço que há entre quem nós somos e os papéis que representamos. A realidade de qualquer relação é que sempre há um fator variável e um constante. Desde seu ponto de vista, você é o invariável, e todos aqueles que nos relacionamos com você (inclusive eu, ao escrever estas linhas), mudamos constantemente.
Essa pessoa invariável que você é assume diferentes atitudes, dependendo dos papéis que estiver representando. No entanto, se você fizer uma lista dos seus problemas, descobrirá que eles estão ligados unicamente a esses papéis. Em suma, objetivamente falando, você não tem problemas para chamar de seus. Os problemas são inerentes aos papéis que você representa, mas não são seus.
Swāmi Dayānanda ensina: “Se você tiver problemas como pai, filho, esposo ou esposa, você deve compreender que está confundindo a si mesmo com seus papéis. Se você confunde um papel com si mesmo, não há problema algum. Mas, se confunde a si mesmo com um papel, então, definitivamente, essa confusão vai levar você a um estado de sofrimento e desespero.
“Você precisa compreender que o Eu é livre de todos os papéis e situações, livre até mesmo da própria mente. Apenas com essa compreensão dos truques da mente você irá se tornar mestre dela, usando-a como um instrumento para aprender, para apreciar, para amar.” A estrofe termina do modo habitual, com o bordão “Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser”.

Estrofe 6.

ahaṁ nirvikalpo nirākāra-rūpaḥ
vibhutvāchcha sarvatra sarvendriyāṇām |
na chāsaṅgato naiva muktirna bandhaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 6 ||
Sou livre de pensamentos. Sou livre de estrutura e forma;
Estou conectado com os sentidos, pois permeio o existente.
Não sou apegado nem condicionado, nem [busco a] liberdade.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 6.

Como foi visto até este ponto, Ātma não está condicionado pelas limitações intrínsecas ao corpomente. Havendo uma absoluta identidade entre Ātma e Brahman, o Ser individual e o Ser não-manifestado, Ātma é ilimitado e invariável, assim como Brahman. Qualquer tipo de apego será uma forma de identificação com as coisas do corpo ou do psiquismo.
Mokṣa, a liberdade, não é uma experiência, nem ganhar algo que não se possui. É, pelo contrário, destruir a ignorância em relação a si mesmo. Ao ganharmos autoconhecimento percebemos que, em verdade, não houve escravidão em nenhum momento. Percebemos que sempre fomos libertos, mas não sabíamos disso.
Asaṅgataḥ significa não-condicionado, não-identificado. Libertação é o reconhecimento de que já somos Brahman, ao invés de um corpomente limitado, como é explicado na tradição do Vedānta com o exemplo do pastor distraído, que busca aflito no vale o cordeiro que está carregando em seus próprios ombros. Mokṣa é dar-se conta, é reconhecer e firmar-se naquilo que já somos. Namaste!

ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ ॐ

Texto para distribuição livre, desde que você dê um beijo nos seus seres amados hoje. Um agradecimento especial ao meu guru, Swāmi Dayānanda, e aos bons amigos e companheiros de caminhada na senda do Yoga e o autoconhecimento. Existem algumas versões deste sexteto, que apresentam pequenas variações em alguns versos, notadamente na terceira linha da última estrofe. A que aqui apresentamos é a que aprendemos com o nosso mestre. Ela pode ser encontrada uma tradução ao inglês no livro Vedic Heritage Teaching Programme, de Swāminī Pramāṇānada Sarasvatī e Śrī Dhīra Chaitanya, publicado pelo Pūrṇa Vidyā Trust de Tiruvannamalai, Índia, em 2009.
Tradução e comentários de Pedro Kupfer.
Hariḥ Oṁ!

VIA YOGA.PRO.BR

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