"A Casa Sobre A Rocha" (Mt5:24).

“O Amor é a Lei de Deus. Viveis para que aprendais a amar. Amais para que aprendais a viver. Nenhuma outra lição é exigida do homem.” (O Livro De Mirdad)

O JOGO (Eleanor H. Porter, Pollyanna)

Posted by José Eduardo Glaeser em 23/10/2012

O JOGO

– Que susto me pregou, Miss Pollyanna! – gritou Nancy, enquanto corria em direção ao rochedo do qual Pollyanna tinha acabado de deslizar.
– Assustou-se? Ah, desculpe, mas não precisa se preocupar comigo, Nancy. Papai e as senhoras da Caridade também se preocupavam, até que se convenceram de que eu sempre voltava bem.
– Mas eu nem sabia que você tinha saído de casa – exclamou Nancy, agarrando a mão dela e ajudando-a a descer. – Não a vi sair, nem ninguém viu. Até parece que voou do telhado.
– É verdade, quase voei. Desci pela árvore! Nancy parou bruscamente.
– Desceu por onde?
– Desci pela árvore, junto da minha janela.
– Minha Nossa Senhora! – exclamou Nancy. – Nem imagino o que a sua tia dirá quando souber!
– Quer saber? Eu conto para ela, e aí você pode descobrir – prometeu a menina muito alegre.
– Por favor, não diga nada!
– Por quê? Não me diga que ela se preocupa! – respondeu Pollyanna imperturbável.
– Não… quer dizer, sim. Bem, não importa. Não estou interessada em saber o que ela pode dizer – disse Nancy determinada em evitar que Pollyanna fosse repreendida. – Mas é melhor nos apressarmos. Eu tenho que lavar a louça.
– Eu ajudo – prometeu Pollyanna.
– Oh, Miss Pollyanna! Nem pense nisso.
Houve um breve silêncio. O céu escurecia rapidamente. Pollyanna agarrou-se com firmeza ao braço de sua amiga.
– Apesar de tudo, estou contente que você tenha ficado um pouco assustada, porque assim veio atrás de mim.
– Pobrezinha! Deve estar com fome, também. Receio que tenha que comer apenas pão e leite comigo na cozinha. Sua tia ficou zangada de não ter aparecido para o jantar.
– Mas eu não podia. Estava lá em cima.
– Sim, mas ela não sabia disso – observou Nancy, com vontade de rir. – Sinto muito pelo pão e leite. – Ah, eu não. Estou contente.
– Contente? Por que?
– Porque gosto de pão e leite, e porque vamos comer juntas. Eu não vejo nenhum problema em não ficar contente com isto.
– Você parece não ter dificuldade para ficar contente com tudo que acontece – respondeu Nancy, recordando as tentativas de Pollyanna para ficar contente com o quartinho do sótão.
Pollyanna sorriu docemente.
– Pois o jogo é assim mesmo, não sabe?
– Jogo? Que jogo?
– Sim, o “jogo do contente”.
– Sobre o que você está falando, menina?
– É do jogo. Papai me ensinou, e é lindo – disse Pollyanna. – Nós o jogamos desde que eu era pequena. Eu ensinei para as senhoras da Caridade e algumas delas também o jogavam.
– Mas o que é? Eu não entendo muito de jogos.
Pollyanna riu de novo, porém com um suspiro. Seu rosto parecia tristonho.
– Começamos a jogá-lo quando recebemos umas muletas na coleta de doações.
– Muletas?
– Sim, muletas. Eu queria uma boneca e papai escreveu pedindo uma. Mas, quando chegaram as doações, não havia nenhuma boneca, e sim umas muletas para criança. Uma senhora as enviou pensando que poderiam ser úteis para alguém. E foi assim que começamos.
– Mas não estou vendo nenhum jogo nisso – declarou Nancy, quase irritada.
– O jogo é exatamente encontrar, em tudo, alguma coisa para ficar contente, não importa o quê – respondeu Pollyanna com ar sério. – E começamos com as muletas.
– Eu não vejo nada para ficar contente. Receber um par de muletas quando queria uma boneca! Pollyanna bateu palmas.
– É isso – gritou ela – eu também não percebi logo e papai teve que me explicar. – Pois então me explique – retorquiu Nancy, impaciente.
– Pois o jogo consiste em ficar contente porque não precisamos delas! – exclamou Pollyanna, triunfante. – Veja como é fácil quando se sabe.
– Que coisa estranha! – exclamou Nancy, olhando Pollyanna com ar receoso.
– Estranho nada! É lindo! – continuou Pollyanna entusiasmada. – Desde então, nós jogamos sempre.
E quanto pior o que acontece, mais divertido fica para resolvê-lo. Às vezes é muito desagradável, como quando papai foi para o céu e não ficou ninguém, a não ser as senhoras da Caridade.
– Ou quando a colocam num quartinho sem quase nada dentro – resmungou Nancy. Pollyanna fez que sim com a cabeça.
– Essa foi difícil no princípio – admitiu ela. – Principalmente porque eu me sentia muito sozinha no mundo. Eu não “joguei” naquela hora porque estava querendo coisas bonitas. Então me lembrei de como detestava ver as minhas sardas no espelho e vi aquela linda paisagem da janela. Veja, quando você está procurando coisas para ficar contente, você se esquece das outras coisas – como a boneca que eu queria, sabe?
– Percebi – disse Nancy, engolindo em seco.
– Mas geralmente não leva muito tempo. E, muitas vezes, já penso nas coisas boas quase sem pensar. Me habituei a jogar o jogo. Papai e eu gostávamos muito de jogar. Agora vai ser um pouco mais difícil, porque não tenho ninguém com quem jogar. Talvez a tia Polly queira jogar comigo – acrescentou ela pensativa.
– Ela? Minha Nossa Senhora! – murmurou Nancy entre dentes. Depois, mais alto: – Ouça, Miss Pollyanna. Eu não sei se consigo jogar muito bem, porque não conheço nada desse jogo, mas se quiser posso jogar com você!
– Oh, Nancy! – exultou Pollyanna, abraçando-a com força. – Isso é esplêndido, vamos nos divertir bastante.
– Sim, talvez – concordou Nancy, com algumas dúvidas. – Mas não deve depositar grandes esperanças em mim. Nunca fui muito boa em jogos, mas vou fazer o possível. Você sempre terá com quem jogar – concluiu ela, enquanto as duas entravam juntas na cozinha.
Pollyanna comeu seu pão e bebeu o leite com muito apetite. Depois, por sugestão de Nancy, dirigiu-se para a sala de estar, onde se encontrava a sua tia Polly, que levantou os olhos com firmeza.
– Já jantou, Pollyanna?
– Sim, tia Polly.
– Estou muito aborrecida, Pollyanna, por tê-la obrigado a comer pão e leite na cozinha já no primeiro dia.
– Não faz mal, estou muito contente com isso, tia Polly. Gosto muito de pão e leite, e também da Nancy. Não se preocupe.
A senhora endireitou-se na cadeira, ficando mais ereta.
– Pollyanna, você já devia estar na cama. Teve um dia muito penoso. Amanhã temos que organizar a sua vida e ver que roupas precisamos comprar. Nancy vai lhe dar uma vela. Tome cuidado com ela. O café da manhã é às sete e meia. Boa noite.
Com naturalidade, Pollyanna dirigiu-se à tia e lhe deu um afetuoso abraço.
– Estou muito contente com tudo que aconteceu hoje – disse ela, feliz. – Estou certa de que vou gostar muito de viver na sua companhia. Aliás, já sabia disso antes de vir para cá. Boa noite – disse, alegremente, enquanto saía da sala.
“Mas que criança extraordinária”, pensou Miss Polly. “Ela está contente com tudo – de ser castigada, de morar comigo, de tudo. Incrível!”, exclamou Miss Polly, enquanto retomava a sua leitura.
Quinze minutos depois, lá no sótão, a menina soluçava debaixo dos lençóis.
– Papai, você que está junto dos anjos, eu não consigo jogar o jogo. Nem um pouco. Também não acredito que o senhor pudesse encontrar alguma coisa para ficar contente se tivesse que dormir sozinho no escuro. Se ao menos eu tivesse a tia Polly perto de mim, ou a Nancy… Seria mais fácil.
Lá embaixo na cozinha, Nancy concluía a lavagem da louça, resmungando no seu modo habitual.
– Se jogando aquele jogo maluco a gente fica contente por receber muletas quando se quer uma boneca, ou ir para aquele rochedo à procura de refúgio, então também quero aprender esse jogo. Ah, eu quero.
(Eleanor H. Porter, Pollyanna)

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