Nikolai Berdiaev – O Divino e o Humano – Capítulo IV: Medo.

Já havíamos antes falado sobre os temas acima. Agora devemos falar algo sobre o que está por trás disso. O medo está na raiz da vida nesse mundo. Existia o “terror antiquus” – o medo primitivo, que corresponde ao Alemão Angst e ao Francês Angoisse. A terminologia atual, que distingue entre Angst e Furcht, deriva principalmente de Kierkegaard. Dentre as muitas definições de homem, podemos incluir essa que o define como a criatura que está sendo testada em seu medo. E isso pode ser dito de toda criatura viva. O medo que os animais sentem é horrível. É algo doloroso olhar nos olhos de um animal apavorado. O medo se deve à condição perigosa e ameaçadora da vida n mundo. E, quanto mais próxima da perfeição está a vida, quanto mais individualizada ela se torna, mais ela está exposta a ameaças, aos maiores perigos, mais a morte é seu fardo. A necessidade de se defender contra o perigo está sempre presente. O organismo, num grau notável, é construído para a defesa. A luta pela existência, que enche a vida, pressupõe o medo.

É um erro pensar que a coragem e o medo excluem-se totalmente um ao outro. A coragem não é tanto a ausência de medo, como uma vitória sobre o medo, e, mais ainda, sobre o medo que atua numa direção especifica. Um homem pode ser muito bravo diante de determinadas circunstâncias, e um covarde em outras; por exemplo, ele pode ser bravo na guerra, mas um covarde quando se trata de sua própria vida. Ele pode ser um herói e não demonstrar medo diante da morte, e experimentar o medo quando colocado diante de um rato, ou de uma lagarta, ou de uma doença infecciosa. Ele pode ser extraordinariamente bravo numa batalha de ideias, e mostrar medo diante de dificuldades materiais. Existem pessoas corajosas num sentido físico, mas covardes no sentido moral, e vice versa. Um homem pode alcançar um alto grau de bravura numa esfera específica da vida, e abandonar outras esferas ao domínio do medo.

Mas por toda parte e em todas as coisas, a vitória sobre o medo continua sendo um problema espiritual, o problema de conquistar uma coisa que rebaixa o homem. Uma quantidade incalculável de violência e crueldade na vida humana são resultado do medo. O “terror” não é apenas a causa do medo naqueles contra os quais é dirigido, mas também indica o medo daqueles que o praticam. É um fato sabido que povos que estão possuídos pela mania de perseguição sofrem de medo, e assim passam a perseguir os demais, lançando-os também num estado de medo. Os povos mais terríveis são aqueles possuídos pelo medo. O medo opera destrutivamente. Ele está indissoluvelmente ligado ao tempo, com aquilo que o futuro pode trazer, com aquilo que pode ser uma ameaça vindo da mudança dos tempos. No futuro haverá sofrimento, e certamente morte, que é a coisa mais terrível a ameaçar a vida. Um grande número de antigas crenças pagãs e de superstições estavam conectadas ao medo e ao forte desejo.

Nas visões de Kierkegaard e Heidegger, Angst nos coloca face a face com o abismo do não-ser. Trata-se de um evento limítrofe, na fronteira entre o mundo primitivo exterior e o superego. Para esses filósofos, a angústia é a nossa reação quando nos defrontamos com alguém ou algo que parece ameaçar destruir nosso próprio Dasein. Angst, por outro lado, não é evocada por nada definido; ela nos coloca face a face com o mundo pura e simples. De acordo com Heidegger, Dasein se refugia em Das Man, do que é desconhecido e do que é estranho. O medo constitui uma opressão que cai sobre o coração do mundo. Sob essa ótica, Dasein é a ansiedade, isso é, ser lançado no mundo e sentir-se perdido. A ansiedade é uma morte contínua. A aceitação da morte é algo análogo ao amor fati de Nietsche. A consciência moral se eleva acima de Das Man e o destrói. De onde proveio essa ideia de Heidegger? Angst está conectada ao vazio. Das Nichts selbst nichtet. Para Kierkegaard, Angst possui um caráter mais psicológico, enquanto que em Heidegger esse caráter é mais cósmico. Mas o horror diante da face da morte e do vazio só pode existir quando existe a personalidade – esse horror só existe para a personalidade.

Em Heidegger tudo vem de baixo, nunca do alto; de fato, para ele, não existe o “alto” em sentido algum. Permanece inexplicado de onde o elemento mais elevado e discriminatório provém, mas isso não altera seu pensamento. Esse ponto tampouco é explicado por Nietsche. A esse respeito a posição de Kierkegaard é melhor. O medo é o resultado do abandono de Deus. Mas quanto a serem o mundo e o homem abandonados por Deus, ou o mundo e o homem abandonarem a Deus, em qualquer caso o abandono de Deus pressupõe a existência de Deus. Confrontado pelo abismo do nada, o homem experimenta o medo e o horror, por estar separado de Deus. O medo é o resultado da dissociação, da separação, da alienação, do abandono. Psicologicamente, o medo é sempre o medo do sofrimento. O homem sente medo e horror quando, por causa do sofrimento, ele se vê diante de um muro incontornável além do qual está o não-ser, o vazio, o nada. Isso não tem nada em comum com o Nirvana do Budismo, que é uma saída e uma iluminação. Tampouco é esse medo e horror que se confunde com aquilo que Otto chama de Mysterium tremendum, que significa um sentido primário do Divino.

A natureza paradoxal dessa posição reside fato de que ela é precisamente aquilo que liberta do sofrimento, em especial do não-ser, do vazio, do nada, e que também evoca um grande horror. Devemos traçar uma distinção entre o medo animal, que está associado a uma condição de vida mais baixa, e o medo espiritual, que pertence à condição mais alta. Existe um medo que nasce da ameaça do mundo inferior. E existe um medo que surge a partir da força exercida pelo mundo superior, o medo de Deus, que demanda um outro mundo. Deus é um fogo devorador.

Epicuro pensava ter derrotado a religião quando disse que ela tinha sua origem no medo. Mas o medo é uma condição do espírito mais séria e mais profunda do que ele supôs. Ele não tinha lido Kierkegaard e outros. Os primeiros estágios da revelação do Divino no mundo estão associados ao medo. Eles estavam condicionados pela baixa condição do homem, por sua submersão no mundo inferior, pela debilidade de sua capacidade de pensar, pela escuridão que o paralisava por medo da luz. O primitivo Mysterium tremendum mesclava-se de medo. O medo de Deus se confundia com o medo do mundo. A vida religiosa do homem estava cheia de medo, embora possamos afirmar que o objetivo da vida religiosa sempre foi a vitória sobre o medo. No princípio de todas as coisas Deus fez surgir o medo, embora fosse Ele esse poder benéfico que poderia libertar o homem pavor mortal desencadeado pela vida no mundo. A emancipação em relação ao medo, ao medo do diabo e do inferno, a libertação e a purificação da ideia de Deus em relação aos efeitos distorcidos do medo, ocorreu lentamente, mesmo no pensamento mais claramente Cristão. A grande tarefa espiritual que o homem está encarregado de cumprir consiste na emancipação em relação ao medo, à superstição, ao tormento do diabo e dos demônios, do medo servil diante do poder e da força, do medo de um julgamento impiedoso, do fanatismo e da intolerância, do ódio dos inimigos e da vingança, da objetificação do mal e si mesmo. O medo é sempre o medo basal, o medo do mal, e somente numa mente escurecida pode brotar o medo do mais elevado.

O medo governa o mundo. O poder, por sua própria natureza, se justifica pelo medo. A sociedade humana está construída sobre o medo e, assim, ela se construiu sobre a mentira, pois o medo é o pai da falsidade. Existe uma espécie de alarme para evitar que a verdade mitigue o medo e se interponha ao governo sobre os homens. A pura verdade pode conduzir à queda dos impérios e das civilizações. Por essa razão, mesmo o Cristianismo se adaptou ao medo. Periodicamente, o governo pelo medo conduz aos regimes totalitários e ao terror. O elemento “medo” está presente em todas as formas de autoridade, e a liberdade é a antítese do medo. A verdade que a liberdade contém jaz oculta sob o medo. A acomodação da verdade à prosaica estupidez da experiência cotidiana substitui o medo. O medo sempre esconde a verdade, e a verdade tende a se revelar quando a vivência do medo conduz à sua própria superação, à emancipação em relação ao medo. O medo está ligado não apenas à falsidade, como também à crueldade. Não são apenas aqueles que inspiram o medo que são cruéis, mas também os que sofrem disso. As massas não são apenas governadas pelo medo, mas elas próprias governam pelo medo. O medo dentro da sociedade nasce da desconfiança dos homens; e o medo é sempre conservador, embora as vezes ele tenha se mostrado exteriormente revolucionário na forma. O medo do inferno na vida religiosa, o medo da revolução, da perda da propriedade na vida social, o medo diminui o valor de tudo. O homem vive com medo da vida e com medo da morte. O medo reina tanto na vida individual como na vida em sociedade. A ansiedade, a insegurança da vida, em última instância, propiciam o surgimento do medo. Mas o mais sério é que o medo distorce o pensamento e trava o conhecimento da verdade. O homem se vê diante de um conflito entre o medo e a verdade. Um homem atormentado teme a verdade; ele pensa que a verdade pode feri-lo. A ausência de medo diante da verdade é a maior aquisição do espírito. Também o heroísmo constitui a ausência de medo diante da verdade, diante da verdade e da morte.

A vida religiosa foi distorcida pelo medo, que foi utilizado para manejar várias formas do mal, assim como um ordenamento injusto da sociedade. Quando o mundo antigo se aproximava de seu fim, ele era atormentado pelo medo de demônios e dos espíritos da natureza; assim, ele buscava a salvação nos mistérios. Uma das maiores aquisições do Cristianismo, que mesmo os que não são Cristãos têm que reconhecer, foi ter libertado o homem da demonolatria e dos terrores que o escravizavam. A magia não ajudava, ela simplesmente implicava a dependência em relação às forças cósmicas. Mas o medo primitivo encontrou seu caminho dentro do Cristianismo, e os velhos demônio, junto com seu chefe, o diabo, passaram a atormentar também os Cristãos. O medo do inferior mesclou-se ao medo do superior, o medo do diabo misturou-se ao medo de Deus. A distinção entre Furcht (medo) e Angst (angústia) imiscuiu-se no cenário: as emoções causadas pelas forças cósmicas e sociais inferiores foram transferidas para Deus, e é isso a que damos o nome de antropomorfismo e sociomorfismo. O velho medo cristalizou-se na forma de uma doutrina, e por isso não é fácil libertar a doutrina Cristã do medo. O medo se colocou num plano mais alto do que a doçura, que passou a ser vista com temor, como se fosse uma fraqueza.

A teologia Cristã foi acusada de intelectualismo, e com justiça; o intelecto nunca pode ser divorciado do sentimento e da vontade. As doutrinas teológicas oficiais foram distorcidas pela emoção e o medo, e essas emoções as determinaram em mais alto grau do que o intelecto. A psicopatologia atual faz um ótimo trabalho ao estudar os medos, e todos os tipos de fobias, favorecendo assim a purificação do pensamento religioso, e libertando-o dos medos que o atormentam. Nos confins do mundo fenomênico é provavelmente impossível livrar-se do medo, pois a posição do homem está constantemente sob ameaça. Mas é possível livrar-se de transferir esse medo para a vida religiosa e para a relação com Deus. É possível libertar-se da confusão entre o medo inferior e a condição superior de temor e angústia. Kierkegaard define Angst como sendo a vertigem da liberdade. Para ele, o vazio, o não-ser, adquirem também um sentido positivo, e não permanecem simplesmente como algo negativo. Isso já não se pode dizer do medo. Mas Hegel entendeu melhor do que ninguém que sem o não-ser não existe o porvir.

O medo sempre tem uma relação com o sofrimento; ele é experimentado como sofrimento, como a ameaça do sofrimento. Falarei sobre o sofrimento no próximo capítulo. Mas é impossível dissociar o medo desse elemento central da vida humana. O homem é retirado à força do mundo superior e submetido ao mundo inferior. Isso inevitavelmente faz nascer o medo e o sofrimento. Mas a conexão com o mundo é tão próxima, que o próprio mundo superior começa a se apresentar nos moldes do mundo inferior. O medo e o sofrimento, produtos do mundo inferior que escraviza o homem, podem ser experimentados como se proviessem do mundo superior, o qual deveria constituir um poder libertador. Jacob Boehme disse acertadamente que o amor de Deus opera na escuridão, como um fogo devorador. O medo diminui a dignidade do homem, a dignidade do espírito livre. O medo sempre é visto como algo vergonhoso na guerra: ele é então chamado de covardia. O homem é capaz de alcançar o estágio de não sentir medo na guerra; ele realiza milagres de bravura, e se torna um herói. Mas existe uma enorme dificuldade em estender isso para o resto da vida, e em especial para a vida do espírito. Nunca é demais repetir que a emancipação do medo é a principal tarefa espiritual do homem. Alcançar o estado em que não existe o medo é a mais alta condição do homem, e todo o problema está em alcançá-lo, pois ninguém pode dizer que o medo é inteiramente desconhecido para si.

O medo está conectado à interrelação entre o consciente, o subconsciente e o superconsciente. O medo nasce das profundezas do subconsciente, das origens mais primitivas do homem. O consciente pode ampliar o medo, uma consciência agitada está associada ao medo. A vitória final e decisiva sobre o medo só pode provir do superconsciente. Trata-se de um triunfo do espírito. Já se disse que “o amor perfeito expulsa o medo”, mas o amor perfeito é tão raro que o medo continua a governar a vida humana. O medo no eros do amor é muito poderoso: ele reside nas profundezas da vida sexual. O medo distorce o humano, e é nele que se encontra toda a complexidade do processo do Deus-humano.

Fonte: blog Caminho da Oração

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