Nikolai Berdiaev – O Divino e o Humano – Capítulo IX: A espiritualidade.

A aquisição da espiritualidade constitui um problema central na existência humana, mas a espiritualidade precisa ser tomada num sentido mais amplo do que aquele em que costuma ser entendida. A espiritualidade é necessária, mesmo na luta que no homem sustenta nesse mundo. Sem a espiritualidade é impossível fazer sacrifícios ou executar feitos heroicos. Alegra-se com a luz do sol constitui uma alegria espiritual: o sol é espiritual. A forma do corpo humano e o semblante humano são espirituais. Uma grande espiritualidade pode existir num homem que, à primeira vista de seus pensamentos, e, em muitos casos, tendo de si um falso entendimento, se considere como materialista. Chernishevsky[1] pode ser tomado como exemplo disso. Se for possível construir uma filosofia da espiritualidade, ela não teria a forma da matéria abstrata que recebeu essa denominação nas escolas, e que se parece com uma metafísica naturalista. O espírito não é uma substância. Ele não só constitui uma realidade diferente daquela do mundo natural, como ainda é uma “realidade” num sentido totalmente diferente. O espírito é liberdade e energia livre, que irrompe no mundo natural e histórico. É essencial afirma a relativa verdade do dualismo, sem o qual a independência da vida espiritual não pode ser entendida. Mas o dualismo não é entre espírito e matéria, ou entre espírito e corpo. O espírito é liberdade, não natureza. O espírito não é um constituinte da natureza humana; mais do que isso, ele é o mais alto valor qualitativo. A qualidade espiritual e o valor espiritual do homem são determinados, não pela natureza de qualquer espécie, mas pela união da liberdade e da graça.

O espírito é revolucionário em relação ao mundo natural e histórico; ele irrompe desde o outro mundo nesse mundo, e derruba a ordem coercitiva desse mundo. O elemento fundamental da existência do mundo consiste na libertação da escravidão. Mas o erro fatal dos libertadores foi o de supor que a libertação provém da matéria, da natureza. A liberdade provém do espírito. Um erro ainda mais fatal, e esse, de parte dos defensores do espírito, foi o de pensar que o espírito não liberta, mas que ele está ligado e subordinado à autoridade. Tanto um grupo como outro se enganam a respeito do espírito, e prepararam o caminho de um verdadeiro progrom sobre a espiritualidade. O espírito não é apenas liberdade, ele também é sentido. O sentido do mundo é espiritual. Quando se diz que a vida e o mundo não têm sentido, a existência de um sentido mais elevado do que a vida e o mundo e consentido por isso mesmo, ou seja, o julgamento é estabelecido sobre a falta de sentido da existência do mundo, do ponto de vista do espírito. O filósofo Alemão Karl Jaspers (1884-1969) diz com razão que o espírito ocupa uma posição paradoxal entre opostos. O espírito e a espiritualidade refazem, transformam e iluminam o mundo natural e histórico; eles lhe trazem liberdade e sentido.

A objetificação do espírito aparece quando ele é visto como encarnação e realização. Mas o espírito objetificado é um espírito alienado de si mesmo, um espírito que perdeu seu fogo, sua juventude e força criativa; é um espírito acomodado ao mundo do dia-a-dia, à mediocridade. Não podemos falar em um espírito objetivo, como falou Hegel. A verdade é que só existe o espírito subjetivo, ou um espírito que se coloca além do subjetivo e do objetivo. “Espiritualidade objetiva” é uma expressão sem sentido. A espiritualidade é sempre subjetiva; ela está fora da objetificação. A objetificação é, como se fosse, a atrofia e a mortificação do espírito. A espiritualidade está fora do mundo fenomênico objetificado; não que ela não possa se desenvolver fora dele, ela simplesmente irrompe dentro dele. Não podemos acreditar num triunfo progressivo no desenvolvimento do espírito e da espiritualidade na história, como acreditava Hegel. As mais altas expressões da espiritualidade no mundo não transmitem a impressão de serem resultado de um desenvolvimento gradual do espírito na história.

Alcançar a espiritualidade consiste na libertação do poder do mundo e do meio social. É como se fosse uma irrupção do noumênico no fenomênico. O crescimento da espiritualidade no homem não pertence à regularidade rítmica do processo evolutivo. Onde opera a liberdade não existe processo algum controlado pela necessidade; onde age a criatividade não existe evolução no sentido naturalista do termo. A espiritualidade é uma incumbência, um problema colocado para o homem em relação à vida. Existe um paradoxo no fato de que o crescimento da espiritualidade é realizado pelo próprio esforço espiritual que existe no homem; mas esse crescimento não pode se o resultado de condições que não sejam espirituais. O mais elevado não pode provir do mais baixo, daquilo que não contém em si a semente do mais alto, que não contem a potencialidade do mais alto. O desenvolvimento espiritual é a realização do possível. Uma experiência de vida que não contenha nada de espiritual pode parecer estimular uma força espiritual num homem; por exemplo, o sofrimento devido a uma doença ou devido ao desejo por justiça, contra uma injustiça ou uma traição; mas, na realidade, o despertar da força espiritual pressupõe que ela sempre tenha estado ali, latente, num estado oculto e adormecido. A liberdade, que se opõe à natureza, é sempre espírito. O erro da teoria evolucionista natural consiste na suposição de que o mais baixo pode dar origem ao mais alto, de que o material tem poder para criar o espiritual. O poder espiritual no homem não é humano em sua origem, ele é divino-humano. A espiritualidade é uma condição divino-humana. Em suas profundezas espirituais o homem toca o divino, e é dessa fonte divina que ele recebe seu suporte.

Não existe uma evolução necessária na história espiritual do mundo, como supunha Hegel e outros depois dele. O que vemos na história do mundo é a objetificação do espírito. Mas a objetificação do espírito corresponde à sua diminuição. A objetificação é o contrário da transcendência, vale dizer, do movimento em direção a Deus. Mas seria um erro ver no processo de objetificação da espiritualidade, que encontra sua expressão na evolução da civilização, apenas uma negatividade. Nas condições do mundo fenomênico, ele também possui um sentido positivo. Ele contribui para subjugar a barbárie, a selvageria, a natureza animal do homem, e assim a consciência do homem começa a crescer. Mas esse é um processo elementar, e as alturas da espiritualidade não podem ser alcançadas por ele. Mais do que isso, não temos como definir exatamente quando a verdadeira espiritualidade se revela; sua revelação pode não se dar nos pontos mais altos da civilização. É muito importante entender, além disso, que de modo algum a espiritualidade se opõe à alma e ao corpo; ela os controla e os transfigura. O espírito é, acima de tudo, uma força libertadora e transformadora. Um homem que expressa uma grande espiritualidade não é necessariamente um homem que se retirou do mundo e da existência histórica. Ele é um homem que se coloca na existência do mundo e da história, que é ativo nela, mas que é livre de seu poder e que está empenhado em transformá-la.

A espiritualidade que dá as costas ao mundo pluralista, como, por exemplo, em certas formas de espiritualidade na Índia, como em Plotino, como no monasticismo ascético, não pode ser considerada Cristã; ela contradiz o caráter divino-humano do Cristianismo e o mandamento de Cristo a respeito de amar o próximo. A espiritualidade Cristã não é apenas ascendente; ela é também descendente, e somente essa espiritualidade é verdadeiramente humana. Uma forma de espiritualidade que seja inumana e hostil ao homem é também uma possibilidade; e essa deterioração da espiritualidade é mais comum do que se pensa. Mas o homem deve aceitar a responsabilidade não apenas sobre seu próprio destino e sobre o destino dos que lhe são próximos, mas também sobre o destino de seu povo, da humanidade e do mundo. Ele não deve se separar de seu povo e do mundo para, orgulhosamente, habitar a sós nas alturas espirituais. O perigo do orgulho reside em esperar no caminho, e muitas advertências foram feitas a esse respeito. Esse perigo é sempre resultado do mesmo rompimento da ligação divino-humana. Um exemplo desse orgulho está em alguns Brâmanes que se consideram super-homens; ele também está presente em certas formas de ocultismo. A coisa mais necessária é esforçar-se pela espiritualidade humana, que é também uma espiritualidade divino-humana.

Não apenas existem espiritualidades Cristãs e não-Cristãs, como ainda dentro do próprio Cristianismo existem vários tipos, como, por exemplo, as espiritualidades Ortodoxa e Romana. Mas a espiritualidade possui suas próprias fundações eternas. A espiritualidade da Índia é muito profunda. Os místicos de todos os tempos e de todos os povos saúdam-se mutuamente. A oração possui um significado universal. O homem é uma criatura que ora, e mesmo os que não se consideram crentes sentem necessidade de orar. No que consiste a essência da prece? A prece é evocada pelo anseio que a pessoa tem de não se sentir inteiramente dependente da necessidade que reina no mundo, e do poder do destino que está presente nesse mundo. A prece é uma conversa com o Único Existente, que é exaltado acima do ciclo do mundo, acima da falsidade e o erro nos quais o mundo está submerso. A espiritualidade Cristã se distingue da não-Cristã pelo fato de afirmar constantemente a personalidade, a liberdade e o amor. Uma espiritualidade na qual a pessoa única, ímpar, irrepetível desapareça, e na qual não exista a liberdade do homem e o amor pelo homem, deve ser considerada como sendo não-Cristã. A espiritualidade chamada monástica, que nega a independência da natureza humana, é não-Cristã.

A espiritualidade da Índia, sublime como é, é fria em comparação com a espiritualidade Cristã, devido principalmente ao seu caráter panteísta, que nega metafisicamente o princípio da personalidade. Aurobindo, em seus comentários sobre o Bhagavad-Gîta, diz que o homem sábio é benevolente com todos por igual; que ele se caracteriza pela indiferença em relação ao tudo, pela ausência de desejo, e por negar a distinção entre a felicidade e a infelicidade. Ideias similares nasceram também no Cristianismo, em especial na espiritualidade ascética Síria e na Dobrotolyubie. A mesma separação em relação ao mundo múltiplo pode ser encontrada no misticismo de Plotino e nos neoplatônicos. Mas a verdadeira espiritualidade do Cristianismo é cristológica, ou seja, divino-humana. Nela, o homem não pode desaparecer numa apática união e identificação. A espiritualidade divino-humana pode começar com a consciência da condição pecadora e da indignidade do homem, submerso que está ele nos elementos do mundo, mas ela deve afirmar a dignidade do homem por ser a semelhança de Deus, predestinado à eternidade. O sentimento amargo que nasce do conhecimento da baixeza humana não deve esconder o alto destino ao qual o homem está predestinado.

A espiritualidade Cristã não é friamente desapaixonada; ela é uma chama ardente; nela combinam-se um sentimento de emancipação e de separação em relação aos elementos do mundo e uma participação no destino desse mesmo mundo, da humanidade e de toda a criação sofredora. A espiritualidade deve transformar, não esmagar a natureza passional do homem. O Cristianismo liberta o homem dos espíritos elementais da natureza, e ao fazer isso ele afirma a independência e a liberdade do homem e do espírito. Mas isso não implica em absoluto uma indiferença em relação ao mundo e ao homem. No próprio fundamento do Cristianismo está o mandamento de amar a Deus e ao próximo, e nisso reside seu caráter divino-humano e, por isso, verdadeiramente humano. Trata-se da antítese da separação e do distanciamento em relação ao mundo múltiplo. Amar ao próximo equivale a amar o mundo múltiplo. Voltar-se para o Um não significa dar as costas ao múltiplo, e a tudo o que há de individual no mundo.

Mas a espiritualidade, como tudo o mais no mundo, é objetificada. Ela adquiriu um caráter formal e legal; ela se esfriou; ela se acomodou à prosaica normalidade social e se adaptou ao homem médio. O caráter não espiritual da pretensa vida nas Igrejas oficiais e outras Confissões é apavorante. Elaborou-se uma espiritualidade convencional, retórica, formal, e que fez nascer um desgosto em relação ao Cristianismo. Estabeleceu-se uma importância desmedida ao fato de que a espiritualidade estava originalmente ligada aos mitos. Todo mito significativo estava ligado a uma realidade, mas essa conexão se perdeu, e um ávido desejo pelo direito e a veracidade da vida espiritual fez com que surgisse uma necessidade de libertar a espiritualidade do mito. Isso implicou uma transição do simbolismo para o realismo, para um realismo místico.

O ego profundo do homem conecta-se com a espiritualidade; o espírito é o princípio que sintetiza, que mantém a unidade da personalidade. O homem deve o t empo todo realizar uma ação criativa em relação a si mesmo. Nesse ato criativo a autorrealização da personalidade abre seu caminho. Trata-se de uma luta constante contra a multiplicidade do falso ego que existe no homem. O caos puxa o homem; e ele se conecta com o caos oculto que se esconde por detrás do cosmo. É desse caos que nascem os egos falsos e ilusórios. Toda paixão pela qual o homem se vê possuído pode criar um ego que não é real, que é um Es. NA luta pela personalidade, pelo ego real e profundo, surge um processo de dissolução – esse é um perigo que aguarda sempre – e um processo de síntese, de integração. O homem tem mais necessidade de uma psico-síntese do que de uma psico-análise, que pode conduzir à desintegração ao colapso da personalidade.

A espiritualidade que provém das profundezas constitui também um poder que molda e mantém a personalidade do homem. O sangue, a hereditariedade, a raça possuem um significado que não vai além do fenômeno, do mesmo modo que o indivíduo biológico. Mas o espírito, a liberdade, a personalidade possuem um sentido noumênico. Os sociólogos sustentam que a personalidade humana é moldada pela sociedade, pelas relações sociais, e que a sociedade organizada é a fonte da mais elevada moralidade. Mas a ação da sociedade sobre o homem, impondo-se a ele de fora para dentro, exige uma adaptação a normalidade do cotidiano, aos requisitos do Estado e ao código de comportamento estabelecido pela nação. Isso atira o homem numa atmosfera de mentiras úteis que o protegem e garantem. Um sentimento de verdade e de direito conduz o homem a um conflito com a sociedade. Aquilo que, espiritualmente, é mais significativo no homem certamente não provém das influências sociais, nem do meio social; ele provém de dentro, não de fora.

O primado da sociedade, a dominação da sociedade sobre o homem, leva a que a religião se transforme numa arma da tribo e do Estado, e numa negação da liberdade de espírito. A religião Romana estava baseada num forte sentido da vida social, mas do ponto de vista espiritual ela era uma religião muito fraca. O Cristianismo histórico foi distorcido pelas influências e os ajustes sociais. A arregimentação social do homem conduziu à indiferença em relação ao direito e à verdade. Todo sistema social monista é hostil à liberdade de espírito. O conflito entre o espírito e a sociedade organizada com seu legalismo é um conflito eterno. Mas seria um erro interpretar isso como um individualismo e uma falta de senso de sociedade. Ao contrário, é preciso insistir em que existe uma sociabilidade interior, que o homem é um ser social e que ele é plenamente capaz de se realizar apenas dentro da sociedade. Mas uma sociedade melhor, mais justa e real só pode ser criada a partir da sociabilidade espiritual do homem, a partir de uma fonte existencial, e não da objetificação.

A sociedade que é deificada o é de um ponto de vista metafísico, o que constitui um princípio reacionário. A irrupção da espiritualidade na vida social é possível, e tudo o que existe de bom na vida social provém dessa fonte. A espiritualidade traz consigo a libertação; ela traz consigo a hominidade, enquanto que a dominação de uma sociedade objetificada traz em si a escravidão. A ideia absolutamente falsa corrente na segunda metade do século XIX, de que o homem é uma criação do meio social, deve ser abandonada. Ao contrário, o meio social é que consiste numa criação do homem. Isso não significa que o meio social não atue sobre o homem; ele o faz, e em alto grau. Mas o meio social servil que escraviza o homem é fruto de uma condição servil do próprio homem, uma criação de almas servis. Se não existe Deus, então eu sou um escravo do mundo. A existência de Deus e a garantia de minha independência em relação ao mundo, à sociedade e ao Estado.

Dostoievsky diz que às vezes o homem acredita em Deus através do orgulho. Essa frase é um paradoxo; mas, socialmente, seu significado é de que o homem não consente em se prostrar diante do mundo, da sociedade e das pessoas, e que ele adora a Deus como a única fonte de sua independência e liberdade em relação ao poder do mundo. Existe um orgulho, no bom sentido, na recusa em adorar a qualquer um, ou qualquer coisa, exceto Deus. Espiritualmente, o que está sempre ligado a Deus é o encontro da força interior; ela constitui uma resistência ao poder do mundo e da sociedade sobre o homem. São loucos os que pensam que o fato de que Deus existe empobrece o homem, e que Deus constitui uma alienação de suas próprias riquezas, como pensa Feuerbach. Não: o homem se torna incomensuravelmente rico pelo fato de que Deus existe. A pessoa só é miserável se só existir ela mesma, se não nada acima dela, nada maior do que ela. E todo o mundo se torna terrivelmente pobre, insosso e sem brilho se ele for suficiente em si, se não existir um Mistério além dele.

Além do tipo de espiritualidade que encontramos nos livros de misticismo que descrevem o caminho da alma para Deus e a experiência de comunhão com Deus, existe também outro tipo de espiritualidade, totalmente diferente, que podemos chamar de profética. O profetismo é de inspiração divina; trata-se de ouvir a voz interior de Deus sobre o destino do mundo e da humanidade, sobre o futuro. O homem profeticamente inspirado é um solitário; muitas vezes, ele é apedrejado pelo povo a quem ele serve, mas num sentido espiritual ele se inclina para a sociedade; ele está envolvido com a sociedade. O caminho do homem de inspiração profética não é um caminho de ascensão metódica, mas o caminho de uma irradiação interior. A espiritualidade profética é inteiramente diferente da espiritualidade elaborada pelas escolas místicas da Índia e da Grécia. Trata-se da espiritualidade do tipo dos antigos Hebreus, dos Persas e dos Cristãos. Mas o Cristianismo combina em si os dois tipos de espiritualidade.

A espiritualidade está ligada tanto com uma escatologia individual como com uma escatologia histórica e universal. O Cristianismo primitivo herdou um messianismo Hebraico conectado com o destino da história, e um messianismo Grego ligado ao alcance de uma imortalidade individual através dos mistérios. Por esse motivo podemos ver que na doutrina Cristã da imortalidade existem dois estratos (a imortalidade individual da alma e a ressurreição dos mortos na carne), que não são fáceis de combinar numa unidade. Mas a espiritualidade é sempre uma preparação e uma promessa de imortalidade. A estrutura natural do homem não é imortal em si, ela se torna imortal em virtude de estar penetrada pelo espírito, pelo princípio que permite que o humano e o divino se toquem. O amor é uma grande força espiritual, e ele vence a morte e traz a imortalidade; ele é mais forte do que a morte. O amor está conectado com a personalidade e exige que a personalidade seja imortal.

Nygren, em seu livro já referido aqui, vê no ágape a essência do Cristianismo, e conecta isso ao senso de comunidade, vale dizer, à Igreja. O homem se eleva a Deus pelo eros; no ágape Deus se abaixa até o homem. Deus ama porque ama, não como resultante de qualquer qualidade presente no objeto de Seu amor. E é nisso que consiste também o verdadeiro amor humano. Não é possível encaixar o mais misterioso fenômeno da vida do mundo, o amor, num esquema de “eros” e “ágape”. Na visão de Nygren o misticismo e a gnose pertencem à tradição de eros, e por isso ele os rejeita. Dessa maneira, o Cristianismo é empobrecido. A espiritualidade, em todas as suas formas, é uma luta pela eternidade. A verdadeira humanidade exige uma luta pela eternidade, pois a morte é o mais inumano dos princípios.

Na fraseologia religiosa a espiritualidade é a revelação do Espírito Santo ao mundo e ao homem. Mas o Espírito Santo não se revela de fato completamente; ele não se extravasa realmente na vida do mundo. Uma nova espiritualidade é possível, uma espiritualidade divino-humana na qual o homem se revele com sua força criativa, numa extensão mais ampla do que o fez até agora. A criatividade, a liberdade, o amor, mais do que tudo, devem caracterizar a nova espiritualidade. É preciso dar uma resposta à agonia do mundo, ao interminável sofrimento do homem. A velha espiritualidade não fornece resposta a isso. Mas antes do transbordamento da luz é inevitável uma diminuição das trevas. Antes de uma nova intensidade da espiritualidade o desgaste da espiritualidade se torna visível. Antes do advento do novo Deus-homem, deve acontecer uma irrupção da desumanidade, indicativa do estado de abandono de Deus no homem. A dialética existencial entre o divino e o humano ainda não chegou ao fim, ainda não atingiu seu limite, mas existem ocasiões em que ela toca seu fim e seus limites, e o homem se vê na beira do abismo. A expectativa por uma nova espiritualidade é a expectativa por uma nova revelação do Espírito Santo no homem e através do homem. Aqui não cabe uma espera meramente passiva; é preciso que existe uma condição ativa no homem. Se o homem estiver condenado a esperar um evento do alto, tremendo passivamente, a espiritualidade não será divino-humana, e a divina humanidade não se tornará possível. O paráclito se revelou mais de uma vez na história Cristã, mas ai da não chegou o tempo, a hora ainda não se apresentou. Mas existem muitas circunstâncias que nos fazem pensar que o tempo e a hora estão se aproximando cada vez mais.

Notas:
[1] Nikolay Gavrilovich Chernyshevsky (1828-1889) foi um escritor revolucionário russo, filósofo materialista, crítico e socialista.

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