Nikolai Berdiaev – O Divino e o Humano – Capítulo XIV [FINAL]: O fim das coisas e o novo Éon.

Todo o desenvolvimento do raciocínio nesse livro conduz à questão do fim, não como mais um problema entre outros, mas como o problema principal, aquele que abarca todos os demais. Tese: o mundo teve um começo no tempo e está confinado dentro dos limites do espaço. Antítese: o mundo nem teve um começo no tempo, nem tem limites no espaço, sendo infinito num como noutro. Essa é uma das antinomias da razão pura na dialética transcendental do gênio de Kant. O que me interessa aqui é simplesmente a antinomia associada ao tempo, que deve ser estendida para incluir o problema do apocalipse no final dos tempos. As antinomias de Kant não podem ser resolvidas, não podem ser “canceladas[1]”, na expressão de Hegel. A razão se encontra no poder da aparência transcendental[2]. Kant está absolutamente certo ao dizer que as antinomias não podem ser superadas dentro dos limites do mundo fenomênico. No problema que nos diz respeito agora também é impossível pensar que o mundo existirá indefinidamente no tempo, tanto quanto pensar que ele terá um final no tempo. Para Kant não existe desenvolvimento que tenha sua fonte na antítese. A dialética de Hegel possui um caráter bem diferente. Nele, as antinomias superam umas às outras e são resolvidas na síntese.

As contradições fazem nascer o desenvolvimento. A descoberta do que está por vir, do desenvolvimento, foi uma importante descoberta de Hegel. A unidade da existência e a não-existência dão início ao porvir, ao desenvolvimento. O desenvolvimento no mundo pressupõe a não-existência. Mas para Hegel não existe fim, nem escatologia alguma no sentido estrito do termo. A dialética do finito e do infinito se resolve continuamente, mas nunca se consuma. É por isso que era impossível para ele aceitar algo tão escandaloso como o final que transformou o Estado Prussiano numa monarquia absoluta. Os dois filósofos Europeus de maior gênio, Kant e Hegel, não deram solução à dialética das contradições, pois não tinham uma doutrina sobre o fim das coisas. Isso só é possível por uma experiência religiosa profética, que estava fora do alcance de ambos. Existe uma verdade parcial em Kant, como em Hegel, e eles nos ajudam a compreender o problema filosófico do fim do mundo e da história, um problema que até agora só foi expresso na fraseologia religiosa. Não é correto dizer que a dialética de Hegel seja uma simples questão de lógica. Deduz-se de seu reconhecimento da identidade de pensamento e existência que a dialética lógica se torna uma dialética do ser. É preciso dizer, usando a terminologia de alguns movimentos do pensamento filosófico atual, que em Hegel encontramos uma dialética existencial. Sua teoria do senhor e do escracho, e da consciência infeliz, são exemplos disso.

Não r3econhecemos a identidade entre ser e pensamento; para nós, assim, a dialética possui um caráter diferente, que está ligado à experiência espiritual religiosa. Existe um paradoxo no fato de que quando não se visualiza o fim, tudo se torna infinito. A eternidade só se revela quando procuramos pelo fim. A dialética das antinomias não se resolve dentro dos confins de éon do mundo, que carrega consigo a marca da objetificação. Nisso Kant está mais certo do que Hegel. Mas Hegel está mais certo do que Kant quando reconhece o desenvolvimento por meio da contradição, mesmo que o desenvolvimento não chegue a solução alguma. É paradoxal pensar no final dos tempos, no fim da história, como coisas que ocorrem dentro desse tempo. É isso que torna a interpretação do Apocalipse tão difícil. Não se pode pensar no fim da história, nem como algo que acontece dentro dos limites de nosso tempo vicioso, nem como um evento que pertence a esse mundo, ou como se acontecesse fora do tempo histórico, como um evento que pertença ao próximo mundo. O fim é a conquista, tanto do tempo cósmico, como do tempo histórico. Não haverá mais tempo. Não se trata de um fim no tempo, mas no fim do tempo. Mas o tempo existencial, que possui suas raízes na eternidade, permanecerá, e é nesse tempo existencial que acontecerá o fim das coisas. A isso corresponderá a entrada num novo éon. Ainda não será a eternidade, que os homens ainda tentam objetificar. A linha estreita que marca a fronteira entre o aqui e o além deverá ser obliterada.

Mas existe ainda outro aspecto no paradoxo do tempo, que reside no fato de que existe uma misteriosa coincidência possível entre o passado e o futuro, uma coincidência entre a origem e o fim. O problema escatológico é uma questão metafísica fundamental. Os filósofos deram pouca atenção a ele, quase nenhuma atenção, porque sempre separaram a cognição filosófica da experiência religiosa. Essa separação é falsa, e conduz a uma interpretação errada das antinomias da cognição. O mundo deve acabar e a história deve acabar também; de outra forma, tudo está desprovido de significado. O fim é o triunfo do significado. É a união do divino com o humano, e a consumação escatológica da dialética existencial entre o divino e o humano. Devemos nos mover para adiante, e na verdade já estamos nos movendo dentro do tempo em direção ao fim, que consistirá numa continuação infinita.

Do ponto de vista filosófico o fim do mundo e da história será acima de tudo o triunfo sobre a objetificação, vale dizer, o triunfo sobre o mundo da alienação, da necessidade, da impessoalidade, da hostilidade. É a formação de um mundo de objetos que cria a fonte de todos os infortúnios do homem. O objeto é estranho e intolerável para mim. Também Hegel ligava a consciência infeliz com a relação com o objeto, com a dicotomia e a disrupção. A consciência é sempre dicotômica e disruptiva; ela pressupõe a oposição entre sujeito e objeto, que sempre envolve alguma forma de infelicidade. A superação da dicotomia e da objetificação, o caminho para escapar da escravidão do mundo, dos objetos, pode ser chamada de despertar da supraconsciência, ou de uma consciência mais elevada. A objetificação corresponde sempre a um esfriamento do fogo criativo. Na história ela corresponde a um esfriamento do desenvolvimento. É o que Péguy chamava de “política”, distinta do “misticismo”. O destino dos mosteiros, das revoluções, das colônias comunistas, Tolstoyenses, Dukhoborenses, o destino do amor (“somente a manhã do amor é boa”), o destino póstumo dos homens de gênio, tudo se refere à congelante objetificação. É impossível esperar a solução final da história do mundo ao longo dessa linha. A cultura clássica queria a petrificação do mundo, fixá-lo em formas rígidas, enquanto que o mundo exigia ser fundido e moldado no fogo. “Eu vim para trazer o fogo ao mundo, e como gostaria que já estivesse aceso!”. Essas palavras foram esquecidas por um Cristianismo objetificado, congelado. O homem foi esmagado entre dois infinitos sinistros, e, nessa posição, ele tenta se organizar para não sentir a própria tragédia.

A expansão indefinida do espaço exterior enchia Pascal de terror, mas a indefinitude do tempo no passado e no futuro é tão assustadora quanto. O sinistro duplo infinito se expressa numa existência que se projeta no exterior, vale dizer, na existência objetificada que cada vez mais se afasta de seu núcleo noumênico. Em seu descontentamento com o presente o homem se volta tanto para as lembranças de uma era de ouro no passado, como para a expectativa de uma era do ouro no futuro. O homem é capaz de imaginar uma vida melhor, mais agradável, mais justa e mais verdadeira do que essa existência infeliz. Mas de onde ele tira poder para tal imaginação? Em caso algum esse poder imaginativo que ele possui será capaz de vencer o poder do tempo, o fatídico poder do tempo, que o mantém subjugado mesmo em sua própria concepção de uma era de ouro. O homem materializa o próprio “reino de mil anos”. A ideia profética do “reino de mil anos” é estranha a Santo Agostinho. Em sua visão o “reino de mil anos” já havia se realizado na Igreja histórica. Isso o deixou sob o poder da objetificação. Mas o Cristianismo histórico está chegando ao fim, em sua sina, e a inevitável transição para um Cristianismo escatológico está se apresentando. Raios de luz brilham desde o futuro. O futuro definitivo se une às fontes do passado. Existem três etapas da revelação: a revelação na natureza, a revelação na história e a revelação escatológica. Somente nessa última Deus se revelará plena e finalmente. Essa etapa será precedida pelo abandono de Deus, por um anseio angustiante, pela mecanização e a devastação da natureza, pela mecanização e a secularização da história e pela transição a um período sem deus.

A revelação escatológica é também uma revelação no Espírito e na Verdade, que é a eterna revelação. Existe um trágico conflito entre a Verdade e o mundo. A Verdade pura e sem distorção queima o mundo. O objetivo é alcançar uma totalidade, a superação da disrupção, das falsas antinomias nos pensamentos, nos sonhos, nas paixões, nas emoções e nos desejos. Poderá haver sofrimento nas partes isoladas da alma, enquanto em outras partes pode não haver. O homem pode existir porque o sofrimento não se apropria de toda a alma, mas sua existência não é feliz. A história universal lembra à mente não apenas a tragédia, como também a comédia, e a comédia também chega ao seu fim. Esse é o fracasso fatal da história de que falei mais atrás. Todo esforço para criar uma nova existência, seja pelo Cristianismo histórico, seja pela revolução social, ou pela formação de seitas, etc., tudo termina pela objetificação, pela adaptação ao medíocre, à normalidade do cotidiano. O velho reaparece em novas formas, a velha desigualdade, o amor pelo poder, a luxuria, os cismas e todo o demais. A vida em nosso éon não passa de um teste e de um caminho, mas o teste possui um sentido e o caminho conduz à consumação final. Seria fácil para o homem se ele tivesse consciência do fato de que uma próxima revelação está ao alcance de sua mão, uma revelação, não apenas do Espírito Santo, mas de um novo homem e de um novo cosmo.

Tanto uma escatologia passiva como uma escatologia ativa são possíveis. Na maior parte dos casos a estrutura apocalíptica da mente é levada a uma espera passiva do fim, e a uma recusa em encarar os problemas da história. Assim é a História do Anti-Cristo de Vladimir Soloviev. O tempo apocalíptico é interpretado como um tempo de espera, submetido à ação de poderes divinos e diabólicos. Esse é um aspecto decadente da mente. Mas uma escatologia ativa é possível, e ela impõe a consciência de si que responde pela dignidade do homem enquanto espírito livre. Ela estabelece a necessidade de uma ênfase na atividade e na criatividade humana para quando chegar o fim. o pensamento do fim deve ser tomado, não com uma atitude mental passiva e negativa, mas de forma criativa e positiva. Já mencionei que todo ato criativo humano possui um caráter escatológico e conduz o mundo a um fim. O fim é interpretado de maneiras diferentes conforme o homem o veja do ponto de vista do Cristianismo histórico, ou de uma revelação mais completa do Espírito. No último caso, o homem se torna sujeito, não objeto, e ele se torna um sujeito criativo. A consciência Cristã pouco refletiu sobre o fato de que a raça humana chegará a um fim e que os homens deverão se tornar inteiramente Cristãos, monges, talvez, mas absolutamente capazes de temperança. Aqui vemos a profundidade escatológica da questão do sexo. É comum dizer-se que o objetivo do casamento é a geração de filhos, e que esse é o supremo bem. Mas ao mesmo tempo pensa-se que esse bem supremo é resultado daquilo que se considera vicioso e pecaminoso. Rosanov expõe aguda e vigorosamente a hipocrisia que resulta dessa inconsistência. Somente Soloviev e Kierkegaard opinam que no modo atual de geração de filhos haja algo de vicioso e pecaminoso.

A metafísica do sexo possui uma conexão imediata com o problema do fim. Quando vier o fim, algo deverá mudar na existência do sexo. Depois da submersão desse lado da vida na dissolução e numa treva horrorosa, deverá acontecer uma iluminação. O amor poderá transfigurar a antiga vida sexual e dirigir a energia do sexo, que mantém escravo o homem, para canais criativos. Somos conscientes da possibilidade dessa sublimação da energia. O amor deverá ter uma posição central da religião do Espírito, a religião do fim – o amor deverá ser transfigurador e criativo. Tanto o amor erótico como o amor ágape terão seu papel. Mas, antes de entrar na época mais alta e encontrar ali a unidade, o homem terá que seguir até o fim o caminho da dicotomia e do sofrimento, que ainda mal começou. Devemos sempre lembrar que ao final de seu caminho, Jesus clamou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Houve um homem que, ao final de um longo caminho histórico, sentiu esse abandono, embora de outra maneira, e esse homem foi Nietzsche. O processo do mundo possui um caráter trágico; ele não pode ser entendido como um movimento progressivo e contínuo para frente. O mal resulta do processo do mundo, pois tudo o que se desenvolve é lançado fora no não-ser; mas homens e mulheres, criaturas vivas, não poderão ser atirados ao não-ser. Só existe uma coisa que talvez tenha que suportar as eternas dores do inferno, que é a insistente defesa delas, acompanhada por um sentimento de satisfação.

A maior verdade religiosa e moral para a qual o homem deve se voltar, é de que não podemos ser salvos individualmente. Minha salvação pressupõe a salvação de todos, a salvação de meu próximo, a salvação universal, a salvação de todo o mundo, a transfiguração do mundo. A própria ideia da salvação nasce de uma condição oprimida do homem; e ela está associada a uma concepção forense do Cristianismo. Isso deve ser substituído pela ideia de uma transformação criativa e de uma iluminação, pela ideia de um aperfeiçoamento de toda a vida. “Vede, eu fiz novas todas as coisas”. Não é só Deus que faz novas as coisas, mas também o homem. O período do fim não é apenas um período de destruição, mas também um período de criatividade divino-humana, de uma nova vida e de um mundo novo. A Igreja do Novo Testamento era uma imagem simbólica da Igreja eterna do Espírito Santo, na Igreja do Espírito será lido o Evangelho eterno. Quando nos aproximarmos do eterno Reino do Espírito, as torturantes contradições da vida serão superadas e os sofrimentos que levam ao fim aumentarão, para então passar à sua antítese, a felicidade. E isso acontecerá não apenas em relação ao futuro, como em relação ao passado, pois haverá uma inversão do tempo, e todas as coisas vivas participarão do fim.

Notas:
[1] Aufgehoben.
[2] Schein.

Fonte blog Caminho de Oração

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