Nikolai Berdiaev – O Eu, a solidão e a sociedade: CAP. 3 [FINAL] SOLIDÃO E CONHECIMENTO – TRANSCENDÊNCIA; CONHECIMENTO COMO COMUNHÃO; SOLIDÃO E SEXUALIDADE – SOLIDÃO E RELIGIÃO.

Nikolai Berdiaev – O Eu, a solidão e a sociedade

CAPÍTULO III
SOLIDÃO E CONHECIMENTO – TRANSCENDÊNCIA;
CONHECIMENTO COMO COMUNHÃO;
SOLIDÃO E SEXUALIDADE – SOLIDÃO E RELIGIÃO.

É incontestável que o conhecimento chega a suplantar a solidão, porque ele nos faz sair de nós mesmos, do espaço e do tempo – tais como nos são dados – para nos conduzir a outro espaço e outro tempo, e que ele, levando-nos até o ‘outro’, supera o isolamento. O conhecimento é uma das saídas possíveis para a solidão, uma saída para o outro ‘eu’, para mundo, para Deus. Aquele que conhece sai de sua reclusão, deixa de viver unicamente em si e consigo mesmo. Tampouco se pode negar que o conhecimento traz em si uma marca social, que ele permite aos homens comunicar entre si. São evidentemente sociais a comunidade lógica, o aparelho lógico do conhecimento, os conceitos, as normas e as leis, a língua. A língua é o instrumento mais poderoso da constituição da sociedade e o estabelecimento de comunicações entre os homens, mas ela própria está ligada ao pensamento e à elaboração de noções que permitem a instituição de uma comunidade de ordem intelectual entre os homens. Subjaz aos nomes uma verdadeira magia social. Os resultados e as realizações práticas do conhecimento dependem do grau de comunidade entre os homens, de agrupamentos sociais, de sua cooperação laboriosa, em resumo, da maneira como eles superam a solidão. Todos esses fatos colocam, em toda sua complexidade, as relações entre conhecimento e solidão.
Se o caráter social do conhecimento caracteriza o estabelecimento de comunicações entre os homens, nem por isso segue-se que ele caracterize também a realização da comunhão, vale dizer, que a solidão seja ontologicamente superada. Pois, uma vez que a socialização é idêntica à objetificação, e que a objetificação do conhecimento mascara o mistério da existência (única forma de suplantar a solidão e estabelecer a comunhão), das duas perspectivas a partir das quais se pode considerar o conhecimento – a da objetificação e a da amizade com um ‘si mesmo’ – somente a segunda é capaz de trazer a cura para a solidão.
Assim é que o conhecimento comporta dois aspectos. Seu sentido primário está na relação do conhecedor para com o ser; nesse sentido a solidão é superada quando a participação do conhecedor no mistério da existência é alcançada. O segundo sentido do conhecimento reside nas relações do conhecedor com o ‘outro’, com a multiplicidade dos homens, com a sociedade. Se, desse segundo ponto de vista, se pretender suplantar a solidão por meio da socialização, como essa reflete a queda do ‘eu’ no mundo dos objetos, o sucesso obtido será superficial, e não poderá ser conseguido sem que o sentimento e a consciência de si sejam amortecidos.
A comunhão por meio da qual a solidão pode ser superada não se realiza, portanto, senão pela passagem, não do ‘eu” ao objeto, mas do ‘eu’ ao ‘você’, tal como operam o amor e a amizade. Isso é inteiramente válido para o conhecimento. Nem o contato do ‘eu’ com o objeto, nem a sociedade podem abolir a solidão. Tal coisa só é possível por meio do ‘você’, pela comunhão no interior de um ‘nós’, e jamais por meio do social. Uma vez que o conhecimento objetificado não trata nunca de outra coisa que não do geral, ele fabrica abstrações e alcança o universal, mas, seja no geral, seja no universal, já não existem o individual, o singular e o pessoal. Ao contrário, no conhecimento visto como comunhão, na medida em que ele permite ao ‘eu’ se unir com o ‘você’, o valor da universalidade dos resultados reside em que eles servem para alcançar o individual, o singular e o pessoal. Não é numa generalidade abstrata, mas no universal concreto, que o individual encontra sua afirmação.
Assim sendo, quando o universal e o geral oprimem, negando o particular e o singular, torna-se possível superar a solidão, mas apenas na medida em que se suprime totalmente o ‘eu’, e portanto do ‘você’ (que não é outra coisa do que um ‘outro eu’). Ao contrário, quando o conhecimento é considerado como sendo uma filosofia da existência, ele sempre trata do ‘eu’ e do ‘você’, e é, em essência, personalista. Com efeito, o que importa não é afogar a solidão numa universalidade impessoal, mas sim ultrapassá-la pela personalidade. Ao se libertar do jugo da sociedade, da comunidade lógica socializada, o conhecimento torna o pensamento supralógico.
O certo é que superar a solidão consiste sempre em operar uma transcendência do ‘eu’, seja no pensamento, seja na vida emocional. Mas transcender-se em direção ao objeto e ao geral é uma coisa, transcender-se em direção ao ‘você’, ao ‘outro eu’, em direção à existência autêntica, é outra, e totalmente diferente. Certamente existe um valor positivo no ato através do qual o ‘eu’ ultrapassa a si mesmo, se liberta pelo conhecimento do objeto, pela instituição da sociedade, pela elaboração das generalidades e dos conceitos indispensáveis à comunicação – mas o mundo em cujo interior isso se realiza continua a ser um mundo decaído, dividido, acorrentado. Mesmo na generalidade do conhecimento objetificado transparece a luz do Logos, ainda que seja num meio obscurecido, que reflete a servidão do ‘eu’ humano.
Assim é que o conhecimento desemboca em contradições e antinomias insuperáveis. Na medida em que ultrapassa a solidão e obtém a comunhão, e enfrenta o tempo, a pessoa e outros tantos problemas, de onde surgem as contradições. A objetificação não suprime essas contradições, ela só o faz em aparência; e elas se multiplicam na mexida mesma do progresso do conhecimento objetificado. Para todas essas contradições, que às vezes se tornam intoleráveis, a solução possui um único nome, que é Deus. Deus significa precisamente a coincidentia oppositurium, para retomarmos a definição genial de Nicolas de Cusa.
O conhecimento é conjugal por natureza: ele pressupõe uma dualidade; ele não pode ser produzido, nem somente pelo objeto, nem por uma atividade própria e exclusiva do sujeito. É por isso que a solidão não é suplantada, a menos que, na operação do conhecimento, se realize a união verdadeira, que é a união pelo amor, uma vez que não existe união possível com o geral, sendo a única forma de união aquela que se dá com um ‘outro eu’, com o ‘você’.
A essência conjugal do conhecimento é una com sua essência teândrica. No conhecimento, existe a parte do homem e a parte de Deus. A objetificação parece eliminá-las do saber, e substituí-las pela impessoalidade e a generalidade. A dificuldade do conhecimento está em trespassar essa impessoalidade e essa generalidade, para realizar a união conjugal das pessoas. Mas pode acontecer que, sobre a via do conhecimento, o ‘eu’ não consiga banir a solidão, e que ele se ponha a buscar a união por outros caminhos. Por conhecimento, entendo aqui não apenas o conhecimento dos sábios e dos filósofos, estranho à maior parte das pessoas, como também o conhecimento comum, fornecido pela vida de todo dia, que está submetido ao geral e resulta da imitação.
Uma das principais causas da solidão humana é o sexo. O homem é um ser sexuado, vale dizer, ele é metade de um ser, um ser cindido, incompleto, que aspira a ser completado. O sexo lesa profundamente o ‘eu’, que é bissexual, que em sua integridade e sua plenitude seria macho e fêmea, ou seja, andrógino. Dessa forma, a primeira maneira de fugir da solidão na comunhão diz respeito à solidão sexual, ao isolamento no sexo; ela aspira à reunião na integridade sexual. Pelo simples fato de sua existência, o sexo é separação, falta, nostalgia, desejo de se abrir ao outro.
A união física dos sexos, que encerra o desejo sexual, não basta, por si só, para superar a solidão, e essa pode vir a se mostrar ainda mais violentamente. A união sexual pode inclusive levar à queda do ‘eu’ no mundo objetificado, pois, embora sendo um acontecimento da natureza, a vida sexual remete ao mundo dos objetos. Seu resultado se encontra socializado no casamento e na família. Como fato biológico e social, a sexualidade é objetiva; ora, na objetividade, a solidão não é superada, mas apenas amortecida.
É por isso que, embora a união biológica dos sexos e a instituição familiar possam adormecer e apaziguar o sentimento de solidão, eles não podem fazê-lo em definitivo, e existe um verdadeiro demonismo no sexo, que aparece tanto na repressão quanto nas manifestações sexuais. Quando a sexualidade é demoníaca, ela se torna destrutiva e assassina.
Somente o amor e a amizade podem trazer ao homem a grande promessa de que a solidão pode ser superada. O amor é precisamente aquilo que suprime a solidão, o que conduz o ‘eu’ ao outro, a reflexão do ‘eu’ no outro e do outro no ‘eu’. É uma comunhão na qual a pessoa se une a outra pessoa. Um amor impessoal, que não se dirija a nenhuma imagem individual, não poderia ser chamado de amor: “amor de vidro”, dizia Vasily Rozanoff. Isso não passa de uma corrupção do Cristianismo. Da mesma forma, a amizade só pode ser personalista, e dessa forma participa igualmente do erótico.
Como poderia não existir uma ligação profunda entre a pessoa e o amor, uma vez que o amor é o que faz de mim uma pessoa? Somente pelo amor podemos nos fundir totalmente com o outro, superando a solidão. O conhecimento não é possível, a menos que ele seja amor. Mesmo o que existe de parcial e demoníaco na sexualidade pode conduzir ao amor. Quando a existência humana é lançada no mundo objetivo, o amor se torna trágico e se liga à morte. O mundo objetificado não reconhece o amor autêntico, ele não o ama, só conhece dele o aspecto biológico e social; por seu lado, o amor desconhece das leis do mundo objetivo e social, ele deve romper seus limites a fim de suplantar a solidão; e é por isso que ele está tão intimamente ligado à morte.
Somos reconduzidos à mesma dualidade. A comunicação sexual pode se encerrar dentro da sociedade, permanecer dentro dos quadros das instituições sociais, e a objetificação impede a comunhão real, de modo que a solidão persiste; ou, ao contrário, os sexos se unem, não mais da sociedade, mas na comunhão pelo amor, e a solidão é superada; enquanto isso, no mundo objetivo essa união gera um destino trágico e se liga misteriosamente à morte.
Dentro dos limites de nosso mundo, o dualismo é insuperável; mas em conexão com ele está o transcendente, que é o princípio da vida autêntica, e que, por franquear os limites da vida enclausurada, permite alcançar uma esfera mais alta. A essência do amor consiste em transcender. O homem é lavado a tal pela força do sentimento contundente de seu abandono, e o mundo congelado dos objetos o faz buscar a outrem e a desejar a reunião. Mas o mistério metafísico da sexualidade é tão grande e profundo q eu, mesmo na extremidade do amor, como no caso de Tristão e Isolda, a solidão e a nostalgia sexuais não são completamente suprimidas. Entre os amantes existe um elemento demoníaco de inimizade. Na sua superação definitiva poderia se realizar a imagem do andrógino perfeito; mas isso implicaria a transfiguração da natureza. O que permanece como verdade é que é no domínio da sexualidade que se revela com mais clareza a necessidade de ultrapassar a solidão.
No comunismo, esse problema desaparece. A solidão é definitivamente superada pela dissolução do ‘eu’ pela coletividade pública, pela substituição da consciência coletiva ao ‘eu’ pessoal. A existência do ‘eu’ se objetiva definitivamente e se enraíza no processo do construtivismo social. A vida sexual se submete definitivamente à coletividade, às exigências da construção social. Daí a importância atribuída à eugenia, à mecanização e à tecnificação do sexo: o amor pessoal é totalmente negado. Conta-se com esse sistema de seleção para sufocar a nostalgia sexual e o sentimento de solidão conectado a ela. O erótico é sacrificado em benefício do econômico e do técnico. Encontramos a mesma tentativa no racismo alemão.
Isso equivale a tentar resolver por meio da objetificação e da socialização um problema cujo caráter está em nos conduzir para além de toda espécie de objetificação e de socialização, na direção da comunhão e da união existencial. Isso não é novo: entre os Doutores da Igreja, encontramos a mesma negação do amor pessoal, a mesma concepção da vida sexual considerada como uma instituição social. É verdade que, por um de seus aspectos, a sexualidade mergulha na existência interior do ‘eu’, ela se interessa pelo destino do homem e da pessoa, enquanto estrangeiros ao mundo dos objetos, sem, no entanto, jamais deixar de estar num conflito trágico com esse, de estar envolvido no conflito da família e da sociedade. O mesmo acontece com o desejo de autoridade, a necessidade de poder, que precipita o homem no mundo dos objetos e da sociedade, ao mesmo tempo em que é inseparável do destino do homem íntimo. O poder e a autoridade não superam a solidão, porque só podem ser exercidos sobre os objetos; é por isso que o destino de um Júlio César, de um Napoleão, é trágico.
Religião significa ligação. É em virtude de sua própria definição que a religião conduz o ‘eu’ a ultrapassar seu isolamento, a sair de si, a se mostrar, a conquistar uma comunidade, uma familiaridade. Por essência, ela está associada ao mistério do ser, ao próprio ser. Mas não é pela religião, diretamente, que a solidão é suplantada, pois a religião não passa de uma relação e, como tal, ela é secundária e transitória: a solidão só pode ser suplantada por Deus. É Nele, precisamente, que ela é ultrapassada, que se obtém a plenitude, que se descobre o sentido da existência. Esquecemo-nos com frequência que é Deus o primeiro e que a religião pode mesmo prejudicar a relação entre Ele e o homem. No interior da religião, tal como ela se revelou na história, na vida social da humanidade, a relação do homem com Deus não é independente da objetificação e da socialização. Com essa religião objetiva e socializada, o sentimento de solidão fica amortecido, em consequência da queda do ‘eu’ no mundo dos objetos e da sociedade, ainda que esse mundo se chame Igreja; mas ele não é ontologicamente superado.
Esse sentimento não pode ser superado a menos que a relação entre o ‘eu’ e Deus seja da ordem da existência íntima, da vida original da Igreja-comunidade, e não da Igreja-sociedade; assim é que encontramos na religião a mesma coisa que vimos a respeito do conhecimento, da vida sexual – em toda partem a mesma dualidade, as duas mesmas perspectivas, a do Espírito e a da natureza, da liberdade e da necessidade, da existência (ou vida primeira) e da objetividade. Certamente, a religião é uma instituição social, ela já é algo de secundário, de objetificado, de projeção no mundo; mas ela é também revelação, a voz de Deus, a encarnação de Deus, e assim ela é primária e independente do mundo dos objetos, do mundo socializado.
Isso não quer dizer que, mesmo nesse caso a religião não passe de um acontecimento individual e o privilégio de almas isoladas. Ao contrário, a religião, ao mesmo tempo em que me religa e me une a Deus, é necessariamente o que me religa e me une ao ‘outro’, ao meu próximo – ela é comunidade e comunhão. Essa união revela uma outra ordem além da ordem objetiva da sociedade, onde é cada um por si, onde o próprio Deus é um objeto e não um ‘você’. O mistério do Cristianismo é o mistério da superação do ‘eu’ em Cristo, o Homem-Deus, em sua natureza teândrica, no Corpus Christi. Mas, para superar a solidão, não é bastante confessar de modo formal a fé em Cristo, pertencer formalmente à Igreja, pois nesse caso a superação não é mais do que aparente e superficial, ao invés de se realizar em profundidade. No Cristianismo puramente social, o amor só poderia ter um caráter convencional, simbólico, irreal. A solidão não pode ser efetivamente superada senão pelo amor real, que é o ápice da vida.
Acontece que pertencer por pura forma às confissões cristãs significa manter-se num grau de objetificação. O ‘eu’ que não sai de si senão para penetrar no objeto não se liberta de sua solidão, pois não existe realmente, ontologicamente, união com esse objeto, por meio do qual ele realizou sua saída de si. É por isso que, no próprio interior da Igreja, sua solidão ainda pode ser sentida de maneira aguda, contundente, particularmente dolorosa. No interior de uma mesma paróquia, junto com seus correligionários, é possível sentir-se infinitamente só, mais até do que entre homens de credos e convicções diferentes, e manter, com esses correligionários, relações exclusivamente objetivas, não vendo, em cada um deles, mais do que um objeto, e jamais um ‘você’. Esse é um estado extremamente doloroso, trágico até, e que atesta a dualidade básica da vida religiosa. Um crescimento da espiritualidade pode trazer um agravamento dessa solidão, pois pode ser acompanhado de uma ruptura total com as relações sociais do mundo objetificado. Essas dolorosas rupturas não podem ser evitadas no caminho do progresso espiritual.
Não obstante, é somente sobre o plano espiritual que a solidão pode ser ultrapassada, é apenas na experiência mística, onde todas as coisas estão em mim, e eu nelas. Esse caminho é diametralmente oposto ao da objetificação, que põe em comunicação coisas que são absolutamente extrínsecas, estranhas, sem parentesco algum. Comunicações e relações, mesmo dentro do próprio Cristianismo, apresentam frequentemente um caráter de convenção puramente verbal, retórica, como acontece com a simbólica das comunicações e das relações. Toda a vida da sociedade repousa sobre uma “retórica” imitativa. A isso se opõe a realização da vida verdadeira, espiritual e mística. Sem dúvida, a própria mística pode se tornar retórica e convencional, mas em nenhum caso ela se torna objetificação, ela jamais se rebaixa ao cotidiano social. Mas esse não é seu sentido verdadeiro. Em suas profundezas, a existência humana, minha própria existência, é de ordem espiritual e não pertence ao mudo objetificado da obrigação, ela não tem aí sua raiz. É somente no seio dessa profundidade que a solidão é superada, que ela é posta a nu. Ao contrário, a objetificação final suprime a ansiedade da solidão. Ao reconhecer-se como pertencente ao objeto, à sociedade, o ‘eu’ já não se sente só; mas não existe aí nada que signifique a vitória sobre a solidão, ainda que essa inserção do ‘eu’ no mundo dos objetos e da sociedade objetificada seja de ordem religiosa, pois esse estado não é experimentado depois, mas antes do despertar da solidão, enquanto revelação das profundezas. É aqui que se reconhece toda a complexidade do problema da solidão, tal como se encontra em todos os domínios, seja do conhecimento, da sexualidade, da vida social ou da vida religiosa.
Ao tratar do mal da solidão, expusemos um dos problemas principais da filosofia da existência, concebida como filosofia do destino humano. Solidário a esse problema está o angustiante “mal dos tempos”, que iremos abordar oportunamente.

FONTE: BLOG CAMINHO DE ORAÇÃO

Nikolai Berdiaev – O Eu, a solidão e a sociedade: CAP. 1 O EU E A SOLIDÃO; SOLIDÃO E SOCIABILIDADE.

Nikolai Berdiaev – O Eu, a solidão e a sociedade

CAPÍTULO I
O EU E A SOLIDÃO
SOLIDÃO E SOCIABILIDADE

O eu é primitivo: ele não pode ser deduzido a partir de nada, nem pode ser reduzido a nada. Quando digo ‘eu’, não enuncio nem estabeleço nenhuma doutrina filosófica. Eu, esse ‘eu’, não constitui a substância da metafísica ou da religião. O erro do cogito ergo sum está em que Descartes pretendia deduzir a existência do eu a partir de qualquer coisa diferente, deduzi-la do pensamento; mas, na realidade, não é pelo fato de pensar que eu existo, ao contrário, eu penso por que eu existo. O que deveria ser dito não é: “Penso, logo existo”, mas “Eu existo, envolto nas trevas do Infinito, portanto eu penso”. O ‘eu’ é primeiro existente, ele pertence ao domínio da existência.
O ‘eu’, antes de toda objetificação, é, por sua natureza existencial, liberdade. Henri-Frédérik Amiel diz justamente que o fundo do ‘eu’ não pode ser feito de objeto. Precisamente por ser o ‘eu’, ele não se encontra entre os objetos do mundo. A partir do momento em que ele se torna objeto, ele deixa de ser o ‘eu’. Ele é, por natureza, inicial e primitivo. Consciente e inconsciente não se opõem senão enquanto suas propriedades. O que vem primeiro, não é, como pensam muitos filósofos, a consciência, mas o ‘eu’ imerso na existência. Quando começamos pela consciência, partimos já de um certo grau de objetificação. Que a consciência do esforço seja, como professa Maine de Biran, a aurora da personalidade, isso sem dúvida possui uma importância considerável, mas não é o que existe de primordial. Dizemos ainda que a consciência de si é uma criação do si. É verdade, mas isso pressupõe a existência de alguma coisa anterior à existência.
O surgimento da consciência é um acontecimento extremamente importante no destino do ‘eu’. A consciência divide e isola, mas ela também faz um esforço para reunir e para superar o isolamento. Pois se o ‘eu’ é liberdade, liberdade em primeiro lugar, também é verdade que a consciência aguda do ‘eu’ é inseparável de um sentimento de servidão e de dependência em relação ao ‘não-eu’. Originalmente, o ‘eu’ e o tudo, o tudo e o ‘eu’, não se distinguem; apenas mais tarde descobrimos o ‘não-eu’ e, em contato com ele, o ‘eu’ contrai uma sensibilidade especialmente aguda e dolorosa. A distinção entre o ‘eu’ e o “eu próprio”, entre anima e animus, é já secundária e relativa ao crescimento espiritual do ‘eu’. Assim é que partimos da unidade indiferenciada do ‘eu’ e do mundo, passando pelo dualismo entre o ‘eu’ e o ‘não-eu’, para alcançar a unidade concreta de todo ‘eu’ com o ‘você’, na qual a multiplicidade se conserva, mas transfigurada.
A filosofia parte do ‘eu’, não do objeto: ela nasce a partir da dúvida em relação ao objeto. O filósofo não é o homem da consciência coletiva, genérico; ele não poderia partir do estado no qual o ‘eu’ é objetificado na consciência coletiva. Antigamente os homens viviam encerrados num espaço restrito, no qual eles se sentiam bem, onde estavam preservados do sentimento de isolamento. Hoje, em geral, eles começam a viver no universo, no seio da imensidão do mundo, com um horizonte mundial, o que aviva o sentimento de solidão e de abandono. O filósofo sempre viveu no universal, sempre teve por horizonte o mundo inteiro, ele não conhece um círculo restrito; e é por isso, inicialmente, que ele é só, no mesmo grau que o profeta, mas de modo diferente desse. Essa solidão é superada pelo filósofo, mas não pela vida numa consciência coletiva, mas pelo conhecimento. É isso que iremos examinar agora.
O ‘eu’ se define, de um modo antinômico, como o imutável prestes a mudar. Ele não poderia mudar no tempo, se atualizar, se não houvesse algum suporte para a mudança, se esse sujeito que muda não permanecesse e persistisse sendo ele mesmo. O ‘eu’ se desdobra sem cessar, muda de feição; mas, em si mesmo, ele permanece sendo ele mesmo, um e único. Ele pode se contrair e se expandir; cada um de nós comporta um ‘eu’ mais estreito e um ‘eu’ mais vasto. Mas o ‘eu’ em si pode ser definido como a unidade permanente sob todas as mudanças, o núcleo extratemporal, que não pode receber nenhuma determinação de outra coisa do que de si próprio. As mudanças experimentadas pelo ‘eu’ podem ser determinadas extrinsecamente; mas ele próprio não pode ser determinado desde fora, pelo ‘não-eu’. Ele só é determinável desde dentro, e responde ativamente a toda ação extrínseca, determinando-se a si próprio.
Todo ‘eu’ se parece com todo outro ‘eu’, enquanto puro ‘eu’; mas cada qual só é um, precisamente na medida em que é diferente dos outros. Cada ‘eu’ é um mundo á parte. Que pressupõe a existência dos outros, mas que não se parece, nem se identifica com eles. O que eu chamo de ‘eu’ é unicamente o ‘eu’ não socializado, não objetificado. Minha existência, a existência do ‘eu’ precede sua inserção no mundo; mas ela é inseparável da existência do ‘outro’ e dos outros.
A consciência de si é necessariamente a consciência dos outros; em sua natureza metafísica, ela é social. A existência do homem, na medida em que a consideramos como a pura existência do ‘eu’ pressupõe a existência dos demais homens, do mundo, de Deus. O isolamento absoluto do ‘eu’, a suspensão de todo contato com outrem, com um ‘você’, equivale à destruição do ‘eu’ por si próprio. Ele cessa de existir quando, no interior de sua própria existência, não lhe é dada a existência de um outro ‘eu’, de um ‘você’. Amiel afirma com justeza que a análise de seu ‘eu’ lhe abre uma perspectiva sobre o mistério do mundo. Ao contrário, o ‘eu’ de Fichte não é exatamente um ‘eu’: ele não é individual, mas universal, e não conhece nenhum outro ‘eu’, nenhum ‘você’, mas apenas o ‘não-eu’. O ‘eu’ apreende a si próprio como produto de sua própria atividade; mas essa atividade não é possível senão com a existência, não apenas desse ‘eu’ ativo, mas de alguma coisa e de algum outro; e aquilo a que me refiro aqui não é a existência dos objetos para o ‘eu’, mas é, como veremos a seguir, a existência de um outro ‘eu’, de um outro ‘você’.
Naquilo que me constitui enquanto ‘eu’, entram não apenas minha alma, mas meu corpo também. A teoria do dualismo, do paralelismo entre a alma e o corpo, é estéril. Tanto em mim como no outro, o corpo não pertence apenas ao mundo objetivado, mas provém da existência interior; e, tanto em mim como no outro a existência interna não depende somente de sua projeção no mundo, mas ela manifesta a própria intimidade do ser. É precisamente nesse domínio, diferente daquele a que chamamos de vida-no-mundo, que se coloca o problema do ‘eu’ e de suas relações, seja com os outros, seja com o objeto.
É surpreendente constatar que o sentimento de existir e, em especial, a consciência de si, envolvem sofrimento e vulnerabilidade, despedaçamento e desdobramento. Esse sofrimento se relaciona com aquilo que certos filósofos, como Simmel, Tillich e Jaspers, chamam de “situação imite do homem”. é verdade que o ‘eu’ é lançado no mundo, que ele habita o mundo, que está submetido à sua ação; entretanto, é verdade também que ele não pertence unicamente ao mundo. Minha vida transcende a si mesma incessantemente; mas esse transcender, na medida em que eu permaneço no mundo. Torna minha existência dolorosa e atormentada. O ‘eu’ não existe senão na medida em que transcende a si próprio, e perece se permanece em si mesmo, sem saída: esse é o enigma fundamental do ‘eu’.
Para que continue sendo ele mesmo, duas condições se impõem ao ‘eu’: é preciso que ele se subtraia à objetificação e à socialização do ‘eu’, e é preciso que ele ultrapasse a si próprio; na medida em que for capaz de realizá-lo, pela força de sua existência íntima, ele poderá sair de si para ir ao encontro do ‘outro’ e dos outros, ao ‘você’, a seu próximo, ao mundo de Deus. Não há nada mais repugnante e funesto do que um ‘eu’ que mergulha egoistamente em si mesmo e em seus próprios estados, um ‘eu’ que se esquece dos outros, do mundo, do múltiplo e do todo; em resumo, um ‘eu’ incapaz de transcender a si mesmo. Isso acontece com algumas mulheres histéricas. Somente o poeta lírico tem o poder de lidar com sua ignominia de beleza, porque a criação poética constitui em si uma maneira de transcender.
A reflexão que esclarece mais profundamente toda a existência do ‘eu’ é a reflexão sobre a solidão, tão pouco estudada até o presente com um espírito filosófico – ainda que o próprio conhecimento, com sua ambiguidade, pudesse considerar interessante a solidão, permitindo que ela seja superada de tal sorte que seria essa justamente a maneira de obtenção da luz interior. Na medida em que o ‘eu’ não é capaz de dizer ‘nós’, ele experimenta um sentimento agudo, lancinante de solidão. É no coração dessa fase de solidão que nasce a personalidade, ao tomar consciência de si mesma. A massa da humanidade, que vive na inocência primitiva, de uma vida coletiva, genérica, ignora esse sentimento de solidão; ao contrário, esse último acompanha o esforço para sair dessa vida da espécie e nascer para a personalidade. É quando estou só, quando me sinto só, de modo agudo e doloroso, que eu experimento minha personalidade, minha originalidade, minha singularidade, minha irreversibilidade, minha diferença em relação a seja lá quem for, ou a seja lá o que for, nesse mundo. No agudo extremo desse sentimento de solidão, tudo parece se tornar para mim estranho e heterogêneo. Eu já não me sinto comigo, em meu país natal; nesse mundo que me parece estranho eu não me sinto na pátria de meu espírito.

“Esse sentimento de degredo da alma no mundo para o qual ela foi enviada se exprime na concepção órfica original da alma.
Lentamente ela nasce nesse mundo, consumida por um desejo maravilhoso;
E as tristes canções dessa terra não podem substituir para ela a música celeste.”
(Lermontov)

Na medida em que não me sinto eu mesmo, na medida em que não me encontro no mundo de minha própria existência, na medida em que sinto os homens com se pertencessem a um outro mundo que não é o meu, tanto o mundo como os homens se tornam objetos para mim, e passam a fazer parte de um mundo objetificado, ao qual eu me sinto, mais do que ligado, acorrentado. O mundo objetificado não é capaz de me tirar de minha solidão. Diante do objeto, diante de qualquer objeto, quaisquer que sejam os laços que o prendam a mim, o ‘eu’ permanece sempre só. Essa é uma verdade fundamental.
No seio de minha solidão, na minha existência encerrada em si mesma, eu não me limito a sentir e reconhecer com acuidade minha personalidade, minha originalidade e minha singularidade; ao contrário, eu experimento a nostalgia de uma fuga para fora de minha solidão, a nostalgia da comunhão, não com um objeto, mas com o ‘outro’, o ‘você’, o ‘nós’. O ‘eu’ tem sede de sair de sua reclusão ensimesmada, para se dirigir a um outro ‘eu’; mas ao mesmo tempo ele permanece em guarda, pois ele vê com apreensão um encontro que pode fazê-lo experimentar a brutalidade de um objeto.
O homem possui um direito sagrado à solidão e à salvaguarda de sua vida íntima. Seria errôneo confundir solidão com solipsismo; ao contrário, não pode haver solidão que não implique a existência do ‘outro’ e dos outros, assim como a existência do mundo estranho e objetificado. Não é tanto em sua existência própria que o ‘eu’ é solitário, quanto em face e no meio dos outros, no mundo onde ele se encontra alienado. A solidão absoluta não é concebível, ela só pode ser relativa à existência dos outros e do ‘outro’.
Se absoluta, a solidão seria o inferno e não o não-ser: como tal, ela não pode ser pensada positivamente, e não seria mais do que uma negação. Se relativa, a solidão constitui uma enfermidade, colocada sob um sinal negativo; mas ela não é só isso, pois ela deve também ser considerada como positiva quando manifesta uma condição mais elevada do ‘eu’, erguendo-se acima do mundo comum, genérico e objetificado. Nesse caso, ela nos separa, não de Deus e do mundo de Deus, mas do lufa-lufa social de todo dia, que em si mesmo não passa de um mundo degenerado. Ela nos revela assim o crescimento da alma.
Quando se afasta da banalidade cotidiana e social, o ‘eu’ busca uma existência mais profunda, uma existência autêntica. Ele experimenta como que um ritmo alternativo que o faz oscilar entre a ação cotidiana e integrada à sociedade, e a solidão. Quando Kierkgaard expressou o pensamento de que o Absoluto é o que desune e não o que une, isso só está correto com a condição de considerar a união e a desunião no mundo social do cotidiano. O espaço e o tempo, condições do mundo dos objetos, provocam ao mesmo tempo a solidão e a ilusão de superar a solidão; eles conduzem, seja à desunião entre os homens, seja à sua união, não na existência real, numa comunhão verdadeira, mas apenas na objetividade, que é a matéria cotidiana do social. Nada é mais importante para o ‘eu’ do que o fato de se mover no espaço e no tempo. Sair fora dos dados do espaço e do tempo implica de certo modo escapar de uma solidão fixa, estabilizada. Ora, a solidão pressupõe sempre uma necessidade, uma nostalgia de comunhão. Quando eu me reconheço como uma pessoa, quando desejo realizar em mim a personalidade, eu tenho que reconhecer ao mesmo tempo a impossibilidade de permanecer confinado em mim mesmo, e também toda a dificuldade que experimento em deixar a mim para ir ao encontro do ‘outro’ e de outrem.
A solidão é sempre, num certo sentido, um fenômeno social: ela pressupõe sempre a consciência de uma conexão com o ‘outro’, com o ser estrangeiro. A mais cruel das solidões é a solidão dentro da sociedade, vale dizer, a solidão por excelência. É somente no mundo e na sociedade, ou seja, no mundo dos objetos, no mundo objetificado, que a solidão é possível. Na medida em que não saímos do ‘eu’ senão para encontrar o ‘não-eu’ – o mundo objetivo – não superamos, em absoluto, a solidão. A cada instante, sem cessar, o ser solitário realiza esse movimento; entretanto, sua solidão, longe de se atenuar, cresce sempre e sempre. Essa é uma verdade indiscutível, a de que nenhum objeto e capaz de remediar a solidão.
Essa não pode ser suplantada senão no plano da existência, no contato do ‘eu’, não com o ‘não-eu’, mas com o ‘você’ que é também um ‘eu’, ou seja, mediante o encontro, não com um objeto, mas com um sujeito. Uma vez separado da vida coletiva original, e depois de haver experimentado o mal da consciência, do desdobramento, da solidão, o ‘eu’ já não pode adquirir a integridade, a harmonia, a comunidade com o ‘outro’, por meio de um retorno à vida coletiva no mundo objetivo. Ele precisa sair do mundo dos objetos: nenhuma relação com um objeto é capaz de realizar a comunidade e a comunhão. A solidão é uma contradição. Segundo Kierkegaard, o trágico está na contradição na qual se sofre, e o cômico, na contradição na qual não se sofre. A solidão é trágica: o ‘eu’ tenta suplantar esse trágico, mas ao mesmo tempo não cessa de experimentar a impossibilidade disso; daí nasce uma contradição dolorosa entre a impossibilidade de suplantar o trágico da condição, e a necessidade de fazê-lo.
Existem muitos caminhos pelos quais o ‘eu’ se esforça para vencer a solidão: o do conhecimento, o da vida sexual, o do amor e da amizade, o da vida social, o dos atos morais, o da arte, e assim por diante. Seria inexato pretender que a solidão não diminua com isso; mas não é possível sustentar que ela seja definitivamente superada; porque todos esses caminhos conduzem à objetificação, e o ‘eu’, ao invés de atingir um outro ‘eu’, um ‘você’, no ato da comunhão interior, não encontra mais do que o objeto, a sociedade.
A solidão não é uma experiência simples e uniforme. Ela existe em diversas formas e diferentes graus. É notável que eventos sociais como a disputa, a luta, mesmo o ódio, permitem muitas vezes superar ou diminuir o sentimento de solidão. Mas, depois, ela se mostra ainda mas grave. Pode acontecer também que a solidão seja sentida como efeito da incompreensão, da infidelidade do reflexo enviado a mim pelo outro. No seio do ‘eu’ vive a necessidade profunda de ser exatamente refletido pelo ‘outro’, de receber sua própria afirmação e confirmação. O ‘eu’ aspira a ser entendido, a ser visto. O narcisismo provém de profundezas insuspeitas: ele está ligado à própria essência do ‘eu’. O ‘eu’ se vê no espelho e busca seu reflexo na água, a fim de confirmar sua existência no ‘outro’; mas, na realidade, não é no espelho nem na água que ele deseja ser refletido, mas sim no outro ‘eu’, no ‘você’, num ato de comunhão. Ele aspira a encontrar um outro ‘eu’, seja ele quem for, um amigo, qualquer que seja – não um objeto – que o adote definitivamente, que o confirme, que o veja em sua beleza, que o entenda; numa palavra, que o reflita. Nisso reside o sentido profundo do amor. O narcisismo representa o fracasso do amor, ele consiste no reflexo o ‘eu’ no objeto; o sujeito continua a existir em si mesmo, sem jamais sair de si. O objeto – que paradoxo! – é justamente aquilo que deixa o sujeito no interior de si mesmo, que não o conduz a outrem, de tal modo que a objetividade resulta ser a forma extrema da subjetividade.
A sede de conhecer constitui-se no desejo de superar a solidão. O conhecimento consiste numa saída para fora de si, em direção do ‘outro’ e dos outros, uma extraordinária dilatação do ‘eu’ e da consciência, uma vitória sobre a divisão produzida pelo espaço e o tempo. Mas, na medida em que permanece objetivo, o conhecimento não permite se evadir realmente da solidão, porque todo objeto é sempre algo de estranho para o ‘eu’ que, em face disso, permanece recluso em si mesmo. Nenhuma objetivação, seja do conhecimento, seja da natureza, seja da sociedade, pode por fim às contradições trágicas do ‘eu’; o único conhecimento que pode vencer eficazmente a solidão é aquele que se opera sob a perspectiva, não da sociedade, mas da comunhão. Dentro da perspectiva da sociedade, do conhecimento socializado – e, como tal, universalmente válido – conhecer equivale a obter aquilo que é comum, e não a entrar em comunhão.
Ontologicamente falando, a solidão é a expressão da nostalgia de Deus, de Deus enquanto sujeito e não enquanto objeto, de Deus enquanto ‘ele’ (Du) e não como ‘mim mesmo'(Ich)[1]. Somente em Deus é possível encontrar aquilo que é capaz de suplantar toda solidão, por meio do que eu posso adquirir o que é, de forma próxima e intimamente, um sentido incomensurável com minha existência. Aquela coisa única à qual eu posso pertencer, e nela confiar plenamente, à qual posso me entregar sem reservas, essa coisa é Deus, e somente Deus. Deus não pode ser um objeto para mim, e a objetificação, a socialização de minhas relações com Deus o torna exterior a mim, faz dele uma autoridade em relação a mim.
Podemos dizer que a solidão não é da ordem ontológica do ser, e que ela só existe de forma subjetiva. O que existe subjetivamente não pode ser suplantado senão por um sujeito existente em contato com o fundo do ser, e que não se revela objetivamente, mas subjetivamente. A relação do ‘eu’ com o mundo é dupla. De um lado, ele experimenta o sentimento da solidão, ele se sente estrangeiro no mundo, sente-se apátrida num mundo que não lhe parece ser de todo seu; por outro lado, ao contrário, o ‘eu’ descobre que a história do mundo não é outra coisa do que seu fundamento mais profundo, que tudo o que acontece, acontece a ele pessoalmente, pertence ao seu destino. Da mesma forma como tudo me parece estranho e longínquo, ao contrário, tudo se apresenta a mim como formando parte de minha própria experiência.
Pois não é uma contradição, que aquilo que me acontece possa parecer estranho a mim. É porque a sociedade é para mim um objeto, e assim a socialização, a objetivação, a sociedade, não se apresenta como existencial, e a vida na sociedade, a vida que nos projeta nela, é alguma coisa que, embora sendo eu mesmo, me é estranha e não é capaz de dissipar minha solidão. Mas nada é mais importante para o destino do ‘eu’, porque ser precipitado no cotidiano na natureza social é um fato de sua existência interna, é a decadência do ‘eu’, ainda que essa decadência pertença à sua existência. Nesse mundo de desunião, a parte que cabe ao ‘eu’ é precisamente a vida em sociedade. Podemos dizer então, num certo sentido, que a sociedade é interior em relação ao ‘eu’. Carl Gustav Carus pensa que a consciência está ligada ao particular, ao individual, e que o inconsciente, está ligado ao geral, ao supraindividual. Nesse sentido é verdade que, em suas camadas inconscientes o ‘eu’ contém toda a história do mundo e da sociedade, tudo o que a consciência experimenta como sendo estranho e longínquo, porque na consciência o ‘eu’ não revela mais do que uma parte de seu conteúdo.
Uma vez arrancado das profundezas da existência e entrando em contato com a sociedade objetificada, o ‘eu’ deve se defender dela como se ela fosse um inimigo. Na sociedade, o homem preserva seu ‘eu’ desempenhando tal ou qual papel, em que ele já não é si-mesmo. Seja qual for a condição social na qual se encontre, ele sempre desempenha um personagem, seja de rei, aristocrata, burguês, homem do mundo, pai de família, revolucionário, funcionário, artista e assim por diante. No cotidiano social, no seio da sociedade objetificada, o ‘eu’ não é o mesmo que em sua existência interior; esse é o tema fundamental da obra artística de Tolstoi. Por isso é tão incômodo cavar até o eu verdadeiro de um homem, retirar dele todos os seus véus. Na sociedade, o homem está sempre em cena, ele se conforma com aquilo que recebe em sua condição social; e, quanto mais compenetrado de seu papel ele se torna, mais difícil é para ele chegar ao seu próprio ‘eu’. Considerado assim, o instinto cênico se torna um dos caminhos da objetificação. O homem vive em muitos mundos simultaneamente, e em cada um ele representa um personagem diferente, ele se objetificar de maneira diferente. Isso foi bem demonstrado por Georg Simmel. O que é especialmente notável é ver que é precisamente a objetificação produzida por ele, na qual ele se aliena de si, e que ele sente como estranha a ele, que provoca nele o sentimento de sua solidão. Parece que o ‘eu’ coloca diante de si sua própria exterioridade.
O romantismo, tal como surgiu na história e no espírito europeu, apresenta muito interesse para o problema da solidão do ‘eu’. O romantismo é a expressão do sentimento da solidão, vale dizer, da ruptura entre o objetivo e o subjetivo, ele aparece quando o ‘eu’ se separa da ordem hierárquica objetiva, que parece ser eterna. Ele vem sempre depois do desdobramento, quando a alma sente como estranha a si a ordem hierárquica do objeto, o cosmo de São Tomás de Aquino e de Dante. O ‘eu’ romântico é um ‘eu’ que pressupõe já a cisão entre sujeito e objeto; ele nega pertencer à ordem subjetiva das coisas.
Essa cisão foi preparada pelo sistema astronômico de Copérnico, pela filosofia de Descartes e também pela reforma de Lutero. Ela pressupõe novas ideias científicas sobre o universo, novas ideias filosóficas sobre a atividade do ‘eu’ no conhecimento, novas ideias religiosas sobre a transformação na consciência não apareceram imediatamente, mas vieram a surgir apenas depois de diversas repercussões.
Quado o mundo objetivo se tornou estranho ao sujeito, quando deixou de haver um cosmo hierárquico no qual o sujeito possuía sua residência orgânica, em que se sentia em casa, o homem começou a buscar uma saída para sua solidão e seu abandono, a buscar para si uma proximidade, uma intimidade com o mundo subjetivo; isso conduziu ao desenvolvimento de uma vida afetiva. O sentimento cósmico dos românticos, seu sentimento panteísta do universo emanavam do sujeito. Seu cosmo não era um dado objetivo, como o cosmo da Idade Média no pensamento escolástico. É justamente por sua subjetividade que as relações românticas com a natureza conduziram à fusão do homem com ela, coisa que as relações objetivas, por serem hierarquizadas, jamais fizeram. Sentindo sua solidão, o ‘eu’ romântico fundia-se com o cosmo.
Ainda que o romantismo não tenha encontrado uma saída, ao menos ele se constituiu num momento importante para a libertação do ‘eu’ em relação ao mundo objetificado e socializado. Ele o abriu para o infinito, libertou-o das cadeias que o prendiam ao finito, a um lugar determinado na ordem hierárquica. Sua fraqueza foi – apesar de libertar o ‘eu’ da objetividade, apesar de ter revelado sua potência criativa, a potência da fantasia do ‘eu’ – não tê-lo tornado apto a tomar consciência de sua personalidade, não tê-lo tornado capaz de forjar uma para si. A filosofia romântica não é personalista, nem a individualidade humana constitui uma personalidade. O ‘eu’ se perde num infinito cósmico e nele se dissolve, perdendo sua consistência. A vida afetiva, atingindo talvez pela primeira vez a liberdade de seu desenvolvimento, inundou o mundo inteiro com o ‘eu’; o conhecimento subordinou-se à imaginação criativa.
São diversas as formas com as quais o romantismo pode se revestir: existem os que são otimistas ao extremo, com o dogma da inocência da natureza humana e a fusão com a vida do universo; outros são pessimistas ao extremo, com a solidão do ‘eu’, o infortúnio e a trágica sorte do homem. Entretanto, o que o pessimismo acusa, aquilo de que ele é a consciência, não é o estado de pecado em que o homem é mantido por sua natureza, mas sua infelicidade, a tragédia insolúvel do ser.
Podemos ainda apresentar o romantismo como uma mudança de horizonte. Durante a infância, os espaços mais restritos, o canto, o quarto, o corredor, o carro, o buraco de uma árvore, constituem um mundo imenso e misterioso. Na consciência dos adultos esse sentimento se enfraquece e quase chega a desaparecer. O universo é menos misterioso para nós do que o canto sombrio ou o corredor para a consciência infantil. Como novidade, o romantismo mostrou o lado misterioso das coisas, ele mudou o horizonte; mas esse horizonte romântico não é capaz de se sustentar, pois ele carrega consigo a dissolução da personalidade no infinito cósmico, ele a afoga no oceano da afetividade. O ‘eu’ deve superar a solidão; mas isso não pode ser feito, nem por maio da objetificação, recaindo na escravidão do mundo dos objetos, nem tampouco pela subjetividade romântica: somente pela conquista da espiritualidade no coração de sua intimidade, confirmando a si mesmo como uma pessoa, que, ao mesmo tempo em que sai de si, ele permanece sendo o mesmo.
Podemos, assim, distinguir quatro tipos de relação entre a solidão do ‘eu’ e o instinto social:
1. O homem que ignora sua solidão e é absorvido pela sociedade; esse é o tipo mais elementar e o mais difundido. Nessa condição, o ‘eu’ está plenamente adaptado ao meio social; a consciência está objetificada e socializada ao máximo. O ‘eu’ ainda não viveu a cisão e a solidão. O homem se sente em casa em meio ao cotidiano social, ele pode ocupar aí uma posição elevada, e mesmo eminente. Existe aí apenas uma reserva: o que predomina nesse tipo são os imitadores, homens sem originalidade, medíocres, que vivem de um fundo “comum” transformado em tradição, seja essa conservadora, liberal ou revolucionária.
2. O homem sem experiência da solidão, mas indiferente à sociedade. Nesse caso, ainda, o ‘eu’ está adaptado ao meio social, ele se sente de acordo e em harmonia com a vida coletiva, e sua consciência é socializada; mas ele não partilha dos interesses sociais, ele não mostra nenhuma atividade social, ele é indiferente aos destinos da sociedade e do povo do qual faz parte. Esse é um tipo muito comum. Nele, como no primeiro, está ausente todo conflito; ele se multiplica nas épocas de vida social estável e tem dificuldade em se manter nas épocas revolucionárias, nas épocas de crise.
3. O homem familiarizado com a solidão, mas sem preocupação social. Esse tipo, ou não está, ou está pouco adaptado à vida social; ele é dividido por conflitos, ele não é um tipo que está em harmonia. Sua consciência é pouco socializada e não é levada a se insurgir contra a coletividade ao seu redor, porque isso revelaria um interesse e uma emotividade voltados para a sociedade. Dessa forma, ele se contenta em se isolar do meio social, de proteger sua vida espiritual e criativa. É isso o que faz o poeta lírico, o pensador solitário, o esteta sem raízes. Os homens desse tipo costumam viver sua solidão constituindo pequenas elites. Eles se dobram facilmente, quando o exigem as necessidades de sua existência, aos compromissos com a vida social, porque lhes falta, de modo geral, as crenças e convicções a respeito disso, sendo conservadores em épocas conservadoras, revolucionários nas revoluções, mas indiferentes, tanto ao espírito conservador como ao espírito revolucionário. Não são nem combatentes, nem tomam a frente.
4. Por fim, vem o homem que vive na solidão sem se desinteressar pela sociedade. Esse caso pode parecer à primeira vista muito singular, porque a solidão não parece muito compatível com a sociabilidade. Entretanto, é isso que nos mostra esse tipo profético, do qual os profetas do Antigo Testamento nos oferecem o protótipo eterno. Esse tipo profético não se encontra senão no domínio religioso, porque ele compreende todos os iniciadores, os inovadores, os reformadores, os revolucionários do espírito. O profeta está sempre em conflito com a coletividade religiosa ou social, ele jamais está de acordo com o meio, com a opinião pública. Ele é, como sabemos, sempre mal interpretado, e nele jogam-se pedras. Sendo um profeta religioso, ele está em conflito com o sacerdote, com o pontífice, com a expressão da coletividade religiosa. O profeta sente de uma maneira aguda sua solidão, seu abandono; ele pode estar exposto à perseguição de todos aqueles que o cercam.
Pois bem, o que é insustentável é afirmar que o homem de tipo profético seja indiferente em relação à sociedade. Bem ao contrário, ele está inteiramente voltado, e em todas as circunstâncias, para os destinos do povo e da sociedade, para a história, para seu devir pessoal e para o devir do mundo. Ele denuncia os vícios de seu povo e de sua sociedade, ele os julga, mas não cessa de se interessar por seu destino. Ele não se ocupa com sua própria salvação, com seus sentimentos ou estados de consciência; mas ele olha em direção ao reino de Deus, para a perfeição da humanidade, e mesmo de todo o universo. Encontramos esse tipo semelhante a si mesmo fora do domínio religioso, na vida social, no conhecimento que não deixa de ter um elemento profético, e na arte.
Desses quatro tipos, a distinção, como acontece com todas as classificações, é bastante relativa; e as relações entre eles não devem ser compreendidas num sentido estático, mas dinâmico. Os dois primeiros têm como característica comum se adaptar ao meio social, enquanto que os dois últimos se opõem a ele. Importa muito compreender que o revolucionário medíocre na ordem social não está menos em harmonia com o meio, que sua consciência pode estar completamente socializada, e que ele ignora os conflitos inseparáveis da solidão.
Assim sendo, a reflexão a respeito da solidão me parece ligada àquilo que existe de mais profundo no problema filosófico: ela é o nó ao qual estão ligados os problemas do ‘eu’, da personalidade, da sociedade, da comunhão, do conhecimento; nos seus confins extremos, o problema da solidão se torna o problema da morte. Passar pela morte equivale a passar para a solidão absoluta, romper com o mundo inteiro. A morte é a ruptura com toda a esfera da existência, a interrupção de todas as ligações e de todos os contatos, o isolamento completo. Se, no termo último do mistério da morte, essa ainda fosse partilhada, se o contato ainda se mantivesse com o ‘outro’ e os outros, já não se trataria de morte. O que faz a morte é justamente o fato de que toda ligação, todo contato, são cortados, que a solidão é absoluta. Com a morte, o comércio do homem com o mundo dos objetos chega ao fim.
O que resta a se perguntar, é se esta solidão é definitiva e eterna, ou se ela não passa de um momento no destino do homem, do mundo, de Deus. Toda a vida do homem deve ser empregada em preparar laços, contatos com os outros homens, com o universo e com Deus, de tal forma que eles possam suplantar a solidão absoluta da morte. Falando propriamente, a morte não deve ser a negação completa do ‘eu’, pois seria mais fácil negar o mundo do que a ele. a morte não deve ser mais do que um momento durante o qual o ‘eu’ se vê completamente isolado, e, pela ruptura de todos os laços e contatos, separado do mundo e de Deus. Todo o paradoxo da morte provém do fato de que esse isolamento, essa ruptura, essa separação resultam da existência em um mundo decaído, na objetificação, na sociedade de nossos dias. As ligações estabelecidas na objetificação conduzem inexoravelmente à morte. Assim, devemos nos interrogar sobre as relações de correlação entre o ‘eu’ e o objeto e entre o ‘eu’ e o ‘você’, devemos abordar o problema da comunicação entre as consciências.

FONTE: BLOG CAMINHO DE ORAÇÃO

Nikolai Berdiaev – O Divino e o Humano – Capítulo IV: Medo.

Já havíamos antes falado sobre os temas acima. Agora devemos falar algo sobre o que está por trás disso. O medo está na raiz da vida nesse mundo. Existia o “terror antiquus” – o medo primitivo, que corresponde ao Alemão Angst e ao Francês Angoisse. A terminologia atual, que distingue entre Angst e Furcht, deriva principalmente de Kierkegaard. Dentre as muitas definições de homem, podemos incluir essa que o define como a criatura que está sendo testada em seu medo. E isso pode ser dito de toda criatura viva. O medo que os animais sentem é horrível. É algo doloroso olhar nos olhos de um animal apavorado. O medo se deve à condição perigosa e ameaçadora da vida n mundo. E, quanto mais próxima da perfeição está a vida, quanto mais individualizada ela se torna, mais ela está exposta a ameaças, aos maiores perigos, mais a morte é seu fardo. A necessidade de se defender contra o perigo está sempre presente. O organismo, num grau notável, é construído para a defesa. A luta pela existência, que enche a vida, pressupõe o medo.

É um erro pensar que a coragem e o medo excluem-se totalmente um ao outro. A coragem não é tanto a ausência de medo, como uma vitória sobre o medo, e, mais ainda, sobre o medo que atua numa direção especifica. Um homem pode ser muito bravo diante de determinadas circunstâncias, e um covarde em outras; por exemplo, ele pode ser bravo na guerra, mas um covarde quando se trata de sua própria vida. Ele pode ser um herói e não demonstrar medo diante da morte, e experimentar o medo quando colocado diante de um rato, ou de uma lagarta, ou de uma doença infecciosa. Ele pode ser extraordinariamente bravo numa batalha de ideias, e mostrar medo diante de dificuldades materiais. Existem pessoas corajosas num sentido físico, mas covardes no sentido moral, e vice versa. Um homem pode alcançar um alto grau de bravura numa esfera específica da vida, e abandonar outras esferas ao domínio do medo.

Mas por toda parte e em todas as coisas, a vitória sobre o medo continua sendo um problema espiritual, o problema de conquistar uma coisa que rebaixa o homem. Uma quantidade incalculável de violência e crueldade na vida humana são resultado do medo. O “terror” não é apenas a causa do medo naqueles contra os quais é dirigido, mas também indica o medo daqueles que o praticam. É um fato sabido que povos que estão possuídos pela mania de perseguição sofrem de medo, e assim passam a perseguir os demais, lançando-os também num estado de medo. Os povos mais terríveis são aqueles possuídos pelo medo. O medo opera destrutivamente. Ele está indissoluvelmente ligado ao tempo, com aquilo que o futuro pode trazer, com aquilo que pode ser uma ameaça vindo da mudança dos tempos. No futuro haverá sofrimento, e certamente morte, que é a coisa mais terrível a ameaçar a vida. Um grande número de antigas crenças pagãs e de superstições estavam conectadas ao medo e ao forte desejo.

Nas visões de Kierkegaard e Heidegger, Angst nos coloca face a face com o abismo do não-ser. Trata-se de um evento limítrofe, na fronteira entre o mundo primitivo exterior e o superego. Para esses filósofos, a angústia é a nossa reação quando nos defrontamos com alguém ou algo que parece ameaçar destruir nosso próprio Dasein. Angst, por outro lado, não é evocada por nada definido; ela nos coloca face a face com o mundo pura e simples. De acordo com Heidegger, Dasein se refugia em Das Man, do que é desconhecido e do que é estranho. O medo constitui uma opressão que cai sobre o coração do mundo. Sob essa ótica, Dasein é a ansiedade, isso é, ser lançado no mundo e sentir-se perdido. A ansiedade é uma morte contínua. A aceitação da morte é algo análogo ao amor fati de Nietsche. A consciência moral se eleva acima de Das Man e o destrói. De onde proveio essa ideia de Heidegger? Angst está conectada ao vazio. Das Nichts selbst nichtet. Para Kierkegaard, Angst possui um caráter mais psicológico, enquanto que em Heidegger esse caráter é mais cósmico. Mas o horror diante da face da morte e do vazio só pode existir quando existe a personalidade – esse horror só existe para a personalidade.

Em Heidegger tudo vem de baixo, nunca do alto; de fato, para ele, não existe o “alto” em sentido algum. Permanece inexplicado de onde o elemento mais elevado e discriminatório provém, mas isso não altera seu pensamento. Esse ponto tampouco é explicado por Nietsche. A esse respeito a posição de Kierkegaard é melhor. O medo é o resultado do abandono de Deus. Mas quanto a serem o mundo e o homem abandonados por Deus, ou o mundo e o homem abandonarem a Deus, em qualquer caso o abandono de Deus pressupõe a existência de Deus. Confrontado pelo abismo do nada, o homem experimenta o medo e o horror, por estar separado de Deus. O medo é o resultado da dissociação, da separação, da alienação, do abandono. Psicologicamente, o medo é sempre o medo do sofrimento. O homem sente medo e horror quando, por causa do sofrimento, ele se vê diante de um muro incontornável além do qual está o não-ser, o vazio, o nada. Isso não tem nada em comum com o Nirvana do Budismo, que é uma saída e uma iluminação. Tampouco é esse medo e horror que se confunde com aquilo que Otto chama de Mysterium tremendum, que significa um sentido primário do Divino.

A natureza paradoxal dessa posição reside fato de que ela é precisamente aquilo que liberta do sofrimento, em especial do não-ser, do vazio, do nada, e que também evoca um grande horror. Devemos traçar uma distinção entre o medo animal, que está associado a uma condição de vida mais baixa, e o medo espiritual, que pertence à condição mais alta. Existe um medo que nasce da ameaça do mundo inferior. E existe um medo que surge a partir da força exercida pelo mundo superior, o medo de Deus, que demanda um outro mundo. Deus é um fogo devorador.

Epicuro pensava ter derrotado a religião quando disse que ela tinha sua origem no medo. Mas o medo é uma condição do espírito mais séria e mais profunda do que ele supôs. Ele não tinha lido Kierkegaard e outros. Os primeiros estágios da revelação do Divino no mundo estão associados ao medo. Eles estavam condicionados pela baixa condição do homem, por sua submersão no mundo inferior, pela debilidade de sua capacidade de pensar, pela escuridão que o paralisava por medo da luz. O primitivo Mysterium tremendum mesclava-se de medo. O medo de Deus se confundia com o medo do mundo. A vida religiosa do homem estava cheia de medo, embora possamos afirmar que o objetivo da vida religiosa sempre foi a vitória sobre o medo. No princípio de todas as coisas Deus fez surgir o medo, embora fosse Ele esse poder benéfico que poderia libertar o homem pavor mortal desencadeado pela vida no mundo. A emancipação em relação ao medo, ao medo do diabo e do inferno, a libertação e a purificação da ideia de Deus em relação aos efeitos distorcidos do medo, ocorreu lentamente, mesmo no pensamento mais claramente Cristão. A grande tarefa espiritual que o homem está encarregado de cumprir consiste na emancipação em relação ao medo, à superstição, ao tormento do diabo e dos demônios, do medo servil diante do poder e da força, do medo de um julgamento impiedoso, do fanatismo e da intolerância, do ódio dos inimigos e da vingança, da objetificação do mal e si mesmo. O medo é sempre o medo basal, o medo do mal, e somente numa mente escurecida pode brotar o medo do mais elevado.

O medo governa o mundo. O poder, por sua própria natureza, se justifica pelo medo. A sociedade humana está construída sobre o medo e, assim, ela se construiu sobre a mentira, pois o medo é o pai da falsidade. Existe uma espécie de alarme para evitar que a verdade mitigue o medo e se interponha ao governo sobre os homens. A pura verdade pode conduzir à queda dos impérios e das civilizações. Por essa razão, mesmo o Cristianismo se adaptou ao medo. Periodicamente, o governo pelo medo conduz aos regimes totalitários e ao terror. O elemento “medo” está presente em todas as formas de autoridade, e a liberdade é a antítese do medo. A verdade que a liberdade contém jaz oculta sob o medo. A acomodação da verdade à prosaica estupidez da experiência cotidiana substitui o medo. O medo sempre esconde a verdade, e a verdade tende a se revelar quando a vivência do medo conduz à sua própria superação, à emancipação em relação ao medo. O medo está ligado não apenas à falsidade, como também à crueldade. Não são apenas aqueles que inspiram o medo que são cruéis, mas também os que sofrem disso. As massas não são apenas governadas pelo medo, mas elas próprias governam pelo medo. O medo dentro da sociedade nasce da desconfiança dos homens; e o medo é sempre conservador, embora as vezes ele tenha se mostrado exteriormente revolucionário na forma. O medo do inferno na vida religiosa, o medo da revolução, da perda da propriedade na vida social, o medo diminui o valor de tudo. O homem vive com medo da vida e com medo da morte. O medo reina tanto na vida individual como na vida em sociedade. A ansiedade, a insegurança da vida, em última instância, propiciam o surgimento do medo. Mas o mais sério é que o medo distorce o pensamento e trava o conhecimento da verdade. O homem se vê diante de um conflito entre o medo e a verdade. Um homem atormentado teme a verdade; ele pensa que a verdade pode feri-lo. A ausência de medo diante da verdade é a maior aquisição do espírito. Também o heroísmo constitui a ausência de medo diante da verdade, diante da verdade e da morte.

A vida religiosa foi distorcida pelo medo, que foi utilizado para manejar várias formas do mal, assim como um ordenamento injusto da sociedade. Quando o mundo antigo se aproximava de seu fim, ele era atormentado pelo medo de demônios e dos espíritos da natureza; assim, ele buscava a salvação nos mistérios. Uma das maiores aquisições do Cristianismo, que mesmo os que não são Cristãos têm que reconhecer, foi ter libertado o homem da demonolatria e dos terrores que o escravizavam. A magia não ajudava, ela simplesmente implicava a dependência em relação às forças cósmicas. Mas o medo primitivo encontrou seu caminho dentro do Cristianismo, e os velhos demônio, junto com seu chefe, o diabo, passaram a atormentar também os Cristãos. O medo do inferior mesclou-se ao medo do superior, o medo do diabo misturou-se ao medo de Deus. A distinção entre Furcht (medo) e Angst (angústia) imiscuiu-se no cenário: as emoções causadas pelas forças cósmicas e sociais inferiores foram transferidas para Deus, e é isso a que damos o nome de antropomorfismo e sociomorfismo. O velho medo cristalizou-se na forma de uma doutrina, e por isso não é fácil libertar a doutrina Cristã do medo. O medo se colocou num plano mais alto do que a doçura, que passou a ser vista com temor, como se fosse uma fraqueza.

A teologia Cristã foi acusada de intelectualismo, e com justiça; o intelecto nunca pode ser divorciado do sentimento e da vontade. As doutrinas teológicas oficiais foram distorcidas pela emoção e o medo, e essas emoções as determinaram em mais alto grau do que o intelecto. A psicopatologia atual faz um ótimo trabalho ao estudar os medos, e todos os tipos de fobias, favorecendo assim a purificação do pensamento religioso, e libertando-o dos medos que o atormentam. Nos confins do mundo fenomênico é provavelmente impossível livrar-se do medo, pois a posição do homem está constantemente sob ameaça. Mas é possível livrar-se de transferir esse medo para a vida religiosa e para a relação com Deus. É possível libertar-se da confusão entre o medo inferior e a condição superior de temor e angústia. Kierkegaard define Angst como sendo a vertigem da liberdade. Para ele, o vazio, o não-ser, adquirem também um sentido positivo, e não permanecem simplesmente como algo negativo. Isso já não se pode dizer do medo. Mas Hegel entendeu melhor do que ninguém que sem o não-ser não existe o porvir.

O medo sempre tem uma relação com o sofrimento; ele é experimentado como sofrimento, como a ameaça do sofrimento. Falarei sobre o sofrimento no próximo capítulo. Mas é impossível dissociar o medo desse elemento central da vida humana. O homem é retirado à força do mundo superior e submetido ao mundo inferior. Isso inevitavelmente faz nascer o medo e o sofrimento. Mas a conexão com o mundo é tão próxima, que o próprio mundo superior começa a se apresentar nos moldes do mundo inferior. O medo e o sofrimento, produtos do mundo inferior que escraviza o homem, podem ser experimentados como se proviessem do mundo superior, o qual deveria constituir um poder libertador. Jacob Boehme disse acertadamente que o amor de Deus opera na escuridão, como um fogo devorador. O medo diminui a dignidade do homem, a dignidade do espírito livre. O medo sempre é visto como algo vergonhoso na guerra: ele é então chamado de covardia. O homem é capaz de alcançar o estágio de não sentir medo na guerra; ele realiza milagres de bravura, e se torna um herói. Mas existe uma enorme dificuldade em estender isso para o resto da vida, e em especial para a vida do espírito. Nunca é demais repetir que a emancipação do medo é a principal tarefa espiritual do homem. Alcançar o estado em que não existe o medo é a mais alta condição do homem, e todo o problema está em alcançá-lo, pois ninguém pode dizer que o medo é inteiramente desconhecido para si.

O medo está conectado à interrelação entre o consciente, o subconsciente e o superconsciente. O medo nasce das profundezas do subconsciente, das origens mais primitivas do homem. O consciente pode ampliar o medo, uma consciência agitada está associada ao medo. A vitória final e decisiva sobre o medo só pode provir do superconsciente. Trata-se de um triunfo do espírito. Já se disse que “o amor perfeito expulsa o medo”, mas o amor perfeito é tão raro que o medo continua a governar a vida humana. O medo no eros do amor é muito poderoso: ele reside nas profundezas da vida sexual. O medo distorce o humano, e é nele que se encontra toda a complexidade do processo do Deus-humano.

Fonte: blog Caminho da Oração

Lei Cósmica E O Cristo Realizado – Joel Goldsmith

Lei Cósmica e o Cristo Realizado
Joel Goldsmith – Excertos do grupo de estudo de Kailua 1955

Agora, este é o ponto que será sobretudo o mais difícil — a realização de “saúde física ou doença física, o que importa?” Porque nessa realização virá a saúde espiritual.

Você encontrará que esta é a essência do capítulo, O Novo Horizonte, em “O Caminho Infinito”. E explicará também porque esse capítulo nunca foi escrito. Não foi nem escrito como as outras escritas são escritas. Veio de uma maneira inteiramente diferente. Chegou através de um sonho. Palavra por palavra como aparece no capítulo, ele veio em um sonho escrito em letras douradas, letras do Inglês Antigo sobre uma faixa de seda vermelha suspense no meu teto sobre a minha cama, e eu acordei do meu e encontrei essa faixa ainda lá. E eu fiz peguei lápis e papel de minha mesa de cabeceira e copiei a mensagem palavra por palavra, e então mais tarde vi esta faixa dobrar-se sozinha e desaparecer, e nunca reapareceu.

E este é o capítulo “O Novo Horizonte”. Esta é a maneira como veio.

E você perceberá que ele revela toda a experiência humana – quer dizer a boa experiência humana assim como a má experiência humana são uma ilusão – é um sonho. Mas não significa que este mundo é um sonho. Significa que este mundo do modo como nós o vemos é um sonho. E do momento que nosso interesse na harmonia física desaparece nós começamos então a perceber este universo como ele é.

Quando nós acordarmos nós o veremos como é e nós ficaremos satisfeitos com a sua aparência. Nós ficaremos felizes com o que nós virmos. Entretanto, somente quando nós depertarmos.

Agora, o despertar vem quando você pode perceber que a saúde é somente a outra extremidade da vara da saúde doente – que a riqueza é somente a extremidade oposta da vara da pobreza. Mas em algum lugar no reino espiritual deve haver uma consciência de nenhuma saúde e de nenhuma falta da saúde. Da mesma forma como eventualmente você verá no relacionamento com Deus, que Deus não é nenhum poder.

Primeiramente, Deus é um grande poder que supera poderes menores. Deus é o grade Espírito que supera o erro, o pecado, a doença, a morte, a pobreza e a limitação. Vem então o Segundo desdobramento na realization de Deus em que Deus é o único poder, e não supera nenhum outro poder porque não há nenhum outro poder a ser superado. Esta é a realização em que não há nenhuma verdade sobre o erra, nenhum Deus sobre o diabo, nenhum espírito sobre a matéria, nenhuma realidade sobre a irrealidade – uma vez que a realidade que é o Todo Infinito, estas outras coisas existem somente como crenás ilusórias e não como entidades ou identidades ou poderes. Isso é quando você percebe e realiza Deus como o Todo Infinito – o Ser, o Poder, a Lei Ah! Mas então você chega a uma realização ainda mais elevada de Deus em que você aprende que Deus não é nenhum poder. Por que Deus não é nenhum poder? Um poder deve sempre ser um poder sobre alguma coisa. Um poder deve sempre exercer-se dentro, através sobre… mas Deus não é tal coisa. Deus é um estado de Ser Divino. Deus é o estado — a infinidade de Ser Divino. Deus não é um poder porque não há nada para que o Deus seja um poder. Deus nem mesmo cria. Deus é uma infinidade do Ser que aparece como. Se Deus tivesse criado, deveria haver um momento da criação – provavelmente um lugar da criação, e então você teria Deus confinado no tepo e no espaço. Deus não esá confinado no tempo e no espaço. E conseqüentemente, Deus não está confinado à energia ou ao poder. Deus é É. Deus é Ser. Deus É, e isso é tudo que o Deus é.

UM CURSO DE AMOR (A COURSE OF LOVE) DISPONÍVEL EM FORMATO DIGITAL E FÍSICO NO BRASIL

Em momentos como os que estamos vivendo, em que tantos experimentam ansiedade, desolação, solidão e desesperança, Um Curso de Amor (UCDA) apresenta um caminho seguro para que o leitor se reconecte com a sabedoria do coração, trazendo o conforto e o vislumbre do que seria vivenciar a plenitude de coração, um estado de Ser em que a mente se encontra em perfeita união e relacionamento com o coração. Dessa maneira, o livro conduz o leitor a resgatar a consciência da Unicidade, uma consciência que não pode ser aprendida, mas sim revelada através de união e relacionamento.

UCDA tem uma maneira muito tocante, profunda e milagrosa de transformar cada um que se permite ser tocado por sua sabedoria, uma transformação que acontece de dentro para fora sem a intervenção da mente racional. O leitor é convidado a descobrir que há uma maneira de conhecer que pode conduzi-lo além daquilo que o processo de aprendizado racional o levou a alcançar. Pode levá-lo à revelação da verdade de quem realmente é.

UCDA é mais que um livro. É uma nova maneira de ser e de viver. Propõe que todas as mudanças que gostaríamos de ver em nossas vidas e no mundo acontecerão quando deixarmos de nos ver como indivíduos separados e reconhecermos a verdade de que somos partes integrantes de uma consciência eterna que existe em Unicidade.

Se você busca conectar-se com uma Verdade conhecida, porém esquecida, de uma maneira gentil e suave e, no entanto, segura e direta, você decididamente terá a sensação de que este livro foi escrito para você (e foi!). Ele traz a consciência de que sofremos apenas por estarmos com saudades de nós mesmos, de nossa verdadeira identidade.

Mergulhe nas páginas de UCDA e seja levado pelas mãos até o alto da montanha, onde você passará quarenta dias e quarenta noites acompanhado por uma sabedoria atemporal, um lembrete de que não precisamos perambular por este mundo desconectados dos nossos sentimentos, como se estivéssemos entorpecidos.

UCDA integra, de maneira magistral, o humano e o divino, recordando-nos que podemos ser novamente inteiros, completos e viver em plenitude de coração. Nada mais precisa ser rejeitado e projetado no mundo. Podemos abraçar todos os fragmentos de nós mesmos que havíamos rejeitado e estender esse abraço a todos aqueles que encontrarmos.

Embora UCDA seja uma obra completa em si mesma, uma obra que não depende de outras para transmitir sua sabedoria, a voz que chegou à primeira receptora, Mari Perron, como “pensamentos que ela não pensou”, se identifica como sendo a mesma voz de Jesus que ditou Um Curso em Milagres para Helen Schucman. Os dois cursos se complementam, como vemos nesta passagem de UCDA: “Enquanto o Curso em Milagres original era um curso de reversão do pensamento e de treinamento da mente, um curso para apontar a insanidade da crise de identidade e desalojar o domínio do ego, o propósito deste curso é estabelecer tua identidade e pôr fim ao domínio do ego.”

Entregue-se ao descanso da alma oferecido por UCDA. O que o Amor lhe diria se pudesse falar com você? Ouça as palavras do Amor e deixe que seu autêntico Ser lhe seja revelado. E contemple sua vida se transformando para melhor.

Nesta Edição Completa, “O Curso” estabelece a plenitude de coração, que é a integração de mente e coração. “Os Tratados” revelam a “arte do pensamento”, levando o leitor a partir do ser pessoal até o verdadeiro Ser e além, em direção à cocriação de um novo mundo. “Os Diálogos” oferecem a experiência transformadora chamada de “Os quarenta dias e quarenta noites”, estabelecendo um relacionamento direto com Deus que habita dentro de nós. UCDA é um companheiro íntimo em nossa jornada de volta ao nosso verdadeiro lar.

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JOEL SOLOMON GOLDSMITH – AME O TEU PRÓXIMO

Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, e com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o primeiro e grande mandamento.E o segundo é como isto, Tu deverás amar o teu próximo como a ti mesmo. (Mateus 22: 37-39)
Os dois grandes mandamentos do Mestre formam a base do nosso trabalho do Caminho Infinito. No primeiro e grande mandamento, somos ensinados que não há poder separado de Deus. Nossa percepção deve ser sempre que o PAI dentro de nós, o Infinito Invisível, é a nossa vida, a nossa Alma, o nosso Suprimento, a nossa Fortaleza e a nossa Torre Alta . Em seguida, em importância, está o mandamento de “amar o próximo como a si mesmo”, e seu corolário que devemos fazer aos outros como gostaríamos que os outros fizessem a nós.
O que é amor no sentido espiritual?
Qual é o amor que é Deus?
Quando nos lembramos de como Deus estava com Abraão, com Moisés no deserto, com Jesus, João e Paulo, ministrando a eles, a palavra “amor” ganha um novo significado. Nós vemos que esse amor não é algo distante, nem é algo que possa vir até nós. Já faz parte do nosso ser, já estabelecido dentro de nós; e mais do que isso, é universal e impessoal. À medida que esse amor universal e impessoal flui de nós, começamos a amar o próximo, porque é impossível sentir esse amor por Deus dentro de nós e não amar o próximo.
“Se alguém disser que ama a Deus, e se aborrece com seu irmão, é mentiroso; porque aquele que não ama a seu irmão, a quem ele viu como pode amar a Deus a quem não viu?” (I João 4:20)
Deus e o homem são um, e não há como amar a Deus sem que parte desse amor flua para o próximo.
Vamos entender que qualquer coisa da qual possamos nos tornar conscientes é um próximo, seja como pessoa, lugar ou coisa. Toda ideia na consciência é um próximo. Podemos amar o próximo como o vemos, ou não possuindo poder, exceto o que vem de Deus. Quando vemos Deus como a causa e nosso próximo como aquilo que está “Em” e “De” Deus, então estamos amando nosso próximo, quer esse próximo pareça um amigo, parente, inimigo, animal, flor ou pedra. Em tal amor, que entende que todos os vizinhos são de Deus, derivados da substância de Deus, descobrimos que toda ideia na consciência toma seu lugar de direito. Os vizinhos que fazem parte da nossa experiência encontram o caminho para nós e os que não são, estes serão removidos.
Vamos resolver amar o nosso próximo em uma atividade espiritual, vendo o amor como a substância de tudo o que é, não importa qual seja a forma. À medida que nos elevamos acima de nosso estado de humano para uma dimensão mais elevada da vida, na qual entendemos que nosso próximo é um ser espiritual puro, governado por Deus, nem bom nem mau, somos verdadeiramente amorosos.
O amor é a Lei de Deus. Quando estamos em sintonia com o Amor Divino, amando seja amigo ou inimigo, então o amor é uma coisa gentil trazendo paz. Mas é gentil apenas enquanto estamos em sintonia com ela. É como eletricidade. A eletricidade é muito gentil e cordial dando luz, calor e energia, desde que as leis da eletricidade sejam obedecidas. No minuto em que eles são violadas ou trocadas, a eletricidade se torna uma faca de dois gumes. A lei do amor é tão inexorável quanto a lei da eletricidade.
Agora, vamos ser muito claros em um ponto:
Não podemos prejudicar ninguém, e ninguém pode nos prejudicar. Ninguém pode nos ferir, mas podemos nos prejudicar por uma violação da Lei do amor. A penalidade é sempre sobre aquele que está fazendo o mal, nunca sobre aquele a quem é feito. A injustiça que fazemos ao outro reage sobre nós mesmos; o roubo de outro nos rouba. A Lei do Amor torna inevitável que a pessoa que parece ter sido prejudicada seja realmente abençoada. Ele tem uma oportunidade maior de se levantar do que nunca, e geralmente algum benefício maior vem a ele do que jamais sonhou ser possível. A prova completa de que isso é verdade está na única palavra “Eu”. Deus é nossa individualidade. Deus é meu “Eu” e Deus é o seu “Eu”. Deus constitui meu ser, pois Deus é minha vida, minha alma, meu espírito, minha mente e minha atividade. Deus é meu “Eu”. Esse “Eu” é o único “Eu” que existe – o meu “Eu” e o seu “Eu”. Se eu roubar o seu “Eu”, a quem estou roubando?
Eu mesmo.
Se eu mentir sobre o seu eu, sobre quem eu estou mentindo?
Eu mesmo.
Se Eu enganar seu Eu, Qual Eu trapaceio?
Eu mesmo.
Existe apenas um Eu, e o que eu faço para outro, eu faço para o meu Eu.
O Mestre ensinou essa lição no vigésimo quinto capítulo de Mateus, quando Ele disse: “Visto que fizestes a um destes meus irmãos, fizestes a mim”.
O que faço de bom para você, Eu não estou fazendo nada por você; é para o meu benefício. O que eu faço de mal para você, não vai machucá-lo, pois você encontrará uma maneira de se recuperar dele; a reação de fato ocorrerá em mim. Devemos chegar ao lugar onde realmente acreditamos e podemos dizer com todo o nosso coração:
“Existe apenas um Eu. A injustiça que estou fazendo a outro, estou fazendo comigo mesmo. A falta de consideração que mostro a outra pessoa, estou mostrando a mim mesmo”.
Nesse reconhecimento, o verdadeiro significado de fazer aos outros o que gostaríamos que fizessem a nós é revelado.
Deus é um ser individual, o que significa que Deus é o único Ser, e não há como ferir ou o mal entrar para contaminar a infinita pureza da Alma de Deus, nem nada que o mal possa atingir ou ao qual possa se ligar. Quando o Mestre repetiu a antiga sabedoria: “Portanto, tudo quanto quiserdes que os homens vos façam, assim também façam a eles, porque esta é a lei e dos profetas”.
Ele estava nos dando UM PRINCÍPIO. A menos que façamos aos outros o que gostaríamos que os outros fizessem a nós, prejudicamos não os outros, mas a nós mesmos. Neste estado atual da consciência humana, é verdade que os maus pensamentos, atos desonestos e palavras impensadas que infligimos a outros, os prejudicam temporariamente, mas sempre no final, descobriremos que o dano não era tão grande para eles como foi para nós mesmos.
Nos dias que se seguirão, quando os homens reconhecerem a grande verdade de que Deus é a individualidade de cada indivíduo, o mal que se dirige a nós de outro nunca nos tocará, mas se voltará imediatamente sobre aquele que o envia. Na medida em que reconhecemos Deus como nosso ser individual, percebemos que nenhuma arma que é forjada contra nós pode prosperar porque o único “Eu” é Deus. Não haverá medo do que o homem pode fazer para nós, já que nosso Ser é Deus e não pode ser ferido. Tão logo a primeira realização desta verdade nos chega, não nos preocupamos mais com o que nosso próximo faz para nós. De manhã, meio dia e a noite devemos vigiar nossos pensamentos, nossas palavras e nossos atos para assegurar que nós mesmos não somos responsáveis por qualquer coisa de natureza negativa, que teria repercussões indesejáveis.
Isso não resultará em sermos bons porque tememos consequências maléficas. A revelação do único “Eu” vai muito além disso. Permite-nos ver que Deus é nossa individualidade, e que qualquer coisa de natureza errônea ou negativa que emana de qualquer indivíduo tem poder apenas no grau em que nós mesmos lhe damos poder. Assim, o que quer que seja do bem ou do mal que fazemos aos outros, fazemos ao Cristo do nosso próprio ser. “Na medida em que o fizestes a um dos menores destes meus irmãos, tendes feito a mim.” Naquele entendimento, veremos que esta é a verdade sobre todos os homens, e que o único caminho para um sucesso e satisfazer a vida é entender o próximo como nosso Ser.
O Mestre nos instruiu especificamente sobre as maneiras pelas quais podemos servir nossos semelhantes. Ele enfatizou a ideia de serviço. Sua missão inteira era curar os enfermos, ressuscitar os mortos e alimentar os pobres.
No momento em que fazemos-nos de “canais” para a saída do Amor Divino, a partir desse momento, começamos a servir uns aos outros, expressando amor, devoção e partilha, tudo em nome do Pai.
Vamos seguir o exemplo do Mestre e não buscar glória para nós mesmos. Com ele sempre foi o PAI quem faz as obras. Nunca há espaço para autojustificação, justiça própria ou auto-glorificação no desempenho de qualquer tipo de serviço. Compartilhar uns com os outros não deve ser reduzido a mera filantropia. Algumas pessoas se perguntam por que se vêem sem nada quando sempre foram tão caridosas. Eles se enxergam em dias difíceis porque acreditam ter dado de suas próprias posses; enquanto a verdade é que “a Terra é do Senhor e toda a sua plenitude”. Se expressamos nosso amor por nossos semelhantes, percebendo que não estamos dando nada de nós mesmos, mas tudo é do PAI, de quem todo dom bom e perfeito vem, então poderemos dar livremente e descobrir que, com toda a nossa doação, ainda restam doze cestos cheios. Acreditar que estamos dando nossa propriedade, nosso tempo ou nossa força reduz tal doação à filantropia e não traz recompensa. A entrega verdadeira vem quando dar é um reconhecimento de que “a Terra é do Senhor”, e que, se doamos nosso tempo ou esforço, não estamos dando do nosso, mas a do Senhor. Então estamos expressando o amor que é de Deus.
Quando perdoamos, o amor Divino está fluindo de nós. Ao orarmos por nossos inimigos, estamos amando Divinamente. Orar por nossos amigos não há proveito nenhum. As maiores recompensas da oração irão surgir quando aprendemos a separar períodos específicos todos os dias para orar por aqueles que nos usam inoportunamente, orar por aqueles que nos perseguem, orar por aqueles que são nossos inimigos – não apenas inimigos pessoais, porque há algumas pessoas que não têm inimigos pessoais, mas inimigos religiosos, raciais ou nacionais. Aprendemos a orar: “Pai, perdoa-lhes; porque eles não sabem o que fazem”. Quando oramos pelos nossos inimigos, quando oramos para que os seus olhos se abram à Verdade, muitas vezes estes inimigos se tornam nossos amigos.
Começamos essa Prática com nossos relacionamentos pessoais: Se há indivíduos com os quais não estamos em termos de harmonia, descobrimos, quando nos voltamos para dentro e oramos para que o amor fraternal e a harmonia sejam estabelecidos entre nós, que em vez de inimigos, entramos em um relacionamento de fraternidade espiritual com eles. Nosso relacionamento com todos então assume uma harmonia e uma alegria desconhecida.
Isso não é possível enquanto sentirmos antagonismo em relação a alguém. Se estamos abrigando em nós animosidade pessoal, ou se estamos nos entregando a ódio nacional ou religioso, preconceito ou fanatismo, nossas orações são inúteis.
Devemos ir a Deus com as mãos limpas para orar e nos aproximar de Deus com as mãos limpas, devemos abandonar nossas animosidades. Dentro de nós mesmos, devemos antes de tudo rezar a oração de perdão para aqueles que nos ofenderam, uma vez que eles não sabem o que fazem; e em segundo lugar, reconhecer em nós mesmos:
“Eu tenho um relacionamento com Deus como um filho e, portanto, eu me relaciono com todo homem como um irmão.”
Quando estabelecemos esse estado de pureza dentro de nós mesmos, então podemos pedir ao Pai:
Dá-me graça; dá-me entendimento; Me dê paz; Dá-me hoje meu pão diário – dá-me este dia pão espiritual, entendimento espiritual. Dá-me perdão, mesmo por essas transgressões inofensivas, que inadvertidamente cometi.
A pessoa que procura por luz, graça, compreensão e perdão nunca falha em suas orações.
A Lei de Deus é a Lei do Amor, a Lei de amar nossos inimigos – não temê-los, não odiá-los, mas amá-los. Não importa o que um indivíduo faça conosco, não devemos revidar. Resistir ao mal, retaliar ou até mesmo buscar vingança porque isso é reconhecer o mal como realidade. Se resistirmos ao mal, se o refutamos, se nos vingarmos, ou se atacarmos, não estamos orando por eles, que nos usam inoportunamente e nos perseguem.
Como podemos dizer que reconhecemos o bem somente Deus como o único poder, se odiamos o próximo ou fazemos mal a alguém?
Cristo é a verdadeira identidade e reconhecer uma identidade diferente de Cristo é retirar-se da consciência de Cristo.
Amai os vossos inimigos, abençoe os que te amaldiçoam, faze o bem aos que te odeiam e ore por aqueles que te maltratam e perseguem. Para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus, porque Ele faz o sol se levantar contra os maus e os bons, e faz chover sobre os justos e os injustos. (Mateus 5:44, 45)
Não há outro caminho para ser o Cristo, o Filho de Deus. A mente de Cristo não tem crítica, nem julgamento, nem condenação, mas contempla o Cristo de Deus como a atividade do ser individual, como a sua Alma e a minha. Os olhos humanos não compreendem isso porque, como seres humanos, somos bons e maus; mas, espiritualmente, somos os Filhos de Deus e, através da consciência espiritual, podemos discernir o bem espiritual um do outro. Não há espaço na vida espiritual por perseguição, ódio, julgamento ou condenação de qualquer pessoa ou grupo de pessoas.
Não é apenas inconsistente, mas hipocrisia, falar sobre o Cristo e nosso grande amor a Deus uma vez, e, no segundo momento, falar depreciativamente de um próximo de raça, credo, nacionalidade, filiação política ou econômica de diferente status. Não se pode ser filho de Deus enquanto ele persegue e odeia alguém ou alguma coisa, mas apenas conforme se vive em uma consciência de nenhum julgamento ou condenação.
A interpretação usual de “não julgar” é que não devemos julgar o mal de ninguém. Temos que ir muito além disso; não ousamos julgar bem a ninguém. Devemos ter o cuidado de não chamar ninguém de bom, pois não devemos chamar mal a ninguém. Nós não devemos rotular ninguém ou qualquer coisa como mal, mas da mesma forma, não devemos rotular ninguém ou algo tão bom. O Mestre disse: “Por que me chamas bom? Não há bom senão um, que é Deus.”
É o cúmulo do egoísmo dizer: “Eu sou bom; Eu tenho entendimento; Sou moral; Sou generoso; Eu sou benevolente.” Se quaisquer qualidades do bem estão se manifestando através de nós, não nos chamemos de bons, mas reconhecemos essas qualidades como a atividade de Deus. “Filho, tu és sempre comigo, e tudo o que eu tenho é teu.” Todo o bem do Pai é expresso através de mim.
Um dos princípios básicos de O Caminho Infinito é que um estado de ser humano bom não é suficiente para garantir nossa entrada no Reino Espiritual, nem para nos levar à unidade com a Lei cósmica. É sem dúvida, melhor ser um bom ser humano do que um mau, assim como é melhor ser um ser humano saudável do que doente; mas atingir a saúde ou alcançar a bondade, em si e por si, não é a vida espiritual. A vida espiritual vem somente quando nos elevamos acima do bem humano e do mal humano e percebemos: “Não existem bons seres humanos ou maus seres humanos. Cristo é a única identidade.”
Então olhamos para o mundo e não vemos nem homens e mulheres bons, nem homens e mulheres maus, mas reconhecemos Cristo como a realidade do ser.
Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e lembre-se de que o teu irmão tem contra ti; Deixa ali a tua oferta diante do altar e segue-te; primeiro reconcilia-te com teu irmão e depois vem e oferece teu presente. (Mateus 5:23, 24)
Se estivermos mantendo alguém em condenação como ser humano, bom ou mau, justo ou injusto e não fizemos as pazes com nosso irmão então não estamos prontos para a oração de comunhão com o Infinito Invisível. Nós nos elevamos acima da justiça dos escribas e fariseus somente quando paramos de ver o bem e o mal, e paramos de nos gabar sobre a bondade como se qualquer um de nós pudesse ser bom.
A bondade é uma qualidade e atividade de Deus somente, e porque é Universal.
Nunca aceitemos um ser humano em nossa consciência que precise de cura, emprego ou enriquecimento, porque, se o fizermos, seremos seu inimigo em vez de seu amigo. Se houver algum homem, mulher ou criança que acreditamos estar doente, pecando ou morrendo, não oremos até que tenhamos feito as pazes com esse irmão.
A paz que devemos fazer com esse irmão é pedir perdão por cometer o erro de julgar qualquer indivíduo, porque todo mundo é Deus em expressão. Tudo é Deus manifestado. Somente Deus constitui este Universo; Deus constitui a vida, a mente e a alma de todo indivíduo.
“Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” tem uma conotação muito mais ampla do que simplesmente não espalhar rumores ou ceder às fofocas sobre o nosso próximo. Não devemos manter nosso próximo no estado de ser humano. Se dissermos: “Eu tenho um bom vizinho”, estamos dando falso testemunho contra ele, tanto quanto se disséssemos: “Eu tenho um vizinho ruim”, porque estamos reconhecendo um estado de ser humano, às vezes bom e às vezes ruim. mas nunca Espiritual. Dar falso testemunho contra o nosso próximo é declarar que ele é humano, que ele é finito, que ele tem falhas, que ele é algo menos que o próprio Filho de Deus. Toda vez que reconhecemos a humanidade, violamos a Lei Cósmica. Toda vez que reconhecemos nosso próximo como pecaminoso, pobre, doente ou morto, toda vez que reconhecemos que ele é diferente do Filho de Deus, estamos dando falso testemunho contra nosso próximo.
Na violação dessa Lei Cósmica, nós trazemos nosso próprio castigo. Deus não nos pune. Nós nos punimos porque se eu disser que você é pobre, eu praticamente digo que sou pobre. Existe apenas um “Eu” e um “Eu”; qualquer verdade que eu saiba sobre você é a verdade sobre mim. Se eu aceito a crença da pobreza no mundo, isso reage sobre mim. Se digo que você está doente ou que não é gentil, estou aceitando uma qualidade à parte de Deus, uma atividade à parte de Deus, e dessa forma estou me condenando porque existe apenas um “Eu”. Em última análise, eu me convenço dando falso testemunho contra o meu vizinho, e sou eu quem sofre as conseqüências.
A única maneira de evitar dar falso testemunho contra o próximo é perceber que o Cristo é nosso próximo, que o nosso próximo é um Ser Espiritual, o Filho de Deus, assim como nós. Ele pode não saber disso; podemos não saber disso; mas a verdade é: Eu sou Espírito; Eu sou alma; Eu sou consciência; Eu sou expresso por Deus – e ele também é bom ou mau, amigo ou inimigo, ao lado ou através dos mares.
No Sermão da Montanha, o Mestre nos deu um guia e um código de conduta humana para seguir enquanto vamos desenvolvendo a Consciência Espiritual. O Caminho Infinito enfatiza os valores espirituais, um código espiritual que resulta automaticamente em um bom estado humano. O bom estado humano é uma conseqüência natural da identificação espiritual. Seria difícil entender que o Cristo é a Alma e a vida do ser individual, e então brigar com o nosso próximo ou difamar ele.
Colocamos nossa fé, confiança e garantia no Infinito Invisível, e não levamos em consideração as circunstâncias ou condições humanas; nós os vemos em seu relacionamento verdadeiro. Quando dizemos: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, não estamos falando de amor, afeição ou amizade humanos; estamos mantendo nosso próximo na identidade espiritual, e então vemos o efeito dessa identificação correta na imagem humana.
Muitas vezes achamos difícil amar o próximo porque acreditamos que nosso vizinho está entre nós e o nosso bem. Deixe-me assegurar-lhe que isso está longe de ser verdade. Nenhuma influência externa para o bem ou o mal pode agir sobre nós. Nós mesmos liberamos o nosso bem. Entender o significado completo disso requer uma transição na consciência. Como seres humanos, pensamos que existem aqueles indivíduos no mundo que podem, se quiserem, ser bom para nós; ou pensamos que existem alguns que são uma influência para o mal, dano ou destruição. Como isso pode ser verdade se Deus é a única influência em nossa vida – Deus, que é “mais próximo. . . do que respirar, e mais perto que mãos ou pés?
“A única influência é a do PAI interior, que é sempre bom. “Não poderias ter poder algum contra mim, a não ser que te fosse dado do Alto.”
Quando percebemos que a nossa vida está se desdobrando de dentro do nosso próprio ser, chegamos à conclusão de que ninguém na Terra jamais nos feriu, e ninguém na Terra jamais nos ajudou. Toda mágoa que já chegou à nossa experiência tem sido o resultado direto de nossa incapacidade de contemplar esse Universo como Espiritual. Nós olhamos para ele com louvor ou condenação, e não importa qual foi, nós trouxemos uma penalidade sobre nós mesmos. Se olharmos para trás ao longo dos anos, poderíamos quase esboçar as razões de toda a discórdia que entrou em nossa experiência. Em todos os casos, é a mesma coisa – sempre porque vimos alguém ou algo que não era espiritual.
Ninguém pode nos beneficiar; ninguém pode nos prejudicar. É o que sai de nós que retorna para abençoar ou nos condenar. Criamos o bem e criamos o mal. Criamos o nosso próprio bem e criamos o nosso próprio mal. Deus também não faz; Deus É. Deus É um princípio de Amor.
Se estamos de acordo com esse princípio, então trazemos o bem para a nossa experiência; mas se não estamos de acordo com esse princípio, então trazemos o mal para nossa experiência. O que quer que esteja fluindo de nossa consciência, aquilo que está saindo em segredo, está sendo mostrado ao mundo em manifestação externa.
O que quer que emana de Deus na consciência do homem, individual ou coletivamente, é poder. O que é que emana de Deus e opera na consciência do homem, porém o amor, a verdade, a perfeição, a totalidade – todas as qualidades de Cristo?
Porque existe apenas um Deus, um Poder infinito, o amor deve ser a emoção controladora nos corações e almas de cada pessoa na face da Terra.
Agora, em contraste com isso, estão aqueles outros pensamentos de medo, dúvida, ódio, ciúme, inveja e animalidade, que são provavelmente os mais importantes na consciência de muitas das pessoas do mundo. Nós, como buscadores da verdade, pertencemos a uma pequena minoria daqueles que receberam a comunicação de que os maus pensamentos dos homens não são poder; eles não têm controle sobre nós. Nem todo o mal ou pensamento falso na Terra tem qualquer poder sobre você ou sobre mim quando entendemos que o amor é o único poder. Não há poder no ódio; não há poder na animosidade; não há poder no ressentimento, luxúria, ganância ou ciúme.
Há poucas pessoas no mundo que são capazes de aceitar o Ensinamento de que o Amor é o único poder e que estão dispostos a “se tornarem uma criança pequena”. Aqueles que aceitam este ensinamento básico do Mestre, no entanto, são aqueles a quem Ele disse:
… Eu te agradeço, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, que tu tens escondidos estas coisas dos sábios e prudentes, e as revelou aos meninos: assim também Pai; pois assim parecia bom aos teus olhos…. Bem-aventurados os olhos que vêem as coisas que vedes: Pois eu digo que muitos profetas e reis desejaram ver as coisas que vedes, e não as vestes; e ouvir as coisas que ouvistes e não as ouviste. Lucas 10:21, 23, 24
Uma vez que aceitamos esse importantíssimo ensinamento do Mestre e nossos olhos enxergam além da aparência, conscientemente perceberemos diariamente que todas as pessoas no mundo estão capacitadas com o amor do Alto, e que o amor em sua consciência é o único poder, poder do bem para vós, para mim e para si próprio; mas que o mal no pensamento humano, se toma a forma de cobiça, ciúme, luxúria ou louca ambição, não é poder, não deve ser temido ou muito menos odiado.
Nosso método de amar nosso irmão como a nós mesmos está nessa percepção:
O bem em nosso irmão é de Deus e é poder; o mal em nosso irmão não é poder, não poder contra nós e, em última análise, nem mesmo poder contra ele, uma vez que ele desperta para a verdade. Amar nosso irmão significa conhecer a verdade sobre nosso irmão; saber que nele, que é de Deus, é poder, e que nele, que não é de Deus, não é poder.
Então estamos amando verdadeiramente nosso irmão?
Séculos de ensino ortodoxo instilaram em todos os povos do mundo uma sensação de separação, de modo que eles desenvolveram interesses separados e apartados uns dos outros e também separados do mundo em geral. Quando dominamos o princípio da Unidade, porém esse princípio se torna uma convicção profunda dentro de nós, nessa unidade o leão e o cordeiro podem se deitar juntos.
Isto é provado ser verdade através de uma compreensão do significado correto da palavra “Eu”. Uma vez que percebemos a primeira percepção da verdade de que o Eu de mim é o “Eu” de vocês, o “Eu” de mim é o “Eu” de vocês, então veremos porque não temos interesses separados uns dos outros. Não haveria guerras, conflitos de espécie alguma, se pudesse ficar claro que o ser real de todos no Universo é o único Deus, o único Cristo, a única Alma e o único Espírito. Tais benefícios ajudam um e o outro por causa dessa Unidade.
Nessa união espiritual, encontramos nossa paz um com o outro. Se experimentarmos isso, veremos rapidamente como isso é verdade. Quando vamos ao mercado, percebemos que todos que encontramos são o mesmo que somos, que a mesma vida o anima, a mesma Alma, o mesmo amor, a mesma alegria, a mesma paz, o mesmo desejo pelo bem. Em outras palavras, o mesmo Deus está entronizado em todos aqueles com quem entramos em contato. Eles não podem, no momento, estar conscientes desta Presença Divina dentro de seu ser, mas eles responderão como nós a reconhecemos neles. No mundo dos negócios, seja entre nossos colegas de trabalho, nossos empregadores ou nossos funcionários, seja entre concorrentes, seja em relacionamentos administrativos e trabalhistas, mantemos essa atitude de reconhecimento:
Eu sou você. Meu interesse é seu interesse; seu interesse é meu, pois a vida única anima o nosso ser, a única Alma, o único Espírito de Deus. Tudo o que fazemos um pelo outro, fazemos por causa do Princípio que nos une.
Uma diferença é imediatamente perceptível em nossos relacionamentos comerciais, em nossos relacionamentos com comerciantes e em nossos relacionamentos com a comunidade – em última análise, em relacionamentos nacionais e internacionais. O momento em que desistimos do nosso senso humano de separação, este princípio torna-se operativo em nossa experiência. Nunca falhou e nunca deixará de produzir frutos ricos.
Todos estão aqui na Terra, mas com um propósito, e esse propósito é mostrar a Glória de Deus, a Divindade e a plenitude de Deus. Nessa compreensão, seremos colocados em contato apenas com aqueles que são uma bênção para nós, pois somos uma bênção para eles.
No momento em que olhamos para uma pessoa para o nosso bem, podemos encontrar hoje o bem e, o mal amanhã. O bem espiritual pode vir através de você para mim do PAI, mas não vem de você. Você não pode ser a Fonte de qualquer bem para mim, mas o PAI pode usar você como um instrumento para o Seu bem fluir através de você para mim. Então, quando olhamos para nossos amigos ou nossa família a essa Luz, eles se tornam instrumentos de Deus, do bem de Deus, alcançando-nos através deles. Estamos sob a Graça, assumindo a posição de que todo o bem emana do PAI interior. Pode parecer que vem através de inúmeras pessoas diferentes, mas é uma emanação do bem, de Deus de dentro de nós.
Qual é o princípio?
“Ama o teu próximo como a ti mesmo.”
Ao obedecer a este mandamento, amamos amigos e inimigos; oramos pelos nossos inimigos; perdoamos, embora seja 70×7; não damos falso testemunho contra o nosso próximo, mantendo-o em condenação; nós julgamos não como bons ou maus, mas vemos através de toda aparência a identidade de Cristo – o Eu Único que é o seu Eu e o meu Eu. Então pode ser dito de nós:
… Vem, abençoado de meu Pai, herde o Reino preparado para você desde a fundação do mundo: Porque tive fome, e me deste alimento; estava com sede e me deste de beber; eu era um forasteiro, e me acolhestes; nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estive na prisão, e viestes a mim. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro e te acolhemos? Ou nu, e te vesti? Ou quando te vimos doente, ou na prisão, e viemos a ti? E o Rei responderá e dirá a eles: Em verdade vos digo que, na medida em que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, o fizestes comigo.
Mateus 25: 34-40

Do livro Praticando a Presença

Joel S. Goldsmith (1892-1964)

Fonte:
EU NO CAMINHO INFINITO

Transmissões da Estrela-Semente – Do Cristianismo Primitivo à Apostasia

“Após a Ascensão do Cristo, seus seguidores organizaram seus ensinamentos e a história de sua vida em um livro. Esse livro foi escrito durante um período da história em que os seres humanos não tinham nenhuma ciência, nenhum conceito de evolução, nenhuma teoria hologramátíca, e só compreendiam os fatos mais rudimentares da existência neste terceiro planeta da estrela denominada Sol. Não obstante, mostrou ser uma bomba viva para os governos do mundo que estavam no poder no momento de sua liberação. Satã sabia que ele teria de dispensar ao livro sua total atenção se não quisesse ser completamente destruído. Sabia que, se as pessoas começassem a agir com base na informação que ele continha, sua influência teria fim. Formulou então um plano engenhoso para usar o próprio poder dessa informação para impedir que fosse aplicado.
Organizou uma vasta estrutura burocrática em tomo dos ensinamentos singelos de Jesus. Mobilizou milhares de intérpretes “oficiais” num sacerdócio elitista, e enviou-os às multidões, para enfadá-las, confundi-las e nelas criar preconceitos contra a mensagem do Cristo. Ele não se importava que adorassem superficialmente o Cristo, contanto que continuassem a adorar de fato as posses materiais. Não se incomodava se alguém desse ouvidos aos ensinamentos de Jesus, contanto que não os pusesse em pratica.
A principal manobra para distrair os seres humanos e afastá-los da mensagem do Cristo era enfatizar o mensageiro e a mecânica da mensagem, desconsiderando a substância daquilo que era ensinado. A chamada para assumir a responsabilidade pessoal e implementar os ensinamentos de Cristo na vida cotidiana ficou perdida na adoração do crucifixo e, mais tarde, na adoração das escrituras. A mensagem de Jesus, para se desembaraçar da influência da matéria e se permear com o Espírito Santo, ficou enterrada sob uma massa de palavreado religioso e de interpretação dogmática. O farisaísmo era encorajado em nome do Senhor e muitos morreram defendendo interpretações que nada tinham que ver com as verdades singelas de Jesus.
É fácil para os fariseus de hoje sentirem orgulhosa superioridade quando se menciona a Inquisição e as Cruzadas, mas só os nomes e os lugares mudaram. Em todo lugar que meus olhos alcançam, e em todos os lugares que meus ouvidos atingem, aqueles que alegam seguir os caminhos que ensinei estão fazendo alarde da sua superioridade religiosa diante dos que falam com palavras diferentes, tal como uma mulher que exibe uma vestimenta de modelagem exclusiva. Não há nada mais triste do que observar esse comportamento entre aqueles que alegam viver pela minha verdade.
Será que dois mil anos não ensinaram à sua raça o absurdo do argumento conceptual? Todas as línguas para as quais os meus ensinamentos foram traduzidos refletem, tão-somente, mais uma variação do sentido original. Mesmo no contexto de uma única língua, há aqueles que vêem significados diferentes numa mesma frase. Aqueles que extrapolam com a mente racional, e não com o amor no coração, encontrarão sentidos tão numerosos e tão variados quanto os grãos de areia do mar. Você não aprendeu ainda que não são as palavras que contam, mas a vida do espírito que está nelas?
Se você cortar do coração o amor que tem por outra pessoa por causa de diferenças conceptuais, eu o tirarei da minha vida, como o jardineiro poda um galho que não tem mais serventia. O desenho de cada folha não é o mesmo. Cada galho que sai do tronco não sai do mesmo lugar, nem da mesma forma. Vocês são todos irmãos e irmãs em consciência. Não se dividam por causa da maneira pela qual você gosta de pensar. O que está acontecendo está muito além das suas idéias infantis. No final, somente aqueles que abandonarem suas preferências conceptuais poderão compreender a verdade do amor encarnado.”
(Ken Carey – Transmissões Da Estrela-Semente)

MEU NOVO BLOG SOBRE CULTURA VÉDICA E CULTURA BÍBLICA

Meu novo blog que fala sobre o as culturas véedica e bíblica mostrando que vem da mesma fonte divina.

https://siaomeru.wordpress.com/

DESMISTIFICANDO A MEDITAÇÃO (SRI SRI RAVI SHANKAR)

Desmistificando a Meditação

Mente sem agitação é meditação. Mente no momento presente é meditação. Mente que não tem hesitação, nem antecipação é meditação. A Mente que voltou para a fonte é meditação. Mente que se torna não-mente é meditação.
Quando você pode descansar? O descanso só é possível quando cessam todas as outras atividades. Quando você pára de se mexer, quando você pára de trabalhar, pensar, falar, ver, ouvir, cheirar, sentir gosto, quando todas estas atividades cessam, você descansa. Quando todas as atividades voluntárias são interrompidas, você consegue descansar ou dormir. No sono você é deixado apenas com atividades involuntárias como respirar, o batimento do coração, digestão de comida, circulação do sangue, etc. Mas isto não é descanso total. Quando a mente repousa, só então o descanso é completo, a meditação acontece.
O que significa foco? Estar preenchido no momento, estando centrado, olhando para o mais alto e permanecendo naquele espaço de paz, é foco. Ausência de paz significa ausência de foco. Quando você está em paz, o foco já está acontecendo. Da mesma forma, se você foca, você alcança a paz. Olhe para sua própria vida. Você fica infeliz quando não tem as coisas que você queria e também fica infeliz quando as tem! Por exemplo, se você tem dinheiro, existe preocupação. Você fica com medo ou preocupado com o que fazer com este dinheiro, se investi-lo ou não. Se você o investe você fica preocupado se está valorizando ou desvalorizando ou fica ansioso com a flutuação do mercado de ações. Se você não tem dinheiro, você também fica preocupado. Liberação é aquela liberdade total em que você não fica preocupado quando as coisas estão lá e também quando elas não estão lá.
A verdadeira liberdade é a liberdade do futuro e a liberdade do passado. Quando você não está feliz no momento presente, então você deseja um futuro brilhante. Desejo simplesmente significa que o momento presente não está certo. Isto traz tensão à mente. Todo desejo produz um estado febril. Neste estado, meditação está longe de acontecer. Você pode sentar com os olhos fechados mas os desejos continuam surgindo, pensamentos continuam vindo, você se ilude que está meditando, mas na verdade você está sonhando acordado!
Enquanto alguns desejos permanecerem em sua mente, você não consegue estar em repouso total. Krishna diz no Bhagavad-Gita, “Você não consegue estar em Yoga (união consigo mesmo) a não ser que você abandone os desejos ou anseios em você. Enquanto você estiver preso em algum planejamento, sua mente não descansará. Cada desejo ou ambição é como uma partícula de areia nos olhos! Você não consegue fechar ou manter os olhos abertos com uma partícula de areia dentro deles, de qualquer forma é desconfortável.
Desapaixonamento é remover esta partícula de areia do olho de maneira que você possa abri-lo ou fechá-lo livremente! A outra maneira é aumentar seu desejo ou torná-lo tão grande, daí ele também não vai lhe aborrecer. É uma partícula pequena que irrita seus olhos, uma pedra grande ou uma rocha jamais irá entrar em seus olhos!
Veja a partir da sua própria experiência. Se você for para a cama com alguma inquietação, agitação ou desejo, você não vai dormir profundamente. No nível superficial parece que já não estão lá há algum tempo, mas estes planos e ambições ainda estão na mente. Pessoas muito ambiciosas não conseguem ter um sono profundo porque a mente, lá dentro, não está livre. Quanto mais você está ansioso em fazer alguma coisa, mais difícil se torna para dormir. Antes de dormir, simplesmente deixe ir tudo, somente assim você conseguirá descansar. Por que não fazer isto a todo momento? Quando você se sentar para meditar, deixe ir tudo. A melhor maneira de fazer isto é sentir, “o mundo está desaparecendo ou dissolvendo… Eu estou morto!”. A menos que você esteja morto, você não pode meditar! Para muitos, a mente não sossega mesmo após a morte. Sábios são aqueles que podem acalmar sua mente enquanto vivos!
Desejos surgem, ao invés de se segurar neles ou sonhar acordado, ofereça estes desejos; isto é meditação. Você não tem qualquer controle sobre seus desejos. Mesmo que você diga “Oh, desejo é a causa da miséria. Eu não deveria ter desejos, quando ficarei livre dos desejos?”, isto é outro desejo! Então, à medida que aparecem, reconheça-os e deixe-os ir. Este processo é chamado “Sanyas”.
Quando você oferece tudo o que aparece, à medida em que aparece em você, você permanece centrado e nada poderá sacudi-lo. De outra forma, pequenas coisas irão abalá-lo e deixá-lo triste e arrependido. Apenas algumas palavras aqui e ali podem deixá-lo triste. A vida ensina a você a arte de deixar ir em cada evento. Quanto mais que você tiver aprendido a deixar ir de forma alegre, mais livre você será. Quando você aprende a deixar ir, você se torna feliz e à medida que você começa a ser feliz, mais será dado a você. Enxergar os seus desejos e se dar conta de que eles são vãos ou que não são nada grande, isto é maturidade ou discriminação.
No que é que você pode se segurar? Você não pode nem mesmo se segurar eternamente em seu corpo! Por mais que você cuide dele, ainda assim, um dia ele dirá adeus a você! Sem qualquer aviso prévio você será forçadamente expulso deste mundo! Qualquer coisa que possa planejar, qualquer coisa que possa fazer, seu destino final é o túmulo! Você vive como um homem bom ou um homem mau, você chora ou ri, qualquer coisa que faça, todo mundo vai para o túmulo. Seja você um santo ou um pecador, você irá para o túmulo. Seja rico ou pobre, inteligente ou estúpido, você irá para o túmulo. Seja você amado ou odiado, você irá para o túmulo. Se você ama alguém ou odeia todo mundo, você irá para o túmulo. Pacientes morrem, médicos também morrem. Aquele que perdeu as guerras foi para o túmulo, assim como o que ganhou foi para o túmulo. Esta é a palavra final! Tenha a visão do final. Antes de o corpo deixá-lo, aprenda a deixar tudo. Isto é liberdade.
Com desapaixonamento, você pode aproveitar o mundo com liberdade e pode relaxar e se sentir aliviado de forma natural. Desapaixonamento pode trazer tanta alegria à sua vida. Não pense que desapaixonamento é um estado de apatia. Desapaixonamento é algo cheio de entusiasmo, traz toda a alegria à sua vida e permite que você descanse realmente.
Quando você sai de uma meditação profunda, você se torna muito mais dinâmico e poderá agir melhor. Quanto mais profundamente você for capaz de descansar, mais dinâmica será sua atividade. Mesmo que o descanso profundo e a atividade sejam valores opostos, eles são complementares.
O que você está procurando? Você procura alguma grande alegria? Você é alegria!
Vou lhe dar um exemplo. Você já viu cachorros mordendo ossos? Você sabe por que eles mordem ossos? Ficar mordendo aquele osso duro cria feridas no interior da boca do cachorro. O próprio sangue sai e o cachorro acha o osso muito saboroso! Depois de algum tempo sua boca está toda machucada. Pobre cachorro passou o tempo todo mastigando o osso sem tirar nada dele! Toda alegria que você experimenta na vida provém da profundidade de seu ser quando você abandona tudo no que está se segurando e se estabelece centrado naquele espaço, isto é meditação. Na realidade meditação não é um ato, é a arte de não fazer nada! O descanso na meditação é mais profundo do que o sono mais profundo que você possa ter, porque na meditação você transcende todos os desejos. Isto traz grande “frescor” ao cérebro. É como colocar em ordem, arrumar todo o complexo corpo-mente.
Meditação é abandonar a raiva do passado, os eventos do passado e todos os planos para o futuro. Ficar planejando constantemente impede que você mergulhe profundamente dentro de si mesmo. Meditação é aceitar o momento e viver todos os momentos de forma plena e profunda. Apenas este entendimento e alguns dias de prática de meditação podem mudar a qualidade de sua vida.
A melhor comparação dos três estados de consciência – acordado, dormindo e sonhando – é com a natureza. A natureza dorme, acorda e sonha! Isto acontece em uma escala magnífica na existência e acontece em uma escala diferente neste corpo. O estado de alerta e o sono são como a nascer do sol e a escuridão. O sonho é como o pôr do sol entre eles.
E meditação é como o vôo para o espaço, onde não há pôr do sol, nascer do sol, nada!

Sri Sri Ravi Shankar -http://www.artedeviver.org.br

VIA BLOG EVOLUINDO NO CAMINHO

Os 3 Tipos de Felicidade (Bhagavad Gita 18:36-39)

“Mas ouve agora de mim, ó Bharatarshabha”, sobre a tríplice felicidade. Aquela em que a pessoa se regozija depois de extensa prática e pela qual se alcança o fim de todo sofrimento. que no princípio é como veneno mas que, quando se transforma no decorrer do tempo, se torna semelhante ao néctar – proclama-se ter essa felicidade a natureza de sattva, nascida da graça-serenidade (prasada) da sabedoria (buddhi) do Si Mesmo.
Aquela que surge por meio da união dos sentidos com seus respectivos objetos, que é semelhante ao néctar no princípio mas, quando se transforma no decorrer do tempo, se torna como veneno – sustenta-se ter essa felicidade a natureza de rajas.
Aquela felicidade que no princípio e no final ilude o ser, decorrente do sono, da indolência e da desatenção – diz-se ter ela a natureza de tamas.”
(Bhagavad Gita 18:36-39)

Retirado da Nova Tradução de Georg Feuerstein, Editora Pensamento, 2015.

Kali Yuga, “Idade do do Vício ou do Ferro”, a Era de Degenerescência.

Escrituras como o Mahabharata e o Bhagavata Purana apresentam Kali Yuga como uma era de crescente degradação humana, cultural, social, material, ambiental e espiritual, sendo simbolicamente referida como Idade das Trevas porque nela as pessoas estão tão longe quanto possível de Deus.
O Senhor Buda, muito longe de negar que havia um Absoluto, garantiu que aqueles que alcançassem a iluminação deveriam se fundir com Isso e assim perceber a Realidade em oposição ao mundo das ilusões e dos fenômenos.
Kali Yuga, sânscrito: कलियुग, “Idade do do Vício ou do Ferro” é um período que aparece nas escrituras hindus. É a última das quatro etapas que o mundo atravessa; sendo as demais: Satya Yuga, Treta Yuga e Dwapara Yuga.
A era de Kali Yuga é também denominada a Era de Ferro. Kali Yuga iniciou no final da vida corpórea de Krishna (aproximadamente 5.100 anos atrás) que foi avatar ou manifestação de Brahma, Vishnu e Shiva.
O Kali Yuga que agora reina sobre o Oriente e Ocidente.
No Bhagavata Purana, há uma lista de previsões e profecias sobre os tempos sombrios para a presente era de Kali Yuga. As 15 previsões, escritas há 5.000 anos pelo sábio Vedavyasa, são surpreendentes porque parecem tão precisas.
-Religião, verdade, tolerância, misericórdia, duração da vida, saúde, força física e a memória todos diminuirão de dia para dia devido à forte influência da era de Kali.
-Em Kali Yuga, a riqueza por si só, será considerada o sinal de bom nascimento de um homem, comportamento adequado e boas qualidades.
A lei e a justiça será aplicado somente sobre a base de poder da pessoa.
-Haverá monarcas (governos) contemporâneos reinando sobre a terra, reis (governantes) de espírito mau e caráter violento, votados a mentira e à perversidade.
-Gente de vários países, unindo-se a eles, seguirão o seu exemplo.
-A riqueza e a piedade diminuirão dia-a-dia até que o mundo se depravará por completo…
-Homens e mulheres vão viver juntos apenas por causa da atração superficial, e sucesso nos negócios dependerá do engano. Feminilidade e masculinidade serão julgados de acordo com sua experiência em sexo, e um homem será conhecido como um brâmane apenas vestindo um fio.
-Posição espiritual de uma pessoa será apurada apenas de acordo com símbolos externos, e com o mesmo fundamento as pessoas vão mudar de uma ordem espiritual para o próxima. Decoro de uma pessoa será seriamente questionada se ele não tiver uma boa vida. E um que é muito inteligente com malabarismo de palavras será considerado um erudito.
-Uma pessoa será julgada profana se ela não tem dinheiro, e hipocrisia será aceita como virtude. Casamentos serão organizados simplesmente por acordo verbal.
– Encher a barriga se tornará o objetivo da vida, e aquele que é audacioso será aceito como verdadeiro. Aquele que pode manter uma família será considerado como um homem perfeito, e os princípios da religião será observada apenas por uma questão de reputação.
-Como a terra torna-se lotada com uma população corrupta, quem quer que entre qualquer uma das classes sociais, mostra ser o mais forte vai ganhar poder político.
-Assediado por impostos excessivos e fome, as pessoas vão recorrer a comer folhas, raízes, carne, mel silvestre, frutas, flores e sementes. Golpeado pela seca, elas se tornarão completamente arruinadas.
-Os cidadãos vão sofrer muito de frio, vento, calor, chuva e neve. Eles serão ainda mais atormentado por brigas, fome, sede, doenças e ansiedade severa.
-A duração máxima da vida para os seres humanos em Kali Yuga se tornará 50 anos.
-Homens deixarão de proteger os seus pais idosos.
-Em Kali Yuga os homens vão desenvolver ódio por si mesmo e sobre algumas moedas, perderam todas as relações de amizade, eles estarão prontos para perder suas próprias vidas e matar até mesmo seus próprios parentes.
-Homens incultos vão aceitar caridade em nome do Senhor e vão ganhar o seu sustento, fazendo um show de austeridade e vestindo um vestido de mendigo. Aqueles que nada sabem sobre religião, vão montar um assento elevado e com presunção de falar em princípios religiosos.
-Servos vão abandonar o mestre que perdeu sua riqueza, mesmo que esse mestre seja uma pessoa santa de caráter exemplar. Mestres vão abandonar um servo incapacitado, mesmo se aquele servo tenha estado na família há gerações. As vacas serão abandonadas ou mortas quando parar de dar leite.
-Cidades serão dominadas por ladrões, os Vedas será contaminado por interpretações especulativas dos ateus, os líderes políticos vão praticamente consumir os cidadãos, e os chamados sacerdotes e intelectuais serão devotos de suas barrigas e genitais.
O tempo, assim como o espaço, é feito de oposições (dvanda).
Ambos são gerados na ação dos três gunas, que são três fios da corda que amarra o homem sobre a roda do samsara.
– Tamas, a gravidade e a ignorância, liga pela negligência e pela indiferença;
– Rajas, o movimento, a ação, liga pelo orgulho e a vaidade, e pela tendência ao ativismo;
– Sattva, a harmonia, a paz e a claridade,liga pela tendência a procurar a felicidade e os conhecimentos.
Segundo a antiga sabedoria dos indianos, o mundo está em queda e continua a se atolar na luta das oposições (dvanda) e na ilusão (maya).
Atualmente ele alcançou o ponto mais baixo, a matéria grosseira, as trevas.
Um período do mundo consiste de quatro épocas, sendo a primeira a
mais longa, a última a mais curta.
No Krita Yuga, o dharma, penetra o universo.
Todos os seres vivos se consagram inteiramente a manter a ordem
sagrada.
No Tetra Yuga, o ritmo do mundo se acelera. Só três quartos do dharma
sagrado estão presentes. As leis sagradas já não são espontaneamente postas em prática, mas devem ser ensinadas e aprendidas.
O Dvapara Yuga, é a época em que foi estabelecido o equilíbrio entre a perfeição e a imperfeição. O conhecimento direto da ordem divina é cada vez menos acessível.
No Kali Yuga, a transmissão das normas santas é totalmente perdida. No jogo de dados, Kali é a jogada do perdedor.
Segundo o Vishnu Purana, o Kali Yuga começa quando na sociedade o único poder é o da riqueza, a única virtude, a posse, a única ligação entre o homem e a mulher, a paixão, a única fonte de prazer, o acasalamento, o único fundamento do sucesso, a traição…
A destituição do divino, do dharma, do ensino, é a razão pela qual o Kali Yuga dura menos tempo. Esta época, na qual a humanidade atualmente se encontra, dura 432 000 anos e começou com o parinirvana do divino Krishna.
Apesar do tom negativo dessas profecias, ainda há um ponto brilhante para parte da humanidade.
O Absoluto é, aqui, o “Axis Mundi”, o Monte Meru.

Fonte: https://anubysp.blogspot.com.br/2016/04/kali-yuga-idade-do-do-vicio-ou-do-ferro.html
https://ofeiticodosarcontes.wordpress.com/2016/08/24/kali-yuga-idade-do-do-vicio-ou-do-ferro-a-era-de-degenerescencia/