"A Casa Sobre A Rocha" (Mt5:24).

“O Amor é a Lei de Deus. Viveis para que aprendais a amar. Amais para que aprendais a viver. Nenhuma outra lição é exigida do homem.” (O Livro De Mirdad)

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POR QUE O EVANGELHO NÃO SE CUMPRE NA SUA VIDA? (CAIO FÁBIO)

Posted by José Eduardo Glaeser em 25/10/2012

POR QUE O EVANGELHO NÃO SE CUMPRE NA SUA VIDA?

Jesus disse que as Palavras Dele são espírito e são vida!
No entanto, o que Ele nos mandou obedecer como Sua Palavra se põe em oposição a tudo o que o mundo pode compreender; posto que viole as convenções da honra, da reputação, da justiça própria, da valentia que se expõe às brigas, do enfrentamento de quem deseje nos defraudar, da defesa ante a calunia, do julgamento que se tem por certo, do ódio ao que se assuma como direito em razão da ofensa; ou ainda: da antipatia que decorra dos maus tratos, ou mesmo da indiferença para conosco; e, também, dando complemento a isto, Ele fala de abrir mão do desejo de possuir, mesmo que se possa atender ao nosso capricho como poder —; e, em contrapartida a tudo, Ele recomenda a via dos otários; dos que não aceitam a provocação, dos que desviam seu caminho do enfrentamento odioso, dos que levam desaforo para casa em oração, dos que não topam o embate com o perverso, dos que dão a outra face, dos que oferecem além da capa demandada até mesmo o paletó que não foi pedido, dos que recolhem os seus direitos, os seus tesouros, as suas pérolas, por não terem nenhuma necessidade de demonstração de quem sejam ou do que pensem, especialmente quando os circunstantes tenham espirito de porco ou sejam cães raivosos.
Entretanto, mesmo sabendo que este é o espirito do ensino de Jesus para a vida, a maioria dos que se dizem Seus discípulos, odeiam tais mandatos, tal espírito e tal vida.
O interessante é que mesmo nada querendo com as palavras que são espirito e são vida segundo Jesus, esses mesmos discípulos querem que a Palavra de Jesus se torne real sem que tais realidades da Palavra — seus conteúdos —, se tornem fatos, princípios, atitudes, posturas, sentimentos, decisões e práticas de nossas vidas e cotidianos.
É como querer habitar a profundidade dos mares sem guelras, como desejar voar sem asas, como ambicionar correr sem pernas, como pretender respirar sem pulmões, como buscar ver sem olhos, ouvir sem ouvidos; ou seja: é como quer ser sem alma e sem espírito!
O que vejo nas ambições dos crentes que querem que a Palavra se cumpra sem obediência à própria Palavra é equivalente a todas as formas de insanidade!
O argumento da maioria é que Jesus disse o que disse para nos dar referencias superiores, mas que, de um modo ou de outro, se crermos Nele, não necessariamente em Suas Palavras, mas no Seu poder, nas Suas milagrices, nos Seus dons de cura, nas Suas magias, ou, em algumas ocasiões, cremos também numa espécie de sequestro da honra de Jesus, quando se diz: “Eu sei que tu és Deus; então não me desapontes, pois estou confessando com a boca que Tu és o Maior dos maiores; não me deixes ficar, portanto, envergonhado ante aqueles a quem eu declaro o Teu poder sobre os ídolos!” — Ele fica sem saída; sendo esta uma formula mágica de uma crença muito divulgada acerca do encurralamento de Deus; crendo-se, assim, que desse modo se O põe a trabalhar em nosso favor em nome da Honra do Nome de Jesus para os outros; embora, para nós, Jesus seja apenas um nome destituído de pessoalidade, caráter, ensino, verdade e convocação à obediência; sempre esquecidos de que Ele disse: “se me amais, guardareis os meus mandamentos”; e mais: “…vós sóis meus amigos se fazeis o que eu vos mando”.
Então com esse Nome/Crença na boca […] pulamos do pináculo do templo, aventuramo-nos contra os perversos, saímos no tapa em nome da honra ou da valentia; e mais: damos pérolas aos porcos, odiamos os que nos odeiam, antipatizamos os diferentes, julgamos quem achamos que deve ser julgado, andamos no caminho largo dos caprichos, edificamos nossa casa na areia, ficamos amigos do lobo vestido de ovelha [ou até casamos com ele ou ela]; enquanto, também, pedimos misericórdia de Deus para a nossa incapacidade de obedecer, de guardar puro o coração, de perdoar sempre, de amar os nossos inimigos, de orar pelos que nos perseguem; sim, rogamos a Ele que nos perdoe o adultério do qual nunca desistiremos, que nos justifique do que sabemos e não nos dispomos a pôr em prática em relação ao que ensinamos aos outros, mas, para nós mesmos, não acolhemos como espírito e vida.
Então […] — apesar de tudo isto, reclamamos que a Palavra não nos faz bem, não realiza o prometido, não trás a paz que excede a todo entendimento, não nos faz viver em contentamento verdadeiro, não qualifica a nossa existência com a vida em abundancia.
O conceito de insanidade é fazer sempre as mesmas coisas [erradas], esperando obter resultados diferentes!
Ora, no caso das Palavras de Jesus a insanidade é ainda maior, posto que Ele tenha dito que todo aquele que ouve e conhece as Suas palavras, e não as pratica, é um tolo que constrói sua casa na areia de uma praia na qual a maré sobe todo dia; e mais: as intempéries nunca deixam de assolar.
Eu teria muito mais a dizer sobre isto, mas deixo com você a busca de aplicar na sua existência, com toda simplicidade obvia […] estes pensamentos infalíveis; posto que não seja filosofia minha, mas a pura, simples e irrebatível Palavra de Jesus.
“As minhas palavras são espírito e são vida” — ; mas apenas para os quais elas [as palavras] se tornem espírito e vida mesmo; ou seja: interioridade, pensamento, entendimento, prática, atitude e comportamento. Do contrário, creia, é loucura pensar que não sendo assim possa realizar qualquer coisa em nossa vida.
Nele, em Quem somente é […] aquilo que Ele disse que é,

Caio
21 de janeiro de 2012
Lago Norte
Brasília
DF

VIA CAIO FÁBIO

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DEUS SEGUNDO SPINOZA

Posted by José Eduardo Glaeser em 12/05/2012

DEUS SEGUNDO SPINOZA
(Deus falando com você)

As palavras abaixo são de Baruch Spinoza – nascido em 1632 em
Amsterdã, falecido em Haia em 21 de fevereiro de 1677, foi um dos
grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia
Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz.
Era de família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo
bíblico moderno. Acredite, essas palavras foram ditas em pleno Século XVII.

DEUS SEGUNDO SPINOZA
(Deus falando com voc
ê)

“Para de ficar rezando e batendo o peito!
O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.
Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Para de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias.
Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Para de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau.
O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor,
teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Para de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo.
Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho… Não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Para de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me
irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Para de me pedir perdão. Não há nada a perdoar.
Se Eu te fiz… Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos,
de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.
Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?
Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são
artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti.
A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida,
que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem
um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.
Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos.
Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar.
Ninguém leva um registro.
Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho.
Vive como se não o houvesse.
Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.
Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei.
E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não.
Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste…
Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Para de crer em mim – crer é supor, adivinhar, imaginar.
Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.
Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas
tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Para de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja?
Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam.
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.
Te sentes olhado, surpreendido?… Expressa tua alegria!
Esse é o jeito de me louvar.
Para de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim.
A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas.
Para que precisas de mais milagres?
Para que tantas explicações?
Não me procures fora! Não me acharás.
Procura-me dentro… aí é que estou, batendo em ti.

(http://www.facebook.com/groups/272598152776172/…)

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NIRVANA SHATKAM, O SEXTETO DA ILUMINAÇÃO

Posted by José Eduardo Glaeser em 12/03/2012

NIRVANA SHATKAM, O SEXTETO DA ILUMINAÇÃO
Adi Shankaracharya

mano-buddhyahaṅkāra-chittāni nāhaṁ
na cha śrotra-jivhe na cha ghrāṇa-netre |
na cha vyoma-bhūmirna tejo na vāyuḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 1 ||
Não sou mente nem razão; não sou ego nem memória;
Não sou audição, nem paladar, nem olfato nem visão.
Não sou espaço nem terra; não sou fogo nem ar.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 1.

na cha prāṇa-sañjño na vai pañchavāyuḥ
na vā saptadhātur na vā pañchakośāḥ |
na vāk pāṇipādau na chopasthapāyūḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 2 ||
Não sou o que se conhece como prāṇa nem os cinco alentos;
nem os sete elementos do corpo físico, nem os cinco kośas.
Não sou fala, nem mãos ou pés; nem sexo nem eliminação.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 2.

na me dveṣa-rāgau na me lobha-mohau
mado naiva me naiva mātsaryabhāvaḥ |
na dharmo na chārtho na kāmo na mokṣaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 3 ||
Não tenho apego nem aversão; nem ambição, nem ilusão;
orgulho e inveja não são meus; não tenho deveres,
nem objetivos, nem desejos, nem busco a libertação.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 3.

na puṇyaṁ na pāpaṁ na saukhyaṁ na duḥkhaṁ
na mantro na tīrthaṁ na vedā na yajñāḥ |
ahaṁ bhojanaṁ naiva bhojyaṁ na bhoktā
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 4 ||
Não sou virtude nem ação errônea; nem alegria nem sofrimento;
nem mantras nem lugares sagrados; nem escrituras nem rituais;
não sou prazer nem o que produz prazer, nem o desfrutador.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 4.

na me mṛtyuśaṅkā na me jātibhedaḥ
pitā naiva me naiva mātā na janma |
na bandhurna mitraṁ gururnaiva śiṣyaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 5 ||
Não sou morte nem medo; não tenho classe social;
nem pai, nem mãe, nem nascimento são meus;
não tenho parentes nem amigos; nem mestre nem discípulos.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 5.

ahaṁ nirvikalpo nirākāra-rūpaḥ
vibhutvāchcha sarvatra sarvendriyāṇām |
na chāsaṅgato naiva muktirna bandhaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 6 ||
Sou livre de pensamentos. Sou livre de estrutura e forma;
Estou conectado com os sentidos, pois permeio o existente.
Não sou apegado nem condicionado, nem [busco a] liberdade.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 6.

Introdução ao estudo do Nirvāṇa Ṣaṭkaṁ.

Ādi Śaṅkaracharya é uma das grandes referências da tradição védica, um elo especial nessa corrente viva de transmissão do autoconhecimento, chamada paramparā, que foi transmitida de professor para estudante ao longo dos milênios, e que revela a natureza real do ser humano, mostrando-o como alguém intrínsecamente livre de limitações e sofrimento.
O nome Nirvāṇa Ṣaṭkaṁ significa em sânscrito “Seis Estrofes da Iluminação”. Em apenas 24 versos, o autor resume de maneira magistral todas as dúvidas existenciais, todas as falsas identificações com os papéis desepenhados na vida de um ser humano, bem como oferece as soluções para cada uma das charadas metafísicas que surgem naturalmente no cotidiano.
Este não é, a rigor, um texto sobre instrução, mas um exercício de nididhyāsana, uma contemplação sobre quem somos. O sânscrito é muito simples e acessível, o que torna o poema de fácil recitação e memorização. Não obstante essa simplicidade da linguagem, o significado é profundo e potencialmente transformador.
Podemos compreender o recado em minutos, mas aplicá-lo na vida pode nos levar anos e anos. Este tipo de texto é chamado prakarāṇa. Este termo é aplicado a textos que explicam aspectos peculiares do ensinamento, na forma de reflexões meditativas e, ainda, permitem inferir aplicações práticas desse ensinamento.

Estrofe 1.

mano-buddhyahaṅkāra-chittāni nāhaṁ
na cha śrotra-jivhe na cha ghrāṇa-netre |
na cha vyoma-bhūmirna tejo na vāyuḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 1 ||
Não sou mente nem razão; não sou ego nem memória;
Não sou audição, nem paladar, nem olfato nem visão.
Não sou espaço nem terra; não sou fogo nem ar.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 1.

O texto começa citando uma série de associações que normalmente fazemos, tomando como certo que somos o conteúdo dos nossos pensamentos. A primeira pessoa à qual o texto se refere, “eu” não é, evidentemente, o ego ou a personalidade, mas Ātma, o Ser pleno, manifestado como a pessoa simples e tranquila, e não como uma personalidade exigente e não cessa de fazer cobranças de si mesma e do mundo.
No segundo verso, o autor reflite, e nos convida para fazermos a contemplação junto a ele, sobre o fato de que nós tampouco somos os órgãos sensoriais, nem aquilo que eles percebem, nem os elementos densos que constituem a natureza manifestada.
A identificação com os conteúdos do psiquismo é, embora natural, o produto da ignorância existencial. Poderíamos nos perguntar a razão pela qual o autor usa quatro termos diferentes para se referir ao psiquismo, que nós chamamos muitas vezes mente. O psiquismo se move em quatro direções diferentes, que determinam esses nomes. Śrī Śaṅkaracharya, na Vivekachudamani (ślokas 95 e 96), define o psiquismo nos seguintes termos:
“Antaḥkarāṇa, o órgão interno, é conhecido por quatro diferentes nomes: manas, buddhi, ahaṅkāra e chittam, de acordo com suas distintas funções. Quando há um movimento em forma de dúvida, isso é chamado manas, pensamento. Quando há um conteúdo em forma de afirmação, é chamado buddhi. Quando acontece uma lembrança, isso é chamado chittam. Independentemente do tipo de função, recebe o nome de antaḥkarāṇa.”
Portanto, qualquer movimento do psiquismo deve ser reconhecido como conteúdo, e não como Consciência, como o Ser invariável que observa esses movimentos. A palavra Śiva, que se repete, à guisa de adágio, como verso que encerra cada estrofe ao longo do poema, não designa, neste contexto, o deus hindu da dança e da transformação, mas à própria Consciência.

Estrofe 2.

na cha prāṇa-sañjño na vai pañchavāyuḥ
na vā saptadhātur na vā pañchakośāḥ |
na vāk pāṇipādau na chopasthapāyūḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 2 ||
Não sou o que se conhece como prāṇa nem os cinco alentos;
nem os sete elementos do corpo físico, nem os cinco kośas.
Não sou fala, nem mãos ou pés; nem sexo nem eliminação.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 2.

Na sequência, o poema continua fazendo uma série de negações em relação ao corpomente, sua fisiologia, funções, qualidades e elementos constituintes. Similarmente às ações do psiquismo, o prāṇa, a força vital, também assume cinco formas, que realizam as diferentes funções fisiológicas: prāṇa, samāna, vyāna, udāna e apāna. Essas funções são, respectivamente, absorção, digestão, circulação crescimento e eliminação. Elas são chamadas vāyus, ou alentos vitais.
Depois é feita uma reflexão sobre a não-identificação em relação aos dhatus, os sete constituintes do organismo físico: medula, gordura, músculos, sangue, linfa, pele e cutículas. Os cinco kośas, ou “camadas” do jīva, o ser vivente, são mencionados por primeira vez na tradição do Yoga na Taittirīya Upaniṣad. Esses kośas constituintes do corpomente são os seguintes: annamayakośa, prāṇamayakośa, manomayakośa, vijñāmayakośa e ānandamayakośa. Respectivamente, as camadas de alimento (corpo físico denso), vitalidade, pensamento, intelecto e plenitude.
O autor nos convida, a seguir, para reconhecer que, além de não sermos nenhuma dessas funções fisiológicas ou sutis, tampouco somos os cinco órgãos de ação, karmendriyas: fala, mãos, pés, reprodução e eliminação. Muitas vezes nos identificamos com essas funções, e os tipos de ação que cada uma delas desempenha. Conclui-se esta estrofe com o adágio “Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser”. Como ser autoefulgente, que brilha por si mesmo, sou plenitude.

Estrofe 3.

na me dveṣa-rāgau na me lobha-mohau
mado naiva me naiva mātsaryabhāvaḥ |
na dharmo na chārtho na kāmo na mokṣaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 3 ||
Não tenho apego nem aversão; nem ambição, nem ilusão;
orgulho e inveja não são meus; não tenho deveres,
nem objetivos, nem desejos, nem busco a libertação.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 3.

Todos os conteúdos do psiquismo, julgamentos e sentimentos como apego ou aversão, orgulho, raiva e demais emoções, naturalmente estão conectados com o antaḥkarāṇa e, dessa maneira, nada tem a ver com Ātma. Emoções e pensamentos pertencem à esfera do psiquismo, e a natureza desses conteúdos é dinâmica e mutante, enquanto que o Ser é o observador invariável, ilimitado e imutável
O terceiro verso desta estrofe faz uma clara referência aos puruṣārthas, os quatro propósitos humanos válidos, que são os seguintes:
1) Kāma, a busca da satisfação, o prazer e o conforto,
2) Artha, a realização de ações que tragam prosperidade e segurança,
3) Dharma, a conduta adequada, que rege o bom convívio, e
4) Mokṣa, a busca da liberdade, que é o mais elevado ideal da vida humana.
As regras do dharma, que visam cultivar valores universais em prol do bem comum, o convívio harmonioso e uma vida tranquila, não se aplicam àquele que resolveu estes conflitos com as próprias emoções e completou o processo de maturidade emocional e autoconhecimento, que culmina em mokṣa, a libertação. É por isso que, no início do terceiro verso, Śaṅkaracharya afirma “ eu não tenho deveres”.
Devemos lembrar que existe o perigo de avaliar incorretamente o que possamos chamar de “evolução espiritual” em relação a este tipo de apego. Isso significa, noutras palavras, que sempre devemos cultivar uma atitude aberta e humilde, e nunca, nunca mesmo, considerar que estamos “acima do bem e do mal” ou que estas regras dhármicas não precisam ser aplicadas em relação a nós mesmos.
A pessoa que completou esse processo, desta maneira, não busca mais a liberdade, já que conhece a si próprio como alguém intrinsecamente livre e pleno. Essa conclusão fica claramente estabelecida no verso final “Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser”.

Estrofe 4.

na puṇyaṁ na pāpaṁ na saukhyaṁ na duḥkhaṁ
na mantro na tīrthaṁ na vedā na yajñāḥ |
ahaṁ bhojanaṁ naiva bhojyaṁ na bhoktā
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 4 ||
Não sou virtude nem ação errônea; nem alegria nem sofrimento;
nem mantras nem lugares sagrados; nem escrituras nem rituais;
não sou prazer nem o que produz prazer, nem o desfrutador.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 4.

O sábio não se identifica com suas ações, sejam elas puṇyaṁ ou pāpaṁ, certas e em harmonia com o dharma e o bem comum, ou erradas e contrárias a ele, pois ele sabe que Ātma não é o agente das ações. Isso, como foi explicado no comentário da estrofe anterior, não significa que as regras do dharma não se aplicam ao iluminado. Pelo contrário: ele é uma encarnação viva da plenitude e suas ações fluem dentro da compaixão, a gratidão, a solidariedade e a consideração.
Na segunda parte do primeiro verso, Śaṅkaracharya ainda fala sobre a necessidade de se desapegar de sentimentos opostos como alegria e tristeza, prazer e dor, já que eles são transitórios e o apego àquilo que é transitório termina sempre em mais sofrimento.
Enquanto Ātma, não sou karta, nem bhokta, nem duḥkhi: não sou o agente das ações, nem aquele que desfruta os resultados desejáveis, nem o que sofre com os frutos indesejáveis desses atos. Ātma é asaṅgaḥ, desapegado e independente desses conteúdos. Este termo, asaṅgaḥ, que se traduz habitualmente como desapego ou independência, irá aparecer na última estrofe do sexteto.
A pessoa que está firmemente estabelecida no autoconhecimento, o Brahmaniṣṭhaṁ, não tem necessidade de fazer rituais, preces ou peregrinações, uma vez que não há interesse em nenhum tipo de ganho ou mérito espiritual que possa advir desse tipo de ação. Se ela continua com suas meditações e atos rituais, é por um ato volitivo puro e livre.

Estrofe 5.

na me mṛtyuśaṅkā na me jātibhedaḥ
pitā naiva me naiva mātā na janma |
na bandhurna mitraṁ gururnaiva śiṣyaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 5 ||
Não sou morte nem medo; não tenho classe social;
nem pai, nem mãe, nem nascimento são meus;
não tenho parentes nem amigos; nem mestre nem discípulos.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 5.

Os papéis que representamos na sociedade, dentro da família, em relação ao meio ambiente ou aos demais, são sempre relativos. Esses papéis não são inerentes ao Ser. Porém, viver é representar papéis. Não há existência sem cumprir deveres, realizar ações e obrigações. Somos mãe ou pai, filho ou filha, irmão ou irmã e, em cada uma dessas posições, cultivamos atitudes e modos diferentes de nos comunicar.
Um papel é um dever, uma obrigação ou função que se cumpre na sociedade ou na família. Essas obrigações são chamadas vyavahāraḥ em sânscrito. O conceito de vyavahāraḥ é muito importante dentro da filosofia do Yoga. Ele pode ser traduzido como responsabilidade, esforço ou dever cotidiano. Obviamente, isso está vinculado com as maneiras corretas de agir, que sempre devem estar em conformidade com o dharma.
Atores e papéis.
Embora nossa existência não dependa da representação de quaisquer papéis, nós não podemos fugir deles. Portanto, deveríamos permanecer cientes de que a nossa felicidade não depende de representar ou deixar de representar um dado papel. A personagem somente existe porque o ator existe. A existência do ator não depende da representação do papel. Comparemos os papéis que desempenhamos na sociedade com a situação do ator que representa diferentes personagens, através de dois exemplos ensinados por Swāmi Dayānanda.
Caso 1: confusão entre o ator e o papel.
Digamos que o ator João representa o papel do operário Luiz. O roteiro da peça indica que o operário Luiz leva uns socos do capataz Bernardo, representado pelo ator Francisco. Porém, acontece que o João naquele dia está sem paciência e confunde as coisas. Aí, após o primeiro sinal de agressão por parte do capataz, o operário revida os golpes e machuca de verdade o ator Francisco. Finda a peça, o diretor vai tirar satisfações com o João, que responde: “revidei porque não ia deixar que ele me batesse mais. Eu não levo desaforo para casa!”
Este é o típico caso da pessoa que, envolvida como está com os papéis que representa, esquece que ela não é nenhum desses papéis. O ator João não agiu. Ele apenas reagiu emocionalmente. O amigo leitor pode achar engraçada esta situação, mas isso já aconteceu de verdade numa encenação do épico Rāmāyāna em Tamil Nadu, sul da Índia. O ator que representava o príncipe Rāma enloqueceu e feriu com golpes de espada o ator que encarnava o demônio Rāvaṇa.
Caso 2: representação consciente de um papel.
Numa outra hipótese, o ator João, que faz sucesso e prosperou graças ao seu talento, representa o papel de um mendigo que sofre e chora. O ator pode sorrir e pensar para si mesmo enquanto derrama copiosas lágrimas: “Que felicidade! Estou chorando bem como nunca!” Apesar dos graves problemas vividos pela personagem, o ator não é atingido por esses problemas.
Ele sabe perfeitamente que a representação é uma representação e mais nada. No fim da peça, pendura as roupas do mendigo, veste as suas e sai alegremente para jantar com os amigos. As lágrimas ficaram para trás. Neste caso, João era plenamente ciente de estar apenas representando um papel. A consciência de si mesmo como João estava presente antes, permaneceu durante a encenação do sofrimento do mendigo e permanece depois que a peça termina.
Relacionamentos inteligentes.
Relacionamentos inteligentes se constróem pela descoberta do espaço que há entre quem nós somos e os papéis que representamos. A realidade de qualquer relação é que sempre há um fator variável e um constante. Desde seu ponto de vista, você é o invariável, e todos aqueles que nos relacionamos com você (inclusive eu, ao escrever estas linhas), mudamos constantemente.
Essa pessoa invariável que você é assume diferentes atitudes, dependendo dos papéis que estiver representando. No entanto, se você fizer uma lista dos seus problemas, descobrirá que eles estão ligados unicamente a esses papéis. Em suma, objetivamente falando, você não tem problemas para chamar de seus. Os problemas são inerentes aos papéis que você representa, mas não são seus.
Swāmi Dayānanda ensina: “Se você tiver problemas como pai, filho, esposo ou esposa, você deve compreender que está confundindo a si mesmo com seus papéis. Se você confunde um papel com si mesmo, não há problema algum. Mas, se confunde a si mesmo com um papel, então, definitivamente, essa confusão vai levar você a um estado de sofrimento e desespero.
“Você precisa compreender que o Eu é livre de todos os papéis e situações, livre até mesmo da própria mente. Apenas com essa compreensão dos truques da mente você irá se tornar mestre dela, usando-a como um instrumento para aprender, para apreciar, para amar.” A estrofe termina do modo habitual, com o bordão “Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser”.

Estrofe 6.

ahaṁ nirvikalpo nirākāra-rūpaḥ
vibhutvāchcha sarvatra sarvendriyāṇām |
na chāsaṅgato naiva muktirna bandhaḥ
chidānandarūpaśśivo’haṁ śivo’ham || 6 ||
Sou livre de pensamentos. Sou livre de estrutura e forma;
Estou conectado com os sentidos, pois permeio o existente.
Não sou apegado nem condicionado, nem [busco a] liberdade.
Minha natureza é consciência e plenitude. Sou Ser, sou Ser. 6.

Como foi visto até este ponto, Ātma não está condicionado pelas limitações intrínsecas ao corpomente. Havendo uma absoluta identidade entre Ātma e Brahman, o Ser individual e o Ser não-manifestado, Ātma é ilimitado e invariável, assim como Brahman. Qualquer tipo de apego será uma forma de identificação com as coisas do corpo ou do psiquismo.
Mokṣa, a liberdade, não é uma experiência, nem ganhar algo que não se possui. É, pelo contrário, destruir a ignorância em relação a si mesmo. Ao ganharmos autoconhecimento percebemos que, em verdade, não houve escravidão em nenhum momento. Percebemos que sempre fomos libertos, mas não sabíamos disso.
Asaṅgataḥ significa não-condicionado, não-identificado. Libertação é o reconhecimento de que já somos Brahman, ao invés de um corpomente limitado, como é explicado na tradição do Vedānta com o exemplo do pastor distraído, que busca aflito no vale o cordeiro que está carregando em seus próprios ombros. Mokṣa é dar-se conta, é reconhecer e firmar-se naquilo que já somos. Namaste!

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Texto para distribuição livre, desde que você dê um beijo nos seus seres amados hoje. Um agradecimento especial ao meu guru, Swāmi Dayānanda, e aos bons amigos e companheiros de caminhada na senda do Yoga e o autoconhecimento. Existem algumas versões deste sexteto, que apresentam pequenas variações em alguns versos, notadamente na terceira linha da última estrofe. A que aqui apresentamos é a que aprendemos com o nosso mestre. Ela pode ser encontrada uma tradução ao inglês no livro Vedic Heritage Teaching Programme, de Swāminī Pramāṇānada Sarasvatī e Śrī Dhīra Chaitanya, publicado pelo Pūrṇa Vidyā Trust de Tiruvannamalai, Índia, em 2009.
Tradução e comentários de Pedro Kupfer.
Hariḥ Oṁ!

VIA YOGA.PRO.BR

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