O Filho do Homem – Huberto Rohden

Apareceu um homem, entre esses milhões de habitantes terrestres…
E esse homem veio tornar-se o centro da história da humanidade.
Não fez descobertas nem invenções, não derrotou exércitos nem escreveu livros – esse homem singular.
Não fez nada daquilo que a outros homens garante imortalidade entre os mortais – o que nele havia de maior era ele mesmo…
Pelo ano do seu nascimento datam todos os povos cultos a sua cronologia.
Possuía esse homem exímios dotes de inteligência – e infinita delicadeza de coração.
A sua vida se resume numa epopéia de divino poder – e num poema de humano amor.
Havia na vida desse homem uma pátria e uma família – mas também um exílio e uma solidão.
Havia inocentes com o sorriso nos lábios – e doentes com lágrimas nos olhos.
Havia apóstolos e apóstatas…
Brincava nos caminhos desse homem a mais bela das primaveras – e espreitava-lhe os passos a mais negra das mortes.
Esse homem vivia no mundo – mas não era do mundo…
Quando chegou, “não havia lugar para ele na estalagem” – e quando partiu, só havia lugar numa cruz, entre o céu e a terra.
Esse homem não mendigava amor – mas todas as almas boas o amavam…
Era amigo do silêncio e da solidão – mas não conseguia fugir ao tumulto da sociedade, porque “todos o procuravam”…
Irresistível era o fascínio da sua personalidade – inaudita a potência das suas palavras..
Todos sentiam o envolvente mistério da sua presença – mas ninguém sabia definir esse estranho magnetismo…
Era uma luminosa escuridão – esse homem…
Não bajulava a nenhum poderoso – e não espezinhava nenhum miserável…
Diáfano como um cristal era o seu caráter – e, no entanto, é ele o maior mistério de todos os séculos…
Poeta algum conseguiu atingir-lhe as excelsitudes – filósofo algum valeu exaurir-lhe as profundezas…
Esse homem não repudiava Madalenas nem apedrejava adúlteras – mas lançava às penitentes palavras de perdão e de vida…
Não abandonava ovelhas desgarradas nem filhos pródigos – mas cingia nos braços a estes e levava aos ombros aquelas…
Esse homem não discutia – falava simplesmente…
Não esmiuçava palavras nem contava sílabas e letras, como os rabis do seu tempo – mas rasgava imensas perspectivas de verdade e beatitude…
Por isso diziam os homens, felizes e estupefatos:
“Nunca ninguém falou como esse homem fala!”…
Para ele, não era o esquife o ponto final da existência – mas o berço para a vida verdadeira…
Por isto, vivem por ele e para ele os melhores dentre os filhos dos homens – porque adoram nesse homem o homem ideal, o homem-Deus…
(De Alma Para Alma – Huberto Rohden)

PORQUE O NEO-PLATONISMO NÃO SOBREVIVEU AO CRISTIANISMO ECLESIÁSTICO

 

 

 

 

 

 

 

 

A FESTA NUPCIAL (Mt 22,1 ss)

PELAS NÚPCIAS HUMANAS SE PERPETUA A VIDA RACIAL TERRESTRE – PELAS NÚPCIAS DIVINAS SE REALIZA A VIDA INDIVIDUAL CELESTE

Jesus voltou a falar em parábolas aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo. Ele dizia: “O Reino do Céu é como um rei que preparou a festa de casamento do seu filho. E mandou seus empregados chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram ir. O rei mandou outros empregados, dizendo: ‘Falem aos convidados que eu já preparei o banquete, os bois e animais gordos já foram abatidos, e tudo está pronto. Que venham para a festa’. Mas os convidados não deram a menor atenção; um foi para o seu campo, outro foi fazer os seus negócios, e outros agarraram os empregados, bateram neles, e os mataram. Indignado, o rei mandou suas tropas, que mataram aqueles assassinos, e puseram fogo na cidade deles.
Em seguida, o rei disse aos empregados: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados não a mereceram. Portanto, vão até as encruzilhadas dos caminhos, e convidem para a festa todos os que vocês encontrarem’. Então os empregados saíram pelos caminhos, e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados.
Quando o rei entrou para ver os convidados, observou aí alguém que não estava usando o traje de festa. E lhe perguntou: ‘Amigo, como foi que você entrou aqui sem o traje de festa?’ Mas o homem nada respondeu. Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrem os pés e as mãos desse homem, e o joguem fora na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes’. Porque muitos são chamados, e poucos são escolhidos.”

(Mateus 22:1-14)

“O Reino dos Céus é semelhante a um rei que celebrava as núpcias de seu filho”.
Em todas as literaturas, dentro e fora do cristianismo, a experiência mística aparece invariavelmente em roupagens de vivência erótica. Na Bíblia, não é somente no “Cântico dos Cânticos” de Salomão, mas também no Evangelho do Cristo, que mística e erótica figuram uma ao lado da outra.
Eros e Logos aparecem sempre de mãos dadas.
Para, de algum modo, compreender tão paradoxal mistério, é necessário que assumamos a perspectiva seguinte:
A vida é a quintessencia do Universo. A vida é a Divindade, Brahman, Tão, Yahveh. A realidade do Universo é Vida.
É da íntima natureza da Vida, Uma e Única, que ela se manifeste em forma de Vivos; que o Eterno Uno se revele sem cessar em Verso temporário, formando o Universo, a Unidade na Diversidade.
O Universo é Vida manifestada em Vivos.
Mas, os Vivos, não podendo perpetuar-se individualmente, têm a irresistível tendência de se perpetuarem racialmente, na imortalidade da espécie.
A impossibilidade da imortalidade individual é substituída pela possibilidade da imortalização racial.
O instinto sexual – libido, no mundo animal, erótica, no mundo hominal – está a serviço da imortalização da espécie; daí, a sua irresistível veemência. É imperativo categórico da Vida que os Vivos se perpetuem.
No mundo hominal superior, a mística realiza, no plano individual, o que a erótica procura realizar no plano inferior da raça. A mística realiza a imortalidade simultânea do indivíduo, ao passo que a erótica realiza a imortalidade sucessiva da espécie.
Erótica e mística, como se vê, estão a serviço da imortalidade, cada uma na sua esfera.
Por isso, a estranha afinidade entre o imperativo sexual, que visa procrear a imortalidade racial, e o imperativo espiritual, que crea a imortalidade individual. O crear supera o procrear.
No plano superior, a tendência erótica decresce na razão direta do crescimento da experiência mística; quando esta atinge o mais alto zênite, aquela baixa ao mais profundo nadir. A imortalidade qualitativa extingue o desejo da imortalização quantitativa.
Os grandes místicos são, geralmente, dotados de uma veemente potencialidade erótica – não no sentido de que, antes de se tornarem místicos, devam ter sido atualmente eróticos, como vemos na vida de Santo Agostinho e de Mahatma Gandhi; mas no sentido de que uma intensa vitalidade, que se revela em potencialidade erótica, se pode manifestar em potencia mística, como no caso de Francisco de Assis, e, sobretudo, de Jesus de Nazaré, nos quais não aparece nenhuma erótica atual, mas a erótica potencial se manifestou diretamente em mística atual. Uma erótica sadia, não eclodida, pode eclodir numa grande mística.
À luz destas premissas, é possível compreender, de algum modo, o constante paralelo entre erótica e mística, entre as núpcias humanas e as núpcias divinas.
Mestres hindus de Yoga Tântrica vão ao ponto de recomendar a seus discípulos a prática de interromperem o orgasmo sexual da erótica humana no ponto culminante, antes de o consumarem, a fim de entrarem subitamente no entusiasmo espiritual da mística divina. Semelhante prática parece quase um desafio sádico para o homem e a mulher comum; mas baseia-se na suposição tácita de haver uma afinidade latente entre Eros e Lógos. E, na realidade, tanto a erótica como a mística giram em torno do início de uma vida nova, seja no plano horizontal dos egos humanos interessados em perpetuar a vida racial da humanidade, seja na dimensão vertical do Eu divino responsável pela imortalização da vida individual do homem. Aquela se realiza no infra-consciente, esta no supra-consciente.
No orgasmo erótico ocorre um mergulho momentâneo de duas vidas individuais – homem e mulher – no oceano cósmico da Vida Universal, onde se acende uma terceira vida, a do filho.
No entusiasmo místico há um mergulho-relâmpago duma vida individual humana no mar imenso da Vida Universal da Divindade, e, neste momento, se acende na creatura humana a vida imortal, integrada na Divindade; o filho concebido não é uma entidade alheia separada do místico, mas é ele mesmo numa nova dimensão de existência. Pode-se dizer que, na experiência mística, ocorre uma auto-concepção: o homem imortalizável se torna imortalizado; o ponto culminante na vida humana é essa auto-concepção, que se consumará na auto-parturição, em “dar a luz a si mesmo”, como diz um autor moderno. “Quem não nascer de novo pelo espírito não pode ver o Reino de Deus”.
A erótica, que é a mística da carne, perpetua a imortalidade racial da humanidade.
A mística, que é a erótica do espírito, realiza a imortalidade individual do homem.
Freud escreveu um livro entitulado “Eros e Thánatos” (Eros e Morte), como que sentindo a afinidade entre Amor e Morte. Se não houvesse a morte dos indivíduos, não haveria necessidade para Eros, destinado a preencher com vida nova as lacunas que Thánatos abre nas vidas individuais. Eros equilibra o déficit que Thánatos causa incessantemente.
Mas, quando o Eros do ego culmina no Lógos do Eu, não há mais lugar para Thánatos, porque Lógos é Athánatos, imortalidade. Quando a mística atinge o seu zênite, a erótica desce a seu nadir.
A mística, em sua plenitude, não é uma erótica sublimada, mas sim uma erótica totalmente superada pela mística.
“Um rei fez as núpcias para seu filho”…
a Divindade, enviando ao mundo o “Unigênito do Pai”, o “Primogênito de todas as creaturas”, realizou as núpcias místicas do Cristo Cósmico, do Verbo, do Logos, com a natureza humana de Jesus de Nazaré. E o Jesus humano, integrando-se totalmente no Cristo divino, redimiu a sua humanidade individual, divinizando a natureza humana.
Desde então, existe uma humanidade Cristo-redimida – não a humanidade coletiva do gênero humano, que continua irredenta, mas sim, a humanidade individual em Jesus.
Estas núpcias místicas do Cristo Cósmico com a natureza humana de Jesus, esse conúbio metafísico do Verbo com a carne, pela Encarnação, foram o prelúdio e o penhor para que a carne se fizesse Verbo, na Ressurreição; e, na Ascensão, o Verbo encarnado e a carne verbificada subiram aos céus.
Ora, essa theosis, que aconteceu uma vez, em Jesus, pode acontecer mais vezes; a humanidade, uma vez Cristo-remida em Jesus, pode ser Cristo-remida em outras creaturas humanas. Um ser humano disse “Está consumado”, está realizada a tarefa de cristificação pelas núpcias místicas com o Verbo.
A parábola do pai que fazia as núpcias de seu filho tem uma perspectiva cósmica de infinita profundidade e amplitude…

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O FILHO PRÓDIGO (Lc 15,11)

EVOLUÇÃO DO HOMEM ATRAVÉS DE ERROS HUMANOS PARA A VERDADE DIVINA

“Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, me dá a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu, e partiu para um lugar distante. E aí esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome nessa região, e ele começou a passar necessidade. Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para a roça, cuidar dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a lavagem que os porcos comiam, mas nem isso lhe davam. Então, caindo em si, disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome… Vou me levantar, e vou encontrar meu pai, e dizer a ele: – Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço que me chamem teu filho. Trata-me como um dos teus empregados’. Então se levantou, e foi ao encontro do pai.
Quando ainda estava longe, o pai o avistou, e teve compaixão. Saiu correndo, o abraçou, e o cobriu de beijos. Então o filho disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço que me chamem teu filho’. Mas o pai disse aos empregados: ‘Depressa, tragam a melhor túnica para vestir meu filho. E coloquem um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Peguem o novilho gordo e o matem. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’. E começaram a festa.
O filho mais velho estava na roça. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados, e perguntou o que estava acontecendo. O criado respondeu: ‘É seu irmão que voltou. E seu pai, porque o recuperou são e salvo, matou o novilho gordo’. Então, o irmão ficou com raiva, e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. Mas ele respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua; e nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho gordo!’ Então o pai lhe disse: ‘Filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu é seu. Mas, era preciso festejar e nos alegrar, porque esse seu irmão estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’.”
[Lucas 15:11-32]

A história do Filho Pródigo é, quase sempre, apresentada exclusivamente como a parábola clássica da misericórdia de Deus para com o pecador penitente. Oradores e escritores fazem dela um poema melodramático e sentimental do amor de um Pai que recebe de braços abertos um filho ingrato que, finalmente, se arrepende dos seus desvarios e regressa à casa paterna. Esse pai misericordioso é Deus, e o filho pródigo é qualquer pecador que se converte.
Não é intenção nossa excluir totalmente essa interpretação comovente.
Entretanto, à luz do texto original do primeiro século, não cremos que seja esta a quintessência, o alfa e ômega, da história narrada por Jesus. Por entre as linhas aparece algo infinitamente mais profundo e sublime, mais cósmico e ontológico, do que esse drama do amor paterno e da humildade filial.
A história do filho pródigo – que, no Evangelho, não é chamada parábola – é o drama da evolução ascensional do homem e a epopéia multimilenar da própria humanidade. Podemos até afirmar que, nessa narrativa, atingiu o espírito do Nazareno as mais excelsas culminâncias da sua visão cósmica sobre o homem individual e sobre a humanidade universal.
A fim de compreendermos devidamente o poema cósmico do filho pródigo, devemos, acima de tudo, remontar ao texto grego do primeiro século, nem sempre fielmente reproduzido em nossas traduções.
No texto grego original de Lucas – o único evangelista que refere o fato e que escreveu diretamente em língua grega – lemos o seguinte: “Um pai tinha dois filhos. Disse-lhe o mais novo: Pai, concede-me a parte da natureza que me convém”.
A vulgata latina traduz: “Dá-me a porção da substancia que me pertence”. Substância, em latim, pode significar “aquilo que subestá”, que subjaz à minha vida, que é a minha natureza humana de jovem. Mas os tradutores entendem, geralmente, por substancia o dinheiro.
O texto original grego é bem claro quando diz: “A parte da minha natureza (ousia, do verbo einai, que significa “ser”) que me convém (epibállon)”.
Que é que o filho mais novo, talvez de 15 anos, pede ao pai?
Muitos pensam que ele tenha pedido a parte dos bens materiais a que julgava ter direito, e o pai teria distribuído entre os dois filhos os bens da família, na medida do direito de cada um. Mas, teria um rapaz o direito de pedir isto ao pai? E, se assim acontecera, como se entende que, após o regresso do filho pródigo, o filho mais velho diz ao pai que nunca recebeu nada dele? Se houvesse partilha dos bens, teria o filho mais velho recebido a sua parte, e não se poderia queixar.
O texto grego não se refere a partilha dos bens, fala da parte da natureza (ousia) que ao jovem convém. Isto é, o jovem reclama o direito da sua juventude, insiste na sua liberdade pessoal de jovem independente, faz valer o direito de não mais ser criança dependente, mas adolescente autônomo. Pede um modo de vida conveniente (epibállon) à sua natureza de jovem.
O pai reconhece em silencio, essa conveniência; não protesta, não dissuade o jovem com nenhuma palavra; reconhece que ele deve iniciar a fase da sua adolescência. Também não aparece nenhuma mãe chorando e dissuadindo o filho de gozar os direitos da sua mocidade independente.
Em silencio, “o pai dividiu entre eles a vida” (bios). A palavra grega “bios” quer dizer “vida”, onde a Vulgata Latina repete a mesma palavra “substancia”.
O pai dividiu a vida (bios) entre os dois filhos: o mais velho continua na sua vida dependente, o mais novo inicia uma vida independente. Ou seja: o filho mais novo desperta para o segundo estágio da sua evolução hominal, deixa de ser criança inexperiente, e passa a ser um jovem experiente da sua ego-personalidade – ao passo que seu irmão mais velho continua estagnado no plano do seu infra-ego inexperiente; não comeu ainda do “fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”, como diria Moisés.
Com o despertar da personalidade entra o jovem na fase da liberdade. O livre-arbítrio recém-despertado, manifesta-se primeiro em forma negativa, porquanto o ego humano é essencialmente centrífugo, separatista, dispersivo, anticósmico.
E durante muito tempo continua a ego-personalidade a viver exclusivamente nessa dimensão da egoidade hipertrofiada, esbanjando todas as suas potencias numa vida dissoluta, como é invariavelmente a vida com 100% de ego-consciencia e 0% de Eu-consciencia.
E, como toda a culpa livremente cometida gera sofrimentos necessariamente subseqüentes, no ponto culminante das maldades aparecem os males.
O jovem começa a sofrer as inevitáveis conseqüências das suas culpas. Sofre, sofre, sofre…
Mas o sofrimento não o levou, logo de início, à redenção. O jovem sofredor culpado procura libertar-se dos males sem se redimir da maldade; associa-se a um pecador inveterado na maldade e dele espera libertação dos seus males. O jovem sofredor, no auge da sua miséria, apela para um rico fazendeiro, morador naquela zona; pede-lhe serviço para poder sobreviver. Sem tardança, o velho pecador se prontifica a ajudar o jovem pecador, mandando guardar uma manada de porcos que ele tem na sua fazenda. Dá serviço ao jovem sofredor – mas não lhe dá alimento. Assim é que todo egoísta trata outro egoísta.
O jovem acabou pastor de porcos imundos. E, quando ouvia o ruidoso crepitar das vagens de alfarroba entre os dentes dos suínos; quando ele via como os animais, depois de encherem a barriga, se deitavam gostosamente no chiqueiro e dormiam tranqüilamente, enquanto o jovem, de estomago vazio, sentia o desejo de ser animal também para poder ser estupidamente feliz como eles – então despertou nele algo misterioso…
“Desejava encher sua barriga” (implere ventrem suum), não saciar-se, que é impossível ao racional, mas pelo menos “encher a barriga”, como os porcos, já que outra coisa não era possível. Desejava, pelo menos, esquecer sua insatisfação, já que não se podia satisfazer; tentava enganar, narcotizar, com gozos materiais os seus anseios espirituais.
Mas, diz o texto, ninguém lhe dava essa satisfação animalesca. Alimentos materiais não saciam fome espiritual.
Ali, no meio duma manada de animais satisfeitos, desceu a insatisfação do jovem ao mais profundo nadir da infelicidade.
E foi então que o máximo do sofrimento o levou ao início da redenção. “Ele entrou em si”, diz o texto.
Caiu em si, escrevem os maus tradutores, como se alguém pudesse cair pra cima. Entrou em si, diz o autor sacro.
Saiu das periferias do ego pecador e sofredor – entrou no centro do Eu redentor. Aconteceu ao filho pródigo a maior coisa que pode acontecer ao homem: a auto-compreensão. Que sou eu?…
E toda auto-compreensão transborda em auto-realização.
Que sou eu? Sou eu realmente um pastor de porcos? Não! Isto é a triste profissão do meu ego humano – mas não a gloriosa vocação do meu Eu divino…
Que sou eu?
Eu sou filho daquele pai bondoso. Não sou o que pareço ser externamente – sou e sempre serei o que sou internamente. Eu pareço ser escravo de um tirano egoísta, que me reduziu a pastor de porcos – mas eu sou filho livre de alguém que continua a ser meu pai.
Depois desse ingresso no Eu, e esse egresso do seu ego, veio o regresso ao Pai.
A auto-compreensão transborda infalivelmente em auto-realização.
Dizem certos tradutores que o jovem se “arrependeu”; outros chegam ao auge da absurdidade afirmando que fez “penitência”. Mas o texto inspirado do Evangelho só conhece a palavra “converteu-se” ou “transmentalizou-se”. Ultrapassou a sua velha mentalidade ego e entrou na nova consciência do Eu.
O jovem aparentemente, regressou para donde viera; na realidade, porém, esse regresso foi um super-gresso; o ponto da sua volta não coincidiu com o ponto de sua partida; não fechou simplesmente um círculo, abriu uma grande espiral, cujo termo de chegada está imensamente acima do termo de partida; o regresso superou o egresso, porque entre este e aquele aconteceu um ingresso. Entre a partida e a chegada houve uma gigantesca evolução – a jornada cósmica que vai da culpa através do sofrimento até a redenção.
Para celebrar esse grande acontecimento – a autocompreensão e auto-realização de um homem – o Evangelho recorre a tudo quanto possa simbolizar suprema alegria e solenidade: abraços, beijos, anel precioso, deslumbrante vestuário, lauto festim, músicas e bailados. É que a realização de um único homem é um fenômeno mais grandioso que todos os astros e galáxias do Universo. Deus creou todas as grandezas do cosmos – mas um único homem plenamente realizado é um Universo de creatividade acima de todas as creaturidades…
Quando se estava celebrando essa grande harmonia, aparece uma aguda dissonância: o filho mais velho, que estagnara na sua evolução e continuara a marcar passo na inexperiência, revelou-se incapaz de compreender a linha ascensional evolutiva de seu irmão, que culminou em suprema verticalidade. Nem aceita a palavra “teu irmão”, mas substitui-a por “teu filho”. De fato, o jovem realizado não era mais irmão dele; não havia nenhuma afinidade espiritual entre eles; ele era apenas “teu filho”, um filho de Deus, sem afinidade com outros filhos de Deus. O filho mais velho se queixa de nunca ter sido recompensado por sua obediência de muitos anos, ao passo que o outro, auto-realizado, nada sabe de recompensa, de espírito mercenário. Quem encontrou seu verdadeiro ser nada mais sabe do ilusório ter. Quem realizou o seu ser só conhece amor, e nada sabe de recompensa.
O poema do filho pródigo marca o zênite da genialidade do Nazareno, quando considerado à luz do drama cósmico da auto-realização do homem e da evolução multimilenar da humanidade.
O filho mais velho representa um ser humano que, longe de atingir as alturas da individualidade do Eu divino, nem sequer despertara para a personalidade do seu ego humano. E quem não tem consciência do seu ego não é possuidor de nada, como os seres da natureza, que nada sabem de posse ou possessividade.
Por isso, diz muito bem o Pai, que simboliza Deus. “Tudo que é meu é teu”. Tudo que é de Deus é também do mundo infra-humano – mineral, vegetal, animal – mas esse mundo nada sabe de “meu”. O infra-ego não possui nada, nem sequer um “cabrito”. A consciência do “meu” é um corolário do pequeno “eu” personal, ou ego.
O filho mais novo havia chegado à ego-consciência personal e a tinha superado, atingindo as alturas da Eu-consciência cósmica.
O hino místico “Exultet”, que se canta anualmente na véspera ou manhã da Páscoa, exclama: “O Felix culpa! O vere necessarium Adae peccatum quod talem et tantum meruisti Redemptorem!” (Ó culpa feliz! Ó pecado de Adão realmente necessário, que tal e tão grande Redentor mereceste).
Poderá haver culpa feliz? Haverá pecado necessário?
Em face da teologia analítica, isto é blasfemo – mas à luz da visão da mística intuitiva, isto é sublime. Culpa e pecado simbolizam o estágio evolutivo do homem através do ego em demanda do Eu. A nossa humanidade da ego-personalidade já está no plano horizontal da “culpa feliz” e do “pecado necessário”; falta-lhe superar esse plano e atingir a plenitude vertical da sua redenção.
Após o sub-ego, a Kundalini, enrolada e dormente, acordará como ego rastejante no plano horizontal, “comendo do pó da terra” – no super-ego, ou Eu, Kundalini se ergue à plenitude vertical da sua auto-realização.
A história do filho pródigo encerra uma metafísica de infinita profundidade e uma mística de inaudita sublimidade.

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INTRODUÇÃO A SABEDORIA DAS PARÁBOLAS

“Os textos das parábolas que aqui compartilho, são de autoria do filósofo e educador Huberto Rohden, por quem tenho profundo respeito e admiração”.

Advertência

A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento.
Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência.
O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado.
Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam criadores.
A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.
Por isso, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas.

PRELÚDIO

Quase todas as parábolas de Jesus giram em torno da idéia do “Reino de Deus” ou “Reino dos Céus”.
Reino é um conceito orgânico, que lembra hierarquia. Num reino há superior e súditos, alguém que orienta e os que seguem sua orientação.
E como, segundo as palavras do Cristo, o Reino de Deus está dentro do homem, deve esse Reino consistir numa hierarquia de valores e de fatos que integram a natureza humana.
O Reino de Deus no homem é o Eu divino da sua alma que governa o ego humano da sua mente, das suas emoções e do seu corpo.
Esse Reino de Deus existe em todo homem; mas, na maior parte, existe em estado dormente, potencial, embrionário; compete ao homem despertar, atualizar, desenvolver esse reino, que o Mestre chama a “luz sob o alqueire”, o “tesouro oculto”, a “pérola preciosa”.
Há no Evangelho algumas dezenas de parábolas que visam esse Reino dos Céus que o homem deve despertar, desenvolver dentro de si e pôr a serviço da vida própria e alheia.
Quem nos conta essas parábolas havia realizado plenamente esse Reino de Deus em si mesmo.
Mas, aos seus ouvintes inexperientes, não podia ele dizer o que, na realidade, era esse Reino; só lhes podia indigitar, através de comparações e analogias, a que era semelhante esse Reino.
O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda… a um fermento… a uma rede de pescar… a uma festa nupcial… a dez virgens… a uma pérola preciosa, etc.
Já aos 12 anos manifestou Jesus um lampejo desse Reino divino. Por ocasião da Páscoa – festa comemorativa do Êxodo do Egito, isto é, da independência nacional de Israel – ficou o menino Jesus 3 dias em silêncio no templo; e, quando sua mãe lhe perguntou pelo motivo desse isolamento, respondeu o menino: “Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas que são de meu Pai?” referindo-se à vivência do Reino de Deus em sua alma.
Depois subiu com seus pais a Nazaré, cidade da Galiléia, onde passou 18 anos, até à idade de 30, e “foi crescendo em sabedoria e graça perante Deus e os homens”.
Muitos livros foram escritos sobre esses 18 anos, que os Evangelhos resumem na única frase citada. Escritores fantasiosos inventaram viagens do adolescente para o Egito, para a Índia, para o Tibet. Mas os seus conterrâneos de Nazaré nada sabem dessa suposta ausência do jovem carpinteiro.
Se tivesse estado ausente durante quase dois decênios, os nazarenos teriam tido uma explicação plausível para a grande sabedoria que o jovem profeta revela aos 30 anos.
E, contudo, Jesus fez viagens infinitamente mais longínquas do que ao Egito, à Índia e ao Tibet – viajou através das “muitas moradas que há em casa do Pai celeste”, percorreu as ignotas amplitudes dos Reinos de Deus, não fisicamente, mas em espírito e em verdade.
Podemos imaginar o jovem carpinteiro, depois dos labores diurnos, subir lentamente os montes escarpados que se erguem por detrás da cidadezinha de Nazaré, sentar-se num dos penhascos cinzentos, com o rosto voltado para o ocidente, onde o sol mergulhava nas águas azuis do Mar Mediterrâneo… Horas e horas, lá ficava Jesus, imóvel como uma estátua de granito, enquanto sua alma contemplativa mergulhava nas maravilhas do Universo, não apenas do Universo material, mas sobretudo do Universo espiritual, que só os cosmo-videntes enxergam…
Altas horas da noite, as vezes só pela madrugada, descia o jovem dos montes de Nazaré e voltava para casa. E, enquanto descia lentamente, envolto ainda no invisível halo do Reino de Deus, que contemplara, dizia ele de si para si:
Como vou falar ao povo dessas maravilhas?…
Como fazer-lhe compreender o que é o Reino dos Céus?…
Só balbuciando comparações, alegorias, parábolas primitivas… O Reino dos Céus é semelhante a isto, é semelhante àquilo…
Jesus sorria-se ligeiramente da ingenuidade da sua idéia de falar ao povo de coisas tão transcendentais.
Aos 30 anos, fechou a modesta carpintaria, despediu-se de sua mãe e desceu das alturas da Galiléia. Dirigiu-se rumo sul, à Judéia, a fim de se encontrar com seu primo João, que proclamava o Reino de Deus às margens do Jordão.
Mas, antes de fazer transbordar umas gotinhas da sua plenitude interior, retirou-se Jesus mais uma vez por 40 dias, ao silêncio do deserto, revivendo as suas experiências de Nazaré sobre o Reino dos Céus.
Só depois dessas grandes e profundas experiências resolveu ele falar ao povo sobre o que ele vivera e saboreara interiormente.
Durante os três anos da sua vida pública, refere o Evangelho, passava Jesus noites inteiras no alto dos montes ou na solidão do ermo, em sintonização cósmica com o Infinito.
Dessa profunda e vasta experiência direta do Reino de Deus brotaram as parábolas.
“A vós – diz ele a seus discípulos – vos é dado compreender os mistérios do Reino de Deus, mas ao povo só lhe falo em parábolas”.
Nenhuma das parábolas foi excogitada por Jesus; todas elas foram vividas por ele – e só podem ser compreendidas por nós quando plenamente vividas.
Toda a parábola consta de dois elementos: o símbolo material e o simbolizado espiritual.
O símbolo material, tirado da natureza ou da sociedade humana, é compreensível a todos; mas a compreensão do simbolizado espiritual depende do estado de evolução de cada um. Quem tem 10 graus de evolução espiritual interpreta a parábola como sendo 10; quem tem 50 graus compreende-a no nível 50; quem tem 100 graus de evolução compreende a parábola no grau 100. Devido a essa ilimitada elasticidade do simbolizado espiritual da parábola, esse modo de ensinar se presta para toda e qualquer classe de homens. Por outro lado, porém, não é possível dar uma explicação definitiva e universalmente válida das parábolas; a sua relatividade admite inúmeras interpretações, proporcionais ao estado de evolução espiritual de cada ouvinte ou leitor.
A explicação que passaremos a dar das seguintes parábolas corresponde ao estado evolutivo do autor, mas pode ser ultrapassada e completada pelo leitor.
Chamamos a atenção para o fato de que as parábolas não visam, em primeiro lugar, uma certa moralidade de agir, mas, acima de tudo, a consciência do Ser. Quando o homem se limita a certa vivencia do agir moral, mas não atinge a realidade do seu Ser metafísico e místico, ontológico, corre ele o perigo de marcar passo na zona superficial de um moralismo convencional, sem atingir a consciência da realidade.
As parábolas nos convidam a um profundo conhecimento metafísico e místico, cujo transbordamento espontâneo se revelará infalivelmente em auto-realização ética. A experiência da mística do “primeiro e maior de todos os mandamentos” se manifestará na vivencia da ética do segundo mandamento.

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A MÍSTICA DASBEATITUDES – ÍNDICE

Mística Das Beatitudes

(Introdução)

1. Bem-aventurados
os pobres em espírito,
pois deles é o Reino dos céus.

2. Bem-aventurados
os que choram,
pois serão consolados.

3. Bem-aventurados
os humildes,
pois eles receberão a terra por herança.

4. Bem-aventurados
os que têm fome e sede de justiça,
pois serão satisfeitos.

5. Bem-aventurados
os misericordiosos,
pois obterão misericórdia.

6. Bem-aventurados
os puros de coração,
pois verão a Deus.

7. Bem-aventurados
os pacificadores,
pois serão chamados filhos de Deus.

8. Bem-aventurados
os perseguidos por causa da justiça,
pois deles é o Reino dos céus.

EPÍLOGO

A Mística das Beatitudes resume, em duas palavras, o que o Mestre disse depois de proferir essas oito proclamações, que representam a plataforma do Reino de Deus e o auto-retrato de sua própria alma:
Vós sois o sal da terra“.
Vós sois a luz do mundo“.
Estas duas alegorias formam como que o alicerce, e ao mesmo tempo a pedra de fecho do majestoso santuário sustentado pelas oito colunas das bem-aventuranças. Esse octógono tem o seu fundamento nas alturas do céu, como a cidade santa de Deus, que, segundo o Apocalipse, desce de cima para baixo; tem as raízes no céu, e se ramifica, floresce e frutifica na terra.
Quando algum homem já é sal e luz, realiza com espontânea facilidade o conteúdo das Beatitudes, que aos profanos e inexperientes podem parecer absurdas ou extremamente difíceis.
O sal dá sabor a todos os alimentos – assim como a experiência espiritual é um misterioso condimento que permeia de sapiência todas as insipiências, e dá sapidez divina a qualquer insipidez da vida humana. O sal, se fosse tomado em estado puro, não seria agradável, mas, quando usado discretamente como aditamento, dá sabor a tudo. É a espiritualidade sensata e dosada que transforma todas as materialidades e preserva-as, ao mesmo tempo, da corrupção.
A luz, essa realidade mais sutil e invisível do Universo, dá vida, alegria e beleza a todas as creaturas da terra. Sem ela, o Universo não seria um cosmos, mas um caos de morte e treva.
Estas duas alegorias, sal e luz, sabor e vida, são a quintessência da filosofia e poesia do Nazareno. Nelas se aliam a metafísica da verdade e a mística da beleza. Bem se poderiam aplicar a estas alegorias as palavras de Mahatma Gandhi: “A verdade é dura como o diamante – e delicada como flor de pessegueiro”.
Por esta razão, acrescentamos às Beatitudes este remate metafísico-místico, coroa e alicerce do santuário da sabedoria cósmica do Nazareno.

“VÓS SOIS A LUZ DO MUNDO”

O que a ciência analítica de Einstein provou no século XX, isto já sabia a sapiência intuitiva de Moisés quinze séculos antes de Cristo. Logo no princípio do Gênese, diz Moisés que, no primeiro yom (período), Deus creou a luz, não a luz do sol e das estrelas, que, segundo ele, apareceram só no quarto período. Moisés fala da luz cósmica, invisível, da qual nasceram as luzes focalizadas no sol, nas estrelas e nas outras unidades siderais.
Seja nas páginas do Gênesis, escritas cerca de 3.500 anos antes do nosso tempo, seja em pleno século XX, na era atômica, os sapientes e os cientes afirmam que a luz é o alfa e o ômega de todas as coisas finitas – o alfa, porque tudo é lucigênito, o ômega, porque tudo é lucificável.
O Cristo cósmico afirma que ele é a luz do cosmos, não no sentido físico, mas na visão metafísica; “antes que o mundo existisse, eu sou”, diz ele na sua oração de despedida, na santa ceia.
E afirma que todo homem é essencialmente essa mesma luz cósmica, embora em nós essa luz esteja ainda oculta debaixo do alqueire da nossa opaca egoidade, e nele já estava manifesta, brilhando no alto do candelabro da sua consciência espiritual. Quando ele diz: “Eu e o Pai somos um, o Pai está em mim”, logo acrescenta: “O Pai também está em vós”; e quando afirma: “Eu sou a luz do mundo”, logo completa: “vós também sois a luz do mundo”.
Certos teólogos, ainda emaranhados na ilusão do seu exoterismo, não admitem que nós sejamos da mesma substância essencial que o Cristo, da substância divina do Pai; querem que o Cristo seja “gerado”, nascido da consubstancialidade homogênea da Divindade, e que nós sejamos “feitos” da diversidade heterogênea, não nascidos de Deus, mas manufaturados por ele.
Mas essa teologia contradiz frontalmente ao Evangelho e às palavras explícitas do Cristo. Contradiz até às palavras que Paulo de Tarso disse aos filósofos atenienses, nas alturas do Areópago: “Nós somos de estirpe divina”.
Não há nenhum panteísmo blasfemo nessa concepção da substancialidade crística de todos os homens. A homogeneidade consubstancial não se refere à nossa existência finita, mas tão somente à nossa essência infinita. Em nossa finitude hominal todos nós somos infinitamente inferiores à Divindade, e, quando caímos em erros e pecados, não é Deus que erra ou peca, é apenas o nosso pobre ego humano, que não é igual a Deus.
A nossa tarefa, aqui na terra, consiste precisamente em fazer do nosso ego humano existencial uma perfeita imagem e semelhança do nosso Eu divino essencial. Assim como o Eu divino do Cristo fez do ego humano do seu Jesus um perfeito veículo do seu Cristo cósmico, assim deve todo Eu crístico do homem transformar o seu ego humano num perfeito veículo e agente dócil do seu Verbo, que se fez carne em cada um de nós.
“Toda alma humana – escreve Tertuliano no segundo século – é crística por sua própria natureza”.
A nossa missão aqui na terra é revelar através do prisma da nossa humanidade a cristicidade da luz divina.
A nossa personalidade humana pode servir de impedimento opaco e opor-se à penetração da luz divina – mas pode também servir de prisma triangular para difundir beneficamente a luz incolor do Cristo na maravilhosa faixa multicor da nossa humanidade. O nosso prisma triangular – alma, mente e corpo – pode fazer da luz incolor do Verbo uma epopéia de belezas, em vez de funcionar como interceptor opaco da luz divina.
Difusor transparente de belezas multicores – e não interceptor opaco da luz divina.
Onde não há luz não há vida, beleza, alegria.
Se Deus, segundo Aristóteles, é actus purus, pura atividade ou vibração espiritual, então a creatura deve ser tanto mais divina quanto mais se aproximar do actus purus.
O profano entende por atividade “movimento”, correria, agitação. Na verdade, porém, a atividade é precisamente o contrário do movimento. Uma roda em movimento giratório que recebe sua força do eixo, tem toda a força no centro, ao passo que tanto menor é a força quanto mais distante do eixo central e quanto mais próximo da periferia. Força e movimento estão em sentido oposto. Força é atividade – movimento é passividade. A força dá, o movimento recebe. Luz é o máximo de vibração, atividade.
Quando o homem atinge o zênite da sua força e atividade, torna-se cada vez mais tranqüilo, mais quieto, mais centralizado, e por isto mais eficiente. Eficiência é força, e não movimento; 10% de força vale mais que 90% de movimento. A luz é a maior força do Universo, embora pareça ser a coisa mais fraca. A essência da dinamite, das águas, da eletricidade, do vento, é a luz. Nestes últimos anos a nossa ciência e técnica descobriram que o último reduto da força é o átomo, ou melhor, o núcleo atômico, que se chama próton.
Próton é a palavra grega para “primeiro”; a primeira e a maior das forças é o próton, que é a alma invisível do átomo e, portanto, de todas as coisas da natureza.
Antigamente, força eram músculos de animais, camelos, elefantes, bois, búfalos, cavalos, etc. Força era também a água, o vento; mais tarde força era vapor d’água, que acionava locomotivas. Desde o século passado, força é eletricidade, que parecia ser fraqueza.
Finalmente, força é esta aparente imobilidade invisível do átomo e, ultimamente, essa entidade que nunca ninguém viu, do núcleo atômico, o próton. Hoje, o homem se convenceu que força é aparente fraqueza e imobilidade.
No microcosmo humano, o próton ou núcleo é o seu Eu, que é a fonte de todas as suas forças e o centro imóvel de todas as periferias móveis; é o ponto fixo; é o átomo indivisível, o “indivíduo”, indiviso em si e indiviso, não dividido, da alma do Universo.
Quando o Nazareno disse que o homem é luz cósmica como ele mesmo, enunciou o ponto culminante de toda sapiência dos séculos e milênios.
Teilhard de Chardin falou do “alfa e ômega” do homem; escreveu um livro sobre O Fenômeno Humano, que vai da hilosfera através da biosfera, e hoje chegou até à noosfera, em demanda da logosfera, que é o Logos, o Verbo, o Cristo cósmico, a Luz do mundo.
Mas, através de toda essa jornada multimilenar – através da hyle (matéria), da bios (vida), do noos (inteligência) rumo ao Logos (razão), é o homem guiado, luci-guiado, consciente ou inconscientemente, pela luz cósmica do seu Cristo interno.
Dizem e escrevem certos ignorantes, sobretudo os ignorantes eruditos, que o homem veio da matéria, do animal – e ignoram a sua própria ignorância. Pois, segundo a mais comezinha lógica e matemática, o menos não pode produzir o mais, o inferior não produz o superior. Esses homens confundem fonte com canal, causa com condição. Possivelmente, o corpo humano tenha fluído através de veículos materiais, mas, em hipótese alguma, veio desses canais; o homem veio da mesma e única fonte infinita da qual derivaram todas as águas das coisas finitas. Podem os finitos fluir através de outros finitos, mas não podem vir de outros finitos. Podem os finitos funcionar como potencialidades (canais), mas não podem ser potência (fonte).
Assim como todos os 92 elementos da química, dos quais vêm todas as coisas, vieram da luz, como a ciência provou – assim vieram todas as coisas finitas do Infinito, como a sapiência sabe e intui desde o princípio da humanidade.
A luz da essência humana veio da Luz da Essência Divina. O próprio Cristo, que é a luz do mundo já plenamente realizada, afirma que também ele veio da Luz Infinita que ele chama o Pai: “Eu e o Pai somos um, mas o Pai é maior do que eu”. Ele o Cristo cósmico, é o canal-mestre, que veio da fonte do Pai; e nós somos como que canais secundários ligados ao canal-mestre dele. Por isso diz ele: “Ninguém vai ao Pai a não ser por mim; eu sou o caminho, a verdade e a vida, quem me segue não anda em trevas, mas tem a luz da vida”.
Onde não há luz, como já dissemos, não há vida, beleza, alegria. Sem a luz tudo é morto, feio, triste.
O que os profanos chamam vida, beleza e alegria é como luz pintada numa tela de museu, mas não é luz verdadeira e autêntica. Todos sabem que a mais perfeita luz pintada não ilumina nem aquece; é uma pseudo-luz ilusória, fictícia. Um incêndio na tela não fornece luz nem calor como um simples fósforo. A diferença entre luz natural e luz artificial, entre luz verdadeira e luz pintada, não é questão de quantidade, mas de qualidade.
Com a pequena chama de um fósforo podemos incendiar uma floresta inteira, e iniciar a iluminação da maior cidade do mundo – mas com uma luz artificial pintada não podemos iluminar uma sala, nem sequer aquecer um cafezinho.
Quando a pequena chama de um fósforo encontra combustível suficiente, inicia uma “reação em cadeia” de caráter molecular, e enquanto houver combustível, o fogo não se apaga.
O mesmo se dá no mundo metafísico, onde a “reação em cadeia” é sem limites: basta que apareça um homem-luz, um homem-fogo, e a iluminação e o incêndio metafísico se propagam irresistivelmente. Há quase dois mil anos que apareceu um homem dessa natureza, de luz e fogo, que disse: “Eu sou a luz do mundo”, “Eu vim para lançar fogo à terra, e que quero eu senão que arda?” – e a quase dois mil anos muitos homens foram iluminados e ignificados por esse gigantesco incêndio.
Basta que alguém se torne combustível idôneo, para ser iluminado e incendiado por essa gigantesca conflagração Cristo-cósmica. Dá-se então uma “reação em cadeia”, um contágio de luz e fogo, quando um homem crea em si a necessária receptividade luci-ígnea.
O profano está como que na escuridão ou sombra espessa, porque se acha por detrás de uma muralha opaca, que se ergue entre ele e a luz; vive nessa escuridão e nada sabe da luz.
O místico chegou a saber que há luz do outro lado da muralha opaca, e, desejoso da luz, resolveu derrubar essa muralha, que é o mundo material e do qual faz parte o seu próprio corpo e todas as coisas do ego.
O homem cósmico, porém, descobriu uma terceira alternativa: não está por detrás de nenhuma muralha opaca, nem derrubou esse muro, mas, de tão iluminado e lucificado, tornou esse muro transparente. O homem cósmico despertou em si tamanho poder de sabedoria que conseguiu diafanizar a muralha divisória entre si e a luz; fez da muralha opaca um prisma cristalino, através do qual penetra a luz incolor e aparece nas maravilhas das cores do arco-íris, embelezando todas as coisas da sua vida. Mas, para lucificar a muralha divisória das coisas mundanas, deve ele mesmo ter intensificado ao máximo a sua lucificação.
A luz incolor é una.
O prisma tem três faces.
E o resultado do uno e do três são as sete cores do arco-íris.
A alma, a mente e o corpo – esse prisma triangular – quando se tornam perfeitamente transparentes, podem transformar a luz branca do Cristo na maravilha multicor – como aconteceu com Jesus de Nazaré, através do qual se manifestou o Cristo cósmico – e a personalidade do Nazareno apareceu “cheia de graça e de verdade”.
Quando o Verbo do nosso Eu crístico se encarna na pessoa humana pela geração e pelo nascimento, pode o ego humano eclipsar a luz do Eu divino – mas pode também fazer do ego a mais bela creatura de Deus.
Quando a personalidade humana do Nazareno foi penetrada pela luz do mundo, ficou esta terra embelezada pelos esplendores de Jesus de Nazaré, “de cuja plenitude todos nós recebemos, graça sobre graça”.

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“VÓS SOIS O SAL DA TERRA”

O sal é, por via de regra, identificado com o nosso sal de cozinha, cloreto de sódio, que usamos para dois fins: para dar sabor aos alimentos, e para preservá-los da putrefação. Neste sentido popular, a idéia do sal tem ótima aplicação ao mundo espiritual.
O discípulo do Cristo tem de fazer, na zona espiritual o que o sal faz no mundo material: dar sabor à vida – e preservá-la da putrefação.
Sem o condimento do sal, os alimentos sai insípidos, ou insulsos – e não é isto mesmo que acontece no mundo superior? O profano, que nada sabe do condimento da espiritualidade, leva uma vida insípida; mas, como ele ignora a sua própria insipidez, nem jamais saboreou alimento espiritual, tolera os seus alimentos cotidianos insulsos. E, quando a insipidez se lhe torna insuportável, procura esquecê-la por algum tempo, narcotizando-se com toda a espécie de anestésicos e analgésicos, como são geralmente dinheiro, sexo e divertimentos. Praticamente, nenhum profano sabe de outra coisa que não se possa reduzir de algum modo a essa trindade egóica. Pratica esses escapismos temporários com a intenção de fugir da insipidez da vida; mas, depois de voltar a si, enfrenta novamente, com redobrada violência, a mesma insipidez. Na juventude é sobretudo o escapismo para a zona do sexo, da luxúria em todas as suas variantes. Para isto, não necessita ele de muito dinheiro; basta ter um corpo são e normal, e o caminho para essa espécie de narcótico está aberto.
Na idade madura, é, sobretudo o dinheiro, em todas as suas formas, que serve para derivativo: indústria, comércio, negócios, especulações cambiais, etc.
E, em todas as idades servem os divertimentos e as diversões, esportes, viagens, que hoje em dia, têm aspectos tão variados que parecem até satisfazer os mais avançados anseios do homem profano.
Alguns sabem sublimar o seu alimento por meio de condimentos mais sutis, como sejam a ciência e a arte. Sobretudo a arte serve, não raro, de traço de união entre a física e a metafísica.
Para o homem de sorte, esses derivativos substituem, muitas vezes, a ignota zona da metafísica e da mística. Mas, quando os revezes da fortuna e o estado de saúde privam o homem de sentir plena satisfação nesses ídolos do ego – então se acha ele numa dolorosa encruzilhada da sua existência. O sofrimento pode ser uma espada de dois gumes: pode ser o início da sublimação da vida humana – e pode ser também o início do seu total desespero. Se o homem, durante meio século de vida totalmente profana, vivida na dimensão do dinheiro, do sexo e dos divertimentos, se vir subitamente privado desses seus ídolos tradicionais, dificilmente enveredará, de improviso, pelo caminho da sublimação espiritual; acabará, provavelmente, no desânimo, no desespero, possivelmente no manicômio, no hospital, quiçá no suicídio – em todo caso num inferno em plena vida.
É sumamente perigoso, mesmo em estado de plena saúde e prosperidade, firmar-se com ambos os pés unicamente na base da física, sem nenhum apoio na metafísica.
Somente homens de natureza medíocre encontram plena satisfação, como eles pensam, na zona da física sem anseios metafísicos.
Caracteres dotados de maior voltagem vital, fazem a experiência seguinte: quanto mais favoráveis são as circunstâncias externas da sua vida, maior e mais intensa é a nostalgia da substância interna. Não é necessário nenhum terremoto de fora para essas pessoas sentirem a sua inquietude metafísica; parece até que a própria plenitude física lhes faz sentir mais conscientemente a sua vacuidade metafísica. A harmonia da sua vida material, emocional e social lhes faz sentir ainda mais a desarmonia do seu mundo espiritual.
Neste ambiente, deve Santo Agostinho ter escrito as tão citadas palavras: “Fizeste-nos para ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração até que encontre quietação em ti”.
Poucos homens devem ter levado uma vida externa tão feliz como esse genial africano; mais de meio século de prosperidade, de saúde, de inteligência brilhante, de glórias, de admiração e esse homem, nadando num oceano de prosperidade humana, anseia por uma felicidade longínqua, desconhecida, porém, intensamente farejada – e sofrida.
Outro homem, Leão Tolstoi, foi outro felizardo profundamente insatisfeito: fazendeiro riquíssimo, dono de uma fortuna imensa, pai de nove filhos, feliz como esposo e pai, como escritor, poeta e artista, alvo de imensa admiração do mundo – sente-se ele tão infeliz na sua felicidade, que resolve fugir da maldição da sua prosperidade, como ele mesmo diz. Desaparece… mas a polícia o reconduz para casa e o obriga a viver, por algum tempo, no meio da família.
Tolstoi, porém, não tolera a sua chamada felicidade; numa fria noite de inverno, quase aos oitenta anos de vida, foge pela segunda vez, desta vez em companhia da filha mais nova Alexandra, que parece ter participado da nostalgia mística do pai. Apenas com a roupa do corpo, adoece no trem e morre numa pequena estação ferroviária em plena mata; antes de dar o último suspiro, transmite à filha a sua última vontade, proibindo qualquer discurso, música ou pompa ao pé do seu túmulo.
Nem sempre, dinheiro, sexo e divertimentos roubam ao homem a visão duma felicidade transcendente; desse roubo só são vítimas os caracteres medíocres, os homens-minhocas, satisfeitos com o seu húmus no fundo da terra, e incapazes de invejarem os vôos das águias nas luminosas alturas do céu.
Quando o Mestre diz aos seus discípulos que eles são o sal da terra, faz alusão a esse condimento de espiritualidade, destinado a tornar saborosas todas as materialidades da vida terrestre. Não lhes recomenda comer sal puro, mas sim condimentar todos os alimentos da vida física com o sabor da metafísica e da mística, que ele designa geralmente com a palavra o “Reino de Deus”.
Mas, o Nazareno faz aos seus discípulos uma advertência muito séria: se o próprio sal da espiritualidade perder a sua salinidade, o seu poder de salgar, fica inútil e para nada mais serve senão para ser lançado fora e pisado aos pés dos transeuntes.
Quando o homem perde a consciência da sua espiritualidade, a consciência do seu Eu divino, como poderia ele ainda espiritualizar a sua vida material? Como poderia o Eu divino condimentar as profanidades do ego humano, se ele perder a consciência de que “eu e o Pai somos um”?
E como conseguirá o homem preservar esta consciência se, no meio deste dilúvio diário de profanidades e profanações, não se recolher muitas vezes à sacralidade da interiorização, da sintonização Crística?
Esse homem perdeu a sua razão de ser, abriu falência. É lançado fora, mesmo na vida presente e pisado aos pés. Pode ser que os seus companheiros de profanidade o estimem e respeitem aparentemente; mas, o que eles respeitam é antes o que esse homem tem, não o que ele é; respeitam algo que ele possui, dinheiro, sua posição social, seu prestígio – não respeitam o alguém que ele devia ser, mas não é. Em última análise só se pode respeitar um valor e não uma coisa. Mas o homem que se desvaloriza e coisifica deixou de ser alguém e se tornou apenas algo.
O sal, além de dar sabor aos alimentos, também os preserva da putrefação. Mas quem é putrefato não pode salvar outro da putrefação, da corrupção.
Hoje em dia, quem não anda na moda não é moderno, e, como o homem profano, acima de tudo, quer ser moderno, tem de acompanhar a moda, por mais putrefata que ela seja. A moda, porém, é quase sempre não ter modos, ser escravo da opinião pública, não se guiar pela consciência própria, mas obedecer a convenções alheias. Não ser moderno exige grande firmeza de caráter e independência de espírito.
Hoje em dia, é quase impossível ter consciência própria. A publicidade social e comercial é tão requintadamente sutil e contagiante, que nenhum homem medíocre resiste ao impacto da propaganda; somente uns poucos monólitos conseguem erguer-se, incólumes, do meio do vasto areal da escravidão universal da sociedade.
Para não ser moderno é necessário ser herói.
Para ser alguém é preciso ter coragem de renunciar a algo – e muitas vezes esse algo é quase tudo o que a sociedade preza.
Para poder funcionar como sal da sociedade, para lhe dar sabor e preservá-la da corrupção, é necessário, não raro, parecer anti-social, não ser um passivo refletor da opinião pública, mas sim um ativo diretor dela.
O homem-sal tem de ter a coragem de ser antipático à sociedade – por amor à sociedade, tem de contrariá-la, para salvá-la.
O homem espiritual se guia por princípios – o homem material só é dominado por fins.
O homem fraco é derrotado por fins egoísticos – o homem forte é orientado por princípios espirituais.
Por isto, o homem de princípios não terá fim, é eterno, porque está sempre no princípio da sua vida e carreira.
Os princípios preservam o homem, como o sal.
Os fins corrompem o homem, como se corrompem os alimentos sem sal.
“Vós sois o sal da terra”…

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8 – BEM-AVENTURADOS OS QUE SOFREM PERSEGUIÇÃO POR CAUSA DA JUSTIÇA, PORQUE DELES É O REINO DOS CÉUS

O Mestre amplifica esta bem-aventurança, acrescentando: “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e caluniosamente disserem de vós todo mal, por minha causa; alegrai-vos e exultai, porque grande é a vossa recompensa nos céus”.
Quem lê esta bem-aventurança, e sobretudo o seu acréscimo, do ponto de vista do ego profano, não pode furtar-se à impressão ingrata de que a mensagem do Cristo é visceralmente sadista e escapista. Imagine-se: felizes são os que sofrem perseguição e difamação de toda a espécie porque deles é o Reino dos Céus, aqui e agora, e não apenas no futuro.
Sendo que o Reino dos Céus está dentro do homem, no seu Eu divino consciente e realizado, parece que a auto-realização anda necessariamente incompatível com a realização do ego. Parece que o homem não pode ser espiritualmente bom sem ser ao mesmo tempo mártir e vítima da sua própria espiritualidade. E, para justificar este conceito, vai através de toda a literatura de quase dois mil anos a idéia de que Jesus foi o rei dos sofredores, o homem das dores, o mártir por excelência. Fomos educados na idéia de que não se pode ser feliz no Aquém sem ser infeliz no Além, ou vice-versa; que os que são infelizes na terra serão necessariamente felizes no Céu.
É verdade que Jesus foi o rei dos sofredores?
Os seus sofrimentos, em 33 anos de existência terrestre, não abrangem quinze horas, desde a quinta-feira à noite, até a sexta-feira pelas três horas da tarde. Os seus sofrimentos físicos talvez não cheguem a três horas, desde o meio-dia até às três horas da sexta-feira, quando expirou. E todos estes sofrimentos foram livremente aceitos, antecipadamente: “Não devia então o Cristo sofrer tudo isto para assim entrar em sua glória?”
Será que já existiu sobre a face da terra um homem que vivesse 33 anos e sofresse tão pouco?
Mas… os sofrimentos morais e psíquicos de Jesus? A incompreensão do povo e dos seus próprios discípulos? A traição de Judas, a negação de Pedro e o abandono dos seus discípulos?
E não sabia o Cristo de tudo isto na encarnação? Não sabia ele que a encarnação era um mergulho nas trevas espessas do mundo material e hominal?
Quando se sofre livremente, por amor a um grande ideal, o sofrimento perde o seu mais acervo amargor; realmente amargo é somente o sofrimento quando sofrido estupidamente, à toa, sem se saber porque, sem nenhuma finalidade superior.
Todo sofrimento, físico ou moral, realizado à luz de uma grande missão, de um ideal sublime, é uma doce amargura, é um “jugo suave” e um “peso leve”.
Foi nesse sentido que Jesus proclamou felizes os que sofrem perseguição por causa da verdade, precisamente porque deles é o Reino dos Céus que está no interior de todo homem. Não diz “será”, mas “é” o Reino dos Céus. O Reino dos Céus não jaz em nenhuma região distante e futura; o Reino dos Céus não é objeto de uma aquisição após morte. O Reino dos Céus é a íntima natureza de todo homem. A presença deste Reino é um fato, uma realidade no interior de cada homem. A diferença não está em que o Reino de Deus esteja presente em alguns, e ausente de outros – a diferença está unicamente no fato de terem alguns a consciência da presença desse Reino, e outros viverem na inconsciência dessa presença. para alguns homens o Reino de Deus é ainda “uma luz debaixo do alqueire”, para outros já é “uma luz no alto do candelabro” da sua consciência espiritual.
Os que ainda não conscientizaram a presença da luz, do Reino dentro de si, sofrem como se essa luz, esse Reino, estivessem ausentes, como se tudo fosse treva espessa.
A conscientização da presença da luz do Reino depende da reta ou falsa função do livre arbítrio de cada um.
É experiência geral que o ego, quando está repleto de gozos e satisfações, dificilmente se interessa pelas coisas do seu Eu espiritual. O desejo de algo espiritual só desperta no homem quando lhe faltam os objetos do ego. O homem-ego só conhece os objetivos da vida, mas ignora a sua razão de ser. Enquanto os objetivos da vida estão presentes em abundância, o homem profano procura a sua satisfação e felicidade nesses objetos, e dificilmente descobre a sua razão de ser, que tem que ver com o seu sujeito profundo, com o seu Eu interno.
A parábola dos convidados à festa nupcial, do Evangelho, é uma ilustração típica dessa atitude: os homens profanos, convidados em primeiro lugar,não compareceram à festa nupcial do Reino de Deus, porque um comprou um sítio e tinha de vê-lo e cultivá-lo; outro comprou cinco juntas de bois e tinha de experimentá-los; o terceiro havia casado e tinha festa e baile em casa. Todos eles, de tão satisfeitos com os objetos da vida, não sentiam a fome de uma razão de ser superior. Os seus teres e fazeres eclipsaram totalmente o seu ser. Não atingiram a plenitude espiritual por causa das suas pseudo-plenitudes materiais, que eram as suas grandes vacuidades.
Então, convidou o senhor da festa nupcial, os pobres, os aleijados, os surdos, todos os que não estavam saturados com os objetivos da vida, e estes compreenderam a razão de ser da sua existência superior, e compareceram à solenidade do Reino de Deus, pelo autoconhecimento e pela auto-realização.
A transição da ego-consciência para a Cristo-consciência, implica, quase sempre, em sofrimento, em “caminho estreito e porta apertada”; mas, uma vez conseguida a Cristo-consciência, a vida do homem espiritual pode tornar-se um “jugo suave” e um “peso leve”.
Para os realizandos, a espiritualidade é um sofrimento.
Para os realizados, é um gozo.
A infeliz satisfação do profano deve passar pela feliz insatisfação do místico – a fim de poder, um dia, culminar na feliz satisfação do homem cósmico.
Todos os Mestres da vida espiritual falam a homens profanos, espiritualmente analfabetos, como é o grosso da humanidade. E por isto insistem na necessidade da renúncia, do sacrifício, da abnegação.
Insistem na transição do homem profano para o homem místico – e pouco se referem ao homem cósmico. A pedagogia tem de preceder à metafísica. Se os Mestres mostrassem a compatibilidade da felicidade espiritual com os gozos externos, que aconteceria? A imensa maioria dos profanos se julgaria pertencente à elite dos homens cósmicos; substituiriam a libertação real por uma pseudo libertação ilusória, gozando os prazeres da vida, na ilusão de serem homens cósmicos, de terem já superado o doloroso período ascético-místico.
O profano, sobretudo, quando ignorante, e ainda por cima arrogante, facilmente se convence de que o seu primitivismo espiritual é perfeição e que renúncia, sacrifício, ascese são estágios superados.
O mais difícil dos doentes é aquele que considera como saúde a sua própria enfermidade. Os grandes Mestres sabiam disto, e por isto insistem grandemente na renúncia e no sacrifício: “Quem não renunciar a tudo que tem não pode ser meu discípulo”. Só depois de renunciar corajosamente a tudo, é que o homem pode possuir tudo sem ser possuído de nada. Mas estes poucos – onde estão?
Albert Schweitzer escreve: “O cristianismo é uma afirmação do mundo que passou pela negação do mundo”.
E Mahatma Gandhi diz: “Homem, renuncia a tudo, entrega tudo a Deus – e depois recebe-o de volta, purificado, das mãos de Deus”.
O homem-ego é incrivelmente insincero consigo mesmo; a expressão bíblica “omnis homo mendax” (todo homem é mentiroso) é pura verdade: o homem tem a inestirpável mania de se iludir a si mesmo, de se julgar auto-realizado, quando nem começou ainda o abc da sua iniciação. Em vez de soletrar o abc e a tabuada na escola primária, procura matricular-se na universidade do espírito.
Em face desse pendor de insinceridade, de mendacidade, de autodecepção, devem os grandes Mestres falar como falam, chamar felizes os que sofrem perseguição e difamação por causa da verdade. Só assim podem eles levar os analfabetos do espírito a aprenderem os rudimentos da espiritualidade.
Ninguém pode passar do primeiro ao terceiro, sem passar pelo segundo. Ninguém pode passar ao mundo da consciência Cristo-cósmica, sem ter passado pelo mundo da mística ascética.
Segundo todos os Mestres, o caminho ascensional passa pelos estágios da purificação, da iluminação e da união. Se o profano impuro não se purificar das suas impurezas, não pode ser iluminado pela mística, nem unido pela consciência cósmica.
É esta a lógica retilínea da libertação pela verdade.
É imensa a legião dos profanos que se julgam cósmicos – porque não passaram ainda pelo noviciado da mística.
Quanto mais severamente o homem passar por esse noviciado místico-ascético, tanto mais esperança tem ele de entrar um dia no mundo glorioso da consciência cósmica do Cristo.
“Bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, porque deles é o Reino dos Céus”.

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7 – BEM-AVENTURADOS OS PACIFICADORES, PORQUE ELES SERÃO CHAMADOS FILHOS DE DEUS

Paz…
Há quase dois mil anos que os arautos de Deus cantaram sobre o estábulo de Belém: “Paz na terra aos homens de boa vontade”.
E alguns decênios depois, em vésperas de sua morte, disse o Nazareno aos seus discípulos: “Eu vos dou a paz, eu vos deixo a minha paz; não a dou como o mundo a dá, para que minha alegria seja em vós, seja perfeita a vossa alegria, e nunca ninguém tire de vós a vossa alegria”.
Depois da sua ressurreição, Jesus saúda os seus discípulos, invariavelmente, com as palavras: “Salem aleikum”, a paz seja convosco.
Entretanto, a história do cristianismo, que nasceu sob o signo da paz, é uma história de guerras e de armistícios, mas não de paz. O armistício é uma pseudo-paz, uma trégua entre duas guerras.
O nosso ego-humano nada sabe de paz, só conhece a guerra – a guerra quente nos campos de batalha, ou então a guerra fria do armistício, nos parlamentos. Por isto dizia o Mestre: “Eu vos dou a paz, mas não a dou como o mundo a dá”, em forma precária de pseudo-paz ou armistício.
Aliás, quando o ego nasceu, como refere o Gênesis, já nasceu beligerante, lutando para os dois lados, guerreando o mundo de Deus e o Deus do mundo: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre teu descendente e o descendente dela (o Cristo); ele te esmagará a cabeça e tu armarás cilada ao calcanhar dele!”
Esta é a guerra do anticristo contra o Eu crístico.
E também entrou em guerra contra o mundo natural: “Comerás o teu pão no suor do teu rosto… num mundo coberto de espinhos e abrolhos”.
E que fez o ego da nossa personalidade até hoje senão combater Deus e a natureza? Nunca a humanidade gozou de um único ano de paz verdadeira.
Bem dizia a Bhagavad Gita: “O ego é o pior inimigo do Eu, mas o Eu é o melhor amigo do ego”.
Para que haja paz entre a personalidade humana do ego e a individualidade crística do Eu, deve o homem elevar-se à altura do Cristo, porque este não pode descer às baixadas do ego.
A paz social, nacional e internacional depende da paz individual. Enquanto o homem não fizer as pazes consigo mesmo, não pode ter paz com os outros. Todo e qualquer tratado de paz no mundo político-social acabará infalivelmente numa guerra quente, nos campos de batalha, ou então numa guerra fria nos parlamentos. As leis cósmicas são de uma lógica retilínea inexorável: nada há no mundo social que antes não tenha havido no mundo individual.
Sempre de novo, através de séculos e milênios, o homem tenta subornar as leis cósmicas, que são a ordem de Deus; sempre de novo tenta fazer o segundo antes do primeiro – e o círculo vicioso continua sem fim.
O homem tem de pacificar-se a si mesmo, antes de poder pacificar os outros.
“Bem-aventurados os pacificadores…”
A tradução habitual diz “pacíficos”. Embora esta palavra seja certa em si, hoje em dia é ela mal compreendida. Pacífico é, para o homem comum, um homem calmo, passivo, mais ou menos inerte.
Mas o termo latino é derivado de “pacem facere”, fazer a paz, bem como a expressão grega “eirene-poiuntes”, deriva de “eirene” (paz) e “poieo” (fazer). O sentido desta palavra é, sobretudo, ativo e dinâmico, e não estaticamente passivo. Feliz é o homem que faz ou realiza a paz, e não apenas vive ou vegeta pacificamente.
A paz não representa um estado de passividade e inércia, mas é uma conquista, uma vitória, altamente dinâmica. Pode o homem viver numa espécie de paz comparável à dos cemitérios, onde ninguém briga com os outros, mas todos estão em paz, por falta devida e vitalidade. Mas não é esta paz desejável; a paz verdadeira é uma bonança que segue a uma grande tempestade, é a tranqüilidade final da sapiência, depois duma longa tormenta de dúvidas e incertezas.
Durante a última guerra mundial apareceu numa revista uma ilustração satírica: um enorme campo cheio de cruzes, uma ao lado da outra, um cemitério onde tinham sido sepultados milhares de soldados mortos na guerra – alemães, franceses, russos, ingleses, italianos, etc., e a legenda dizia: “finalmente a paz mundial”.
Esses beligerantes tinham conseguido a paz, graças à perda da vida. A verdadeira paz, porém, não é uma paz por ausência de vida, mas sim uma paz pela presença e plenitude da vida, por uma vivência tão plena e exuberante que todas as desarmonias culminaram em perfeita harmonia.
Por isso dizia o Mestre: “Eu vim para que os homens tenham a vida, e a tenham em maior abundância”.
O homem-ego não tem paz, porque não está na plenitude da vida, vive apenas uma semi-vida, quiçá uma pseudo-vida, e por isto tem de brigar uns com os outros, porque está em discórdia consigo mesmo.
A solução não está numa diminuição de vida, mas sim numa intensificação de vida. Se todos os homens tivessem a plenitude da vida, a consciência do seu Eu divino, haveria paz individual e paz universal.
A verdadeira paz é a coisa mais dinâmica e realizadora do mundo; o homem autopacificador e autopacificado é o campeão das grandes realizações; ele sabe que paz é um poder silencioso, uma potência irresistível, que faz lembrar o curso silencioso dos astros pelas vias inexploradas do cosmos, ou a irresistível dinâmica da natureza, que tudo vence sem o menor ruído.
A verdadeira paz tem afinidade com o mundo da metafísica, e não da física, com o mundo da invisível realidade, e não das facticidades visíveis.
A principal tarefa do homem, aqui na terra, é estabelecer o grande tratado de paz dentro de si mesmo.
Toda a falta de paz que desgraça a pobre humanidade provém unicamente da falta de equilíbrio e harmonia entre o ego da humana personalidade e o Eu divino da sua alma. Aqui no Ocidente, é regra geral que o ego humano – material, mental e emocional – se preocupe com a vida humana sem se importar com seu destino divino. “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se sofrer prejuízo em sua própria alma?” – estas palavras do Cristo enunciam, em forma lapidar, toda a tragédia da vida humana: o homem corre freneticamente atrás dos bens deste mundo, sem se importar com o bem-estar de sua alma. Mas essa diversidade dispersiva sem a devida unidade concentrativa, tende a acabar fatalmente num caos centrífugo, que, na medicina, se chama “frustração”, que quer dizer despedaçamento ou esfacelo.
É precisamente este o programa do anti-Cristo, no episódio da tentação: “Eu te darei todos os reinos deste mundo e sua glória – prostra-te em terra e adora-me”.
O homem ocidental é um homem visceralmente centrífugo, dispersivo, fragmentado, frustrado, e por isto não tem paz, que é o apanágio da harmonia, ou seja, da unidade na diversidade.
Alguns orientais caíram no extremo oposto, abolindo a diversidade a favor da unidade, substituindo a atividade do ego pela passividade do Eu; em vez de realizarem uma mística sadia, sucumbiram a um misticismo doentio.
O homem integral, porém, não é um profano dispersivo, nem apenas um místico concentrativo.
O homem cósmico estabeleceu dentro de si o grande tratado de paz, a harmonia, o equilíbrio entre o seu centro divino e as suas periferias humanas. O homem integral é cósmico ou univérsico, porque é governado pelas mesmas leis que regem o mundo sideral, cuja atração centrípeta é perfeitamente equilibrada pela repulsão centrífuga.
A harmonia cósmica do homem, que se chama paz, é, pois, o resultado da realização do homem bipolar.
O homem que se pacificou a si mesmo por meio dessa lei de equilíbrio, irradia paz e harmonia ao redor de si, na vida doméstica, social, nacional e internacional.
O autopacificador é, mesmo inconscientemente, um alopacificador. Não há necessidade que fale muito em paz, nem que faça congressos ou comícios pró-paz – basta que ele mesmo seja um centro e uma fonte da verdadeira paz – e o mundo será pacificado por esse centro de paz dinâmica.
Paz, já o dissemos, não quer dizer passividade, inércia, inatividade. A verdadeira paz é essencialmente dinâmica, ativa, realizadora, transbordando para todos os lados, assim como o globo solar irradia luz,calor, vida e beleza por todas as latitudes e longitudes do Universo.
Os verdadeiros pacificados e pacificadores, diz o Mestre, são chamados “filhos de Deus”. Sendo Deus a infinita e a eterna paz do Universo, que outra coisa poderiam os filhos de Deus ser senão esta mesma paz?
Basta que exista algures um centro de paz dinâmica para que o mundo tenha paz.
Mas esse centro de paz dinâmica supõe autoconhecimento e auto-realização. Enquanto o homem não se conhece a si mesmo, confundindo o seu ego-humano com o seu Eu divino, não há conhecimento da verdade sobre si mesmo, e por isto não há libertação pela verdade. O primeiro passo para a realização do grande tratado de paz é a resposta à eterna pergunta: “Que sou eu?”
A resposta foi dada por todos os grandes Mestres da humanidade, sobretudo pelo Cristo, quando identificou o centro do homem com o Pai, com a Luz, com o Reino de Deus, com o Tesouro Oculto, com a Pérola Preciosa, com uma Fonte de águas vivas.
Quando o homem realiza em si esse Reino de Deus, verificará, talvez com grande surpresa, que não perdeu as coisas do seu ego humano, mas as possui mais firme e autenticamente. Quem possui o mais possui o menos – mas quem procura possuir este à custa daquele perde tanto o menos como o mais. Quem quer salvar o seu ego-humano, sacrificando o Eu divino, perderá tudo; mas quem está disposto a renunciar ao ego-humano a fim de possuir o Eu divino, verificará que, além de salvar este, salvou também aquele, uma vez que a redenção do TODO implica na redenção da parte. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua harmonia – e todas as outras coisas vos serão dadas de acréscimo”.
Em véspera de sua morte disse o Mestre aos seus discípulos: “Eu vos dou a paz, mas não a dou como o mundo a dá”. Promete-lhes uma paz com alegria. Uma paz passiva seria uma paz com tristeza, uma vez que a atividade é alegria, e a passividade é tristeza. Esta paz que o Mestre tinha em si, mesmo em face da morte, é a paz que ele quer ver em seus discípulos, não pode ser destruída nem pela perspectiva da morte, nem pela traição, negação e fuga de seus discípulos. Esta paz, que o mundo não pode dar e que o mundo não pode tirar, é totalmente inatingível pelas circunstâncias externas. Podem, sim, as circunstâncias adversas causar sofrimento e tristezas, como aconteceu até ao Nazareno, mas não podem destruir a paz e felicidade da alma. As tempestades revolvem a superfície do mar, mas na sua profundeza continua absoluta quietação e tranqüilidade. A soberania da substância divina do homem não é atingida pelas tiranias das circunstâncias humanas. A paz de dentro persiste no meio de todas as guerras de fora.
É a grande declaração da independência espiritual no meio de todas as escravidões materiais e sociais.
A verdadeira paz dos filhos de Deus é silenciosamente dinâmica, age como se não agisse, realiza grandes coisas sem arrombar portas e sem esmagar ninguém; não atua com o estampido da explosão de uma bomba, mas com a taciturna potência com que o sol e as estrelas traçam as suas silenciosas órbitas pelo espaço infinito. A paz é silenciosamente poderosa, anonimamente irresistível, move os maiores pesos com leveza, faz com facilidade as coisas mais difíceis, abrange com suavidade todo o Universo de uma à outra extremidade, “não se houve o seu clamor nas ruas, não quebra a cana fendida, nem apaga a mecha ainda fumegante”.
O homem que encontrou a paz dentro de si mesmo, não é apressado, nervoso, agitado, porque em qualquer trecho da sua jornada, está sempre no termo e na meta de todas as suas viagens. O seu centro, como o de Deus, está em toda a parte, e a sua querência está em sua própria consciência; a meta de todos os seus métodos coincide com o Infinito, como a geometria diz das linhas paralelas.
A paz do homem autopacificado pela verdade sobre si mesmo exala uma indefinível serenidade.
Todos se sentem bem e felizes na presença desse homem que conquistou a paz depois de grandes lutas consigo mesmo. A sua serenidade dinâmica envolve e permeia todo o ambiente, como um fluido magnético, como uma aura suavemente poderosa, como um banho de luz e força. E todas as almas receptivas se sentem tão bem nesse Tabor de transfiguração que estão com vontade de dizer: Mestre, que bom que é estarmos aqui… vamos aqui armar as nossas tendas, porque aqui moram os filhos de Deus e aqui impera o Reino dos Céus…
Um único homem realmente pacificador e pacificado dentro de si mesmo, vale mais para a paz universal do mundo do que todos os pretensos fazedores de paz que não realizaram a paz dentro de si mesmos.
“Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus”.

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6 – BEM-AVENTURADOS OS PUROS DE CORAÇÃO, PORQUE ELES VERÃO A DEUS

Os pobres pelo espírito são os possuidores do Reino dos Céus.
Os puros de coração são os videntes do próprio Deus.
Os possuidores do Reino dos Céus são os que, interiormente, pela atitude do seu espírito, se despossuíram dos reinos da terra, e assim abriram o caminho para o Reino dos Céus.
Os videntes de Deus são os que se libertaram, não só dos bens materiais, mas também dos bens mentais e emocionais, de todos os pensamentos e desejos incompatíveis com o mundo divino.
Quem é puro de coração é também pobre pelo espírito; quem se libertou de pensamentos e desejos egoístas, também se liberta de posses egoístas.
Pureza, na linguagem do Evangelho, é sempre desapego de tudo que não seja compatível com o mundo do espírito; não se refere apenas a desordens sexuais, que são apenas um pequeno setor dessa vastíssima impureza do ego.
Nenhum objeto em si pode escravizar o homem, quando o homem se mantém, mental e emocionalmente, livre pela atitude interior; o que escraviza não é a posse interna, e sim o apego interno. Pode um milionário estar livre daquilo que possui – e pode um pobre mendigo não estar livre daquilo que não possui, pois deseja desordenadamente possuir.
Liberdade e escravidão não são, em última análise, uma questão de ter ou não ter, mas sim um problema de não ser possuído por aquilo que se possui, ou mesmo não possui.
A pobreza pelo espírito supõe necessariamente a pureza do coração. Nenhum ato em si, nenhum fato, nenhum objeto escraviza o homem, se ele mantém no seu interior uma atitude de desapego e liberdade.
Não existem objetos moralmente bons ou maus; todos os objetos são moralmente neutros, nem bons nem maus. Somente o sujeito é que pode ser bom ou mau, pela atitude correta ou incorreta do seu livre arbítrio.
A morte priva o homem do seu corpo material – mas não o priva necessariamente do seu materialismo, que é uma atitude mental e emocional. Possivelmente, existem mais materialistas no mundo imaterial do que no mundo material. A morte não nos priva do materialismo, que é uma atitude mental do ego, e pode ser mantida indefinidamente; priva-nos apenas da matéria. O nosso livre arbítrio é responsável pelo nosso materialismo ou não materialismo, seja antes, seja depois da morte.
Quem, durante a vida terrestre, em corpo material, não superou o seu materialismo, não tem a garantia de superá-lo após a morte, no mundo imaterial.
A morte não nos faz o que a vida não nos fez.
Por isto, é importantíssimo que o homem se liberte do seu materialismo, aqui e agora. Se o homem sem corpo material, porém materialista, não se libertar desse materialismo e só idolatrar a vida da matéria, possivelmente conseguirá voltar à matéria, mas nem por isto superou o seu materialismo. Pelo contrário, reforçou o materialismo mental pela rematerialização física. E se, nessa rematerialização física, não se desmaterializar mentalmente pela espiritualização do seu livre arbítrio, poderá repetir quantas vezes quiser esse regresso à matéria sem progredir um passo, num eterno círculo vicioso.
“O homem é aquilo que ele pensa no seu coração” – estas palavras da sagrada escritura são uma grande verdade. O pensamento do homem é a locomotiva da sua vida; se os pensamentos seguem por trilhos errados, todos os vagões da vida humana seguem o mesmo caminho. E isto, sobretudo, quando são pensamentos do coração, isto é, pensamentos onerados de afetividade. Pensar é luz, querer é força; pensar afetivamente é uma luz poderosa, é um poder luminoso.
A pureza do coração visa, de preferência, ao mundo invisível dos pensamentos e dos afetos, que, mais do que outro fator qualquer, libertam ou escravizam o homem, consoante a natureza positiva ou negativa dessa atitude mental.
O que modifica o homem não são as circunstâncias, como o nascer, o viver ou o morrer; mas sim a substância do seu ser.
Nascemos, mercê de nossos pais.
Vivemos, graças aos alimentos que assimilamos.
Morreremos em conseqüência de um acidente, de uma doença ou da velhice.
Nada disto é obra nossa, da nossa substância, é obra das circunstâncias alheias ao nosso verdadeiro ser. Nosso é somente a substância do nosso ser, que se focaliza no livre arbítrio. O homem é, aqui na terra, o único ser que se pode fazer melhor ou pior do que Deus o fez. Disse alguém que Deus creou o homem menos possível, para que o homem se possa crear o mais possível. De Deus recebeu o homem a sua creaturidade creativa, e, de acordo com sua creatividade, o homem se pode tornar melhor ou pior do que Deus o fez.
O livre arbítrio é a chave do céu ou do inferno, da felicidade ou da infelicidade, da vida eterna ou da morte eterna.
Quando o livre arbítrio não está em sintonia como infinito, o homem está, por assim dizer, num ambiente opaco que não permite ver a Deus; mas, quando o homem sintoniza a sua consciência individual com a consciência universal, a sua visão se torna diáfana e transparente; ele vê Deus, não somente em Deus, mas também em todas as obras de Deus. Para ele, o mundo mineral, vegetal e animal deixou de ser algo espesso e opaco; todos os invólucros se tornaram como que transparentes e cristalinos, que lhe permitem enxergar o seu conteúdo, a sua essência interna através das existências externas. Se Deus não estivesse presente em todas as coisas – ou melhor, se Deus não fosse a íntima essência de todas as coisas – o homem só poderia imaginar a presença de Deus, só poderia sugestionar-se ilusoriamente como se Deus estivesse presente. Mas, como a onipresença de Deus é uma realidade ontológica e metafísica; como não há nada onde Deus não esteja presente, o homem, em toda a plenitude da verdade, pode ver Deus em tudo, sem nenhuma necessidade de recorrer a sugestões e camuflagens artificiais. Ver o Deus onipresente, presente em qualquer creatura – em átomos e astros, em pedras e plantas, em animais e hominais – isto é iniciar o Reino de Deus aqui na Terra.
A pureza do coração produz, pois, uma espécie de clarividência, digamos, uma teo-vidência.
Aliás, todo o progresso do mundo do espírito consiste, sempre e invariavelmente, num processo de remoção de obstáculos. A realidade espiritual nunca está ausente; nunca o homem necessita de tornar presente o que está ausente. O que o homem necessita fazer é unicamente ver o que está imperceptivelmente presente; conscientizar o que está realmente presente, mas de que o homem era inconsciente.
Quando a vidraça de uma janela está coberta de fuligem ou outra substância impenetrável, e o sol meridiano brilha do outro lado e eu estou deste lado da vidraça, o sol presente em si está ausente de mim. É invariavelmente isto que acontece ao homem profano, quando não percebe Deus, o espírito, a Realidade eterna, objetivamente presentes, mas subjetivamente ausentes.
Nos seus Solilóquios Santo Agostinho pergunta a Deus: “Onde estavas tu quando eu vivia nos meus pecados?” E Deus lhe responde: “Eu estava no meio do teu coração; estava sempre presente a ti, mas tu estavas ausente de mim”. Ao que Agostinho replica: “Como podia eu estar ausente de ti se tu estavas presente a mim? Presença não supõe dois?” E Deus lhe responde: “Eu estava sempre presente a ti, porque sou onipresente a todas as coisas; mas tu fazias de conta que eu estava ausente, para poderes viver nos teus pecados; e esta suposta ausência minha tu chamavas a minha ausência”.
Nenhum homem pecador gosta de admitir a presença de Deus, assim como as trevas não gostam da presença da luz. E o homem para justificar a sua atitude antidivina, recorre a toda a espécie de camuflagens e escamoteações, para se convencer, ou pelo menos persuadir, de que Deus não existe.
Todo o ateísmo metafísico é uma conseqüência do ateísmo moral. Somente o homem que enxerga alguma vantagem subjetiva na idéia da ausência de Deus está inclinado a negar a existência objetiva dele. O sistema da nossa filosofia, disse alguém, é quase sempre o produto do nosso modo de viver. Nenhum homem eticamente bom está em perigo de professar ateísmo.
Os puros de coração verão a Deus, porque a pureza interior é uma transparência espiritual.
Os romanos chamavam o Universo “mundus” que quer dizer, puro.
O mundo de Deus é sempre puro, inconscientemente puro. Somente o mundo do homem pode ser conscientemente puro ou conscientemente impuro. Quando o homem, pelo uso correto do seu livre arbítrio, crea em si um mundo puro, faz ele coincidir a sua pureza consciente com a pureza inconsciente do cosmos – e é então que ele descobre, pela primeira vez, que o mundo, que é “mundus” (puro), é também um “kosmos”, isto é um mundo “belo”, como os gregos chamavam o mundo.
Para o puro de coração, a pureza e a beleza de Deus transparecem através de todos os mundos de Deus.
A diafania da alma torna diáfanos todos os corpos opacos.

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