O PARADIGMA DO EMPREGO (DeRose)

O PARADIGMA DO EMPREGO
DeRose

Que época rica em almas inspiradas! Alexandre Dumas, Victor Hugo, George Sand, Honoré de Balzac, Lizst… Esses e tantos outros, todos juntos numa só época e num só lugar!
Balzac já havia escrito uma carrada de livros, era o mais lido em Paris e suas obras um sucesso pelo mundo afora. A essa altura sua mãe lhe disse: “Honoré, você não nasceu para escrever. Maldita hora em que enfiou essa idéia na cabeça. Você deveria ter um emprego regular e receber um salário, ao invés de viver cheio de dívidas e ser insultado nos jornais pelos críticos que o ridicularizam com suas caricaturas!” Até a Igreja colocou o nome de Balzac na lista negra, considerando seus livros perniciosos. Balzac, o herege, o maldito.
Ah! Se Balzac tivesse ouvido sua mãe… Ah! Se eu tivesse ouvido a minha mãe… Hoje a literatura não teria La Comédie Humaine e eu seria um empregado numa empresa qualquer. Não teria escrito mais de vinte livros, não teria viajado o mundo todo tantas vezes, não teria mudado para melhor a vida de tanta gente. Teria me limitado a trabalhar para viver e viver para trabalhar como as legiões de empregados infelizes, sem motivação, que viveram e morreram sem nunca saber a que vieram ao mundo. Nesta idade, provavelmente, eu estaria velho, pobre e doente, como em geral estão os empregados nessa fase da vida, ansiando por uma aposentadoria que, longe de ser libertadora, constituiria o prenúncio do fim.
Mas, se a instituição do emprego é nociva, por que nossos pais nos aconselham a sermos empregados? Pior: eles nos doutrinam, pressionam e, muitas vezes, obrigam a esse destino desafortunado e sem perspectivas.
Conscientize-se desta realidade humilhante. Um amigo pergunta: “O que o seu filho faz?” E o pai tem que responder: “Ele é um empregado.” Numa situação assim embaraçosa, é normal que esse genitor justifique: “Mas ele está muito bem. É uma carreira de futuro. Uma grande empresa.” (Com sorte e se trabalhar direito, dentro de vinte anos ele poderá estar ganhando bem, se não for despedido antes.)
Quando escuto isso sinto como se o pai de um escravo no Império Romano estivesse respondendo: “Meu filho é escravo. Mas ele está muito bem. Trabalha para um rico senhor, muito conceituado.”
E se o filho ou filha encontra um caminho melhor, instala-se em casa um clima de tragédia e tortura psicológica. Mas os pais não querem justamente o bem dos seus filhos?
Querem. Contudo, são condicionados pelo Sistema e acham honestamente que o melhor é ser empregado.
PRIMEIRO PARADIGMA: O SISTEMA DE ESCRAVAGISMO
Os historiadores estimam que nos últimos 50.000 anos, desde o período pré-histórico até o final do século XIX, o escravagismo era um princípio aceito e praticado por quase todos os povos. Pode-se declarar, então, que a humanidade sempre explorou a escravatura e que a supressão dela no século XX foi um pequeno espasmo, um soluço na história laboral. Era considerada uma prática natural, pois, se não fossem os escravos, quem construiria as grandes obras e quem trabalharia nas residências? O trabalho escravo parecia ter todas as vantagens e sempre contou com o beneplácito da religião. Mesmo pessoas tidas como bondosas e inteligentes não viam nada demais em ter escravos.
SEGUNDO PARADIGMA: A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
Num dado momento, ocorreu um espasmo de transição reforçado, em grande parte, pela revolução industrial. A maior parte das nações e todos os intelectuais, repentinamente, despertaram da sua letargia e declararam-se contra a escravidão. A nova onda era o emprego! O que eles não confessaram – talvez nem se tenham dado conta – é que a legião de empregados era apenas uma leve adaptação do sistema de escravagismo. Ninguém quis reconhecer que a instituição da mão de obra descartável beneficiava a todos, menos aos empregados que eram explorados para que o Sistema se mantivesse em movimento. Sem a massa anônima de empregados, as indústrias não funcionariam; o comércio entraria em colapso; e os serviços, quem os faria? Portanto, o melhor sempre foi usar um tapa-olho e enxergar só a metade que convinha à sociedade. Nessa ótica, os empregados são como os soldados de um exército. Os generais sabem que os soldados estão ali para ser sacrificados. Antes de uma batalha são avaliadas as expectativas de baixas: 30%, 50%, 70% – mas a batalha precisa ser ganha. Para a instituição militar, se o comandante tivesse pena de enviar seus comandados para a carnificina, estaria subvertendo o Sistema e seria, ele próprio, sacrificado. Na instituição do emprego é a mesma coisa. Os empregados ganham mal, são humilhados, contraem doenças laborais e vivem na corda bamba, já que a qualquer momento podem ser demitidos. E o serão, indiscutivelmente. Todo empregado já esteve desempregado e sabe que o estará outras vezes. Então, por que cargas d’água nossos pais nos empurram para esse destino impiedoso? Porque toda a sociedade tem que ser condicionada, mediante uma verdadeira lavagem cerebral sistemática, a considerar que a única opção é ser empregado.
É a mesma coisa com o militarismo. É melhor achar bonito um batalhão marchando ao som de hinos marciais, com seus uniformes e armas viris; é melhor louvar o heroísmo e condecorar os mortos. Porquanto, se questionássemos isso, o que poríamos no lugar? Como garantiríamos a soberania nacional? Como defenderíamos nossos lares?
Assim, mandamos nossos filhos para o sacrifício do emprego, um verdadeiro holocausto, achando que é para o bem deles. Não é. É para o bem da sociedade, que se nutre das vidas dilaceradas de tantos jovens que são obrigados a humilhar-se por um salário ofensivo, em um emprego sem segurança. Mas, se não tem segurança, por que nossos pais aplicam o chavão “a segurança de um emprego”?
É sabido que as empresas demitem. É sabido que se você for demitido com mais de trinta anos de idade será difícil conseguir outra colocação. Com mais de trinta e cinco será quase impossível. Conheço profissionais capacitados, com vários diplomas, que ficaram desempregados por vários anos. Por que ocorre isso? Primeiro, porque o Sistema educa as pessoas para ser empregadas como ideal de vida. Os cursos técnicos e as faculdades todos os anos despejam milhões recém-formados no mercado de trabalho. Isso cria uma oferta maior que a procura, o que desvaloriza o profissional e o obriga a aceitar condições indignas. Segundo, porque um recém-formado tem mais entusiasmo, dedica-se mais, exige menos regalias e aceita um salário mais modesto. Tudo isso, porque ele é jovem, cheio de esperanças, está ali para vencer e quer tomar o lugar dos mais antigos. Como vantagem adicional, tendo sido formado mais recentemente, deve estar mais atualizado. Quem você acha que o empregador vai preferir? O veterano que tem quase dez anos de casa, está mais velho, mais acomodado, já tem família, precisa ganhar mais, exige regalias e não aceita certas tarefas nem hora extra. Quem você acha que o empregador vai preferir? Isso mesmo. Qualquer um escolheria o mais novo. A tão propalada segurança do emprego é uma balela.
TERCEIRO PARADIGMA: A OBSOLESCÊNCIA DA RELAÇÃO PATRÃO/EMPREGADO
Em pleno século XXI, podemos afirmar sem margem de erro que o conceito de emprego e a relação patrão/empregado estão obsoletos. Ainda vão durar bastante, pois a mudança de paradigma demora muito para se processar. Contudo, hoje já existem plenas condições de sucesso para os jovens que optarem por carreiras não convencionais. Aliás, é onde se encontram as maiores e melhores oportunidades.
Fazer faculdade é importante, mas só para quem quer ser empregado.
Acontece que toda a sociedade está estruturada para produzir um contingente humano que constitua força de trabalho. Por isso, desde pequenos sempre escutamos: “Você tem que estudar para conseguir um bom emprego.” Tudo gira em torno disso. Emprego para o homem e casamento para a mulher. Até parece que estamos escrevendo no início do século passado! No entanto, as coisas continuam assim. É como os cadarços dos sapatos. Há mais de meio século, quando eu ainda era criança, lançaram os primeiros calçados sem cordão. Eram os sapatos de fivela. Tempos depois introduziram o elástico. Depois, o velcro. Depois, o zíper. E até hoje a maior parte dos sapatos continua usando os absurdamente unpractisch cadarços que dão trabalho para calçar, para descalçar e desamarram-se o tempo todo, fazendo crianças e adultos tropeçar e cair. Por que continuam usando uma coisa dessas, trabalhosa, sem praticidade e perigosa, ao invés de substituí-la por alguma das muitas alternativas mais modernas? A explicação é que o humanóide demora a incorporar as mudanças.
Com a universidade é a mesma coisa. Antigamente, poucos tinham o privilégio de estudar. O diploma era cobiçado. Os tempos mudaram, não obstante, ainda hoje é assim, especialmente para aqueles que não puderam estudar na época em que ter diploma era chique. Naquela época era um diferencial. Hoje todo o mundo tem diploma. E ele não vale mais nada. Foi banalizado. Quem cursa uma faculdade “para conseguir um bom emprego” vai ficar desempregado se não fizer uma pós-graduação no exterior, mestrado, doutorado, especializações, etc. Isso custa caro. Custa tempo. Anos verdes de vida, anos preciosos de início de carreira na juventude. Quando o brilhante e esforçado estudante consegue ingressar no mercado de trabalho terá perdido tanto tempo que jamais aprenderá a ganhar dinheiro, como o aprenderam aqueles que, sem diploma algum, começaram a trabalhar em tenra idade.
Estaríamos pregando que os jovens deixassem de estudar? De forma alguma. Mas defendemos o direito de quem quiser estudar para ser empregado numa carreira comum, que o seja; mas, por outro lado, que respeitemos a liberdade de escolha de quem quiser seguir uma carreira nova, criativa, inusitada, que o realize e gratifique mais. Ainda que seja a de saxofonista ou a de instrutor de Yôga!

VIA BLOG CONSCIENCIA “EU SOU!”

A DISCIPLINA DA ADORAÇÃO

“Adorar é vivificar a consciência com a santidade de Deus, suprir a mente com a verdade de Deus, purificar a imaginação com a beleza de Deus, abrir o coração ao amor de Deus, consagrar a vontade ao propósito de Deus.”
(William Temple)
Adorar é experimentar a Realidade, é tocar a Vida. É conhecer, sentir, experimentar o Cristo ressurreto em meio ao ajuntamento da comunidade. É irromper na ou, melhor ainda, ser invadido pela Deus está procurando adoradores. Jesus declarou: “os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai Deus quem procura, atrai, convence. A adoração é a reação humana à iniciativa divina. Em Gênesis, Deus anda pelo jardim, à procura de Adão e Eva. Na crucificação, Jesus atraiu homens e mulheres a si (João 12.32). As Escrituras estão repletas de exemplos do esforço de Deus para iniciar, restaurar e manter a comunhão com seus filhos. Deus é semelhante ao pai do filho perdido que, ao ver seu filho ao longe, disparou em sua direção para dar-lhe as boasvindas.
A adoração é nossa reação à oferta de amor que se origina no coração do Pai. Sua realidade central expressa-se “em espírito e em verdade”. Ela se acende dentro de nós somente quando o Espírito de Deus toca o espírito humano. Formas e ritos não produzem adoração, tampouco produz a descontinuação de formas e rituais. Podemos usar todas as técnicas e métodos adequados, podemos ter a melhor liturgia possível, mas não adoramos ao Senhor enquanto o Espírito não tocar o espírito. As palavras do estribilho: “Meu espírito vem libertar para que a ti eu possa adorar” revelam o fundamento da adoração. Enquanto Deus não tocar e libertar nosso espírito, não conseguiremos entrar nessa esfera. Cantar, orar, louvar – tudo isso pode levar à adoração, mas a adoração é maior que quaisquer dessas coisas. Nosso espírito precisa ser inflamado pelo fogo divino. Em conseqüência disso, não precisamos ficar excessivamente preocupados com a questão da forma correta de adorar. A liturgia sofisticada ou popular, desta ou daquela forma, é um assunto periférico. Somos incentivados a esse raciocínio quando nos damos conta de que nenhuma passagem do Novo Testamento prescreve uma forma específica de adoração. De fato, o que encontramos é uma liberdade inacreditável naqueles que possuem raízes profundas no sistema litúrgico das sinagogas. Eles tinham a realidade. Quando o Espírito toca o espírito, a questão da forma é relegada inteiramente ao segundo plano. Dizer que as formas estão em segundo plano não é afirmar sua irrelevância. Enquanto formos seres humanos finitos, precisaremos das formas. Precisamos ter “odres” que dêem corpo à nossa experiência da adoração. Contudo a forma não deve ser confundida com a adoração: ela só nos conduz à adoração. Em Cristo, temos liberdade para utilizar qualquer forma que intensifique a adoração; se essa forma nos impede de ter experiências com o Cristo vivo, então não é a melhor forma.”
(Richard J. Foster, Via BLOG ICHTUS EDITORIAL)

A MENINA E O MAR

Conta uma lenda que, muito antigamente, no tempo quando nem existia televisão ainda. Quando viajar era de trem e para poucos, e a vida era ganha com muita dificuldade. Era um tempo onde as crianças brincavam de jogar bola de gude nas calçadas de barro, empinar pipa e pique-pega. A vida passava tão lentamente que crescer durava uma eternidade. Telefone e farmácia se escrevia com “ph” e para ligar para uma pessoa, em outra cidade, era preciso pedir à telefonista, que se conhecia pelo nome, para completar a chamada.
Havia uma pequena menina que morava no interior, numa cidadezinha cujo nome, até hoje, nem consta nos mapas. Um lugar no meio do nada, longe de tudo, na verdade, chamar de “cidade” poderia ser considerado um exagero. Estava mais para um pedaço de estrada, com um pequeno conglomerado de casas humildes que eram utilizadas como armazéns, bares e uma pequena pousada para quem passava por ali de viagem. Mas tudo bem. Deixa como está! Vamos chamar de cidade assim mesmo.
Esta menina observava os viajantes chegarem à sua casa e falar sobre os lugares por onde passavam, contavam histórias da cidade grande, mas havia algo que sempre a deixou intrigada. Eles falavam de uma coisa chamada “mar”. Para uma menina acostumada com a poeira da estrada de chão e a sequidão do sertão, onde água, quando tinha, só na torneira ou na bica. Tentar conceber a imagem de um lugar cheio de água que cobria todo o horizonte, até onde os olhos podiam alcançar, era um misto de curiosidade, incredulidade e temor.
Aos poucos, dentro daquele pequeno universo, a pequena menina foi crescendo. Um dia brincar de boneca já não era tão interessante e a vida naquele bucólico vilarejo ficava chata demais com o passar dos dias. Seu único desejo era poder sair daquele lugar para conhecer o tal do mar. Ela sempre ouviu falar sobre o barulho que ele fazia quando quebrava suas ondas nas rochas, de como conseguia engolir embarcações gigantescas e até mesmo o sol todos os dias. Ela ouvia histórias dos tesouros que o mar escondia e dos peixes que poderiam ser maiores do que a sua própria casa. A menina ficava curiosa, tentando imaginar como as pessoas conseguiam atravessar de um país para outro através das suas águas. Era uma imagem grande demais para sua pequena mente alcançar, mas mesmo assim ela se apaixonava cada vez mais por aquele sentimento. Chegava até sonhar com o que poderia ser o mar ou, pelo menos, com o que ela achava que seria o mar.
Seu aniversário de 15 anos se aproximava e ela pediu ao pai para não fazer festa. Queria uma viagem de presente. Naquela época, uma moça fazer 15 anos, era um acontecimento com porte de desfile de feriado nacional com honras militares. Mas ela estava disposta a abrir mão daquele momento tão esperado por sua família, para realizar o grande sonho de sua vida. Conhecer o mar.
O pai não teve outra escolha, a não ser cumprir o desejo da filha. Afinal eles nunca haviam viajado para tão longe juntos, e era justo realizar o único pedido da pequena filha que estava virando moça.
Viagem preparada, passagens compradas no guichê da estação de trem. Teve até bandinha para se despedir da menina no dia do seu aniversário. Era uma longa jornada até chegar no litoral, mas a menina nem prestava atenção nas paisagens que iam aparecendo na janela do trem.
— Pai, você já viu o mar?
Perguntava a menina, tentado tirar o máximo de informações do pai para construir sua própria imagem do mar. E ele tentava descrever como podia, hora rindo, hora impaciente com a quantidade de perguntas sobre o mar.
A viagem levaria uns dois dias, mas ela não se importava, valia o sacrifício para ter o sonho realizado.
Chegando o grande dia, já estavam se aproximando do litoral. A menina eufórica nem quis passar no hotel, foi primeiro para a praia. A primeira lágrima escorreu dos olhos dela. Era lindo o que via, nada do que ela imaginou era tão grande e estonteante como o que ela estava vendo e presenciando naquele momento.
— Pai, eu posso chegar perto dele?
Perguntou a menina, ao pai, sem conseguir segurar as lágrimas misturadas com o sorriso mais radiante que ele já tinha visto nela. Antes que ele respondesse, ela já corria pela areia da praia tirando os sapatos.
Ela só queria chegar perto o suficiente para descobrir se a água era tão salgada e gelada quanto falavam. Ela já começava a sentir a areia molhada na sola dos pés e de repente, a euforia se misturou com um medo que ela nunca havia sentido antes. Todas as histórias que ela já tinha ouvido sobre o mar, até então, começaram a vir à sua mente ao mesmo tempo. A violência do barulho das ondas quebrando na areia a segurou por um momento até que, calmamente, a sobra de água de uma onda avançou pela areia e cobriu seus pés lentamente. Ela levou um susto, quis fugir, mas aqueles poucos segundos se eternizaram e a paralisaram enquanto a água escorria novamente para o mar fazendo cócegas na sola dos pés da menina.
O medo aos poucos se transformou em confiança e a menina tentou chegar mais perto do mar e o mar também se aproximava dela com ondas cada vez mais fortes. Ela teria que escolher entre não provar o mar ou molhar o único vestido que tinha ganho de aniversário. Até que, sem esperar, de repente, uma grande onda a cobriu e a molhou por completo. Pronto, já não havia mais o que escolher, a surpresa da onda a fez se entregar por definitivo àquela nova experiência.
A menina finalmente encontrou o mar e o mar a encontrou também.
Em nossas vidas também é assim: Nos relacionamos com Deus da mesma forma que esta menina se relacionava com o mar. Vivemos na sequidão e expectativa de encontrar um Deus que, às vezes, só conhecemos de ouvir falar. Ouvimos o testemunho de terceiros sobre suas experiências com a regeneração, cura e perdão experimentados em Deus. Nada do que imaginamos pode chegar perto do que Ele realmente é e significa mas, muitas vezes, quando temos a oportunidade de prová-lo e conhecê-lo de fato, temos medo de molhar nossa aparência. Perdemos, então, a oportunidade de vivenciar este poder de Deus em nossas vidas. Para experimentá-Lo precisamos nos envolver profundamente.
Conhecer Deus por inteiro é a maior experiência que alguém pode desejar e alcançar em toda a sua vida. Nada se compara ao seu poder e glória, nenhum oceano consegue ser maior ou mais profundo que o amor e perdão nEle encontrados para cada um de nós.
Buscá-lo, pode ser uma longa jornada, mas quando nos encontramos com a plenitude de Sua Glória não conseguimos deixar de tocá-lo ou ser tocados por Ele. Quando encontramos Deus, ao mesmo tempo somos achados por Ele. Algumas vezes somos pegos de surpresa por Deus e depois disto não há mais como voltar atrás.
Um dia, até mesmo o mar se rendeu à Palavra Viva de seu Criador. Quem tem poder para criar e dar ordens ao mar, tem poder para trazer abundância de água a qualquer deserto. Mais que o mar, quem o criou deseja transformar a sequidão do pecado e da morte em abundância de água viva de graça e misericórdia. Permita, hoje, que a onda do amor de Deus inunde sua alma e lhe traga vida.

O Deus que pairava sobre as águas te abençoe rica, poderosa e sobrenaturalmente!

VIA
OVELHA MAGRA (Pr. Pablo Massolar).

EUCARISTIA DO DOMINGO, DIA 26 DE SETEMBRO DE 2010 – O RICO E O POBRE LÁZARO

EUCARISTIA DO DOMINGO
DIA 26 DE SETEMBRO DE 2010
O RICO E O POBRE LÁZARO

Abaixo leia os comentários de Frei Jacir de Freitas Farias, ofm,
Publicados na Revista Vida Pastoral (editora Paulus).

O RICO E O POBRE LÁZARO:
QUANDO A VIDA É PERDIDA POR OPÇÃO

I. INTRODUÇÃO GERAL
As leituras deste domingo estão em sintonia com aquelas do domingo anterior, quando reforçam o tema da economia na ótica da justiça social. Amós tece duras críticas contra a classe dominante, os ricos de Israel e de Judá. A comunidade de Lucas faz memória do ensinamento de Jesus sobre o rico avarento e o pobre Lázaro. Dois opostos insuportáveis aos olhos de Deus, e isso deve ser a nossa bússola de orientação nesses dias que antecedem as eleições. Saber escolher os nossos governantes é fundamental para a realização de uma sociedade justa e fraterna.
Neste último domingo do mês de setembro, também não podemos nos esquecer do dia dedicado à Bíblia. Ela que é a carta magna da fé judaica e cristã. O substantivo Bíblia nos remete a um outro, biblioteca. É isso mesmo. A Bíblia é uma biblioteca composta de livros, os quais fazem parte de uma literatura que levou séculos para ser escrita. Parafraseando o grande mestre da leitura popular da Bíblia, Frei Carlos Mesters, a Bíblia nasceu da vontade de o povo ser fiel a Deus e a si mesmo. Nasceu da preocupação de transmitir aos outros e a nós essa fidelidade. Ela nasceu sem rótulo. Só mais tarde, o próprio povo descobriu nela a expressão da vontade e da presença real de uma Palavra Santa (Bíblia, livro feito em mutirão. São Paulo: Paulus, 1986, p. 8).
Divididos em Primeiro e Segundo Testamentos, os livros da Bíblia estão organizados em forma de uma grande inclusão (forma literária em que uma palavra, uma frase ou um conceito presente no início reaparece no fim e funciona como um enquadramento, que delimita e encerra tudo o que ficou “incluído” entre eles, como em um sanduíche); no início (Gênesis) e no fim (Apocalipse), encontramos referência ao Éden, o paraíso da economia vivida na liberdade e na fraternidade entre homens e mulheres. No centro, nos livros de Malaquias e Mateus, temos duas personagens ímpares do judaísmo e cristianismo, Elias e Jesus. Elias voltará e Jesus veio para nos propor, na inspiração da fé judaica, o Reino de Deus, que tem como baliza fundamental a opção pelos pobres e oprimidos de ontem e de hoje. É o que veremos nos textos das leituras que passamos a comentar.

II. COMENTÁRIOS DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Am 6, 1-7): punição para os nobres corruptos
1. Ai dos que vivem tranqüilos em Sião, dos que estão confiantes no planalto de Samaria, os chefes principais do povo a quem acode a casa de Israel!
2. Viajai até Calane para ver, de lá ide à grande cidade de Emat, depois descei a Gat dos filisteus. Acaso sois melhores do que esses reinos, ou o território deles é maior do que o vosso?
3. Ai dos que querem afastar o dia mau e apressam o domínio da força bruta.
4. Ai dos que se deitam em camas de marfim ou se esparramam em cima dos sofás, comendo cordeiros do rebanho, vitelos cevados em estábulos.
5. Deliram ao som da harpa, inventam como Davi instrumentos musicais,
6. bebem canecões de vinho e usam os mais caros perfumes, indiferentes ao sofrimento de José.
7. É por isso que ireis acorrentados à frente dos cativos! Acabou a festa dos boas-vidas!
Amós se volta de forma drástica contra os ricos governantes de Israel e Judá – as críticas se dirigem, de fato, aos nobres da Samaria, capital político-administrativa do Reino do Norte. O texto foi modificado para referir-se a Sião/Jerusalém (Reino do Sul), os nobres da primeira das nações: governantes, cortesãos, oficiais e latifundiários. O motivo é simples: eles vivem tranquilos e seguros na capital e nas montanhas, os seus leitos são de marfim, possuem divãs, se alimentam de cordeiros e novilhos, fazem festas orgiásticas ao som de harpa e com vinhos finos. E o que é pior: eles não estão nem aí para os pobres do país que estão ao seu lado. Eles usufruíam o bem-estar das minorias, advindo das conquistas de Jeroboão II, bem como esperavam o dia de Javé, que seria a redenção de Israel. Amós dirá que esses homens são os verdadeiros responsáveis pela violência social e econômica do seu povo. A vida luxuosa deles era fruto da opressão dos pobres, do roubo e da corrupção (Am 3,9-10; 2,6-8; 4,1-3; 5,10-12). Tendo que manter essa situação, como não criar injustiças? Esses ricos viviam numa situação de orgia (v. 7b), alicerçados numa falsa intuição de que toda aquela situação era de bênção de Deus.
A semelhança dessa situação com os nossos dias é mera coincidência? Não. As classes dirigentes parecem mudar somente os figurantes. Os mensalões e os “panetones de Brasília” continuam a se repetir. Infelizmente, a classe política brasileira deixou se levar pela corrupção.
O que diria o profeta Amós? Vocês, os nobres, serão exilados, vão puxar a fila dos deportados para uma terra estrangeira. E foi isso mesmo que ocorreu anos depois, em 722 a.E.C., quando os dominadores assírios chegaram e destruíram a capital de Israel, Samaria, e levaram todos para o exílio. E aí o ai do profeta já não mais pode surtir efeito. Não tinha mais como voltar atrás. Deus tinha dado o seu veredicto.

2. Evangelho (Lc 16,19-31): o rico injusto escolhe a própria condenação
19. “Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e dava festas esplêndidas todos os dias.
20. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, ficava sentado no chão junto à porta do rico.
21. Queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico, mas, em vez disso, os cães vinham lamber suas feridas.
22. Quando o pobre morreu, os anjos o levaram para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado.
23. Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe Abraão, com Lázaro ao seu lado.
24. Então gritou: ‘Pai Abraão, tem compaixão de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas’.
25. Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te de que durante a vida recebeste teus bens e Lázaro, por sua vez, seus males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado.
26. Além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós’.
27. O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda então Lázaro à casa de meu pai,
28. porque eu tenho cinco irmãos. Que ele os avise, para que não venham também eles para este lugar de tormento’.
29. Mas Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas! Que os escutem! ’
30. O rico insistiu: ‘Não, Pai Abraão. Mas se alguém dentre os mortos for até eles, certamente vão se converter’.
31. Abraão, porém, lhe disse: ‘Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, mesmo se alguém ressuscitar dos mortos, não acreditarão’”.
O texto que antecede essa parábola é o que vimos na semana anterior, “não é possível servir a Deus e ao Dinheiro” (Lc 16,13), ensinamento central do capítulo. A parábola, modo de ensinar de forma comparativa, muito utilizada por Jesus, tem como seu público-alvo os fariseus, chamados de amigos do dinheiro (16,14). Ela faz parte da grande viagem de Jesus a Jerusalém, chamada também a viagem lucana (9,51-19,27), de cunho teológico-catequético. Quem acompanha a trajetória de Jesus vai entendendo os desafios e as condições para ser um cristão, um seguidor do mestre Jesus de Nazaré.
O evangelho de hoje tem forte relação com a primeira leitura. É um modo encontrado por Jesus para ensinar a tradição da fé judaica: é preciso fazer esmola, isto é, fazer justiça. Em hebraico, esmola se diz Tzedakáh e justiça, Tzedek. Esmola deriva de justiça. Fazer esmola, como ensinam os judeus, significa cumprir a Torá (Bíblia), isto é, fazer justiça. Quando um judeu pobre gritava pelas ruas Tzedakáh, todos entendiam: “Faça justiça! Cumpra a Torá!”. E esse grito incomodava qualquer judeu piedoso. A Torá, a Lei de Deus, não estava sendo cumprida, o que implicava estar fora do caminho de Deus. O judaísmo conclama os seus adeptos a fazer esmola. E fazer esmola (Tzedakáh) é agir com justiça no que diz respeito a como cada judeu ganha, gasta e compartilha suas riquezas. No pensamento judaico, esmola não tem um sentido religioso moral cristão de “dar esmola”. Esmola é um modo de ser, mais que oferecer ou dar. Tzedakáh é mais que caridade, expressão de fé piedosa diante do sofrimento do outro. Viver de modo justo na relação com as pessoas é fazer Tzedakáh. A esmola não pode ser em função da vanglória daquele que dá esmola, mas deve ser um gesto de solidariedade e justiça. Fazer esmola, fazer justiça, é melhor que dar esmola. Nisso, sou mais judeu que cristão.
A cena do evangelho, nessa perspectiva do fazer esmola, é simples. De um lado, um rico epulão e bem-vestido, com púrpura e linho – material importado da Fenícia e do Egito, e, do outro, um pobre de nome Lázaro que jazia à sua porta, esperando comer as migalhas de seus banquetes. Lázaro significa “aquele que vem em ajuda de”. Ele espera ser ajudado com obras de justiça, de divisão dos bens.
Com elementos da fé dos antepassados: inferno, céu e o Patriarca Abraão, a parábola relata a cena que paira na cabeça de muitos: os bons estão no céu e os maus, no inferno, separados por um abismo. Tranquilidade e banquete de um lado, tormento e fogo do outro. A Bíblia nos oferece muitas imagens do inferno (Jacir de Freitas Faria, O outro Pedro e a outra Madalena. Uma leitura de gênero. 3 ed. Petrópolis: Vozes, p. 76-102): uma delas é essa da parábola de hoje: um lugar do desespero e do pavor. Receber a pena do inferno é o mesmo que entrar em pânico. É saber que um lugar sombrio me espera. Jesus usa a imagem do choro e do ranger os dentes dos que forem para o inferno (Lc 13,28). Ele também compara o inferno com o verme que não morre (Mc 9,48), bem como à Geena, lixão da cidade de Jerusalém. As imagens usadas na Bíblia para descrever o inferno são todas simbólicas. O fogo que devora simboliza a absoluta frustração humana e o seu total distanciamento de Deus (Leonardo Boff, Vida para além da morte. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 90). Diante de tal situação, só resta ao ser humano chorar e ranger os seus dentes, na escuridão de uma vida sem utopias, no exílio de opção feita por ele mesmo. É o que ocorre com o rico da parábola de hoje. Ele implora ao pai Abraão que Lázaro venha lhe trazer água, que vá até à casa de seus cinco irmãos para avisá-los da sua situação desesperadora e que mudem de vida. Nenhum desses pedidos pode ser atendido. A situação estava posta por opção do rico, o ser humano opressor. O número citado, cinco, relembra o Pentateuco; Moisés, toda a lei e os profetas. Isso quer dizer que o rico e seus cinco irmãos tinham e têm a Palavra de Deus (Bíblia) para observar e mudar de vida. Se assim não o fazem, mesmo que um morto, Lázaro, ressuscite para ensinar-lhes o caminho, eles não o fariam. Os judeus não acreditavam em sinais, milagres. Jesus fez muitos deles, e, mesmo assim, eles não se converteram. O fim é trágico, mas é fruto da opção que fazemos, assim como os ricos da primeira leitura.

3. II leitura (1Tm 6,11-16): viver como homem de Deus
11. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas, procura antes a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a constância, a mansidão.
12. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado quando fizeste a tua bela profissão † de fé diante de muitas testemunhas.
13. Diante de Deus, que dá a vida a todos os viventes, e do Cristo Jesus que, perante Pôncio Pilatos, deu o seu testemunho fazendo sua bela profissão, eu te ordeno:
14. observa o mandamento com todo o cuidado, irrepreensivelmente, até à manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo.
15. Esta manifestação será realizada, a seu tempo, pelo bem-aventurado e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos Senhores,
16. o único que possui a imortalidade, que habita numa luz inacessível, que ninguém viu nem pode ver. A ele, honra e poder eterno. Amém.
Ao escrever ao amigo Timóteo, Paulo o exorta a viver como homem de Deus, isto é: seguir a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e a mansidão, combater o bom combate da fé, conquistar a vida eterna, guardar o mandamento de Jesus até o dia de sua Aparição. Antes disso, que o cristão professe a fé e testemunhe Jesus ressuscitado (vv. 12-13).
Ser homem de Deus é ser profeta, assim como Elias e Eliseu que receberam esse título por terem deixado o palácio e se aproximado do povo. Com eles, o rei, se precisasse de um profeta, teria de ir aonde o profeta estava, no meio do povo. Muitos cristãos da comunidade de Éfeso estavam fazendo da pregação do evangelho uma fonte de lucro. Atitude parecida com a de muitos cristãos de hoje. Abrir uma igreja é o mesmo que abrir negócio, uma empresa lucrativa. Paulo é claro no ensinamento: “Fuja dessas coisas” (v. 11). A fé não é para ser debatida, sobretudo de forma fundamentalista, mas vivenciada.
Paulo termina com uma doxologia (vv. 15-16): a Deus honra e poder eterno. É um hino litúrgico de origem judaica. Ele ensina que o cristão deve prestar culto somente a Jesus, pois ele possui a imortalidade, a vida plena. Viver o projeto apresentado por Jesus é encontrar Deus (vv. 11-12).
Essa breve leitura reforça o ensinamento das outras leituras deste domingo, mostrando que o cristão é aquele que segue os ensinamentos de Jesus e não anda conforme as injustiças dos seres humanos deste mundo. O seu combate está em outra esfera. Ele luta como atleta para chegar ao Reino pregado por Jesus, e este já começa aqui.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Chamar atenção para o dia da Bíblia e suas interpretações a partir das leituras deste domingo. Dar um destaque para a Bíblia na celebração.
Fazer uma análise da situação econômica do país, dando destaque para as eleições e tendo como pistas de reflexão a questão da riqueza e seu uso indevido pelos governantes. Mostrar que quem faz opção de servir ao Dinheiro acabará perdendo a vida.
Perguntar pelos sinais de solidariedade que a comunidade demonstra na relação entre rico e pobre. Ela está a serviço dos pobres e contra a pobreza? Ou existe um abismo, um fosso, entre ela e os pobres? A comunidade se preocupa em dar ou fazer esmola?

VIA ORAE ET LABORA