“O DIA NÚMERO ‘UM'” (MARCIA MARIA DE RIZZO – 06.07.2012)

O DIA NÚMERO “UM”
MARCIA MARIA DE RIZZO
06.07.2012

Todos os dias parecem iguais. O número um, o dois, o três…. até o 365º dia.
Será assim mesmo? Ou somos nós que os tornamos monótonos e idênticos?
E será que somos assim tão inconscientes?
“A vida é tão rara…”, como dizia o Lenine em sua linda música.
A vida é única para cada um de nós. Ela começa e acaba. Mas nós vivemos como se ela fosse sem fim, mas não é.
Então, como podemos celebrar a vida?
Vivendo cada dia como se fosse o único dia, o dia número UM.
Deveríamos viver cada dia dando o melhor de nós ao trabalho, aos colegas, aos amigos, aos amores, aos filhos, aos pais, à família.
Mesmo que esse dia tenha sido infernal, ainda assim, aprendemos algo, dissemos ou fizemos alguma coisa que ajudou alguém. Alguém nos disse algo que nos ajudou, ou , pelo menos, um sorriso e um bom dia nós demos e recebemos.
O que ocorre é que focalizamos nossa atenção no ruim, sempre no ruim, e poucas vezes no bom.
Não estou dizendo que devemos enterrar a cabeça no buraco, como faz o avestruz.
Mas, podemos extrair de nosso dia um pouco de felicidade, mesmo que seja um instante fugaz.
E felicidade é isso: pequenos momentos que deixamos passar devido à nossa onipotência em achar que somos os únicos que sofrem ou que têm problemas.
A vida é rara e complexa, e temos a obrigação, como seres inteligentes que somos, em torná-la boa para nós e para os outros, construindo em nossos dias, esses momentos felizes, que nos alimentam e nos dão a sensação de estarmos unidos, de fazermos parte desta imensa rede – a humanidade.
(Marcia Maria de Rizzo – 06-07-2012)

VIA BLOG EVOLUINDO NO CAMINHO

O PARADIGMA DO EMPREGO (DeRose)

O PARADIGMA DO EMPREGO
DeRose

Que época rica em almas inspiradas! Alexandre Dumas, Victor Hugo, George Sand, Honoré de Balzac, Lizst… Esses e tantos outros, todos juntos numa só época e num só lugar!
Balzac já havia escrito uma carrada de livros, era o mais lido em Paris e suas obras um sucesso pelo mundo afora. A essa altura sua mãe lhe disse: “Honoré, você não nasceu para escrever. Maldita hora em que enfiou essa idéia na cabeça. Você deveria ter um emprego regular e receber um salário, ao invés de viver cheio de dívidas e ser insultado nos jornais pelos críticos que o ridicularizam com suas caricaturas!” Até a Igreja colocou o nome de Balzac na lista negra, considerando seus livros perniciosos. Balzac, o herege, o maldito.
Ah! Se Balzac tivesse ouvido sua mãe… Ah! Se eu tivesse ouvido a minha mãe… Hoje a literatura não teria La Comédie Humaine e eu seria um empregado numa empresa qualquer. Não teria escrito mais de vinte livros, não teria viajado o mundo todo tantas vezes, não teria mudado para melhor a vida de tanta gente. Teria me limitado a trabalhar para viver e viver para trabalhar como as legiões de empregados infelizes, sem motivação, que viveram e morreram sem nunca saber a que vieram ao mundo. Nesta idade, provavelmente, eu estaria velho, pobre e doente, como em geral estão os empregados nessa fase da vida, ansiando por uma aposentadoria que, longe de ser libertadora, constituiria o prenúncio do fim.
Mas, se a instituição do emprego é nociva, por que nossos pais nos aconselham a sermos empregados? Pior: eles nos doutrinam, pressionam e, muitas vezes, obrigam a esse destino desafortunado e sem perspectivas.
Conscientize-se desta realidade humilhante. Um amigo pergunta: “O que o seu filho faz?” E o pai tem que responder: “Ele é um empregado.” Numa situação assim embaraçosa, é normal que esse genitor justifique: “Mas ele está muito bem. É uma carreira de futuro. Uma grande empresa.” (Com sorte e se trabalhar direito, dentro de vinte anos ele poderá estar ganhando bem, se não for despedido antes.)
Quando escuto isso sinto como se o pai de um escravo no Império Romano estivesse respondendo: “Meu filho é escravo. Mas ele está muito bem. Trabalha para um rico senhor, muito conceituado.”
E se o filho ou filha encontra um caminho melhor, instala-se em casa um clima de tragédia e tortura psicológica. Mas os pais não querem justamente o bem dos seus filhos?
Querem. Contudo, são condicionados pelo Sistema e acham honestamente que o melhor é ser empregado.
PRIMEIRO PARADIGMA: O SISTEMA DE ESCRAVAGISMO
Os historiadores estimam que nos últimos 50.000 anos, desde o período pré-histórico até o final do século XIX, o escravagismo era um princípio aceito e praticado por quase todos os povos. Pode-se declarar, então, que a humanidade sempre explorou a escravatura e que a supressão dela no século XX foi um pequeno espasmo, um soluço na história laboral. Era considerada uma prática natural, pois, se não fossem os escravos, quem construiria as grandes obras e quem trabalharia nas residências? O trabalho escravo parecia ter todas as vantagens e sempre contou com o beneplácito da religião. Mesmo pessoas tidas como bondosas e inteligentes não viam nada demais em ter escravos.
SEGUNDO PARADIGMA: A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
Num dado momento, ocorreu um espasmo de transição reforçado, em grande parte, pela revolução industrial. A maior parte das nações e todos os intelectuais, repentinamente, despertaram da sua letargia e declararam-se contra a escravidão. A nova onda era o emprego! O que eles não confessaram – talvez nem se tenham dado conta – é que a legião de empregados era apenas uma leve adaptação do sistema de escravagismo. Ninguém quis reconhecer que a instituição da mão de obra descartável beneficiava a todos, menos aos empregados que eram explorados para que o Sistema se mantivesse em movimento. Sem a massa anônima de empregados, as indústrias não funcionariam; o comércio entraria em colapso; e os serviços, quem os faria? Portanto, o melhor sempre foi usar um tapa-olho e enxergar só a metade que convinha à sociedade. Nessa ótica, os empregados são como os soldados de um exército. Os generais sabem que os soldados estão ali para ser sacrificados. Antes de uma batalha são avaliadas as expectativas de baixas: 30%, 50%, 70% – mas a batalha precisa ser ganha. Para a instituição militar, se o comandante tivesse pena de enviar seus comandados para a carnificina, estaria subvertendo o Sistema e seria, ele próprio, sacrificado. Na instituição do emprego é a mesma coisa. Os empregados ganham mal, são humilhados, contraem doenças laborais e vivem na corda bamba, já que a qualquer momento podem ser demitidos. E o serão, indiscutivelmente. Todo empregado já esteve desempregado e sabe que o estará outras vezes. Então, por que cargas d’água nossos pais nos empurram para esse destino impiedoso? Porque toda a sociedade tem que ser condicionada, mediante uma verdadeira lavagem cerebral sistemática, a considerar que a única opção é ser empregado.
É a mesma coisa com o militarismo. É melhor achar bonito um batalhão marchando ao som de hinos marciais, com seus uniformes e armas viris; é melhor louvar o heroísmo e condecorar os mortos. Porquanto, se questionássemos isso, o que poríamos no lugar? Como garantiríamos a soberania nacional? Como defenderíamos nossos lares?
Assim, mandamos nossos filhos para o sacrifício do emprego, um verdadeiro holocausto, achando que é para o bem deles. Não é. É para o bem da sociedade, que se nutre das vidas dilaceradas de tantos jovens que são obrigados a humilhar-se por um salário ofensivo, em um emprego sem segurança. Mas, se não tem segurança, por que nossos pais aplicam o chavão “a segurança de um emprego”?
É sabido que as empresas demitem. É sabido que se você for demitido com mais de trinta anos de idade será difícil conseguir outra colocação. Com mais de trinta e cinco será quase impossível. Conheço profissionais capacitados, com vários diplomas, que ficaram desempregados por vários anos. Por que ocorre isso? Primeiro, porque o Sistema educa as pessoas para ser empregadas como ideal de vida. Os cursos técnicos e as faculdades todos os anos despejam milhões recém-formados no mercado de trabalho. Isso cria uma oferta maior que a procura, o que desvaloriza o profissional e o obriga a aceitar condições indignas. Segundo, porque um recém-formado tem mais entusiasmo, dedica-se mais, exige menos regalias e aceita um salário mais modesto. Tudo isso, porque ele é jovem, cheio de esperanças, está ali para vencer e quer tomar o lugar dos mais antigos. Como vantagem adicional, tendo sido formado mais recentemente, deve estar mais atualizado. Quem você acha que o empregador vai preferir? O veterano que tem quase dez anos de casa, está mais velho, mais acomodado, já tem família, precisa ganhar mais, exige regalias e não aceita certas tarefas nem hora extra. Quem você acha que o empregador vai preferir? Isso mesmo. Qualquer um escolheria o mais novo. A tão propalada segurança do emprego é uma balela.
TERCEIRO PARADIGMA: A OBSOLESCÊNCIA DA RELAÇÃO PATRÃO/EMPREGADO
Em pleno século XXI, podemos afirmar sem margem de erro que o conceito de emprego e a relação patrão/empregado estão obsoletos. Ainda vão durar bastante, pois a mudança de paradigma demora muito para se processar. Contudo, hoje já existem plenas condições de sucesso para os jovens que optarem por carreiras não convencionais. Aliás, é onde se encontram as maiores e melhores oportunidades.
Fazer faculdade é importante, mas só para quem quer ser empregado.
Acontece que toda a sociedade está estruturada para produzir um contingente humano que constitua força de trabalho. Por isso, desde pequenos sempre escutamos: “Você tem que estudar para conseguir um bom emprego.” Tudo gira em torno disso. Emprego para o homem e casamento para a mulher. Até parece que estamos escrevendo no início do século passado! No entanto, as coisas continuam assim. É como os cadarços dos sapatos. Há mais de meio século, quando eu ainda era criança, lançaram os primeiros calçados sem cordão. Eram os sapatos de fivela. Tempos depois introduziram o elástico. Depois, o velcro. Depois, o zíper. E até hoje a maior parte dos sapatos continua usando os absurdamente unpractisch cadarços que dão trabalho para calçar, para descalçar e desamarram-se o tempo todo, fazendo crianças e adultos tropeçar e cair. Por que continuam usando uma coisa dessas, trabalhosa, sem praticidade e perigosa, ao invés de substituí-la por alguma das muitas alternativas mais modernas? A explicação é que o humanóide demora a incorporar as mudanças.
Com a universidade é a mesma coisa. Antigamente, poucos tinham o privilégio de estudar. O diploma era cobiçado. Os tempos mudaram, não obstante, ainda hoje é assim, especialmente para aqueles que não puderam estudar na época em que ter diploma era chique. Naquela época era um diferencial. Hoje todo o mundo tem diploma. E ele não vale mais nada. Foi banalizado. Quem cursa uma faculdade “para conseguir um bom emprego” vai ficar desempregado se não fizer uma pós-graduação no exterior, mestrado, doutorado, especializações, etc. Isso custa caro. Custa tempo. Anos verdes de vida, anos preciosos de início de carreira na juventude. Quando o brilhante e esforçado estudante consegue ingressar no mercado de trabalho terá perdido tanto tempo que jamais aprenderá a ganhar dinheiro, como o aprenderam aqueles que, sem diploma algum, começaram a trabalhar em tenra idade.
Estaríamos pregando que os jovens deixassem de estudar? De forma alguma. Mas defendemos o direito de quem quiser estudar para ser empregado numa carreira comum, que o seja; mas, por outro lado, que respeitemos a liberdade de escolha de quem quiser seguir uma carreira nova, criativa, inusitada, que o realize e gratifique mais. Ainda que seja a de saxofonista ou a de instrutor de Yôga!

VIA BLOG CONSCIENCIA “EU SOU!”

SEDE DE DEUS – CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID (Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro)

SEDE DE DEUS

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

Nosso mundo vive uma grande sede de Deus e uma sentida saudade de Deus. O ser humano buscou o encontro com o Absoluto, procurou a resposta definitiva para as perguntas primeiras e últimas de sua existência. A busca de sentido para seu passado, seu presente e seu futuro, caracteriza a história das pessoas e dos povos. A memória do passado, a consciência do presente e a esperança do futuro, faculdades humanas moldadas pela sede e pela saudade de Deus, revigoram continuamente as civilizações. O íntimo de cada cultura é assinalado pela busca de Deus. As religiões, que perpassam o tecido de todas as culturas, em suas entranhas mais profundas, definem, de certa maneira, o modo de ser e de agir das civilizações e sociedades, as escolhas e comportamentos das pessoas e grupos. Não se conhece, em toda a história da humanidade, algum povo que não tenha recorrido à dimensão religiosa para responder às questões mais intrigantes da existência humana: “Por que e para que vivemos, de onde viemos e para onde vamos?”
Também a civilização ocidental, por mais que se defina agnóstica ou atéia, é marcada pela sede de Deus. Um século depois de grandes filósofos e críticos da religião terem previsto seu fim, em favor do predomínio absoluto da razão, eis que vivemos o retorno do sagrado, ouvimos o ruflar de anjos. Vivemos numa época em que os deuses combatem entre si pela posse do coração humano. De um lado, o Deus único e verdadeiro das religiões monoteístas e das grandes religiões orientais que ajudam o ser humano a situar-se no mundo, a buscar a verdade, a empenhar-se pela paz e pela justiça. De outro, os deuses do mercado, os ídolos do ter, do poder e do prazer, o dinheiro –deus-ídolo por antonomásia, o anti-Deus (Lc 16,13) – a dividir o coração humano, a massacrar multidões de vítimas em seus altares sanguinários. Teria o dinheiro tanto prestígio, não fossem as vítimas a ele oferecidas, por ele exigidas, em mortes estúpidas, por acidentes de trânsito e de trabalho, por doenças crônicas, por guerras e atos terroristas?
De certa maneira, pode-se até dizer que nunca, como na passagem de século e milênio que vivemos, o ser humano esteve tão ansioso pelo encontro com Deus. Nunca foi tão intensa a sede de Deus. É o que estão a revelar o pluralismo religioso, o mercantilismo religioso, o fanatismo religioso, o fundamentalismo religioso de nossos dias. Essa insistência no adjetivo “religioso” faz sentido. No âmbito da Igreja Católica, surgem, de tanto em tanto, novos movimentos eclesiais, de caráter apostólico ou espiritual. No âmbito do cristianismo, criam-se, a cada dia, novas igrejas ou pequenos grupos, que se referem, alguns sem o mínimo de rigor, ao Evangelho de Jesus Cristo. Num contexto mais amplo, difundem-se expressões e fenômenos religiosos, ligados a uma ou outra das grandes religiões universais. A religião está, continuamente, presente na mídia, através de reportagens, de notícias de entrevistas. Busca-se relacionar, de modo certamente injusto, a religião com o terrorismo e com a guerra. A religião está no mercado: há muita gente ganhando dinheiro às custas dessa sede de Deus. Afinal, uma igreja-empresa carece de pouco investimento, tem retorno financeiro garantido, tem clientela fiel, sobretudo no meio juvenil e nas camadas populares.
Essa sede, porém, não é jamais saciada. A sede de Deus é, de fato, permanente. Diz o salmista: “De ti tem sede a minha alma” (Sl 63,2). Nunca o ser humano conseguirá, neste mundo, saciar sua sede do infinito, responder às perguntas últimas de sua existência. Aqui está o drama da vida humana: procurar, sem encontrar. Melhor seria dizer: procurar sempre, sem jamais se satisfazer com o que se encontra. Porque o mistério de Deus só se deixa encontrar e experimentar na forma de aperitivo, por meio de apalpadelas, de toques e sinais. Deus vem a nós pela mediação dos sacramentos – da criação, da história ou da Igreja -, os quais são sinais, que, ao mesmo tempo em que nos revelam o mistério de seu amor, também nos esconde a clareza de sua plenitude e, mais ainda, nos fascinam, nos atraem e nos provocam a continuar a procurá-lo. Como um diafragma que controla a quantidade da luz, enquanto permite ver o sol, assim são os sinais de Deus. Em nossa busca permanente de Deus, caminhamos nos albores da madrugada e não na manhã clara, tateamos, às apalpadelas, vivemos de esperança em esperança. Como nos declara o Vaticano II, “só no mistério do Verbo Encarnado se esclarece, verdadeiramente, o mistério do ser humano” (G.S., n° 22).
O problema da atual sede de Deus é que se pretende acabar com ela, quer-se saciá-la de modo definitivo. Busca-se, então, um Deus-objeto, um tapa-buracos, um quebra-galhos. Cria-se uma religião de resultados, que solucione todas as crises, cure todas as doenças, resolva todos os problemas. Uma religião-terapia e não uma religião-aliança. Em vez de relacionar-se com Deus, como um amigo íntimo, um companheiro fiel, um pai extremoso, faz-se dele objeto de uso. Busca-se um deus feito pelo homem, que esteja sempre à disposição do homem. Criado à imagem de Deus, o ser humano quer agora criar seu deus, à sua imagem, invertendo as relações. Pretende possuir o mistério, delimitá-lo em suas categorias limitadas e mesquinhas, comprá-lo com suas posses, prendê-lo em suas instituições, usá-lo em seu favor. Por isso, a atual sede de Deus torna-se angustiante.
Com a presunção de ser religiosa, a atual sede de Deus é falsa, porque não busca o Deus vivo. Ela esconde, na verdade, a máscara dos modismos fáceis, dos devocionismos baratos, das soluções apressadas. Foi essa a denúncia que fez Jesus de Nazaré: “Uma geração perversa e adúltera busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal do profeta Jonas” (Mt 12,39). O sinal de Jonas revela-se no escândalo da “quenose”, no rebaixamento de Deus, na cruz. Enquanto se procura Deus no poder e na grandeza, ele se esconde e se encontra na simplicidade e nos pequenos atos de amor de cada dia. Enquanto se busca saciar a atual sede de Deus com mega-shows, vendas de produtos religiosos, estéreis elucubrações filosóficas e teológicas, ele se esconde e se encontra na celebração, na promoção e na defesa da vida, em gestos de solidariedade.
Como a sede, também a saudade de Deus sempre acompanhou a história da humanidade. Trata-se, porém, de uma saudade que não se volta somente para o passado. A História de Israel, de Jesus de Nazaré e das primeiras comunidades cristãs, mostra que Javé-Abbá é um Deus que cumpre, fielmente, as promessas feitas. Assim, de promessa em promessa, o povo e as pessoas vão aprendendo a se relacionar com Deus, no modo da aliança. Cada promessa cumprida torna-se motivo de nova esperança. Por isso, a verdadeira saudade, seja do povo judeu, seja dos cristãos, aponta, sobretudo, para o futuro. A memória do passado torna-se consciência do presente e esperança do futuro. A saudade torna-se esperança. Não é, pois, uma saudade nostálgica que faz chorar por coisas, lugares, situações e pessoas perdidas. É uma saudade que, como a sede, atrai, fascina e provoca a ir adiante, a buscar sempre mais. Na verdade, é uma saudade de quem se deixa encontrar por Deus. Afinal, é ele quem vem ao nosso encontro, agora e sempre.

VIA AMAI-VOS

ATÉ QUE ME PROVEM O CONTRÁRIO, SOMOS TODOS HIPÓCRITAS

Por favor, não me tenha por agressivo. O que descrevo nas linhas abaixo é apenas o retrato em preto e branco daquilo que realmente somos. Em minha já longa estrada é o que mais vejo no meio religioso. Até os verdadeiros santos admitem que são hipócritas. Somos o nosso próprio arquétipo. Mas se você é daqueles que “já alcançou grau elevado” acima dos simples mortais siga adiante e nem se dê ao trabalho de ler o texto. Ele foi escrito para os que estão na terra, os que choram pelas suas graves deficiências, os que não gostariam de ser o que são, cheios de falhas, mas ao mesmo tempo se encantam quando se veem abraçados pela graça, que os eleva à condição de pecadores maltrapilhos assentados à mesa no banquete do Grande Rei. É para esses, incluindo a mim, que o texto foi escrito, não para você.
Somos hipócritas quando usamos o nosso verdadeiro perfil nas redes virtuais para “vender” credibilidade, mas não nos causa nenhum asco usar “fakes” de toda ordem para expor a podridão do nosso coração.
Somos hipócritas quando em nossos discursos aparentamos usar e enaltecer a graça, mas, ao contrário, em nossa prática valorizamos com desavergonhada idolatria o sistema religioso.
Somos hipócritas quando usamos a fé em nossos mais diversos relacionamentos para ganhar a confiança, mas, na verdade, o nosso interesse é mesmo construir um reino estritamente pessoal.
Somos hipócritas quando exteriormente demonstramos simpatia por alguém, até com um sorriso maroto nos lábios, enquanto, por dentro, o nosso autêntico desejo é comer-lhe o fígado.
Somos hipócritas quando vestimos uma roupa que não nos cabe e nem nos pertence e queremos com isso que as pessoas acreditem que somos aquilo que não somos.
Somos hipócritas quando usamos a graça como desculpa para pecar, mas não nos submetemos a ela para resistir ao pecado.
Somos hipócritas quando dizemos alto e bom som que os nossos feitos são para a glória de Deus, mas nossa linguagem, em sua mais arguta sutileza, demonstra que, no fundo, são mesmo para a nossa glória.
Somos hipócritas quando criticamos o comercialismo sem escrúpulo que grassa desavergonhadamente no meio evangélico, mas adotamos ao mesmo tempo, ainda que em menor escala, o mesmo comportamento, como “caixeiros-viajantes” pelo país.
Somos hipócritas quando nos tornamos a palmatória do mundo em nome de aparente santidade, mas na verdade isso não passa de biombo para esconder as próprias fragilidades.
Somos hipócritas quando, para demonstrar zelo pela Casa de Deus, não nos constrangemos em expor os “grandes” pecados alheios, enquanto em nossa vida pessoal nos olvidamos dos “pequenos” pecados, que praticamos cada dia.
Somos hipócritas quando desprezamos a integridade e passamos a defender o erro em nome de suposta fidelidade.
Somos hipócritas quando, para aparentar nobreza de caráter, subjugamo-nos à lei, vilipendiamos a graça e, por causa disso, alimentamos cada vez mais o nosso complexo de culpa.
Somos hipócritas quando, em nome de suposta educação, deixamos de ser o que somos com o temor de nos tornarmos desagradáveis.
Somos hipócritas quando, em nome de interesses próprios, abrimos mão de convicções espirituais para receber benefícios de uma circunstância.
Somos hipócritas quando em nossa itinerância tornamos a nossa pregação mecanicista, como se fosse o mero repetir de uma gravação, simplesmente para agregar valor ao “produto” que vamos vender ao final da reunião.
Há remédio contra a hipocrisia? Ela é parte de nossa natureza, que abriga também outros sentimentos nada confortáveis. Lutar contra a hipocrisia em nossa força carnal de nada adianta. Submetê-la ao legalismo da opressão religiosa só faz aprofundá-la. Nosso conforto é simplesmente submeter-nos sem reservas à bendita e doce graça do nosso amado Jesus para que ela seja a força motriz a moldar o nosso caráter e para onde possamos correr todas as vezes em que a hipocrisia, ou qualquer outro maléfico sentimento, aflorar em nossos relacionamentos. Se você é honesto, há de concordar que isso ocorrerá com certa frequência, mas a graça estará ali como o seu abrigo nas horas do fracasso. Chegará um tempo em que esses sentimentos já não terão domínio sobre o seu coração, ainda que vez ou outra queiram manifestar as suas unhas afiadas.
Mas, por favor: não se sobreponha à graça. Ela é suficiente.

Via Geremias Do Couto

CARTA DE JOEL S. GOLDSMITH A SEU FILHO SAMMY

CARTA DE JOEL S. GOLDSMITH A SEU FILHO SAMMY

Ofereço-te aqui, Sammy, uma lição importante, não só para um dia, mas suficiente para toda tua existência, se a praticares fielmente – ainda que não recebesses nenhuma outra de mim ou de qualquer instrutor espiritual. Se a gravares no íntimo, ainda que ficasses só num deserto ou num barquinho, no meio do oceano, sem qualquer pessoa ou livro por perto, poderias sobreviver, encontrando salvação e segurança, alimento e vestuário, paz e tudo o mais que te fosse necessário. Quero revelar-te o segredo de minha felicidade, alegria, êxito, prosperidade e capacidade de servir a crianças e adultos ao redor do mundo inteiro, como sabes. Desejo que conheças este segredo, para que possas agir como eu. Em primeiro lugar, quando defrontares algum problema, seja de saúde, estudos, desentendimentos com os colegas ou mestres. Retira-te a um lugar tranqüilo, senta-te com os pés no chão e mãos descansando nas coxas, fecha os olhos e lembra-te de que Deus está mais perto do que tua respiração: mais próximo do que teus pés e mãos. Ele está exatamente onde estiveres. Aquieta-te por um momento e Deus resolverá teu problema. Pode parecer estranho que não tenhas, pelo menos mentalmente, de expor teu caso a Deus, de não pedir-Lhe nada e nem fazeres qualquer afirmação.
No entanto, basta fechar os olhos, aquietar-te por um momento e saber que Deus está bem perto de ti: no centro de teu ser. Depois, sem ansiedade ou pressa, espera alguns minutos. O Espírito, Ele mesmo, se incumbirá de tudo. Se for um problema ou fórmula que não entendes, Ele te esclarecerá, como sucedeu uma vez aqui em casa, em que pediste ajuda em matemática: sentamo-nos e meditamos e quando voltaste ao livro, encontraste a resposta plena, como se a tivessem escrito ali para ti. Sempre que tiveres alguma dificuldade, pára o que estavas fazendo e conscientiza Deus exatamente ali onde estás, em teu íntimo. Espera alguns minutos e verás que Ele é a Inteligência de teu ser e sabe por que O estás procurando.
Não receies: de bom grado Ele sempre te responderá, se estiveres “ligado”. Se Lhe perderes a sintonia, não poderás receber ajuda. Isto é compreensível. Digamos que estivesses aqui perto de mim, recebendo instrução espiritual. Se te distraísses, pensando em outra coisa ou saísses a passear, como poderia receber a lição que eu tinha a oferecer-te gostosamente? Como pai humano, bem gostaria de oferecer-te cada segredo espiritual que possuo, como dou dinheiro quando dele necessitas. Mas não lhos poderei dar, se não estiveres receptivo e atento.
A mesma coisa se dá em nossa relação com Deus: temos que dar-Lhe plena atenção, amor, obediência e gratidão. Não é propriamente amar um Deus que não vês, senão amá-Lo nos colegas e professores com quem convives. Ainda que Deus esteja em teu íntimo, só Lhe podes receber a graça se tiveres amor, júbilo e respeito, em tua mente, em teu coração e em tua alma. Cada pessoa é responsável por si mesma. Não há um Deus sentado no céu a olhar e julgar os que estão aqui embaixo. A Consciência divina está em nosso íntimo e sabe tudo o que pensamos, sentimos, falamos e fazemos, atraindo imediatamente de fora tudo o que mandamos para lá. Portanto, o amor e respeito que exprimes aos outros, logo os recebes de volta. Mas, tudo isto ainda é pouco. Mesmo que sejas humanamente bom em todos os sentidos, estás simplesmente cumprindo os Dez Mandamentos. Agora te estou instruindo a cumprir o Sermão da Montanha, pois o Caminho espiritual é uma revelação mais alta: diz que não precisas de falar com Deus, senão apenas reservar pequenos períodos, durante o dia e à noite, para ouvi-Lo dentro de ti. Mesmo que não ouças literalmente uma voz, ao abrir os ouvidos a Deus e silenciar por um minuto ou dois, permitir-me-ás encher o vácuo que formaste internamente.
Atenta bem para o que deves fazer, para formar este vazio expectante: logo ao acordar senta-te confortavelmente, pés no chão, braços apoiados relaxadamente nas coxas, olhos fechados, sintonizando o Cristo interno em silêncio, escutando o íntimo por alguns minutos. Em seguida, lembra-te de que o dia que se estende diante de ti será governado e protegido por Deus. Serás então mantido e inspirado por Ele, porque abriste, anelante e conscientemente, tua consciência à Presença e Direção de Deus. Mas se não fizeres cada manhã, fielmente, teu contato com Deus, o teu encontro com o mundo será como de um ser humano comum, sujeito a todas as surpresas e desencontros da vida, sem a assistência divina. Em tua idade atual, com o preparo que já recebeste aqui, estás apto a quatro pequenos exercícios diários: de manhã cedo, ao meio-dia, ao anoitecer e antes de dormir. Sentado, relaxado e quieto, podes dedicar dois minutos de cada vez a Deus. Inicialmente, para facilitar, podes mentalmente dizer: “Aqui estou, Pai. Fala que Teu filho escuta. Desejo fazer a Tua vontade”. Em seguida, aquieta-te. Se fores fiel nesta prática, garanto que tua vida na universidade e de modo geral, será um sucesso e ainda mais do que isso: uma bênção. Estarás preparando os fundamentos para uma vida inteiramente governada por Deus. Procure estar em harmonia com teus colegas em tudo que seja bom. Se te convidarem a cerimônias religiosas, sugiro que os acompanhes. Entra em cada templo com a mente aberta, agradecendo à oportunidade de aquietar e ouvir a “pequenina e silenciosa voz”.
Não te esqueças de que a sintonia com Deus é mais importante que o ritual. A união com os colegas no que seja construtivo suscita o bem, embora o verdadeiro bem te venha porque reconheces a graça e a glória de Deus em tudo e em todos. A coisa mais importante que desejo sublinhar-te é que, em qualquer instante do dia ou da noite, Deus é instantaneamente acessível. Basta que O sintonizes e ouças.
Enfatizo este ponto para que compreendas que não precisas falar, fazer afirmações ou lembrar a Deus tuas necessidades. O segredo que recebi é que Deus, como Inteligência infinita, já conhece tuas necessidades, antes mesmo de Lhas pedires. Ele vê nosso íntimo quando Lho abrimos em atitude receptiva e confiante. Não é por nosso falar ou pensar, pois o Mestre ensinou: “não vos preocupeis por vossa vida, pelo que tendes de comer: nem por vosso corpo, pelo que tendes de vestir. Vosso Pai sabe que necessitais destas coisas. É do bom agrado d’Ele dar-vos todas elas”. Compreendes, Sammy? É do agrado do Pai dar-te o Reino! Deus não te castiga quando te arrependes sinceramente do erro ou pecado que acaso cometas. No instante em que reconheces que não agiste bem, estás perdoado. Não carregarás a penalidade quando em teu coração vibra o reconhecimento do mal que fizeste e te arrependeres. Mas deves compreender que ao reconhecer as falhas, não deves repeti-las. Caso contrário, perderás a sintonia com a graça divina. Tu mesmo é que te cortas dela. Quando isto acontecer, procura reatar com a graça, reconhecendo verdadeiramente: “Sei que errei!” ou talvez: “Não sei se agi erradamente, mas se o fiz, ajuda-me a compreender e limpa isto de mim, Pai. Não tive má intenção. Não quero fazer o mal. Ao contrário, desejo fazer aos outros o que gostaria que me fizessem”.
Dessa maneira te purificas. Tenho-me curado de diversas enfermidades, pedindo simplesmente a Deus perdão por meus pecados. É claro que meus pecados não são graves. Conheces nosso modo de viver. Mas sempre que cedemos à crítica e condenação, não estamos amando e perdoando suficientemente. Assim, é recomendável que nos voltemos de vez em quando e digamos: “Reconheço, Pai, que não estou agindo perfeitamente. Perdoa meus pecados. Limpa as minhas transgressões, para eu começar tudo de novo”.
Grava bem, Sammy, a mais importante lição que me foi dada: “que o lugar em que estás é solo santo”, ou seja, Deus está exatamente onde estás, disponível, no instante em que páras de pensar, de falar e de te identificar com as coisas externas, e te voltas ao íntimo, reconhecendo-Lhe o Poder e a graça. Conscientiza o Espírito de Deus em ti e, em seguida, relaxa-te por um ou dois minutos, deixando que Ele Se manifeste. Isto é tudo. Todo o nosso propósito é o de levar as pessoas à realização da onipresença de Deus e sua constante disponibilidade; de nos dirigir a Ele sem pensamento nem palavras: basta a humildade de sentar-nos (ou mesmo em pé ou deitado), fechar os olhos e reconhecer: “Eu, de mim mesmo, nada posso. O Pai, em mim, é Quem faz as obras. Fala, Senhor, que teu filho escuta”. Em seguida, aguardar um ou dois minutos em silêncio expectante, antes de levantar e prosseguir as tarefas. Se aprenderes a praticar corretamente este exercício quatro vezes ao dia, como lhe estou sugerindo, não demorará muito para que o faças mais vezes ao dia, para teu inteiro benefício.