RUBAIATAS – Omar Iben Ibrahim El-Khaiami, Nº 33

Está longe o sábio
de considerar o ouro
uma relíquia,
pois os jardins da vida
lhe estão abertos
de par em par.
Olhai a esguia violeta,
retraída e humilde,
que, ao ver-nos,
baixa romanticamente a cabeça.
Olhai agora a rosa,
no orgulho,
no esplendor do seu cálice de ouro,
repartindo indiscriminadamente
entre os passantes
a graça altaneira do seu sorriso…

(Omar Iben Ibrahim El-Khaiami)

RUBAIATAS – Omar Iben Ibrahim El-Khaiami, Nº 32

Renuncia a tudo
neste mundo:
fortuna, poder, honrarias.
Desvia teus passos
de todo caminho
que te não conduza à taberna.
Nada peças, nem desejes,
senão vinho, canções, música, amor!
Nobre o formoso mancebo,
apanha o odre
e empunha a taça.
Bebe!
Mas, cuidado!
Não sejas frívolo,
não fales em vão!

(Omar Iben Ibrahim El-Khaiami)

RUBAIATAS – Omar Iben Ibrahim El-Khaiami, Nº 31

Chamando-me — filósofo,
quis o falcioso inimigo
que todo o mundo
se enganasse a meu respeito.
Mas bem sabe Allah
que não sou
o que propalam de mim.
Entretanto,
desde que me encontrei a mim mesmo
nesta morada do Infortúnio –
a Terra,
nunca desejei discutir,
nada pude afirmar.
Eu mesmo não sei
quem sou…

(Omar Iben Ibrahim El-Khaiami)

RUBAIATAS – Omar Iben Ibrahim El-Khaiami, Nº 30

Sendo a vida um só instante,
que em breve se esvairá,
impassível mantenho o meu coração
entre seus encantos e amarguras.
Se a taça há de transbordar,
fatalmente,
pouco importa que isso aconteça
em Bagdá ou em Balakhe.
Companheiro,
quero-te, arrebatado,
esvaziando as taças!
Após o meu desenlace,
e após o teu desenlace,
continuará transitando a lua,
do minguante ao crescente,
e do crescente ao minguante,
pelos séculos além…

(Omar Iben Ibrahim El-Khaiami)

RUBAIATAS – Omar Iben Ibrahim El-Khaiami, Nº 29

Até quando
ficarás preso
às coisas dos sentidos,
cores e fragrâncias?
Até quando,
dissoluto,
persistirás
nessa correria louca
atrás da volúpia,
sempre enredado
em enganos e sofismas?
Morrerás, certamente.
E, ainda que fosses
a sagrada nascente de Zamzém
ou o mágico Elixir da Longa Vida,
acabarias afundando-te,
para a eternidade,
nas entranhas da terra.

(Omar Iben Ibrahim El-Khaiami)

RUBAIATAS – Omar Iben Ibrahim El-Khaiami, Nº 28

Afinal de contas,
não é mais o céu
do que tacho imenso
com a boca escancarada
sobre o mundo…
Dentro da horrenda cavidade
vão girando os homens de inteligência,
vão girando,
girando desesperados.
Agora, amigos,
contemplai
a enternecedora união
da ânfora e do corpo:
lábio sobre lábio
e, entre ambos
o sangue a correr…

(Omar Iben Ibrahim El-Khaiami)

RUBAIATAS – Omar Iben Ibrahim El-Khaiami, Nº 27

Bebe vinho,
penhor de vida eterna,
único fim e razão da existência!
Vê! É a aurora do amor!
Desabrocham as rosas
e, ao espalhar sua fragrãncia,
a aragem nos embriaga.
É a estação dos prazeres!
Vê como todos deliram
na euforia deste momento sem igual.
Sê feliz um instante,
pois a vida, amigo,
é apenas esse instante…

(Omar Iben Ibrahim El-Khaiami)

RUBAIATAS – Omar Iben Ibrahim El-Khaiami, Nº 26

Se borrifares vinho a cordilheira,
vê-la-emos agitar-se,
com todos os seus alcantis,
em oscilações, curvas e saltos.
Sabíamos, desde séculos:
aqueles que desprezam
as incomparáveis virtudes do vinho
são o supra-sumo
da ignorância e da perversidade.
Companheiro,
exiges
que me arrependa de beber,
de embriagar-me?
Pois não no sabes?
Allah não quis…
Temos, fatalmente, que fazer
o que estava escrito!
Não percebes ainda
que vinho é espírito?
Que ele cria, educa, embeleza,
modela o verdadeiro homem?

(Omar Iben Ibrahim El-Khaiami)

RUBAIATAS – Omar Iben Ibrahim El-Khaiami, Nº 25

Quando o narrador,
com a voz úmida de emoção,
disse de um paraíso todo esplendor,
habitado por homens extraordinários
varões magníficos
e sedutoras huris alucinantes,
sereno, respondi:
– Que delícia
o sumo da uva!
Amigo,
conserva esse vinho,
que é realidade,
e não te deixes impressionar
pelas coisas ilusórias!
Que encanto,
quanta sugestão
no rufar do tambor,
se ouvido de longe,
som amortecido pela distância,
doce murmúrio,
acalentador murmúrio…

(Omar Iben Ibrahim El-Khaiami)

RUBAIATAS – Omar Iben Ibrahim El-Khaiami, Nº 24

Não consigo integrar-me
num momento de paz e harmonia,
mergulhar nas delícias dos sentidos,
enquanto, serena e lúcida,
a razão vigiar.
Mas, no êxtase da embriaguez,
quando se me vai diluindo o juízo,
que languidamente se encolhe,
e se estiola,
o deperece, –
só aí então,
nesse intervalo
entre a lucidez e o sono,
eu sinto, eu vivo
o único instante desanuviado
de paz, harmonia e prazer
de toda a minha existência.

(Omar Iben Ibrahim El-Khaiami)

RUBAIATAS – Omar Iben Ibrahim El-Khaiami, Nº 23

Exatamente
como o descuidado pássaro
que não pôde evitar a armadilha,
assim caímos na existência, –
feridos, ofegantes, atordoados,
inteiramente desorientados.
E assim temos de viver neste globo,
no qual não vejo teto, porta,
nem entrada nem saída.
Não foi por nossa livre vontade
que nele desembarcamos,
nem será pela ânsia de partir
que o deixaremos um dia.

(Omar Iben Ibrahim El-Khaiami)