"A Casa Sobre A Rocha" (Mt5:24).

“O Amor é a Lei de Deus. Viveis para que aprendais a amar. Amais para que aprendais a viver. Nenhuma outra lição é exigida do homem.” (O Livro De Mirdad)

COMO É AMARGA A AMARGURA! (OLIVEIRA FIDELIS FILHO)

Posted by José Eduardo Glaeser em 27/03/2012

COMO É AMARGA A AMARGURA!
Por Oliveira Fidelis Filho

O disparador foi o silêncio!
O barulho daquele silêncio foi suficientemente alto para acordar minhas fraquezas, projetar minhas sombras e atiçar minha agressividade.
No discurso psicanalítico, o silêncio e a imagem falam mais do que mil palavras. O que geralmente me remete à poética declaração do Rei Davi quando em alusão a Criação declara: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de Suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento à outra noite. Não há linguagem nem palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a Terra se faz ouvir a Sua voz…”. No silêncio, a Natureza – interna e externa – revela sua essência divina e nos fala do Criador.
O silêncio ao qual me refiro, entretanto, não veio da Criação ou de um espaço no qual o inconsciente se revela no discurso de um cliente em uma sessão analítica. Antes fosse! Refiro-me ao silêncio de um próximo que, embora geograficamente distante, foi capaz de impor a rendição do amor em mim, abrir os portões dos porões do ego, soltar os bichos que pensava não mais existirem. Emergindo do profundo oceano de meu inconsciente, eles atracaram e tomaram de assalto as praias até então tranqüilas de minha consciência.
Faço alusão ao silêncio que me permitiu enxergar em mim, com clareza solar, os monstros que se escondem sob a sombra dos vales da inconsciência, que me fez ficar cara a cara com os meus próprios demônios e percebê-los vivos e atuantes, não no planeta terra, mas nos estreitos espaços de minha existência. Enfim, um silêncio que muito mais do que revelar o Outro no outro, revelou o Outro em mim.
Que angustiantes foram as sensações! O estômago sentiu-se como se atingido simultaneamente por um cruzado de direita e outro de esquerda, por um boxeador peso pesado. Senti-o comprimir e contorcer; fui tomado por náuseas e por pouco não vomitei. Meus sentimentos eram uma mistura indigesta de orgulho ferido, impotência, ultraje, injustiça, ira, ódio e ressentimento. Mergulhado em autocomiseração, desci às profundezas do inferno.
Os pensamentos entraram em colapso, a luz se apagou, o discernimento tirou férias, e foi imposto o toque de recolher à racionalidade. A sensibilidade e flexibilidade deram lugar ao embrutecimento enquanto a reatividade, de posse da procuração outorgada pelo orgulho e pela vaidade, portava-se inquestionável em seus direitos. Tal qual a seiva, que jorrando de um pinheiro ferido se transforma em âmbar petrificado, mumificando a vida que nele há, semelhantemente senti enrijecer meu peito e meu coração.
Talvez nenhum de meus leitores experimente tais provas de falta de expansão de consciência e de espiritualidade… Quem sabe sejam todos seres amorosos, harmonizados, banhados de luz e movidos por amor… Podem jamais ter experimentado tal descompensaçao… Podem, entretanto, ter algum amigo que já passou ou passe por esta experiência…
Brincadeiras à parte, quanto a mim, deixando-me agredir por um estrondoso silêncio, projetando meu mapa interpretativo e alucinações na pessoa que simplesmente silenciou, sucumbi ao poder da amargura. Felizmente, percebi rápido o que estava acontecendo; buscando no meu próprio silencio o apaziguamento dos conflitantes pensamentos e sentimentos, repovoando de Amor e Luz minha consciência com a ajuda da meditação orei ao meu Deus movido por gratidão e devolvi a alma o seu bem mais precioso, a Paz.
No meu livro RENASCENDO DAS CINZAS, nas primeiras páginas do capítulo dois, busco descrever os estragos oriundos da amargura. Entre outras ponderações, afirmo que a amargura é um veneno caríssimo porque é feito do nosso sangue, de nossa saúde, de nosso sono; implacavelmente ela consome quem dela se alimenta. É o câncer da alma com potencial para se converter na “alma” do câncer.
Na Bíblia, há dois textos que descrevem didaticamente a amargura. O livro de Hebreus traz a seguinte narrativa: “… Nem haja alguma raiz de amargura que brotando vos perturbe e, por meio dela, muitos sejam contaminados”. No livro de Salmos, o poeta e músico Asafe declara: “Quando o coração se me amargou, e as entranhas se me comoveram, eu estava embrutecido e ignorante, era como um irracional a tua presença.” Estas citações bíblicas deixam evidentes as perturbações psicossomáticas que possuem na amargura sua raiz.
A defesa imunológica está estreitamente vinculada ao perfil emocional. Quando a Bíblia adverte para não deixarmos o Sol se por sobre nossa ira, alertando que devemos manter um coração perdoador, e que devemos eliminar toda a raiz de amargura, o objetivo nos é por a salvo dos prejuízos que os sentimentos negativos impõem às mais variadas áreas da existência.
Encontramos, ainda, no livro de Salmos, a abençoadora recomendação: “Não fique com raiva, não fique furioso. Não se aborreça, pois isso será pior para você” e o sábio rei Salomão adverte: “controle sempre seu gênio; é tolice alimentar o ódio”.
Podemos argumentar exaustivamente que temos razões de sobra para alimentar a mágoa, o ressentimento e o ódio. É perfeitamente possível que tenhamos sido vítimas de injustiça, traição, ingratidão, rejeição, violências verbais ou físicas terríveis. Entretanto, com ou sem razão, a amargura é uma brutalidade a mais que infligimos a nós mesmos.
As raízes da amargura fecham as cortinas da alma impedindo que o Sol da Justiça ilumine e aqueça o coração. Elas obstruem as tubulações da existência, impedindo que a brisa refrescante da graça de Deus refrigere nosso interior. A amargura descolore a vida e poda as asas dos sonhos. Aprisiona-nos na areia movediça da murmuração e do ressentimento, roubando, matando e destruindo a alegria de viver. A amargura aprisiona nossos olhos no passado, deixando-nos paralisados.
Manter, de forma continuada, sentimentos de ira, ressentimentos, mágoa, enfim, manter a alma cativa pela amargura é bloquear as fontes da alegria, da paz, da vida plena e abundante.
É necessário compreender que não são as ações ou omissões sofridas, silêncio ou palavras ouvidas, ou mesmo ações praticadas contra nós, que geram amargura. Ela é produzida em nossos corações e é fruto de nossa reação, esvaziada de amor, àquilo que nos acontece.
Ao coração infectado pela amargura, o perdão é imprescindível. O perdão produz assepsia mental e emocional. Quem perdoa investe em si mesmo, faz opção pela vida. “Nós precisamos começar a amar para não adoecer”, afirmou Sigmund Freud e onde existir amor existira perdão.

Oliveira Fidelis Filho
Teólogo Espiritualista, Psicanalista Integrativo, Administrador,
Escritor e Conferencista, Compositor e Cantor.

VIA ESPIRITUALIDADE TERAPÊUTICA

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